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A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

22 Fev

Etienne Perrot
Péril nucléaire et transformation de l’homme.
Conférences sur la vie intérieure
Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

(excertos adaptados)
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  I
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   II
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   III
  • Parece assim que a visão caótica dos fenómenos que nos é oferecida pela ciência moderna (ou era oferecida, porque a ciência evoluiu muito), se harmoniza no indivíduo. Tendo realizado em si mesmo uma unidade e uma harmonia, o indivíduo vê a sua visão mudar e projecta um olhar transformado sobre o universo. Existe, neste sentido, uma corrente científica muito forte, nascida nos Estados Unidos, cujos ecos potentes vêm actualmente até nós, numa relação muito estreita com as descobertas de Jung. Estes autores falam muito, talvez demasiado, porque as palavras podem dispensar de realizar as coisas; trata-se de evocar a unidade do mundo, do unus mundus, que é o termo que Jung pediu “emprestado” aos alquimistas, para traduzir essa visão unificada do mundo.

    Ora, essa unidade do mundo vive em nós, em mim. Se essa unidade for realizada em mim, e se eu me sinto em ressonância com o universo, projecto invisível e insensivelmente essa unidade à minha volta. Expande-se uma radiação e, em vez de propagar a angústia, em vez de propagar desejos caóticos, arbitrários, frutos de pulsões que não sei até que ponto são legítimas, propago essa paz à minha volta. É assim que me torno um artífice da paz e é assim que a colectividade pode beneficiar daquela obra eminentemente individual e secreta que eu tiver empreendido.

    Antes de terminar, queria ler-vos um sonho. Julgo que não poderia encontrar melhor conclusão:

    Um cataclismo acaba de se abater sobre a terra, não se precisa qual, é talvez uma guerra, um sismo. A humanidade está mergulhada no sofrimento e na angústia. Os grandes agitam‑se, chovem decisões, mas a situação continua num impasse. Num canto retirado, três homens, simples de espírito, sentem-se acabrunhados por ouvirem os prantos à sua volta. Sofrem como os outros, com um sofrimento que ultrapassa as suas pessoas, como se transportassem sobre os seus pobres ombros o peso do mundo desnorteado. Mas, o que fazer? Sentem-se de tal modo impotentes… “Vinde”, disse um deles, “entremos, sentemo-nos à volta da mesa, talvez nos seja dada a inspiração.”

     Ei-los sentados à volta da pobre mesa de um quarto sombrio. Uma fraca lâmpada projecta sobre as paredes os seus ombros imóveis. Permanecem ali, a cabeça entre as mãos, a fronte enrugada, os cotovelos apoiados na mesa, os três encostados uns aos outros, fundidos num só pelo ardor da fé que existe nos seus corações. Sofrem, procuram sem palavras, sem pensar, no interior deles próprios, sem que nada do que se passa no exterior venha perturbar a sua meditação silenciosa.

    Isto dura muito tempo e eis que, uma manhã, um jovem surge cheio de entusiasmo. Grita, canta, abraça os três homens espantados e arrasta-os numa dança louca: “Acabou! Como? Foi graças a vós e não sabíeis? Era de calor e unicamente de calor que os homens tinham necessidade para que a paz regressasse. E foi desta concentração inocente, desta imobilidade activa que era a vossa que nasceu esse calor. Primeiro imperceptível, ele intensificou-se e irradia agora para lá das fronteiras, activado à medida que o vosso recolhimento se tornava mais intenso.”

    Isto não foi uma meditação, a aspiração de uma alma espiritualista confiante na virtude da caridade; tratou-se de uma experiência interior que foi concedida a uma pessoa e que lhe foi dada através de um sonho.

    Queria simplesmente, à guisa de comentário, referir que os sonhos apontam o trabalho que deve ser o nosso (um trabalho que reclama de nós atenção, docilidade e amor): domesticação, integração e valorização da energia central que em nós reside. Tal tarefa é mostrada sempre pelos sonhos como o antídoto para a desintegração nuclear.

    Penso noutro sonho que resumo: Um homem distribuía pelos jovens urânio enriquecido, para permitir que atravessassem os cataclismos atómicos que se anunciavam. Uranium significa “metal celeste.” O urânio enriquecido, matéria‑prima da bomba atómica, era manifestamente aqui o resultado do trabalho interior que era o antídoto da desintegração exterior.

    À conflagração que nos espera, podemos opor aquilo que nos é oferecido pela natureza, que é a sobrenatureza em nós: a eclosão de uma estrela irradiante. Esta estrela é a estrela de Natal, é a estrela do nascimento divino, é a estrela do Deus-menino que se apresenta humilde e despojado de todos os atributos do poder. Esta criança tem um nome: Emanuel, “Deus connosco”. Entre os epítetos tradicionais que lhe são atribuídos figuram os de “Pai do século vindouro” e de “Príncipe da Paz”.[1]

    É a este nascimento que todos somos convidados.

    [1] Isaías 9,6.

     
    1 Comentário

    Publicado por em 2010 em símbolos

     

    One response to “A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    1. Jeanne Marcia

      2011 at 5:01 pm

      não sei por quantos momentos teremos que passar em busca da nossa essencia, ou do nosso deus interior, porque ao meu ver, a vida nos leva nao em linha reta, mas em oscilações, vibrações que como tal, ora estamos diante de uma iluminação ora de um momento de escuridão. Mas, dentro destes momentos ha sempre o silencio, os sonhos e algo dentro de nós que nos impulsiona e expande nossa consciencia.
      Parabens pelo artigo, me fez muuito bem.

       

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