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A velha

26 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

A velha

O mito grego atribui à velha das Parcas a missão de cortar o fio da vida quando soa a hora inscrita no Livro do Destino. As três irmãs são frequentemente representadas como velhas com um ar severo. Atropos, a mais velha, aquela que não pode ser evitada, veste roupas negras e lúgubres. Personifica a morte. Quando produz a imagem da velha, o sonho associa-se ao mito.

A determinação do imaginário em confiar ao velho a representação da sabedoria, de uma experiência que ultrapassa os dados adquiridos de uma vida individual, e em confiar à velha os limites da idade e da morte, encontrará a sua confirmação na análise das correlações observadas em redor da segunda personagem.

A velha surge com a mesma frequência no onirismo masculino e nos cenários produzidos pelas sonhadoras. A cadeia de associações em que se inscreve o símbolo compreende quatro elos, que tanto vão buscar a sua substância ao imaginário dos homens como ao das mulheres: a morte, a rigidez, a multidão, as roupas negras. A rigidez exprime-se nos sonhos femininos pela estátua e nos cenários masculinos pela armadura.

Outras quatro associações repartem-se segundo uma divisão bastante reveladora. Na proximidade da velha, as sonhadoras evocam as imagens do bébé e da menina. Nas mesmas circunstâncias, os sonhadores fazem referência ao templo e ao campo de trigo. É possível deduzir daí que o imaginário feminino coloca a velha numa escala de avaliação do curso da vida.

O bébé, a menina, a velha e a morte! Esta escala poderia bem servir para medir a angústia do ego confrontado com o carácter inelutável da degradação da aparência física. O onirismo masculino, que conjuga a velha com o tempo religioso, de que são testemunhas a presença do templo, dos monges e do campo de trigo, manifesta antes uma angústia de natureza metafísica.

Para ambos, a velha, vestida de negro, com ares de feiticeira, prefiguração da morte, despoleta o terror perante o mistério do destino. A psicologia feminina, mais realista do que o que se possa pensar, mais impregnada dos valores da terra, receia sobretudo as marcas visíveis da idade. O imaginário masculino, mais comprometido no caminho especulativo, dá à sua inquietação a dimensão do universal.

A testemunha que se põe à escuta dos sonhos acolherá numerosas imagens da velha que se agruparão num ou noutro de três grupos, em geral fáceis de distinguir. O primeiro agrupa todas as evocações da avó, quer elas se relacionem ou não com os ascendentes da sonhadora ou do sonhador.

Quanto às outras imagens da velha, observaremos que 15% delas colocam o símbolo numa função de representação da sabedoria, de um conhecimento que ultrapassa as aquisições da consciência. A velha é então a réplica feminina do arquétipo do velho sábio.

Esta representação feminizada do velho sábio deve dirigir a atenção para uma possível indeterminação do sonhador ou sonhadora no que diz respeito à tonalidade determinante, animus ou anima, que se imprime nos seus comportamentos habituais.

Em todas as outras situações, ou seja em 85% dos cenários onde aparece, a velha é portadora do significado da velhice e da morte. Vestida de negro, mostrando uma cara de feiticeira desdentada, ela recorda, de uma maneira impressionante, a evolução inexorável que promete ao botão de rosa, depressa desaparecido, o destino da flor murcha. A velha, na dinâmica do sonho acordado, é então uma das figuras reveladoras da angústia metafísica

 

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