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A morte

08 Out

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

Os grandes acontecimentos da vida

A MORTE. Se sonharem com a morte, ficarão com certeza muito aflitos! É natural, pois a morte é um acontecimento capital que atemoriza a maior parte das pessoas. Mas não procurem encontrar um presságio num sonho com a morte. Também aqui se torna necessário transformar o acontecimento físico numa circunstância psíquica. Lembrem-se do sonho do cadáver já atrás referido, no qual se tratava de um «cadáver psíquico», ou seja, de «qualquer coisa de morto» que o sujeito trazia com ele.

Portanto, frequentemente, podemos fazer equivaler:

  • morte física em sonho = morte psíquica na realidade
     

  • agonia física em sonho = agonia psíquica na realidade
     

  • enterro físico em sonho = enterro psíquico na realidade

Muitos sonhos dizem respeito à própria pessoa do sonhador e significam: «Existe em ti qualquer coisa que está morta – ou vai morrer – ou deve morrer.» É necessário em seguida procurar essa «qualquer coisa», examinando o seguimento do sonho. O que morreu ou vai morrer interiormente, sem que o sujeito se dê conta disso? Um amor? Um afecto? O respeito por valores morais? Tratar-se-á de uma concepção errada ou insuficiente da vida?

Do mesmo modo, se um sonho nos mostra um enterro, é preciso perguntarmos: o quê ou quem se enterra? E a resposta, nove em dez vezes, dir-nos-á que se trata de qualquer coisa de si próprio. É preciso tomar-se consciência disso, e procurar deitar fora aquilo que deve ser «enterrado» (esquecido, extirpado), a fim de se viver de forma mais liberta e desprendida.

Exemplo: O meu amigo morreu há dois anos e ajudava-me moralmente… Em sonhos, via-o muitas vezes, subindo caminhos, e tentava alcançá-lo e tocar-lhe… Mas ou ele me repelia ou recusava falar-me. Cada vez me sentia mais triste e desesperada… A noite passada tive o mesmo sonho, no entanto acrescido de mais qualquer coisa. Via a mesma estrada que subia…lá estava o meu amigo, mas mais baixo do que eu. Mostrou-me qualquer coisa, no cimo do caminho: era um enterro, com cavalos brancos que puxavam um barco branco sobre um mar luminoso. Aproximei-me e vi que era o meu amigo que levavam; estava morto! Depois voltei-me e vi que o caminho continuava a subir… Atrás de mim, o meu amigo tinha desaparecido e acordei, desta vez sem a menor sensação de tristeza.

Que significa este sonho? Significa não somente que esta mulher sente dificuldade em subir sozinha na vida, mas também que ela deseja atingir qualquer coisa situada «no alto», algo que o seu amigo lhe mostrara durante a vida.

Com efeito, ela e ele haviam feito juntos estudos de filosofia. Esses estudos estavam já bastante adiantados e ela é perfeitamente capaz de continuar sozinha. Ela sabe isso no fundo de si própria (simbolizado pelo amigo que a repele ou que se afasta). No entanto, ela recusa submeter-se à lei impiedosa que lhe diz: O teu amigo morreu e deves adaptar-se a essa situação.

O seu último sonho mostra que deu um passo em frente. Vê um enterro e verifica que levam o corpo do amigo. Mas os cavalos são brancos (branco = desaparecimento de tristeza, alegria, libertação). Não há carreta fúnebre, mas um barco branco sobre um mar luminoso (encontramos aqui os velhos mitos nos quais as almas dos defuntos eram transportadas em barcos pelos rios do além-túmulo).

Neste segundo desaparecimento, tudo é esperança: o branco, o luminoso… Além do mais, quando ela se volta, verifica que o amigo desapareceu e repara igualmente que o seu caminho continua a subir. Portanto, esta jovem compreendeu que era capaz de continuar a «subir sozinha», que devia ir «mais alto» e que a sua dedicação sentimental a esse amigo morto se transformou numa sensação de esperança…

 

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