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Como surgiu o espírito nas imagens

02 Nov

Georges Romey
Excertos adaptados

Anterior: As imagens, palavras vindas do início dos tempos

Como surgiu o espírito nas imagens

A formação do símbolo

Quem se aproximar do universo misterioso dos símbolos sente-se irresistivelmente levado a colocar uma pergunta dominante: “O que quer isto dizer?” Pergunta natural, legítima, mas que invade o nosso pensamento e faz com que a pergunta fundamental (“O que faz isso?”) seja eclipsada.

O desejo de atribuir a cada imagem um sentido estável, estabilidade essa que ajudaria à pertinência da interpretação, opõe-se ao reconhecimento da natureza essencialmente activa do símbolo. A força da imagem-símbolo resulta do facto de ela intervir sempre como um agente dinâmico e de se tratar de uma expressão instantânea, coincidindo com uma necessidade bem precisa da evolução.

Um signo não tem vida própria. É apenas um ecrã, um suporte, um revelador que se oferece às nossas projecções logo que pode desempenhar um papel condutor na dinâmica psicológica. Antes deste instante, e depois dele, o símbolo é uma lâmpada apagada, um signo morto.

Não existem símbolos que tenham uma existência isolada e estável. Há apenas imagens que se integram em cadeias simbólicas, redes de representações compostas por elementos associados segundo as leis de sinonímia, de forma, de agregados culturais ou circunstanciais, e mesmo de uma simples proximidade de registo nos neurónios!

Estas cadeias, estes canais interpenetram-se, entrecruzam-se numa complexidade aparentemente indecifrável. No entanto, uma observação atenta de dados suficientemente numerosos permitiu-nos extrair algumas das lógicas às quais obedece a formação dessas cadeias. Estes fenómenos respondem a leis idênticas àquelas que regem o funcionamento neuronal sobre o qual repousam.

É raro poder reduzir uma imagem a um significado único. O que acontece com maior frequência é que as suas características dêem lugar a projecções múltiplas. Neste caso, é a cadeia de símbolos na qual a imagem se insere que determina o sentido dominante. Este tema será desenvolvido mais adiante, através de ilustrações exemplificativas. Uma imagem pode ser o elo de 3,4 ou 5 cadeias de representações diferentes.

O mental é o produto de uma confrontação multimilenar com as imagens. Imbuído das suas faculdades lógicas, ele quer ignorar as origens que desdenha. No entanto, quando o mental aceita que se arrogou o direito de reprimir os sentimentos, dá acesso às camadas mais longínquas das memórias ontogenética e filogenética.

Este retorno à imagem dá conta da eficácia quase mágica de uma técnica que confia ao símbolo o essencial da missão terapêutica e da abertura psicológica. Sob a aparência de um caminho humilde de imagens que parece ser, por vezes, de uma fantasia incoerente, dissimula-se uma via prodigiosa que conduz ao bem-estar.

A análise das correlações observadas entre os símbolos expressos nos sonhos oferece numerosas oportunidades de salientar a natureza das associações que existem entre as imagens, por um lado, e entre as imagens e a estrutura mental, por outro. Vários exemplos estabelecerão o papel da forma na génese de uma associação entre vários símbolos.

O estudo da bicicleta, cuja frequência no sonho acordado livre ultrapassa os 4%, mostra que esta imagem está no centro de uma rede de 33 correlações. Duas delas dominam nitidamente as outras. São os óculos e a coruja. Se nos deixarmos guiar por uma lógica normal, estas aproximações surpreendem-nos.

No entanto, para além de uma semelhança de sonoridade entre as três palavras [Em francês, as palavras são bicyclette, lunettes e chouette, respectivamente para bicicleta, óculos e coruja. (N.T.)] , o que não chega para detectar a correlação constatada, as três imagens estão ligadas por uma identidade de forma. A fim de a vermos, basta desenhar três pares de círculos:

arquetipos-1.jpg

A partir desta figura tripla, alguns traços secundários vão suscitar a evocação dos três símbolos:

arquetipos-2.jpg

Muitas correlações, reveladas pelos resultados da análise estatística, entre símbolos que nada parecia relacionar, repousam assim sobre uma ou mais características morfológicas comuns.

