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Os arquétipos

06 Out

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

Os arquétipos

“Porquê tanto barulho a propósito do que é novo? Os valores mais antigos são mais importantes do que os valores mais modernos!” Esta afirmação foi feita num artigo recentemente publicado numa revista cultural. O mais antigo e o mais recente são dois pólos que habitualmente se opõem. No entanto, aquilo que existe em nós de mais passado reflecte sempre o que nos acontece no presente.

As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, isto é, comum a todos, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Além do mais, contêm a semente e o símbolo da vida presente e da vida futura. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.

Estas reflexões ajudam-nos a ver a importância do que a psicologia complexa chama de situação arquetípica e símbolo arquetípico. A interpretação dos sonhos só se torna possível se partirmos da realidade fundamental destes fenómenos psíquicos.

Os factos e as imagens deste mundo estão à disposição de cada indivíduo e conformam a sua experiência, sendo uma das grandes fontes das quais o sonho se serve. A outra fonte é o mundo íntimo da nossa alma, o inconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu.

O inconsciente colectivo pertence a todos nós e prolonga-se em cada um dos nossos seres. Contudo, não nos movimentamos totalmente à vontade neste mundo, uma vez que ele próprio nos resiste, mesmo que a sua riqueza esteja presente dentro do nosso próprio inconsciente pessoal, da nossa imaginação e dos nossos sonhos. Esse mundo influencia igualmente o nosso eu.

É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos de arquétipo.

Mas a existência desta realidade, atestada pela psicologia moderna, não nos dispensa da obrigação de explicar a origem e a natureza deste material onírico primitivo. Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.

Nestas imagens arcaicas, como lhes chamou Jung, utilizando uma expressão de Jakob Burckhardt, estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos.

Os arquétipos contêm igualmente as imagens tradicionais e as imagens perdidas, que simbolizam as relações humanas com os poderes do alto e com os poderes do mundo subterrâneo. Estamos aqui perante os grandes símbolos religiosos. O ser humano sempre se confrontou com a luz diurna e com a obscuridade nocturna, e esta alternância incessante marcou profundamente a sua alma.

Os homens conheceram as estações ricas e as estações pobres. Ficaram profundamente ligados à transformação da vegetação. Dominaram o fogo e domaram os animais, a fim de os colocarem ao seu serviço e, durante milénios, recearam o inverno e os animais selvagens.

No seio da comunidade familiar, do clã ou da tribo, o homem encontrava-se rodeado pela vida e pela morte dos parentes, pela juventude e pela velhice. Tomava contacto com a sua tendência sexual e com a sua relação de dependência no seio do casal. A maternidade e a paternidade eram formas de vida importantes e aceites, como tal, pela comunidade. O milagre que a criança representava e o desabrochar dos jovens enchiam os adultos de felicidade.

A comunidade, bem como a luta dos indivíduos e das grandes associações espontâneas, criava incessantemente situações nas quais se começava a desenhar um certo comportamento humano típico. A cultura emergente difundia-se através da invenção da roda e da utilização do animal. As barcas e os navios atravessavam águas revoltas e construíam-se pontes sobre os rios. Formas de vida surgiam e conservavam-se através dos tempos, mesmo que sujeitas a modificações superficiais.

Poderíamos multiplicar os exemplos, embora não indefinidamente, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais, à semelhança do que acontece com as experiências de cada indivíduo. Estas agrupam-se em arquétipos, que são como que o núcleo de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração.

O número de arquétipos é limitado. Mas isso não os torna menos capazes de gerarem energia. Num comentário breve, Jung falou da analogia entre as formas típicas do inconsciente e a repetição morfológica ou funcional de certas semelhanças no domínio da natureza. À primeira vista, trata-se de “normas biológicas da actividade psíquica.”

O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atemo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. E fazemos bem. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.

Grosso modo, fazemos o que o homem sempre fez – desde as origens – em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.

Estes legados aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.

O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.

Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens. Assim, a criança (o arquétipo da criança) simboliza sempre a sobrevivência e as possibilidades futuras.

As mulheres são conduzidas ao seu ser mais profundo quando sonham que vão ter um filho (veremos mais adiante como o mesmo pode acontecer com os homens). Em todas as épocas, as mulheres prodigalizaram carinho e cuidados e continuaram a sentir-se ligadas ao que nascia delas. Assim se imortalizou a figura universal da grande mater (mãe).

Em todas as épocas, o guerreiro aceitou, ou teve de aceitar, a morte, e o nómada errou pelos caminhos ou pelas comunidades. Fomos sempre jovens e fomos sempre velhos. Sempre convivemos com a miséria e o medo, bem como com os frutos da vida. Construímos a casa e o fogo destruiu-a. O rio e o mar foram sempre símbolos da existência.

Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.

Frequentemente, é só com a ajuda de um intérprete que podemos ter acesso aos nossos conteúdos internos. No entanto, a sua energia é-nos facultada de igual modo. Segundo Nietzsche, que apenas pressentia a existência e a profundidade de certas relações, é através do sono e do sonho que refazemos certas tarefas dos nossos antepassados.

Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens oníricas acessíveis ao bom senso. Não é um homem em particular que simboliza o nómada, mas antes uma figura cinzenta embrulhada num manto e com um chapéu de abas largas. O nómada mexe com o nosso lado que prefere a preguiça e a comodidade. Talvez nunca tenhamos estado em determinados locais ou situações.

Porém, no sonho, as ondas embatem furiosamente contra o nosso navio; atravessamos desfiladeiros e perdemo-nos numa paisagem glaciar; estamos no meio de uma batalha e não sabemos se escaparemos com vida; catedrais magníficas rodeiam-nos e o rosto de um deus sorri-nos, mesmo que nunca tenhamos estado numa igreja. Qual de nós já encontrou um tesouro? Ei-lo nos nossos sonhos, guardado por um gigante ou um monstro aterradores.

É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda.

A linguagem que utilizam é a mesma, mas a causalidade dos fenómenos é apresentada de forma diferente. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.

Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte.

Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Cada ser humano seria apenas uma unidade minúscula, isolada dos seus semelhantes. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.

Não podemos deixar de referir que há pessoas que se outorgam uma importância desmedida, e que crêem que antes delas nada de significativo se passou, e que nada de significativo ocorrerá após a sua morte. Outras há, aparentemente desprovidas de orgulho, que acreditam que os seus problemas individuais se revestem de uma gravidade imensa. Nunca ninguém amará ou odiará mais do que elas. O que lhes acontece é exclusivo.

Estes indivíduos terão provavelmente sonhos nos quais se confrontarão com imagens sombrias. Cabe-lhes aceitar ou não o significado dessas imagens. Muito ganhariam em inscrever o que se passa com eles no quadro da existência colectiva do ser humano. Carl Jung observa, enquanto médico:

Os arquétipos foram e são as grandes forças vitais do psiquismo e evidenciam-se da forma mais inusitada. Sempre nos trouxeram segurança e salvação e ignorá-los equivale a incorrermos nos perigos da alma. Podem também desencadear, infalivelmente, problemas neuróticos ou mesmo psicoses, comportando-se como órgãos ou sistemas funcionais negligenciados ou maltratados.

A voz dos arquétipos é a voz do género humano. Sentir-nos-emos bem quando a nossa vida consciente responder de forma adequada ao que os arquétipos têm para nos dizer. Quando os símbolos ancestrais nos aparecerem em sonhos, isso será sinónimo de uma maturidade acrescida.

O sonho traz à superfície o que alma tem de mais íntimo, a fim de que possamos abrir uma nova página na nossa vida. Dessa forma, vamos ao encontro do que nos pertence e somos reconduzidos à totalidade do nosso ser.

 
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Publicado por em 2007 em arquétipos, sonhos

 

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