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Peixe

Georges Romey
Le Test de L’Arche de Noé
Paris, Robert Laffont, 1977

Excertos adaptados

O mundo do silêncio

Os peixes pertencem ao mais secreto dos universos, ao mais escondido dos mundos, ao meio menos acessível ao homem, aquele que oferece mais resistência aos seus esforços de investigação.

O mundo do silêncio! As expressões conhecem o destino da sua verdade. Esta deve a sorte à autenticidade da sua inspiração: “o mundo do silêncio”, “o silêncio do mar”, são títulos que encontram correspondência na alma e, por isso, são inesquecíveis. A alma sente o mundo aquático como o mundo em que reina, ou deve reinar, o silêncio.

Vamos penetrar num mundo animado por seres cuja característica principal, para a imaginação, é serem mudos, facto mencionado por um grande número de autores. Necessitaríamos de um livro inteiro para descrever os cambiantes simbólicos representados pelos peixes. Do peixe vermelho ao tubarão, passando pela truta e pelo golfinho, encontramos um sem número de diferenças! Deveria concentrar-me em apenas alguns destes símbolos, nos mais significativos. Mas os temas gerais estão ligados ao peixe em geral, sem diferenciação de espécies.

Desde tempos remotos, quando os seres que dariam origem ao homem perderam algumas das suas características de anfíbios, que se estabeleceu uma diferença considerável nas relações do homem com a imagem do peixe. Em 2.200.000 palavras analisadas na literatura, nas obras mais diversas, fiz um levantamento de 6.236 citações de animais. Entre estas, só 91 dizem respeito aos peixes. Trata-se de uma relação muda, distante e discreta, com seres mudos, distantes e discretos.

O simbolismo do peixe é inseparável do da água. Representa a vida manifestada desta. Seria necessário falar do simbolismo das águas, símbolo da renovação universal da vida, que comporta etapas que têm, cada uma delas, um significado particular. Nascimento, realização, plenitude, dissipação e renascimento têm as suas correspondências nas imagens da fonte que brota, do riacho alegre, do rio abundante, do mar eterno, da evaporação e da chuva fecundante. À margem destas etapas, houve acidentes do ciclo que produziram as águas mortas.

Pântanos, braços de rio mortos, charcos fechados, são imagens que se opõem às da água viva, símbolo da energia psíquica que segue o seu curso. Do ponto de vista psicológico, o pântano representa o marasmo. Do ponto de vista onírico, as águas mortas, estagnadas, lamacentas, são símbolos da retenção neurótica do impulso vital.

O simbolismo do peixe conduz-nos a uma longa viagem. Ser-me-ia necessário inventariar o que, simbolicamente, pertence ao conjunto de seres que dão pelo nome de peixes. As imagens literárias, tal como os escritos dos psicanalistas, parecem indicar-nos duas direcções opostas.

Para uns, o peixe é um símbolo da vida e da sua renovação. Para outros, é o símbolo do pecado, do sentimento culpabilizador e, por extensão, do mal-estar neurótico e da morte. Uma reflexão aprofundada permite-nos aperceber-nos de uma unidade simbólica que se manifesta, por exemplo, no acto eucarístico.

Todas as grandes revelações religiosas estão marcadas pelo símbolo do peixe. É o emblema de Cristo e da Sua Igreja. Foi ao metamorfosear-se em peixe que Vishnu reconquistou os Vedas; é um peixe que revela a Moisés a personagem de Chidder; é contra o deus-peixe Miske-Nahma que Hiawatha realiza o seu combate de deus solar. Oannes-Râ sai todos os dias da água sob a forma de peixe para transmitir a sabedoria aos homens…

É curioso ver este interesse universal dos profetas por um animal que não vimos presente nos espíritos das pessoas. Se o peixe não está contido na imaginação imediata, pertence, no entanto, às zonas profundas da nossa psicologia. O desenvolvimento de alguns dos exemplos citados mostrará que se trata de um símbolo universal, profundamente enraizado em cada um de nós, e capaz de se manifestar de forma autónoma, sem qualquer iniciação prévia.

