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Sonhos com a escola e com exames

06 Out

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

Sonhos com a escola e com exames

Os adultos não costumam gostar de sonhar com o ambiente escolar, porque lhes parece que as coisas do passado perseguem por demasiado tempo as pessoas. Pode acontecer que o sonhador, após dezenas de anos, se encontre de novo nos bancos da escola, seja sozinho, seja com os companheiros de outrora. Mas também se pode ver nesse mesmo cenário como adulto, rodeado de pessoas que conhece na actualidade.

Trata-se, uma vez mais, de fazer os deveres. Estes deveres assemelham-se aos da escola e, contudo, não o são. Sobre o estrado, encontra-se o professor particularmente severo da nossa juventude. Mas trata-se de alguém que se assemelha ao nosso chefe de escritório, ou até mesmo a um amigo. Pode também tratar-se de um desconhecido. Um determinado assunto está a ser objecto de estudo: o sonhador tem de fornecer as respostas correctas, tem de prestar provas de novo.

Existe uma enorme quantidade de sonhos que mostram o quanto a escola, muitas vezes considerada como um período sem importância nas nossas vidas, marcou o inconsciente da maioria dos indivíduos. Esses sonhos têm algo de actual: basta assistir a determinadas conversas, tão desprovidas de interesse para os que nelas não tomam parte, para vermos que os episódios que se relembram são mais do que simples recordações.

Quando é pedido ao psicoterapeuta que interprete estes sonhos, aquele não tem dificuldade em convencer o paciente de que se trata de sonhos que se reportam à sua vida actual. A escola é a escola da vida, na qual nos são dados deveres. Estes podem consistir em sanar um conflito num determinado período de tempo, ou em ultrapassar com sucesso as diferentes etapas da nossa existência.

Quando nos interrogam no sonho, a pergunta é posta pelo destino todo-poderoso e tem uma importância vital. Pode acontecer que o professor desconhecido esteja particularmente atento a alguém que não está a comportar-se devidamente. Também podemos ter de nos exprimir numa língua que nos é estranha, por exemplo, a língua do sentimento. Pode tratar-se de uma situação em que temos de deixar falar o coração.

Não podemos fazer batota ou soprar as respostas, porque estes sonhos contêm a personalidade total do sonhador, que compreende a escola, os alunos e o professor. Nem sequer podemos faltar às aulas. Se tentarmos fazê-lo, os sonhos seguintes trar-nos-ão uma resposta assaz significativa. Os sonhos escolares devem, pois, ser levados a sério.

Foi o que compreendeu uma sonhadora que se via entrar numa sala de alunos deficientes mentais, mal vestidos e pouco asseados. Esses alunos eram a sua criança interior, obviamente. No quadro viam-se exercícios de fácil resolução, mas que as crianças não conseguiam resolver. Estava também lá escrito o nome de um homem cuja relação lhe causara problemas sentimentais. Este sonho permitiu a esta mulher começar a desenvolver esse seu lado menos evoluído. Havia alunos que tinham de aprender a tratar das flores. Outros, embora ocupassem na vida lugares de destaque, ficavam a saber que não tinham passado de classe.

Freud e Adler, que centraram as suas investigações nos primeiros anos da vida do indivíduo, negligenciaram o aspecto actual e futuro dos sonhos com a escola.

Acontece frequentemente sonharmos na meia-idade com exames que devemos fazer para aceder a uma escola superior. Esta corresponde a uma etapa derradeira de formação da personalidade. Nos países de língua alemã, este exame designa-se por Matura, ou seja, é um exame de “maturidade”.

Contava um cientista, profundamente emocionado:

No sonho, via-me a dar aulas no liceu feminino de B. As alunas preparavam-se para o exame, trabalhando sobre um tema que lhes havia proposto e do qual me orgulhava. De repente, dei-me conta de que o examinando era eu. Fiquei angustiado. Sentei-me entre as alunas, que entretanto se tinham tornado homens e mulheres adultos. Escrevi sem parar até ao fim do exame, que devia entregar a um homem de rosto sério e bondoso. Acordei banhado em lágrimas.

O narrador lembrou-se de que ainda lhe restavam vinte minutos.

Este sonho deve ser interpretado psicanaliticamente. Trata-se de um sonho de maturidade, do qual sobressai o medo da impotência, o receio que o sonhador tem de não poder afirmar-se eroticamente diante das mulheres.

É preciso examinar o aspecto da sala de aula neste tipo de sonhos. O quadro é importante, uma vez que nele estão escritos, preto no branco, os deveres a executar. Pode ser a fórmula matemática da vida ou uma escrita exótica. A vida não aceita desculpas. Não se conseguir resolver o problema que é colocado em sonhos significa que as dificuldades da vida consciente não foram compreendidas na sua essência, nem sequer analisadas sob o ângulo de uma solução provável.

É mais do que altura de recuperar o tempo perdido.

O exame pode reportar-se a todo o tipo de acontecimentos. Um industrial, por exemplo, opunha-se à explicação de questões dogmáticas particularmente difíceis que surgiam num catecismo esquecido, enquanto um teólogo, dado à abstracção, tinha de resolver um exame de zoologia, tendo querido examinar mais de perto certas questões referentes à animalidade humana. Há também exames oníricos que não decorrem na escola.

Um homem de quarenta anos tinha de fazer um exame de barco a motor. Não tinha ainda compreendido, mesmo tendo um medo pavoroso de habitar junto de um lago, que as águas do inconsciente tinham formado dentro dele um enorme mar interior. Aquele que vai fazer exames deve ver se possui os conhecimentos necessários para passar. Se os tiver, a vida abrir-lhe-á novas possibilidades de maturidade.

 
1 Comentário

Publicado por em 2007 em escola, exames, professor, símbolos, sonhos

 

One response to “Sonhos com a escola e com exames

  1. Flavio De Grandis

    2010 at 4:25 am

    Muito bom

     

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