A luta pelo sentido

livro Alice Aeppol 6m

Bruno Bettelheim
Psicanálise dos Contos de Fadas
Lisboa, Bertrand Editora, 1991
(excertos adaptados)

 Hoje, como em tempos idos, a mais importante e a mais difícil tarefa na educação de um filho é ajudá-lo a encontrar um sentido para a vida. Para se conseguir isso são precisas muitas experiências de crescimento. Enquanto se desenvolve, a criança tem de aprender, passo a passo, a compreender-se a si própria; com isso ficará apta a compreender os outros e, eventualmente, a relacionar-se com eles por vias mutuamente satisfatórias e significativas.

Como educador e terapeuta de crianças com severas perturbações, a minha principal tarefa era restituir-lhes um sentido para as suas vidas. Se as crianças são educadas de forma a que a vida para elas tenha significado, não precisam de uma ajuda especial. Vi-me confrontado com o problema de deduzir quais as experiências que, na vida de uma criança, eram mais adequadas para promoverem a sua capacidade para encontrar um sentido na vida; para dotar a vida em geral de maior sentido. Relativamente a esta tarefa, nada é mais importante do que o impacto dos pais e dos que tomam conta das crianças; a seguir, em importância, vem a nossa herança cultural, quando transmitida à criança de forma acertada. Quando as crianças são pequenas, é a literatura que da melhor maneira contém essa informação.

A criança precisa mais do que ninguém que lhe deem a possibilidade de se compreender a si própria neste complexo mundo que vai enfrentar. Para poder fazê-lo, tem de ser ajudada a criar um sentido coerente no meio do turbilhão dos seus sentimentos. A criança precisa de ideias sobre como pôr a casa interior em ordem e, nessa base, conseguir dar um certo sentido à sua vida. Precisa – e quase não é necessário dar ênfase a isto – de uma educação moral em que, com subtileza, se lhe transmitam as vantagens de um comportamento moral, não através de conceitos éticos abstratos mas através do que parece palpavelmente acertado e, portanto, com sentido para ela.

Ora, os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente, qualquer que seja o nível em que funcionem. Lidando com problemas humanos universais, especialmente com os que preocupam o espírito da criança, as histórias falam ao seu ego nascente, encorajando o seu desenvolvimento e, ao mesmo tempo, aliviam tensões pré-conscientes ou inconscientes.

Os contos de fadas e o dilema existencial

Na criança ou no adulto, o inconsciente é um poderoso determinante do comportamento. Quando o inconsciente é reprimido e ao seu conteúdo é negada a consciencialização, então o espírito consciente da pessoa acabará finalmente por ficar em parte esmagado pelos derivativos desses elementos inconscientes. Ou então, ela ver-se-á forçada a manter um controle tão rígido e compulsivo sobre os mesmos que a sua personalidade pode vir a ser gravemente afetada. Mas quando se permite que esse material inconsciente, atinja em certa medida a consciência, e possa ser elaborado através da imaginação, o seu potencial para fazer o mal – a nós próprios e aos outros – torna-se muito reduzido; algumas das suas forças podem então ser dirigidas para fins mais positivos.

Há uma recusa generalizada em deixar as crianças saberem que a fonte de muito do que vai mal no mundo tem a ver com a nossa própria natureza – com a propensão que todo o homem tem para agir agressivamente, associalmente, egoistamente, por raiva ou angústia. Em vez disso, queremos que os nossos filhos acreditem que todos os homens são bons por natureza. Mas as crianças sabem que eles nem sempre são bons; e muitas vezes, mesmo quando o são, prefeririam não o ser.

É esta exatamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, faz parte intrínseca da existência humana – mas que se o homem se não furtar a ela, e com coragem e determinação enfrentar as dificuldades, muitas vezes inesperadas e injustas, acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso.

Os contos modernos para crianças evitam sobretudo os problemas existenciais, ainda que estes representem questões cruciais para todos nós. A criança precisa muito especialmente de sugestões, em forma simbólica, sobre como lidar com estes obstáculos para chegar sem riscos à maturidade. As histórias “inócuas” não mencionam a morte ou a velhice, nem os limites da nossa existência ou o desejo de uma vida eterna. O conto de fadas, pelo contrário, confronta-nos, sem rodeios, com as exigências básicas do homem.