O peixe é, ao mesmo tempo, a água e os elementos que esta dissimula. É, ao mesmo tempo, a vida e o que as profundezas desta podem encobrir de perturbador. O simbolismo do peixe relaciona-se com o mergulho nas profundezas e o reencontro do sentimento de culpa. Uma vez feita esta “descida aos Infernos”, a acção purificadora da água conduz à esperança de uma inocência nova.

A literatura fornece uma quantidade de exemplos que mostram que a água é, antes de mais, a profundeza perigosa de um mundo escondido. Como não reconhecer, neste império aquático, a figura do inconsciente? O mundo onde o homem evolui habitualmente, o mundo captado pelos sentidos, feito de coisas visíveis, de expressões audíveis e de pontos de apoio sólidos simboliza a consciência lúcida e limitada. A imensidade pressentida das forças inconscientes, das quais os pontos de apoio do pensamento racional estão ausentes, exprime-se pela imagem da profundidade das águas.

O inconsciente é composto de imensas potencialidades que ainda não foram integradas na consciência, e que, para alguns, nunca o serão. Mas contém também o que a consciência rejeita, os elementos recalcados. Ora, o que é objecto de recalcamento só pode ser um elemento desagradável, que tem relação com um elemento portador de culpa.

O objectivo que o mecanismo de recalcamento persegue é a paz, o esquecimento da lembrança desagradável, a supressão do remorso. É um processo ilusório, já que a recusa do reconhecimento da falta, a tentativa de a empurrar para o inconsciente, faz aparecer uma angústia culpabilizante. Não é a falta que dá origem à angústia, mas a recusa de a aceitar. Busca-se a pacificação, a indiferença.

Os elementos-base do simbolismo do peixe encontram-se esboçados nas noções anteriores. Será que o animal exprime as forças disponíveis do inconsciente? Será, então, símbolo de vida e de renovação do impulso vital. Estas forças inconscientes são sentidas como duvidosas por uma psicologia tímida? O símbolo assume o sentido de perigo, de excesso, de dissipação. O peixe representa os conteúdos recalcados? Então é sinónimo de culpabilidade.

O peixe é símbolo de energia vital? A lenda de Chidder é perfeitamente explícita. Moisés e Josué iniciam uma viagem que dura oitenta anos. Chegados ao destino da viagem, perdem os mantimentos que tinham levado. O peixe que levavam ressuscita, escapa-se-lhes e mergulha no mar. No lugar onde desapareceu aparece Chidder, o velho eternamente jovem, que representa a sabedoria eterna. Este relato evidencia a relação entre o peixe e a renovação da energia vital. No termo da viagem, Moisés e Josué gastaram todos os recursos. O seu impulso vital junta-se ao Grande Todo, do qual surge a noção da eternidade da vida.

O velho sábio encarna esta noção. A identificação com os antepassados, diz Jung, significa uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de juventude na fonte da vida, onde nos tornamos peixes.

No decurso de um sonho acordado, Olivier segue um peixe que o conduz a uma cidade outrora submersa por “uma chuva que durou dias e dias”. À parte outros elementos interessantes deste sonho, que utilizarei adiante, o peixe conduz Olivier até uma antiga nascente, na qual vivia quando a cidade não estava submersa, nascente essa que é guardada por inúmeros peixes. Aqui o peixe conduz o sonhador para lá de um dilúvio que, como todos os dilúvios, tem por objectivo apagar uma culpa na fonte primordial, na origem da própria vida.

A aventura de Jonas é a representação mais conhecida do perigo de ser engolido pelas forças inconscientes, e fala do apelo ao combate heróico, ou seja, ao confronto com as pulsões inconscientes, que deixarão de ser perigosas quando forem identificadas.

O tema da absorção pelo peixe devorador existe em muitos relatos. Nos mitos e nos sonhos de absorção protagonizada por um peixe, o herói passa frequentemente por um período de obscuridade total, que devemos interpretar como um mergulho corajoso no desconhecido, para encontrar uma luz ou uma fogueira, que o ajudam a escapar ao monstro. O mergulho na profundeza aquática faz aparecer a cor verde.

