O trigo

seara mred

Georges Romey
Excertos adaptados

O trigo é um dom da Terra. Da Terra-Mãe. Todas as grandes Deusas-Mães contaram entre os seus atributos a coroa de espigas ou o feixe dourado. Ceres deu o seu nome à família dos cereais. Num texto que fala de um dos mais antigos arquétipos gravados na estrutura neuronal do homem, não se pode evitar a referência à mitologia.

O campo de trigo do sonho é um mar que estremece à carícia do vento. Quando o olhar do sonhador pousa sobre as espigas, o seu corpo sente uma imperiosa atração: aquela que o leva a entrar seara adentro, a estender os braços para abraçar as espigas, a esquecer-se de si próprio para mergulhar, tal como faria uma criança, nessa inapreensível imensidão.

O campo de trigo é como uma mãe à escala da natureza inteira. Poucos símbolos exprimem tão inteiramente a ideia da Mãe Cósmica, dispensadora de vida e de morte.

Algumas sequências de um sonho mostram a intensidade poética que o inconsciente pode atingir quando fala dessa Mãe Universal, cuja imagem envolve sempre, mais ou menos explicitamente, a mãe do sonhador:

É uma paisagem que já vi num sonho anterior… um campo de trigo… um campo amarelo de trigo que ondula como as ondas do mar… o céu está claro… fiz progressos consideráveis de há uns tempos a esta parte… sinto-me mais próximo dos meus pais… percebo melhor as nossas diferenças… depois surge outra imagem… tenho a impressão de me elevar em direção ao céu e de chegar a uma nuvem cheia de uma luz amarela, que me dá a sensação de estar no seio materno… uma sensação de descontração e de leveza total, como se eu fosse um bebé dentro de um berço…

O amarelo é, no fundo do inconsciente, a cor da relação positiva com a imagem materna.

Há já algumas décadas que a evolução das culturas agrícolas fez desaparecer dos campos de trigo as belas manchas vermelhas das papoilas. No entanto, estas pérolas de sangue sempre dançaram, ao longo dos séculos, por entre as ondas douradas das searas. Esta flor era consagrada a Ceres, que, segundo o mito, para atenuar a dor decorrente do rapto da sua filha Proserpina, comeu essa flor misturada com as espigas de trigo. Por isso, o trigo simboliza a Mãe-Natureza, generosa dadora de vida.

O trigo é mãe, geração, abundância, multiplicação, proliferação. Mas os ciclos da vida também compreendem a morte. A semente só pode tornar-se fecunda pelo sacrifício. O campo de trigo terá de ser ceifado. As sementes serão esmagadas para se tornarem alimento ou lançadas à terra para morrerem e se multiplicarem. “Se o grão de trigo for lançado à terra e não morrer, não dará fruto”, diz S. João, quando anuncia a morte de Cristo Redentor.

O trigo e as papoilas são símbolos destinados à aproximação, quer pela sua vizinhança natural, quer pela sua ambivalência. O vermelho da papoila é, ao mesmo tempo, o sangue vermelho da vida e o sangue derramado da morte. O trigo tem o mesmo sentido de fluxo de vida que conduz inevitavelmente à morte.

Não concluímos sem mencionar um sonho de uma jovem em que esta se vê entrar numa flor de papoila, descer pelo caule, alcançar as raízes mergulhadas numa terra fértil… voltar a subir pelo caule de uma espiga e dela sair para se estender ao sol…

Mãe Terrestre, Mãe Cósmica, ciclos da vida e da morte. Destino. Na dinâmica evolutiva, o trigo abre um caminho ao sonhador, que este aceita seguir, mesmo sem saber bem onde leva. Mas, para tal, ser-lhe-á necessário ter restabelecido uma relação positiva com aquela que lhe transmitiu a vida.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s