Por exemplo, muitos contos de fadas começam com a morte da mãe ou do pai; nestes contos, a morte cria problemas angustiantes, como a própria morte ou o medo dela o fazem na vida real. Outros contos falam de um pai idoso que decide que chegou a altura de a nova geração tomar as rédeas. Contudo, antes que isso aconteça, o sucessor tem de provar ser capaz e digno. O conto dos irmãos Grimm As três penas começa assim: Era uma vez um rei que tinha três filhos… Quando o rei já estava velho e fraco, pensando no seu fim, não sabia qual dos filhos deveria herdar o trono. Para se decidir, o rei dá aos filhos uma tarefa difícil; o filho que melhor a desempenhar será rei depois da minha morte.

Contrariamente ao que acontece nos modernos contos para crianças, tanto a maldade como a virtude encontram-se omnipresentes nos contos de fadas tradicionais. Em praticamente todos eles, o bem e o mal aparecem sob a forma de personagens e ações, pois o bem e o mal são omnipresentes na vida de cada um de nós. Aliás, a propensão para ambos encontra-se em cada ser. É esta dualidade que coloca um problema moral e que exige uma luta para a resolver.

O mal não deixa de ter os seus atrativos – simbolizados pelo poderoso gigante ou pelo dragão, pelo poder da bruxa, pelo da astuta rainha em Branca de Neve – e muitas vezes está temporariamente em ascensão. Em muitos contos de fadas o usurpador consegue, por algum tempo, apoderar-se do lugar que, por direito, pertence ao herói – como as maldosas irmãs n’A Gata Borralheira. Não é o facto de o malfeitor ser castigado no fim da história que faz com que os contos de fadas sejam uma experiência de educação moral, ainda que isso também seja uma parte da questão.

Nos contos de fadas, como na vida, o castigo (ou o medo dele) é somente uma dissuasão limitada para o crime. A convicção de que o crime não compensa é uma dissuasão muito mais eficaz, e é por isso que nos contos de fadas os maus perdem sempre. Não é o facto de a virtude ganhar no fim que promove a moralidade, mas sim o facto de que o herói é extremamente simpático para a criança, a qual se identifica com ele em todas as suas lutas. Por causa dessa identificação, a criança imagina que sofre com o herói, que vive todas as suas provações e tribulações, triunfando com ele quando a virtude triunfa também. A criança faz tais identificações por si própria, e são as lutas interiores e exteriores do herói que gravam nela a moralidade

As personagens dos contos de fadas não são ambivalentes – não são boas e más ao mesmo tempo –, como na realidade o somos. Mas uma vez que a polarização domina o espírito da criança, ela domina também os contos de fadas. Uma pessoa é boa ou má, sem meio‑termo. Um irmão é estúpido, outro inteligente. Uma irmã é virtuosa e trabalhadora, a outra, vil e preguiçosa. Uma é bela, as outras feias. Um dos pais é todo bondade, o outro maldade. A justaposição de personagens opostas não tem por fim dar ênfase ao “bom” comportamento, como seria o caso nos contos de advertência.

Mas estas personagens polarizadas permitem à criança compreender facilmente a diferença entre ambos os pólos, coisa que ela não poderia fazer facilmente se os protagonistas fossem desenhados mais próximos da realidade, com todas as complexidades que caracterizam as pessoas reais. As ambiguidades têm de esperar até que se tenha estabelecido uma personalidade relativamente firme com base em identificações positivas. Só então é que a criança tem bases para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, portanto, tem de fazer uma opção sobre aquilo que quer ser. Esta decisão básica, sobre a qual todo o desenvolvimento posterior da personalidade será erigido, é facilitada pela polarização dos contos de fadas.

O herói dos contos de fadas tem um percurso solitário durante uns tempos, tal como a criança moderna que frequentemente se sente isolada. O herói recebe ajuda porque está em contacto com coisas primitivas – uma árvore, um animal, a natureza – tal como a criança se sente em contacto com estas coisas, mais do que a maioria dos adultos. O destino destes heróis convence a criança de que, como eles, se pode sentir abandonada no mundo, tateando no escuro; mas, como eles, no decorrer da sua vida será guiada passo a passo, e receberá ajuda quando necessário. Hoje, mais do que noutros tempos, a criança precisa da confiança oferecida pela imagem do homem isolado, que todavia é capaz de estabelecer relações significativas e compensadoras com o mundo que o rodeia.

