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As marionetas e os autómatos

26 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

As marionetas e os autómatos

O conteúdo dos sonhos em que aparecem estas personagens estranhas permite determinar o que leva a separá-las em dois grupos. Todas exprimem o desconforto de uma psicologia incapaz de se libertar de comportamentos estereotipados, o estado de uma personalidade incapaz de manifestar os seus próprios sentimentos, de desenvolver um pensamento autónomo. Uma psicologia que gera imagens de marionetas ou de autómatos anuncia assim a sua dependência em relação a uma referência exterior.

Os pacientes que povoam os seus cenários com estas figuras estão, em graus distintos, numa situação de sujeição face a um modelo imposto pelo meio familiar ou social. A diferença entre as marionetas e os autómatos reside, não nas origens, cuja natureza é pouco variável, menos ainda nos efeitos, que são idênticos, mas no tipo de relação que estabelecem com o modelo.

Para explicar esta distinção, basta deixarmo-nos guiar pela lógica das imagens: a marioneta é uma figurinha accionada por uma intervenção exterior. Perante uma pessoa cuja atitude não parece corresponder aos seus sentimentos e necessidades reais, a sabedoria da linguagem pergunta: “Quem puxa os cordelinhos?”.

A marioneta está e permanecerá inerte enquanto uma mão estranha não comandar os seus movimentos, ou puxando os fios ou insinuando-se no seu corpo. O autómato, de acordo com o próprio nome, parece entrar em contradição com as reflexões precedentes. O grego automatos significa que se move por si próprio.

O autómato é um objecto movido por uma maquinaria disposta no seu interior. Mostra uma autonomia aparente, que disfarça mal uma situação ainda mais restritiva do que a marioneta. Porque o autómato apenas cumprirá os gestos para que foi programado.

Não é difícil, logo que se reconhecem as identidades e as diferenças que aproximam ou separam marionetas e autómatos, compreender que todas estas personagens simbolizam o estado de personalidades dominadas, no primeiro caso por influências exteriores ainda actuais, no segundo pela marca de influências interiorizadas. Em todos os casos, a dinâmica do imaginário põe em cena marionetas e autómatos para exprimir, de forma flagrante, a submissão do eu às pressões de um superego tirânico.

Uma estátua simboliza a petrificação dos impulsos, a armadura expõe o aprisionamento numa atitude de protecção. Os seus primos, marionetas e autómatos, infligem a visão de uma situação talvez ainda mais digna de pena: a de um ser que se esforça por parecer uma pessoa capaz de sentir, de pensar e de agir por si própria mas que só consegue reproduzir os gestos inspirados por um modelo presente exterior ou interiormente.

A ambivalência da marioneta evidencia-se na exposição simultânea da inércia e da animação. Denuncia a separação dramática entre os motivos e os actos. O paciente que se identifica com Guignol ou Pinóquio expressa a ruptura entre os sentimentos reais recalcados e o seu comportamento, inspirado por uma programação exterior.

A figura de Pinóquio é particularmente expressiva já que a simpática marioneta articulada é ostensivamente guiada por Jiminy Cricket (o Grilo Falante) que, colocado perto do seu ouvido, lhe dita tudo o que ele deve ou não fazer. Seria difícil encontrar uma imagem mais explícita da exterioridade do modelo de comportamento.

O corpo de tais pacientes diz e faz uma coisa diferente da que lhes inspiraria a sua cabeça, se esta aceitasse as mensagens do coração. Alguns sonhos dizem respeito, por um lado, à imagem da separação da cabeça e do corpo que traduz a desarticulação fundamental entre o sentir e o agir; por outro lado, dizem respeito à evocação da maquinaria, de engrenagens, de fios, de todas estas próteses destinadas a criar uma ilusão de autonomia de movimentos.

Como é que uma pessoa irreal, cujas atitudes não estão em relação com o que ela sente, poderia assumir uma relação correcta com o seu meio? Ela não executa nunca os gestos que gostaria mas os que pensa que deve fazer. Daí resulta uma neutralização permanente da capacidade de troca, o que legitima o sentimento da nulidade do ser.

A cabeça separada do corpo, os dedos cortados, eis outras tantas imagens que remetem igualmente para o sentimento ou angústia da castração. É evidente que pessoas continuamente refugiadas por detrás de uma máscara, submetidas, em cada um dos seus actos, à censura do superego, são permanentemente levadas a constatar a sua impotência.

Marionetas, autómatos, Pinóquio, Guignol, Polichinelo, escafandrista “cujos cordelinhos se puxam”, peão de matraquilhos, o onirismo dispõe de uma grande reserva de imagens, das mais tradicionais às mais originais, quando se trata de exprimir a repressão dos verdadeiros sentimentos.

Quando se manifestam num cenário, tais representações raramente estão isoladas. Cada uma destas imagens tende a fazer aparecer vários dos seus equivalentes simbólicos. Em conjunto, elas inserem-se geralmente numa sequência cujas palavras falam claramente do sistema de repressão dos sentimentos.

As marionetas e os autómatos, figurações caricaturais de uma psicologia dominada por um superego esmagador, não devem nem fazer sorrir nem causar inquietude. Como todas as imagens que exprimem uma paragem da dinâmica de evolução, elas aparecem precisamente no momento em que os gelos da alma iniciam a sua deslocação.

Impõem aos sonhadores a visão insuportável daquilo que já não são. Quando estes reconhecem a marioneta em que se tornaram, não poderão mais aceitar sacrificar indefinidamente os seus verdadeiros sentimentos no altar de uma referência exterior, paterna ou outra.

Marionetas e autómatos são, na linguagem das imagens, uma mesma palavra para significar a submissão ao dever de conformidade. Colocados na dinâmica do sonho, adquirem sempre o sentido de acesso à autonomia e de libertação dos sentimentos verdadeiros.

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