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O animal

08 Out

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

O animal

O animal, enquanto arquétipo, representa as camadas profundas do inconsciente e o instinto. Os animais são símbolos dos princípios e das forças cósmicas, materiais ou espirituais. Os símbolos do Zodíaco, que evocam as energias cósmicas, são exemplo disso. Os deuses egípcios têm cabeças de animais, o Espírito Santo é representado por uma pomba.

Todos eles dizem respeito aos três níveis do universo: Inferno, Terra e Céu.

O animal, a besta que existe em nós, é o conjunto das forças profundas que nos animam e é, em primeiro lugar, a libido. Jung, na sua obra O homem e os seus símbolos, afirma: A profusão de símbolos animais nas religiões e nas artes de todos os tempos não sublinha apenas a importância do símbolo. Mostra também até que ponto é importante para o homem integrar na sua vida o conteúdo psíquico do símbolo, isto é, o instinto…O animal, que é no homem a sua psique instintiva, pode tornar-se perigoso, quando não é reconhecido e integrado na vida do indivíduo. A aceitação da alma animal é a condição da unificação do indivíduo, e da plenitude do seu desabrochamento.

Os animais, quer sejam considerados por grupos, comunidades (os ruminantes, as abelhas) ou tomados individualmente, correspondem a caracteres, mais simbólicos do que alegóricos, devido ao número e à complexidade de significados que um só significante contém.

Este interesse do homem pelo animal, considerado como uma materialização dos seus próprios complexos específicos e simbólicos (no âmbito da psicologia das profundidades, os animais são facetas múltiplas de uma sombra que urge reintegrar), apresenta-se, hoje em dia, bem patente na moda dos animais domésticos, e sobretudo dos animais de “luxo”, mais adoptados do que criados. O antigo Egipto oferece um exemplo ainda mais extremo, dado que o cuidado em relação aos animais os levou à zoolatria. Um egípcio, diz Heródoto, deixa queimar os móveis, mas expõe a vida para salvar um gato das chamas. Aliás, existem inúmeras múmias de animais. Cuidar dos sepulcros dos animais era um dever de que os devotos se orgulhavam: Dei pão ao homem faminto, água ao sedento, vestes ao despido. Cuidei dos íbis, falcões, gatos e cães divinos, e inumei-os ritualmente, untados de óleos e enfaixados em panos.

Também na religião celta os animais possuem um elevado valor simbólico: o javali simboliza a função sacerdotal, o urso a função real; o cisne ou a ave, em geral, são os mensageiros do Outro Mundo. O cavalo exerce a função de psicopompo, isto é, de guia das almas ou do neófito através do labirinto da vida.

Na Bíblia ainda, Adão dá aos animais – que lhe são apresentados e que surgem agrupados (porque providos de um sentido particular) – nomes que tudo têm a ver com as paixões humanas que, segundo Fílon, devem ser domadas. O boi, por exemplo, apresenta uma afinidade com o corpo humano devido à sua docilidade; já a cabra se relaciona mais com os sentidos, pois estes seguem os seus impulsos. O carneiro evoca o Logos por causa do seu carácter macho e activo. A pomba corresponde à razão na sua apreensão do mundo visível, enquanto a rola, amante da solidão, procura a realidade invisível.

Os animais, que tantas vezes intervêm nos sonhos e nas artes, formam pois identificações parciais com os homens: são aspectos e imagens da sua natureza complexa, espelhos das suas pulsões profundas, dos seus instintos domesticados ou selvagens. Cada um deles corresponde a uma parte de nós próprios, integrada, ou a integrar, na unidade harmonizada da pessoa.

Georges Romey
Excertos adaptados

No que diz respeito ao gato, e onde a razão não vê mais do que um quadrúpede cujas características lhe são familiares, a imagem do felino suscita uma série de associações que se agrupam em torno do tema da flexibilidade, da disponibilidade para a transformação, da plasticidade da conduta, da feminilidade, do mistério; em suma, da abertura, da aceitação da evolução psicológica.

 

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