As cadeias de associações simbólicas não são produtos aleatórios de uma activação neuronal liberta dos constrangimentos racionais em situação de sonho acordado. Traduzem os mecanismos de funcionamento do imaginário e preenchem funções precisas.

A observação tão frequente de encadeamentos simbólicos nos sonhos autoriza-nos a fazer uma primeira afirmação relativa às regras gramaticais da língua dos símbolos: na expressão simbólica, o pleonasmo e a redundância não são impurezas linguísticas.

Do ponto de vista funcional, revelam caminhos convergentes de estímulos neuronais cuja soma permite atingir o limite de intensidade necessária para originar uma transformação. Do ponto de vista analítico, a sua constatação é uma das bases mais seguras da determinação do sentido de um símbolo.

Quando uma imagem, devido às suas características múltiplas, é susceptível de se prestar a várias projecções potenciais, é a cadeia na qual a imagem está inserida que indica a projecção activa no sonho em questão. Três sonhos, produzidos por três sonhadores diferentes, Hervé, Paul e Jacqueline, colocam o mesmo símbolo, o guarda-chuva, em três cadeias que determinam, todas elas, um sentido diferente para a imagem.

Hervé desce a uma gruta subterrânea, esgravata o pó que cobre o solo e descobre uma espécie de escudo medieval em metal. A imagem transforma-se e o escudo, agora em couro espesso, alonga-se e torna-se a pele rígida de um animal, cuja forma Hervé descreve com precisão.

Alguns minutos mais tarde, o sonhador, tendo abandonado o subterrâneo, sobe ao céu e voa como um pássaro. Imobiliza-se sobre uma pessoa que tem o guarda-chuva aberto. O sonhador insiste na imagem que oferece um guarda-chuva quando visto do céu. Em seguida, a imaginação conduz Hervé até um barco cuja barra do leme lhe lembra aquela forma. No final do sonho, o paciente admira-se com a curva formada por uma vela sustida por um mastro muito curto, o que forma uma retranca de tamanho desproporcionado.

Estas imagens encontram-se dispersas num sonho de 35 minutos e 500 palavras, e poderiam ser vistas como símbolos independentes uns dos outros. Seria estranho tentar traduzir cada um destes símbolos em relação à sequência na qual se inserem. No entanto, esta é a tentação do analista quando escuta um sonho. Poder-se-ão evitar alguns impasses se sobrevoarmos as imagens e virmos as suas semelhanças:

arquetipos-3.jpg

Hervé tem 43 anos e produziu este sonho numa fase da sua cura na qual há uma busca de equilíbrio entre uma componente feminina forte e pulsões viris culpabilizadas. O que se exprime através destas cinco imagens é a relação entre a curva e a ponta, os valores da anima e do animus. O guarda-chuva visto do céu é apenas uma das ilustrações inspiradas por esta relação.

Paul vê, no início do seu sonho, um automóvel descapotável “dos anos 20” e descreve-o minuciosamente. Um pouco mais tarde, cruza-se com um transeunte que leva um guarda-chuva preto aberto, sem que esteja a chover. Paul descreve seguidamente a forma de uma folha morta que plana no vento. No fim do sonho, vê um “morcego enorme.”

Nesta série de imagens, o guarda-chuva tem um sentido diferente daquele que tem no sonho de Hervé:

arquetipos-4.jpg

As imagens de Paul têm em comum três elementos específicos. Por um lado, apresentam uma estrutura que se estende sobre uma armação: nervuras ou varetas. Por outro lado, esta estrutura desenvolve-se a partir de um ponto central e todas as suas partes podem ser vistas ao contrário. Em repouso, o morcego fica com a cabeça para baixo, suspenso pelas patas; o guarda- chuva fechado fica na posição inversa àquela em que se encontra quando está a ser utilizado. A folha está unida à árvore pelo pecíolo e a capota do carro dobra-se ou desdobra-se a partir de um eixo de ligação à viatura.