Ao mesmo tempo que distrai a criança, o conto de fadas elucida-a sobre ela própria e promove o desenvolvimento da sua personalidade. Tem tantas significações, em tantos níveis diferentes, enriquece a existência da criança de tantas maneiras, que nenhum outro livro é capaz de igualar a quantidade e diversidade de contributos que estes contos trazem à criança.

Como não é possível saber exatamente em que idade um determinado conto de fadas é importante para uma determinada criança, não podemos decidir qual dos muitos contos deverá ser contado em determinado tempo ou porquê. Só a criança pode determinar isso, através da força das emoções com que reage ao que um conto evoca no seu consciente ou inconsciente.

Naturalmente, os pais começarão por contar ou ler ao filho um conto de que eles próprios gostaram em pequeninos ou de que gostam ainda hoje. Se a criança não mostra entusiasmo pela história, isso significa que os motivos e temas não evocaram nela uma resposta significativa nessa altura da sua vida. Será então melhor contar‑lhe outra história na noite seguinte. Depressa se saberá que determinada história se tornou importante para ela, quer pela sua resposta imediata à mesma, quer por pedir que lha contem mais e mais vezes. Se tudo correr bem, o entusiasmo da criança por essa história tornar-se-á contagioso e a história será importante para os pais, quanto mais não seja porque faz tanto sentido para o filho.

Finalmente, virá o dia em que a criança retirou já tudo quanto podia da sua história preferida, porque os problemas que a tinham feito procurar a história foram substituídos por outros, que encontram melhor expressão num outro conto. Ela pode então perder, temporariamente, interesse por este conto, e gostar muito mais de outro. Para contar contos de fadas é sempre melhor seguir a indicação da criança.

Um punhado de magia: a vida adivinhada por dentro

A Menina do Capuchinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter‑me casado com ela, teria conhecido a verdadeira felicidade. Esta afirmação de Charles Dickens indica que ele, como incontáveis milhões de crianças por esse mundo fora, também foi encantado pelos contos de fadas. Mesmo já célebre, Dickens reconheceu o impacto formativo que as fantásticas personagens e as diversas ocorrências dos contos tiveram nele e no seu génio criador. Exprimiu muitas vezes desprezo pelos que, em nome de uma racionalidade desinformada e mesquinha, insistiam em racionalizar, expurgar ou proscrever estas histórias, roubando assim às crianças as importantes contribuições que os contos de fadas podem trazer às suas vidas. Dickens compreendeu que as imagens dos contos de fadas ajudam as crianças, mais do que tudo, na sua muito difícil e todavia importante e satisfatória tarefa: a conquista de uma consciencialização mais madura que ponha ordem nas pressões caóticas do seu inconsciente.

As personagens e as ocorrências dos contos de fadas também personificam e ilustram conflitos internos, mas sugerem com extrema subtileza como resolver esses conflitos e quais os passos a dar em direção a uma humanidade mais nobre. O conto de fadas é apresentado de forma simples, familiar; não se fazem exigências ao ouvinte – o que evita até à mais pequenina das crianças o sentir-se compelida a atuar de uma maneira específica – e nunca faz sentir à criança que ela é inferior. Longe de fazer exigências, o conto de fadas sossega, dá esperanças quanto ao futuro e contém a promessa de um desfecho feliz.

Para compreendermos como é que uma criança julga os contos de fadas, consideremos, por exemplo, os muitos contos em que o jovem herói engana o gigante que o aterra ou até ameaça a sua vida. Que as crianças sabem por intuição o que estes “gigantes” representam, vê-se logo pela seguinte reação espontânea de uma criança de cinco anos. Animada pela discussão acerca da importância que têm os contos de fadas para as crianças, uma mãe venceu a hesitação em contar ao seu filho histórias “tão sangrentas e ameaçadoras”. Assim, contou-lhe a história de Jack, o mata-gigantes. No final, a resposta do filho foi: “Os gigantes não existem, pois não?”