Resta ver o peixe como símbolo de culpa. Os conteúdos recalcados são noções desagradáveis, recordações que trazem sofrimentos ou remorsos, e que a consciência recusa. A literatura, tal como os sonhos nocturnos, contém numerosas imagens nas quais os peixes estão explicitamente ligados aos remorsos, às recordações e aos pensamentos recalcados.

Diante de cada situação mítica, os autores que abordam o simbolismo do peixe esforçam- se por identificar uma espécie particular, apoiando-se em argumentos frequentemente fracos. No entanto, a maior parte dos relatos evita cuidadosamente afastar-se do termo genérico e falar de um peixe em particular. O símbolo mítico nunca é preciso. O peixe sob cuja forma Vishnu reconquistou os Vedas também não tem uma forma precisa…

A própria Bíblia não diz que peixe engoliu Jonas! O Eterno fez vir um peixe para engolir Jonas… Não há nenhum indício da baleia no relato bíblico. Em Psicologia e Alquimia, Jung reproduz quatro desenhos do século XV e o motivo de uma lâmpada datada dos primórdios do Cristianismo. Estas cinco ilustrações mostram Jonas no momento em que o peixe o engole. Este desenho é muito preciso e nenhum deles faz minimamente pensar numa baleia.

Podíamos ver tubarões, lúcios, golfinhos, douradas, ou um qualquer outro peixe. Um deles, aliás, parece mais um dragão do que um peixe. Nos sonhos acordados, também é frequente que o peixe não seja especificado, a não ser que o analista o requeira. A resposta é quase sempre formulada assim: “É uma espécie de tainha, de truta…” O peixe imaginado espontaneamente pelo sonhador não pertence a uma espécie precisa. Esta constatação é importante para provar que o essencial do simbolismo do peixe é comum a todas as espécies.

A imaginação de todos os homens contém uma noção capital: a da ressurreição para a vida eterna. A atitude adoptada pelo intelecto face a esta noção é de recusa ou aceitação, mas isto não é o mais importante. O mais importante é a universalidade deste conceito e a constância com a qual ele é associado ao peixe.

Moisés, no fim da sua vida, acede à vida eterna quando o seu peixe, ressuscitado, regressa ao mar. Numa pequena casa em Jerusalém, alguns dias depois de morrer, Cristo aparece aos seus discípulos e mostra-lhes as mãos e os pés atravessados pelos pregos. Diante dos discípulos estupefactos, pede um alimento que possa ser partilhado. O Ressuscitado tem fome. Dão-Lhe um peixe, o Seu emblema.

Alguns dias mais tarde, aparece a Simão Pedro e a vários outros discípulos, que tentaram pescar, sem sucesso. Cristo indica-lhes o lugar onde devem lançar as redes e pescam abundantemente. S. João insiste que Simão Pedro era filho de Jonas. O peixe era um alimento sagrado em inúmeros países, muito antes da vinda de Jesus. S. Lucas associa claramente a ideia da ressurreição e a de um festim à base de peixe. O peixe, como o pão, participa da eucaristia.
Georges, quando tem um sonho acordado, não tem ideia da lenda de Chidder nem da cena de Cristo. Eis o que imaginou:

Estou numa grande sala, num castelo medieval…a atmosfera é grave…tudo está silencioso…um velho senhor está junto de mim…não há luz mas uma luminosidade desconhecida torna os objectos perceptíveis…abre-se uma porta…ao fundo…em silêncio…entram dois criados a passo ritmado…devagar…transportam uma grande travessa de prata…a atmosfera é solene…sobre a bandeja está um peixe cozinhado, já trinchado…pego nele e ponho-o num recipiente com água…ressuscita imediatamente…no lugar do recipiente há uma fonte…o peixe nada…

Este fragmento é extraído de uma sessão de psicoterapia. O que Georges encontrou através do tratamento foi a sua vitalidade.

