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O ouro

11 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

O ouro

Os mitos e as lendas sempre utilizaram este elemento em abundância. Alguns dos contos mais antigos evocam imagens que veremos surgir espontaneamente no inconsciente contemporâneo. Mais perto de nós no tempo, os alquimistas empreenderam, durante vários séculos, a sua busca misteriosa, que nos é apresentada como a transformação dos metais vis em ouro. As suas obras contribuíram largamente para a profusão dos sonhos em que o ouro é um elemento dominante.

As corridas ao ouro que marcaram as conquistas do Novo Mundo deixaram-nos um legado de sonhos loucos e de realidades sórdidas ao mesmo tempo. O que há de comum entre estas febres, estes sonhos com ouro e o ouro dos sonhos?

O ouro dos sonhos é uma das imagens mais carregadas de ambivalência. O ouro solar, o ouro real, metal inalterável, simboliza o cume da perfeição espiritual. A rosa de ouro do sonho pode representar, tal como a dos alquimistas, um fermento de realização interior. Mas o ouro é, também, um sinal de avidez, o desejo de posse de riquezas, garante do poder temporal.

A renúncia às riquezas, aos valores da aparência, à posse ávida, no quadro de uma reestruturação da psique que se desenvolve na simplicidade e na autenticidade, exprimem-se de forma magistral num sonho de Véronique. A jovem entra numa vasta gruta, cuja abóbada está incrustada de pedras preciosas. Há barras metálicas que lhe permitem passear-se ao longo da abóbada:

As barras começam a transformar-se em ouro…quanto mais subo, mais resplandecentes se tornam…chego à abóbada…à abóbada das riquezas. Mas é necessário tomar atenção para não cair na escada…começo a tirar os objectos que compõem a abóbada e a metê-los num saco…até que o saco começa a enervar-me…acho-o idiota! Então deixo-o cair. Afinal de contas, o que estou a apanhar? Tenho a impressão de que isso não serve para nada. Agora estou num buraco, uma cratera na abóbada que serve de tecto, em plena camada de pedras preciosas e de ouro…trata-se afinal de uma grande sala, cujo chão é também de ouro e extremamente escorregadio. Divirto-me a deslizar, como se estivesse no gelo e, de repente, caio. Vou de encontro a um muro e todo o tecto desaba.

Vejo, então, que o que cai são pedras vulgares e que formam no chão um campo em ruínas. Transformo-me em pedreiro e começo a construir. Mas não construo como costumava fazê-lo. Construo uma casa com um vitral que ocupa a quase totalidade de uma parede. É junto ao mar, sobre uma falésia não muito escarpada. Há muito vento e sol e vejo um barco aparecer ao longe. Lá dentro estão todos os meus amigos… todas as pessoas de quem gosto e todas as que virei a conhecer mais tarde e das quais virei igualmente a gostar. Chegam todos e fazemos uma festa.

Neste tipo de situação, o ouro está quase sempre associado às pedras preciosas. Constituem, conjuntamente, um tesouro inútil, símbolo da vaidade das riquezas e não do tesouro do Si Mesmo (o nó mais íntimo da Consciência) que, noutras circunstâncias, é representado pela multicoloração das pedras preciosas.

 
 

One response to “O ouro

  1. Sanzia

    2015 at 5:30 pm

    Interessante esses seus comentários e bem esclarecedores..Faz anos que sonho com ouro, joias..e ultimamente venho sonhando com pedr
    as preciosas, também. Não conseguia encontrar uma razão, mas agora vendo seus textos posso ter alguma ideia do que ocorre.

     

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