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Uma Cultura Guerreira

02 Nov

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

Anterior: O Guerreiro

Uma Cultura Guerreira

Os Guerreiros mudam os seus mundos através da afirmação da sua vontade e do seu desejo de um mundo melhor. Nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas amizades, nas comunidades ou na cultura como um todo, este arquétipo orienta as nossas exigências no sentido de harmonizar o ambiente circundante com os nossos próprios valores.

No entanto, aqueles que chegam à fase do Guerreiro sem antes lidarem com as suas identidades não podem ser verdadeiros Guerreiros, seja porque não sabem por que razão estão a lutar, seja porque lutam para provar a sua superioridade. “Quem sou eu neste momento?” Enquanto o Guerreiro não souber responder a esta pergunta, apenas se entregará a pseudo-lutas, nas quais o mito herói/vilão/vítima é valorizado por si mesmo, e não pelos resultados positivos que pode acarretar.

Estes Guerreiros acabam por descobrir que o ritual em si não pode transformar nem o herói nem o reino.

Podemos encontrar o ritual subjacente ao mito do Guerreiro na guerra, mas também está presente no desporto, nos negócios, nas religiões, e até mesmo nas teorias económicas e educativas da nossa sociedade. Na esfera dos desportos, assistimos a uma progressão que vai das disputas dos gladiadores, nas quais o perdedor é morto, ao futebol americano, ao basquetebol ou ao futebol, nos quais o adversário simplesmente perde.

Na política assistimos igualmente a uma progressão interessante. No modelo mais primitivo, o herói eliminava o velho rei (o tirano) e, pelo menos teoricamente, salvava o povo. É um facto que tais práticas prosseguem na era moderna, em diversas partes do mundo, onde a mudança política ainda é realizada por meio de golpes sangrentos ou de revoluções. Nos Estados Unidos, porém, descobrimos uma forma de evitar tais carnificinas. O velho rei não é ritualmente eliminado, como em algumas culturas primitivas, nem morto durante o sono, nem tão-pouco julgado e executado pelos seus crimes. É derrotado nas eleições, cuja retórica subjacente é assaz bélica e igualmente primitiva.

O aspirante a herói – seja na política eleitoral, seja na política intra-organizacional – explica como salvar o país ou a organização, e demonstra como a situação actual é responsável por todos os prejuízos. Apresenta um quadro em que a situação é revista, demonstrando as grandes melhorias que adviriam para o país/estado/organização, caso ele ganhasse as eleições, ou os prejuízos que a oposição causaria, caso estivesse no poder. É a linguagem da guerra: falamos em derrotar a oposição nas eleições, mas poderíamos dizer: “Havemos de massacrar!” É obvio que esta linguagem belicosa também é fundamental nos negócios, onde o objectivo é sair vitorioso da competição. A convicção central do capitalismo baseia-se na afirmação de que a competição, uma outra versão da luta, trará uma vida melhor para todos – produtos melhores, preços mais baixos. A vitalidade dos Estados Unidos depende de saírem vitoriosos da competição. Até mesmo o nosso sistema jurídico se baseia no modelo da luta.

Embora o derrotado nos desportos, na política ou nos negócios já não seja visto como um vilão, a derrota continua a trazer uma vergonha imensa ao perdedor, que interioriza a convicção de não é só o seu desempenho que é mau, mas de que ele é mau na sua essência. Causa vergonha ser a equipa ou o candidato derrotados. Causa vergonha ser pobre porque isso implica ter perdido na luta da livre concorrência. Tais suposições podem explicar por que motivo parecemos incapazes, enquanto cultura, de elaborar um sistema de prosperidade que não humilhe os beneficiários.

Muitos educadores vêem o processo de aprendizagem como uma corrida, na qual alguns alunos são rotulados desde o primeiro grau como “vencedores” e outros como “perdedores”. Essas expectativas podem converter-se em autênticas profecias. Os “perdedores” interiorizam a consciência de que são indignos, enquanto que os “vencedores” são estimulados a fazer esforços cada vez maiores, sem por isso deixarem de temer o fracasso. Ser expulso do colégio – ou, no caso de professores universitários, não ser promovido para determinado cargo – equivale a uma verdadeira desgraça.

Os Guerreiros costumam concentrar-se nos “factos”, na tentativa de se “endurecerem” mentalmente: um marxista insistirá que apenas a realidade é real. Qualquer outra consideração – sobre a realidade interior, subjectiva, ou sobre a espiritualidade –, é por ele vista como falsa. Um cristão fundamentalista, segundo o mesmo espírito, insistirá em considerar a Bíblia literalmente, e ver nela um projecto de acção. Nos desportos, fazemos a contagem, marcamos os pontos. Nos negócios, consideramos os lucros. Na educação, quantificamos cada vez mais os resultados e procuramos metodologias irrefutáveis. Na economia, catalogamos o Produto Nacional Bruto. Segundo esta visão do mundo, o pensamento correcto é linear, hierárquico e dualista.

Na verdade, o enredo herói/vilão/vítima é um dogma na nossa cultura cujo poder é tão grandioso que a sua mera invocação torna irrelevantes quaisquer provas em contrário. Os académicos, por exemplo, equacionam competição com qualidade de educação, embora a maioria das investigações levadas a cabo sustente a ideia de que uma abordagem cooperativa da aprendizagem é, na realidade, muito mais eficiente. Muitos administradores de empresas continuam a tentar obter uma maior produtividade dos seus empregados, criando assim uma atmosfera de competição feroz, pese embora as investigações sugerirem que as empresas comerciais mais bem sucedidas são aquelas que criam um ambiente de confiança e nas quais os empregados se auxiliam mutuamente.

O desafio que enfrentamos, enquanto Guerreiros, depende de nossa capacidade de imaginar e afirmar outras verdades, outras versões do mito do Guerreiro. A consequência lógica da insistência em definir a vida como uma luta é a fome mundial, a devastação ambiental, a desigualdade racial e sexual, a guerra nuclear e o desperdício dos talentos de todos quantos se consideram e são considerados perdedores.

Segue: Além do extermínio do Dragão

 

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