Claudine segue um peixe que a conduz por galerias subterrâneas:

…sala mais larga, uma mulher está sentada num trono…a luz provém dos véus dela…continuo o meu caminho…chego ao fim das galerias: está lá um velho cujo corpo é metade peixe…

Vemos que o tema do desaparecimento numa caverna obscura, no ventre de um peixe, numa sala de um castelo, subterrânea ou submarina, é constante, tal como o da luz sem proveniência conhecida, símbolo da iluminação interior do iniciado guiado pelo velho pescador ou pelo homem semi-peixe.

O peixe é um símbolo do guia. É salvador. O pescador é aquele que captura o que está escondido sob as águas, seja o tesouro dos valores inconscientes, sejam os sentimentos de culpa que traz à luz da consciência, com o esforço da lucidez.

Antes do Cristianismo havia muitos cultos do peixe. O peixe parece ter tido sempre um carácter sagrado. O consumo de peixe era objecto de rituais que se exprimiam, quer por interdições, quer pela sua ingestão solene. Aquele que come o peixe alimenta-se dos valores inconscientes ou do reconhecimento da sua falta. Seja como for, fortifica-se.

É neste sentido que o festim do peixe realiza a unidade simbólica, uma vez que, frequentemente, o peixe é sinónimo de energia vital, que conduz ao peixe devorador, que contém o peixe-culpa… No sonho de Olivier, o aspecto do peixe como elemento salvador é evidente. O peixe conduz Olivier através da cidade submersa até ao sopé de uma cruz enorme que emerge muito longe, por cima deles.

Sobre o solo podem ver-se traços dos pés de todos os que tentaram salvar-se da água subindo para a cruz… mas nunca ninguém se salvou por este caminho. O peixe salvará Olivier ao mostrar-lhe um outro caminho. Estes sonhos acordados experimentais são demasiado fragmentados para poderem constituir uma base de análise da psicologia do sujeito. Mas podemos constatar a associação espontânea dos termos: peixe, salvação, cruz.

Os sonhos acordados fornecem numerosas ocasiões para constatar a associação peixe- guia. François atravessa emaranhados de algas…com dificuldade…agora está muito luminoso…luminosidade branca…como as suas escamas…pergunto-lhe quem é: um servidor como os outros peixes, um criado humilde que guia os meus passos. Olivier produz imagens parecidas: Pergunto-lhe de onde vem…está lá desde sempre…guarda a cidade…é o seu guarda…impede as pessoas de vir, excepto os que escolhe…a esses dá mais informações…. É o tema dos “eleitos” que está patente nos jovens, através desta percepção do peixe-guia iniciático.

Claudine, depois de ter sido guiada em direcção à rainha de véus luminosos e para junto do velho-peixe, pergunta ao seu peixe-guia quem é: Sou um dos numerosos servidores da rainha. A luz interior está reservada a almas predestinadas? A regularidade com a qual todos os sujeitos submetidos a este tipo de experiência encontram as mesmas imagens e as mesmas palavras levar-nos-ia a pensar que se trata de características universais alargadas.

A superfície da água é uma fronteira entre dois mundos: o universo manifestado e o mundo interior, o visível e o desconhecido, a consciência e o inconsciente…Esta noção de fronteira conduz à associação com a pele, separação natural entre o interno e o externo. Daí as numerosas ligações literárias entre as duas imagens. Paul Fort fala da pele dos pântanos. Paul Éluard escreveu:

A água, qual pele
que ninguém pode ferir
é acariciada
pelo homem e pelo peixe.

Esta pele que ninguém pode ferir é a fronteira que ninguém pode atravessar sem o auxílio do peixe-guia, do impulso vital autêntico, da lucidez que conduzirá aos tesouros do inconsciente, evitando os perigos da dispersão esquizofrénica.

Jung escreve: Todos aqueles que passam por esta experiência, que sabem que o tesouro repousa na profundeza das águas e que irão tentar extrai-lo de lá… nunca devem, sob preço algum, esquecer quem são, perder a sua consciência…

Tendo explorado a interpretação do peixe, compreenderemos melhor por que razão o pássaro do mar, emanação simbólica da água, provoca imagens próximas daquelas que estão associadas ao peixe e que são marcadas pelo sentido da religiosidade.

 
 
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