Antes que a mãe pudesse dar ao filho a resposta tranquilizadora que lhe estava na ponta da língua – e que estragaria o valor da história para ele – o pequeno continuou: “Mas há pessoas crescidas que são como os gigantes.” Com os seus cinco anos, ele compreendeu a encorajadora mensagem da história: apesar de os adultos poderem parecer gigantes assustadores, um rapazinho esperto pode vencê-los.

A criança sente quais dos muitos contos de fadas são a verdade para a sua situação interior de momento (a qual ela não sabe, por si só, manejar), e sente também em que ponto da história esta lhe dá uma achega para poder enfrentar um problema difícil. Mas isso não é imediatamente resolvido, nem se consegue quando se ouve um conto de fadas pela primeira vez. Alguns dos elementos do conto são demasiado estranhos – como têm de sê-lo, a fim de se dirigirem a emoções profundamente escondidas.

Só com a repetição frequente do conto, e quando tenha tido tempo suficiente e oportunidade para se debruçar sobre ele, é que a criança pode aproveitar plenamente o que a história tem para lhe oferecer no tocante à compreensão de si própria e do mundo. Só então as livres associações da criança produzem o sentido mais pessoal do conto; só então o conto a ajuda a resolver os problemas que a oprimem. Por exemplo, quando ouve a história pela primeira vez, a criança não pode projetar-se no papel de uma figura do sexo oposto. É preciso que haja certa distância e colaboração pessoal, durante algum tempo, antes de uma rapariga se poder identificar com o João de João e o Pé de Feijão ou um rapaz com Rapunzel.

Conheci pais cujos filhos reagiam a um conto de fadas dizendo “Gostei”, e assim apressavam-se a contar-lhes outro conto, pensando que mais um conto aumentaria o prazer da criança. Mas o comentário do filho exprimia provavelmente um vago sentimento de que a história tem qualquer coisa de importante para lhe comunicar – qualquer coisa que se perderá se não se ler à criança de novo a história, e se não se lhe der tempo para a aprender. Desviando os pensamentos da criança prematuramente para uma segunda história, poder-se-á desfazer o impacto da primeira, ao passo que, fazendo-se isso mais tarde, se poderá antes aumentá-lo.

Quando se leem contos de fadas a crianças, numa aula ou em bibliotecas durante a hora de recreio, as crianças parecem fascinadas. Mas, muitas vezes, não se lhes dá a oportunidade para contemplarem os contos ou para reagirem; elas são imediatamente arrebanhadas, ou para outra atividade ou para outra história diferente da que lhes contaram antes, o que dilui ou destrói a impressão que o conto criou. Falando com crianças depois de uma experiência destas, parece que tanto fazia que a história fosse contada como não, pelo efeito nulo que foi obtido. Mas quando o narrador da história dá às crianças tempo suficiente para refletirem sobre ela, para se submergirem na atmosfera que a narrativa cria, e quando elas são encorajadas a falar no assunto, então conversas posteriores revelam que, emocional e intelectualmente, a história lhes oferece muito.

Uma criança familiarizada com os contos de fadas compreende que eles lhe falam numa linguagem de símbolos e não na da realidade de todos os dias. O conto de fadas diz-nos, a partir do seu introito, através do seu enredo e pelo seu desfecho, que aquilo de que nos fala não são factos tangíveis ou pessoas e lugares reais. Os acontecimentos reais só se tornam importantes para a criança através do sentido simbólico que ela lhes dá ou que ela neles encontra.

Era uma vez, Num certo país, Há mil anos ou mais, No tempo em que os animais falavam, Uma vez, num velho castelo, no meio de uma grande e densa floresta  – estes introitos sugerem que o que se vai seguir não pertence ao “aqui e agora” que conhecemos. Esta imprecisão deliberada, no princípio dos contos de fadas, simboliza que estamos a deixar o mundo concreto da realidade quotidiana. Os velhos castelos, as cavernas escuras, as portas fechadas à chave onde é proibido entrar, os bosques impenetráveis, todos sugerem que alguma coisa normalmente escondida virá a ser revelada, enquanto o há muito tempo implica que vamos lidar com acontecimentos arcaicos.