As imagens de Paul exprimem uma fase determinante na evolução psicológica: aquela em que o paciente já está disponível para vivenciar a reabilitação dos opostos recalcados. Esta disponibilidade, condição indispensável para a realização do processo de individuação junguiano, manifesta-se frequentemente por símbolos que podem ser vistos de forma inversa.

Por fim, temos o sonho de Jacqueline que apresenta uma série de imagens ainda mais importantes. Entre elas, figura um guarda-chuva com barras multicolores. A sonhadora vê, pela ordem seguinte: uma palmeira, um pára-quedas, um guarda-chuva multicolor, um fogo de artifício, um jacto de água iluminado por um projector que refracta a luz, e um cogumelo.

Esta interpretação de formas que se desdobram a partir de um centro em todas as direcções do espaço, exprime a dissolução de um factor inibitório muito importante. O influxo nervoso acede repentinamente a zonas múltiplas da rede neurónica, provocando uma sensação de liberdade infinita.

Esta interpretação encontra a sua confirmação na multicoloração do guarda chuva, do jacto de água e do fogo de artifício. A profusão colorida no sonho é um dos indícios da reanimação psicológica: o guarda-chuva colorido de Jacqueline, inscrito nesta cadeia de imagens, alberga o sentido de uma libertação, de uma abertura psíquica.

Este exemplo do guarda-chuva, que aparece em três linhas simbólicas distintas, ilustra bem o papel determinante da importância da cadeia na tradução de um símbolo.

A estrutura do imaginário e da memória está organizada numa vasta rede que podemos comparar a um entrosamento de malhas cruzadas que vão em todas as direcções do espaço. Cada malha está ligada a uma quantidade variável de outras malhas. As ligações entre as malhas – os neurónios – fisicamente afastadas umas das outras, estabelecem-se ora de forma definitiva, ora conforme as necessidades. Fazem-no a uma velocidade vertiginosa e segundo disposições de uma subtileza espantosa.

Estas ligações podem estar inscritas na herança neuronal desde há milénios; podem ter-se estabelecido no decurso dos primeiros meses da infância ou podem ser o produto instantâneo do encaminhamento do fluxo nervoso ao longo do sonho. É este desdém biológico em relação ao tempo que choca a inteligência racional quando esta se confronta com o texto de um sonho.

Este não se situa no tempo contável. O seu espaço é o da eternidade. Quem já experimentou estas sessões de sonho acordado sabe até que ponto a noção de tempo se vai dissipando ao longo do sonho. No fim do sonho, o paciente não sabe se falou durante 15, 20 ou 40 minutos.

O enfraquecimento da vigilância racional durante a sessão não gera incoerência. É antes condição de uma dinâmica de harmonização de todo o ser, da dissolução de tensões que existem a nível de certas malhas da rede. O esforço intelectual para dominar a causa do mal-estar psicológico parece irrisório quando aprendemos que a harmonia só pode ser atingida quando abandonamos a ditadura do que chamamos, impropriamente, de racionalidade.

Esta confunde-se com o reconhecido, rejeitando para o irracional todas as formas de vida que a consciência se sente inapta a gerir! Este erro de perspectiva está na origem da maior parte dos desconfortos psicológicos.

 

Segue: O reconhecimento dos símbolos

 

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2 responses to “Como surgiu o espírito nas imagens

  1. mara

    2007 at 12:56 am

    gostei muito quero saber mas.

     
  2. Maria Rodrigues da Silva

    2008 at 1:55 am

    cada leitura me deixa mais encantada, adorei.

     

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