Uma viagem tranquila – Os sonhos e o simbolismo da passagem

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Eu tinha um medo de morte da morte. Creio que todos temos medo da morte de uma maneira ou de outra, mas eu evitava pensar nela a todo o custo. Quando a minha companheira decidiu que queria um cão, adorei a ideia. Contudo, como sabia que o cão haveria um dia de morrer, resisti ao desejo dela o mais que pude. Acabámos com dois cães. No dia em que o primeiro deles morreu, eu estava a milhares de quilómetros de distância, algo que muito me aliviou. Senti-me como se tivesse evitado uma bala. Quando a minha avó morreu, chorei dias a fio e decidi não assistir ao funeral. Era uma situação com a qual não poderia lidar.

Embora fosse profundamente cobarde em relação à morte, a verdade é que sou um analista de sonhos. Ou seja, exploro as incursões noturnas das pessoas no reino do inconsciente. Trabalho sobre sonhos noturnos, oriento oficinas em conferências internacionais, recebo clientes individuais, faço alguns programas de rádio sobre sonhos e dou palestras sobre o assunto. Quando se trata de falar da morte em contexto onírico, sou uma pessoa extremamente aberta e entusiasta. A morte aparece com frequência nos sonhos e, no meu léxico particular, tem sobretudo a ver com transformação. Os sonhos usam uma linguagem simbólica e, nessa linguagem, a morte pode indicar mudanças de vida, por vezes radicais.

A ideia de que a nossa morte num sonho corresponde a uma morte real iminente é sobejamente conhecida. Já morri vezes sem conta nos meus sonhos e isso não me impediu de lidar bem com a morte. Em sonhos. No mundo real, contudo, foi sempre uma realidade de que tentei fugir. Ficava apático, distraído, brincava com o assunto e inventava desculpas sempre que alguém queria falar da morte.

E esse foi o meu mundo até ter dois sonhos que mudaram, para sempre, a minha maneira de encarar a morte.

*

No primeiro sonho, a tarde está quente e eu conduzo pela autoestrada. Saio na portagem que me corresponde, mas o semáforo fica vermelho e eu vejo-me em primeiro lugar para arrancar mal ele vire verde. Fico à espera, embora sinta que algo não bate certo. Quando o semáforo fica verde, não consigo arrancar, porque o pedal não reage à pressão do meu pé. Os condutores atrás de mim começam a buzinar. Hesito ainda por segundos, mas pressiono o pedal e lanço-me de novo à estrada. Mal o faço, vejo um camião a vir na minha direção. Buzina fortemente, mas evita a colisão por uma fração de milímetros. Em voz alta digo:

— Ó meu Deus, se eu não tivesse hesitado, teria sido completamente cilindrado.

Depois de acordar, nunca mais pensei no sonho. Como passamos imenso tempo a conduzir em autoestradas em Los Angeles, era normal que sonhasse com elas.

Dois meses mais tarde, estava eu a conduzir nessa autoestrada e deparei-me com a mesma situação do sonho.

“Isto faz-me lembrar o sonho que tive,” pensei. Mas, apesar de a situação se afigurar estranha, senti que já tinha ali passado tantas vezes que de certeza não haveria perigo. Contudo, o sentimento de apreensão não me largava. O semáforo ficou verde e avancei, para logo parar de seguida. Os condutores atrás de mim buzinaram. Quando carreguei no acelerador, surgiu um camião como o do sonho que só não me abalroou por milímetros. O meu coração disparou e dei por mim a gritar “Ó, meu Deus!” vezes sem conta.

Quando retomei a autoestrada, o meu braço esquerdo começou a tremer tão incontrolavelmente que me vi forçado a aparcar num local apropriado. Então, comecei a falar com o meu corpo como faço quando trabalho sobre sonhos.

— O que se passa contigo? Já estivemos a ponto de morrer antes e tu apenas encolheste os ombros e prosseguiste. O que há de diferente agora?

Foi aí que o meu corpo se foi abaixo e comecei, literalmente, a chorar. Chorei durante vinte minutos.

Depois, compreendi o que tinha passado. O sonho salvara-me a vida. Se não o tivesse tido, estaria morto. Mas por que razão chorava eu? Fui gradualmente percebendo que a minha reação tinha a ver com a diferença entre a morte onírica e a morte real. A forma fácil e confortável com que tinha lidado com a morte no sonho ganhara vida real e atingira-me em cheio na face. Se a morte em sonhos significava transformação, a morte na vida real tinha também o mesmo significado. Foi um momento de autêntica epifania e percebi que tinha de usar aquela experiência para me ajudar a lidar com o meu profundo medo da morte.

