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A Queda

02 Nov

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
&
Carol Pearson
Awakening the Heroes Within
New York, Harper Collins, 1991
Excertos adaptados

Anterior: Do Inocente ao Órfão

A Queda

Muitas culturas possuem mitos que falam de uma era dourada, que entretanto desapareceu por culpa humana. A partir deste mito, surge a convicção de que é possível à humanidade reentrar no Paraíso, mas somente através do sofrimento e do sacrifício.

O mito da Queda possui elementos arquetípicos evidentes, pois não só existem versões deste mito na maioria das culturas e religiões, como, na nossa cultura, até mesmo os não praticantes do judaísmo ou do cristianismo experimentam algo de semelhante à Queda nas suas vidas. Para muitos, o mito surge sob a forma de uma desilusão com os pais. Os pais deveriam ser como a “árvore dadivosa”.

Se isso não ocorre, os filhos sentem-se ludibriados, como se o mundo não fosse como deveria ser. Os pais podem ter sido óptimos quando os filhos eram pequenos, mas estes acabam por descobrir que os seus pais não são perfeitos. De repente, aquelas pessoas que deveriam cuidar deles deixam de ser dignas de confiança.

A Queda assume também a forma de desilusão política, religiosa ou pessoal. Os Inocentes tornam-se Órfãos quando pensam que Deus está morto ou os abandonou, que o governo nem sempre é bom, que as leis nem sempre são justas, e que os tribunais não os protegem. Os homens tradicionalistas podem experimentar uma profunda desilusão ao descobrir que as mulheres têm desejos sexuais e ambições profissionais próprias.

As mulheres podem ficar igualmente desapontadas ao descobrir que os homens, para além de as não protegerem, promovem a opressão feminina e beneficiam dela. A desilusão surge quando percebemos que nem sempre – ou talvez nunca – o mundo é como nos ensinaram que deveria ser. Para alguns, talvez demasiados, a desilusão acontece ao descobrirem que a vida real não é como a vida retratada pela televisão.

O Órfão é um idealista desiludido, e quanto maiores os seus ideais acerca do mundo, pior lhe parece a realidade. O mundo é perigoso: vilões e ciladas estão por toda parte. As pessoas sentem-se como donzelas em perigo, obrigadas a enfrentar um ambiente hostil, sem poder nem capacidade adequados para lidar com ele. O mundo assemelha-se a um lugar onde as pessoas ou são vítimas ou são carrascos. Até mesmo o comportamento do vilão pode ser justificado pelo Órfão como um comportamento realista, já que se deve “fazer aos outros, antes que eles o façam a nós”. A emoção dominante nessa visão do mundo é o medo, e a sua motivação básica é a sobrevivência.

Esse estádio é tão doloroso que, frequentemente, as pessoas recorrem a válvulas de escape, servindo-se de “narcóticos” diversos: drogas, álcool, trabalho, consumismo, comportamentos sexuais aviltantes. Ou então podem utilizar os relacionamentos, o trabalho e/ou a religião, como forma de amortecer a dor e obter uma falsa sensação de segurança.

Ironicamente, esses vícios têm o efeito colateral de aumentar a nossa sensação de impotência, a nossa negatividade e, até mesmo, no caso das drogas e do álcool, favorecer a desconfiança e a paranóia.

Essas válvulas de escape são defendidas por aqueles que a elas recorrem como as únicas estratégias razoáveis para se suportar a condição humana: “Claro que bebo/Claro que tomo alguns comprimidos. A vida é dura. De que outra maneira conseguiria aguentar?” Estas pessoas não consideram que seja muito realista esperar mais da vida. Podem também queixar-se de que o trabalho é enfadonho. “Detesto o meu trabalho, mas tenho de alimentar as crianças. É assim a vida.”

Nos relacionamentos amorosos, uma mulher parte simplesmente do princípio de que os homens “não são correctos” e pode continuar numa relação onde é emocional, ou até mesmo fisicamente maltratada, porque “Ele é melhor do que a maioria dos homens.” Um homem pode reclamar que a esposa o enerva, mas encolhe os ombros e diz: “As mulheres são assim mesmo.”

A história dos Órfãos fala de impotência, de anseio pelo estado primordial de inocência, no qual todas as necessidades são satisfeitas por uma figura materna ou paterna amorosa. A história dos Órfãos fala da busca de pessoas que cuidem deles, da renúncia à autonomia e à independência, a fim de assegurar esse cuidado. Certas pessoas procuram um Grande Pai; alguns homens procuram a “fada do lar”, as mulheres que lhes oferecerão um santuário, protegendo-os deste mundo cruel; muitos procuram o grande líder político, o movimento, a causa, ou o negócio de um milhão de dólares que será a solução de tudo. A história do Órfão fala também da tentativa de ser o pai amoroso – para os amantes, os filhos, os clientes ou o eleitorado – tudo para provar que essa segurança pode existir, ou que efectivamente existe. Depois da Queda sobrevêm a longa e, às vezes, lenta escalada de volta, a aprendizagem da auto- confiança e da esperança. A tarefa última do Órfão consiste em adquirir autoconfiança.

Na origem de tudo isto encontra-se o medo que o Órfão sente da impotência e do abandono, medo esse tão profundo e inconsciente que não costuma ser experimentado directamente. A sua emoção mais visível é a raiva, quer esta esteja voltada para dentro, na convicção de que a Queda é, de alguma maneira, culpa nossa, quer esta esteja voltada para fora: para Deus, para o universo, para os pais, para as instituições.

Os Órfãos transmitem a mensagem: “Eu não sei cuidar de mim.” Durante a nossa juventude, em situações novas e desconhecidas e nas áreas da nossa personalidade menos desenvolvidas, somos todos Órfãos e, por conseguinte, dependentes dos outros. No desenvolvimento humano normal e saudável, a fase do Órfão é branda. A desilusão com os pais, com as instituições e com a autoridade motiva-nos a deixar a dependência e a empreender as nossas próprias jornadas em busca de novas respostas. O que pode ser simples no final da adolescência – matricular-se na faculdade, sair de casa e arranjar um emprego– pode, mais tarde, assumir a forma mais difícil de uma mudança de emprego, do fim de uma relação, ou da desilusão com determinado partido político, grupo religioso ou filosofia de vida, o que nos obrigará a buscar novas respostas.

Segue: A Ajuda

 
2 Comentários

Publicado por em 2007 em arquétipos, o Órfão, símbolos

 

2 responses to “A Queda

  1. isabel

    2008 at 3:22 pm

    Não tenho comentários..fiquei embevecida a ler..

     
  2. Rose Motta

    2010 at 1:37 am

    grata pela ajuda

     

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