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A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

22 Fev

Etienne Perrot
Péril nucléaire et transformation de l’homme.
Conférences sur la vie intérieure
Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

(excertos adaptados)
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   I
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   II
  • Não é por nada que os antigos alquimistas diziam que a Grande Obra consistia em transformar a obscuridade em luz, em obter, em primeiro lugar, o caos, o caos dos sábios, que nós interpretamos de uma forma muito simples. Devo deixar o limite, o meu pequeno universo bem balizado: “Basta fazer isto, basta fazer aquilo, uns são maus e outros são bons.” É preciso aceitar entrar numa incerteza, enfrentar aquele jogo de imagens e de emoções desconcertantes que são oferecidas pelo inconsciente e pelos sonhos. É isto a realização do caos dos sábios. Os alquimistas chamavam-lhe também nigredo, negrura, onde se encontra a mesma ideia de obscuridade. Diziam que a luz nele nascia gradualmente, a partir das trevas.

    Diziam ainda – eis um outro tema dos sonhos – que a Grande Obra consistia em extrair o ouro do excremento: aurum ex stercore. Devemos pois abandonar a nossa atitude de dignidade, de boa educação, aceitando o que Freud nos ensinou: que existem em nós pulsões, lodo. A diferença em relação ao que ensina ainda uma certa psicanálise sem alma, sem nobreza, sem aspiração, é que nós não nos enterramos nesse lodo. Tendo-o contemplado com um sentimento de humildade, mas também de confiança na vida e na sua amplitude, sabemos que a fé e o amor que dedicamos à vida nos permitirão integrar esta matéria indigna, ignóbil, num conjunto em que ela se harmonizará com o que há de mais elevado, em que o mais baixo alcançará o mais alto. Ainda na linguagem dos alquimistas, o céu e a terra desposar-se-ão, isto é, o inconsciente e o consciente aliar-se-ão para produzirem um fruto de paz e de claridade.

    Poderia, a este respeito, enumerar um sem número de sonhos, mas o importante é fornecer‑vos um fio condutor. Para ir um pouco mais longe, vou expor um outro sonho, relatado muito recentemente: Há uma fonte que corre, o curso é abundante, mas a cor da água é turva. A sonhadora sabe que se regressar à origem da fonte, a água tornar-se-á cada vez mais clara. Chega assim ao próprio orifício onde vê que uma água transparente corre através de tufos de ervas, como se vê nas fontes dos campos. E (isto é muito importante) ela sabe que se olhar com atenção para aquela nascente, o curso de água vai aumentar e a nascente vai tornar-se mais abundante.

     Aquilo a que vos convido é a aceitardes olhar em face a vossa nascente e não vos espantardes se a produção for de início feia e mesmo fétida. A fonte da vida está presente nos sonhos e nos livros alquímicos mas, antes disso, antes da alquimia histórica que conhecemos, encontramo-la nos grandes ensinamentos religiosos. É a fonte donde jorra a vida eterna do Evangelho de João, é a fonte de vida apocalíptica, é a presença divina em nós.

    O Si Mesmo, constata Jung, corresponde, tal como se apresenta, às definições que a teologia dá da divindade. Perguntaram-lhe um dia: “Então, para si, o Si Mesmo é Deus?” Ele respondeu: “Não sou teólogo, não faço metafísica, constato factos, vejo que estes factos têm o valor esclarecedor e tranquilizador que concede ao indivíduo um sentimento de certeza, lhe dá acesso a todo um mundo de experiência que é o mundo religioso tradicional, mas liberto de toda a estreiteza, de toda a doutrina, e isso basta-me.” E a mim, confesso-vos, também me basta.

    Falei-lhes, sumariamente, da reconciliação das energias que vêm do além para nos enriquecer, alargar a nossa vida numa conciliação de opostos, e que fazem do indivíduo testemunha e portador de uma realidade que o ultrapassa infinitamente. Encontrámos aí também os grandes ensinamentos do Oriente e do Ocidente: o homem é de essência sagrada, há um deus no homem: Est deus in nobis, dizia o estóico romano Séneca: “Há um Deus em nós.” O que nos parece – e alcançamos aqui o aspecto prático do nosso propósito, um dos que anunciei ao começar –, é que este “deus” é feito de conciliações de opostos e nos coloca em ressonância com o universo. Mostra-nos, nos próprios sonhos, aquilo que os alquimistas afirmavam, isto é, que o indivíduo é um microcosmos, um universo em ponto pequeno, onde se reflecte o grande universo.

     Segue: A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV

     
    1 Comentário

    Publicado por em 2010 em símbolos

     

    One response to “A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    1. Rose Motta

      2010 at 4:10 am

      Realmente o universo conspira e nos da o que precisamos através de vcs hj tomei um bom copo de agua limpa grata

       

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