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O pastor

08 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

O pastor

O pastor é uma das aparências mais frequentemente adoptadas pelo arquétipo do velho sábio. Mas se é verdade que o sábio se presta melhor à personificação simbolizada pelo velho, também não deixa de ser verdade que o imaginário pode confiar tal desempenho a rapazes bem jovens.

O cenário onírico no qual o pastor evolui pode ser facilmente esboçado. Trata-se, quase sempre, de uma paisagem de montanha, com uma vegetação diminuta, um solo árido e pedregoso, um terreno sem caminho traçado onde pasta um rebanho. E, na verdade, o pastor do sonho só assume o seu pleno sentido no seio da trilogia que ele forma com os carneiros e com o seu cajado.

Aliás, todo o poder desta figura onírica pode exprimir-se numa única palavra: simplicidade. O seu reino está fora do alcance de quaisquer argumentos, da razão e dos escolhos de um pensamento causal. O seu território é um caminho imprevisto, sem fronteiras.

Imóvel como a eternidade, a sua presença ajuda aquele ou aquela que se sente perdido(a) nas armadilhas da aparência, perdido(a) nas suas aspirações a uma posse inútil e competitiva. Por isso a marcha do pastor é lenta, assim como o são os seus gestos. Conhece tudo do céu e do mundo. Sabe tanto que nada diz. Qual seria o peso de uma palavra de sabedoria no oceano das vãs palavras de um pensamento que tenta sempre justificar-se?

Como os seus carneiros, o pastor percorre novas sendas, e, como o seu cajado, une o céu e a terra. Por isso, simboliza o retorno aos valores simples, a disponibilidade de uma psique que ultrapassou os limites de uma emulação competitiva para poder assim renunciar a toda a vaidade comparativa.

O caminho da felicidade é, então, o caminho da simplicidade. Os carneiros, a terra árida, a montanha, a lentidão, surgem em cerca de 70% dos cenários examinados; a corrida, a competição, a cor vermelha (afirmação da avidez temporal) intervêm em cerca de 40% das mesmas produções oníricas.

O pastor nada tem, portanto, que possa fazer lembrar as riquezas terrenas. Vai buscar a sua força ao conhecimento do essencial. O pastor do sonho vive na montanha, onde se sente próximo do céu. Na maior parte das vezes, conserva os olhos levantados para o alto, para o cume, num transporte que convida à elevação do espírito.

E quantas vezes, banhado pela luz das estrelas, o pastor deixa que o rebanho o conduza para fora dos caminhos dos homens. Por isso o pastor propõe, a uma psicologia que se consome nos caminhos da aparência, a via da autenticidade.

 

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