Depois deste episódio, comecei a ler textos e livros sobre a morte. Contudo, o mais importante é que, quando se falava da morte à minha volta, eu voltava-me para ela em vez de me desviar dela. Por outras palavras, deixava que ela fizesse parte da minha vida.

*

Foi então que o segundo sonho aconteceu.

Neste sonho, estou num seminário com o Dalai Lama e participo num debate aceso com grandes mentes e muito humor. Encontramo-nos na sua sala, que é redonda, e tem uma atmosfera tibetana. Quando o seminário termina, adormeço de pé junto da porta enquanto espero que o grupo parta. É então que tenho um sonho dentro do sonho. Quando desperto, pergunto ao Dalai Lama se lho posso contar, ao que ele responde:

— Claro que sim. Vem connosco até ao templo e contas-nos o teu sonho lá.

O sonho dentro do sonho é sobre o meu futuro. Vai ser maravilhoso ter a resposta sobre o propósito da minha vida!

Contudo, deparo-me com uma imagem estranhíssima. No fim do caminho que leva às montanhas elevadas, está estacionado um veículo enorme, semelhante a um pião que tive na minha adolescência. Este é enorme e tem foguetes dos lados. É preto, vermelho e acobreado, e tem borlas e filigranas de lado, além de inscrições douradas em tibetano. O Dalai Lama e o resto do grupo sobem a bordo dele e o veículo começa a girar à medida que vai disparando os foguetes em todas as direções. Enquanto gira, ouvem-se trombetas e címbalos tibetanos. Fico de olhos esbugalhados a vê-lo subir a montanha a caminho do templo.

Dirijo-me para lá também. Contudo, há algo que tenho de fazer antes. Tenho de ajudar uma mulher a carregar um carro. Mais precisamente uma carrinha semelhante à que a minha família usava nas férias de verão.  A mulher é simultaneamente adulta e criança, uma criança vestida como o Dalai Lama, com roupas e um chapéu de orelhas de lã às riscas.

A criança/mulher tem muita fome e precisa de comer antes de ir para o templo. Coloca-se na fila de uma rulote que vende tacos e, enquanto espera pela sua vez, enlaço-a e dançamos juntos, divertidos e sorridentes.

Vejo o veículo regressar, negro e queimado pelas chamas. Vem vazio e pronto para encetar uma nova viagem. Já é tarde e fico triste porque penso que perdi a cerimónia no templo.

Enquanto reflito sobre isto, tenho uma revelação que altera a minha disposição por completo. O meu corpo relaxa e digo para mim mesmo:

— O Dalai Lama quer ouvir o meu sonho e vai esperar pacientemente por mim no templo. Não há pressa. Tenho a certeza de que o meu sonho será ouvido.

De repente, dou-me conta de que há um outro local para onde o Dalai Lama e o grupo têm de se dirigir. Saem do templo e caminham em direção ao lugar da morte, que em nada se assemelha à morte como a concebo. Não existe ali lugar para o medo nem para a apreensão. “Eis a minha resposta. A morte não é de todo como a imaginamos. É uma viagem tranquila em direção ao desconhecido, em direção a um outro templo. A morte é tão somente um outro lugar.”

*

Acordei e registei este sonho. Quando cheguei à parte de a morte ser apenas um outro lugar, senti uma espécie de iluminação que me tem acompanhado desde então. Não é fácil explicá-lo. Contudo, se já teve uma experiência deste tipo, saberá que a alma pode passar imenso tempo à procura de uma resposta, e que essa resposta pode atingir-nos de repente, como um camião. Desde então, aprendi a conviver com a morte e sinto-me em paz.

Quando o segundo cão morreu, segurei nele com delicadeza enquanto lhe administravam os medicamentos que o conduziriam a uma outra vida. Completamente sintonizado com o que se estava a passar, vi o seu pequeno espírito sair do corpo e do quarto.  Sei agora que o meu também partirá um dia. A morte é apenas um outro lugar, uma viagem tranquila em direção ao desconhecido.

Walter Berry
(Tradução e adaptação)

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