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A filha do rei

26 Out

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A filha do rei

O tema da Filha do Rei encontra-se, com muita frequência, em quase todas as tradições. A Filha do Rei é concedida ao herói como recompensa da sua audácia e da sua coragem. Um empreendimento difícil implica perigos que o herói soube vencer com o risco da própria vida. Daí os casais Atalanta e Hipómenes, Andrómeda e Perseu, Ariadne e Teseu, etc..

À Filha do Rei está associado o símbolo da Água enquanto elemento primordial. Nos textos antigos, a Filha do Rei acalma a cólera do oceano e, por vezes, é oferecida como vítima, salvando o náufrago. A este propósito, basta citar o exemplo de Ulisses que, sozinho numa jangada, enfrenta o mar tumultuoso e nada desesperadamente. Ulisses teria sucumbido sem o auxílio de Ino. Esta dá-lhe uma vela, o que permite ao nosso herói manter-se à superfície das águas enfurecidas, que procuravam devorá-lo. Ulisses vai dar à ilha dos Feácios. Aqui encontra a Filha do Rei, Nausíca.

Outras vezes, o herói é uma criança, cujo destino será muito importante. A água, que profetiza e julga, transporta a cesta de vime, ou a caixa de junco, com a criança, de tal forma que esta será descoberta por uma Filha de Rei, que fora banhar-se ou lavar a sua roupa no rio.

Assim, Moisés submeteu-se ao julgamento da água e foi recolhido pela Filha do Faraó. Muito antes de Moisés, existem outras histórias análogas. Por exemplo, a dos gémeos gregos Neleu e Pélias que, metidos numa gamela de madeira e abandonados no mar, são encontrados mais tarde pela sua própria mãe, a Filha do Rei da Élide.

A Filha do Rei é o símbolo da protecção inesperada, da virgem-mãe; esta é aquela cuja pureza desinteressada vem em socorro do homem ameaçado pelas águas. É a face propícia da água, sendo a outra face a da água que submerge. A primeira pertence àquela parte das águas superiores que Deus, no princípio, separou das águas inferiores. É a água celeste salvadora, o aspecto tranquilizador da mãe.

A Filha do Rei está também relacionada com o mito quase universal do Velho Rei. O Velho Rei é a memória do mundo, o inconsciente colectivo, aquele que recolheu todos os arquétipos da longa história dos homens. Geralmente, mantém a filha prisioneira: esta representa o inconsciente individual que, sem experiência própria, não consegue emergir do inconsciente colectivo, o pai, que a oprime com todo o seu passado.

Mas o príncipe encantado, ou princípio activo da consciência, virá despertá-la e libertá-la do peso desta opressão. Em compensação, ela dar-lhe-á um fragmento da memória do mundo, e ver-se-á assim aumentar a acção conjugada do príncipe encantado e da filha do rei, que simboliza a aliança do inconsciente colectivo (o velho rei), do inconsciente individual (a filha do rei), e do consciente (o príncipe).

 

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