Depois dos cinco anos – a idade em que os contos de fadas se tornam verdadeiramente plenos de sentido –, nenhuma criança normal toma estas histórias como a verdade da realidade exterior. A pequenita que imagina ser a princesa que vive num castelo e desfia fantasias complicadas sabe, quando a mãe a chama para jantar, que não é uma princesa. E, se bem que o arvoredo de um parque possa ser visto, às vezes, como uma floresta densa e profunda, cheia de segredos escondidos, a criança sabe que na realidade é somente um arvoredo  –  exatamente como a pequenita sabe que a sua boneca não é na verdade o seu bebé, por muito que ela a trate como tal.

Por si só, a criança ainda não é capaz de ordenar e dar sentido aos seus processos interiores. Os contos de fadas oferecem personagens nas quais ela pode exteriorizar o que se passa no seu espírito, por meios controláveis. Os contos de fadas mostram à criança como ela pode personalizar os seus desejos destrutivos numa só figura, ir buscar satisfações desejadas a outra, identificar-se com uma terceira, ter ligações com uma quarta, e assim por diante, conforme as suas necessidades de momento.

Quando todos os devaneios da criança se personalizam numa fada bondosa, todos os seus desejos destrutivos numa bruxa má, todos os seus receios num lobo voraz, todas as ciências da sua consciência num homem sábio encontrado numa aventura, toda a sua zanga ciumenta nalgum animal que dê bicadas nos olhos dos seus rivais detestados – então a criança pode finalmente começar a pôr ordem nas suas tendências contraditórias. Iniciado este facto, a criança será cada vez menos submergida por um caos incontrolável.

Transformações

Há uma altura certa para as experiências de crescimento, e a infância é a altura para aprender a transpor a imensa brecha entre as experiências interiores e o mundo real. Os contos de fadas podem parecer absurdos, fantásticos, assustadores e totalmente inacreditáveis para o adulto desprovido da fantasia dos contos de fadas na sua infância ou que tenha reprimido essas lembranças. Um adulto que não tenha conseguido uma integração satisfatória dos dois mundos, da realidade e da imaginação, fica desconcertado com estes contos. Mas um adulto que na sua vida tenha sido capaz de integrar uma ordem racional com a lógica do seu inconsciente será recetivo à maneira como os contos de fadas ajudam a criança na sua integração. Para a criança e para o adulto que, como Sócrates, sabe que ainda há uma criança no mais sábio dos homens, os contos de fadas revelam verdades sobre a humanidade e sobre cada um de nós.

À sua maneira, o conto de fadas adverte contra o facto de a criança levar longe e depressa demais os seus sentimentos de raiva. Uma criança cede facilmente ao seu aborrecimento com alguém que ela estima ou à impaciência quando a fazem esperar; ela tende a albergar sentimentos de raiva e a deixar-se embalar por desejos furiosos, pouco se importando com as consequências, caso estes desejos se transformem em realidade. Muitos contos de fadas realçam o trágico desfecho de tão irrefletidos desejos em que nos empenhamos, porque desejamos demasiadamente algo ou porque não podemos esperar até que as coisas aconteçam no seu devido tempo. Ambos os estádios mentais são típicos da criança. Duas histórias dos irmãos Grimm podem ilustrar o caso.

Em Hans, o meu porco-espinho, um homem zanga-se quando o seu grande desejo de ter filhos é frustrado pela incapacidade de a mulher os ter. Fica tão contrariado que acaba por exclamar: “Quero um filho, nem que seja um porco-espinho.” O seu desejo é satisfeito: a mulher tem um filho, cuja parte superior do corpo é a de um porco-espinho e a inferior a de um rapaz.

Em Os sete corvos, uma criança recém-nascida afeta de tal forma as emoções do pai que este, zangado, se vira contra os seus filhos mais velhos. Manda um dos sete filhos buscar água batismal para batizar a filha, incumbência a que se juntam os outros seis irmãos. O pai, furioso por ter de esperar, grita: “Gostaria que todos os rapazes se transformassem em corvos!” O que imediatamente acontece.

Se estes contos de fadas, em que desejos ditados pela cólera se transformam em verdades, acabassem aí, eles não passariam de contos de advertência, prevenindo-nos de que nos não devemos deixar levar pelas nossas emoções negativas – coisa que a criança não é capaz de evitar. Mas o conto de fadas sabe que não pode esperar o impossível de uma criança, e que não pode fazê-la evitar ter desejos ditados pela cólera, porque não está nas mãos desta não os ter. Enquanto o conto de fadas realisticamente nos previne que deixarmo-nos levar pela zanga ou pela impaciência é metermo-nos em apuros, também nos sossega advertindo que as consequências são temporárias e que a boa vontade ou as boas ações podem desfazer todo o mal provocado por desejos maus.

Hans, o porco-espinho, ajuda um rei perdido na floresta a regressar são e salvo a casa. O rei promete dar a Hans, em recompensa, a primeira coisa que encontrar no seu regresso a casa, e que é a sua filha única. Apesar da aparência de Hans, a princesa cumpre a promessa do pai, e casa-se com Hans. Depois do casamento, no leito marital, Hans toma finalmente a figura humana e herda o reino. Em Os sete corvos, a rapariga, que fora a causa inocente de os seus irmãos se terem transformado em corvos, viaja até ao fim do mundo e faz um grande sacrifício para desfazer o feitiço lançado sobre eles. Os corvos retomam a forma humana e a felicidade é recuperada.

Estas histórias dizem que, não obstante as más consequências que os desejos do mal acarretam, com boa vontade e esforço as coisas podem arranjar-se. Há outros contos que vão muito mais longe e dizem à criança que não receie esses desejos, porque, apesar de haver consequências momentâneas, nada muda permanentemente; depois de satisfeitos todos os desejos, as coisas ficam exatamente como antes de os desejos começarem. Estas histórias existem com muitas variantes no mundo inteiro.

No mundo ocidental, Os três desejos é provavelmente a história sobre desejos mais conhecida. Na sua forma mais simples, o motivo consiste em satisfazer, a um homem ou a uma mulher, alguns desejos, geralmente três, por um estranho ou um animal, em resultado de alguma boa ação. Um homem recebe esse favor em Os três desejos, mas não lhe dá grande importância. De volta a casa, a mulher dá-lhe o seu prato diário de sopa. “Outra vez sopa? Queria era um doce para variar”, diz ele, e imediatamente o doce aparece. A mulher quer saber como foi que isso aconteceu e o marido conta-lhe a sua aventura. Furiosa por ter desperdiçado um dos seus desejos numa ninharia, ela exclama: “Gostaria que o doce caísse em cima da tua cabeça”, e o desejo foi imediatamente satisfeito. “Já se foram dois desejos! Queria era que o doce saísse de cima da minha cabeça”, diz o homem mais irritado ainda. E assim se foram os três desejos.

Todas juntas, estas histórias previnem a criança das possíveis consequências indesejáveis ao formular desejos de uma forma precipitada, e garantem-lhe ao mesmo tempo que esses desejos são de poucas consequências, especialmente se formos sinceros nos nossos esforços para desfazer os maus resultados.

Nos contos de fadas, os processos interiores são traduzidos por imagens visuais. Quando o herói enfrenta difíceis problemas interiores, que parece não terem solução, não se descreve o seu estado psicológico; o conto de fadas mostra-o perdido numa floresta densa, impenetrável, sem saber para que lado se virar, desesperado por encontrar uma saída. Para toda a gente que tenha ouvido contos de fadas, a imagem e o sentimento de se estar perdido numa floresta profunda e escura é inesquecível.

Infelizmente, alguns modernos rejeitam os contos de fadas porque aplicam a este género de literatura padrões que são totalmente impróprios. Se tomarmos estes contos como descrições da realidade, então eles são de facto excessivos, sob todos os pontos de vista – cruéis, sádicos e sabe-se lá o que mais. Mas, como símbolos e ocorrências ou problemas psicológicos, estes contos são bastante verdadeiros.

Eis a razão por que depende, em grande medida, dos sentimentos do narrador acerca do conto, o facto de o efeito ser um malogro ou, pelo contrário, qualquer coisa de adorável. A avó terna que conta a história ao neto que, sentado no seu colo, a ouve embevecido, comunicará qualquer coisa de muito diferente do que podem comunicar o pai ou a mãe que, aborrecidos com a história, a leem aos filhos só por obrigação. O sentido de participação ativa (o modo como o conto é transmitido) constitui um fator vital, que grandemente enriquece a experiência que a criança dela retira. Implica uma afirmação da sua personalidade através de determinada experiência, compartilhada com outro ser humano, o qual, embora adulto, pode apreciar plenamente os sentimentos e as reações da criança.

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