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A rosa

26 Out

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A rosa

Famosa pela sua beleza, forma e perfume, a rosa é a flor simbólica mais utilizada no Ocidente. Corresponde, no seu conjunto, ao lótus da Ásia, estando as duas flores muito relacionadas com o símbolo da roda (a rosácea gótica e a rosa dos ventos marcam, aliás, a passagem de um simbolismo para o outro). A característica mais abrangente do simbolismo floral é a da manifestação: a flor, originária das águas primordiais, eleva-se sobre elas e desabrocha.

Este aspecto não é, aliás, estranho à Índia, onde a rosa cósmica (Triparasundari) serve de referência à beleza da Mãe Divina, designando uma perfeição total, uma realização sem defeito. Como se verá, a rosa simboliza a taça da vida, a alma, o coração e o amor. Pode-se contemplá- la como uma mandala, e considerá-la como um centro místico.

A rosa é, na iconografia cristã, quer o cálice que recolhe o sangue de Cristo, quer a transfiguração das gotas desse sangue, quer o símbolo das chagas de Cristo. Por exemplo, um símbolo rosa-cruz apresenta cinco rosas: uma no centro e uma sobre cada um dos braços da Cruz. Tais imagens evocam quer o Graal, quer o orvalho celeste da Redenção.

A rosa no centro da Cruz (no lugar do coração, do Sagrado Coração) remete também para a rosa cândida da Divina Comédia, para a rosa mística das litanias cristãs, símbolo da Virgem. A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo da Quaresma, era um símbolo de poder e de instrução espirituais. Era ainda uma metáfora da ressurreição e da imortalidade (a rosa, pela sua relação com o sangue derramado, aparece muitas vezes como símbolo de um renascimento místico).

As roseiras eram consagradas a Afrodite, bem como a Atena (a deusa que nasce em Rodes, a ilha das rosas), o que parece sugerir os mistérios da iniciação. Aliás, para os gregos, a rosa era uma flor branca, até que Adónis, protegido de Afrodite, foi ferido de morte. A deusa correu para ele, picou-se num espinho, e o sangue coloriu as rosas que lhe eram consagradas.

É este simbolismo da regeneração que faz com que, desde a Antiguidade, se deponham rosas sobre as campas. E Hécata, deusa dos infernos, era por vezes representada com a cabeça cingida por uma grinalda de rosas de cinco folhas. Sabe-se que o número cinco, sucedendo ao quatro, número da realização, marca o início de um novo ciclo.

Segundo Beda (séc. VII), o túmulo de Jesus estava pintado com uma cor que misturava o branco e o vermelho. Estes dois elementos, componentes do cor-de-rosa, encontram-se, com o seu valor simbólico tradicional, em todos os planos (do profano ao sagrado). Encontramo-los na diferença atribuída às oferendas de rosas brancas e vermelhas, assim como na diferença entre as noções de paixão e de pureza, bem como na diferença entre as noções de amor transcendente e de sabedoria divina.

A rosa tornou-se, assim, um símbolo do amor. Mais ainda, do dom do amor, do amor puro. O amor paradisíaco será comparado por Dante ao centro da rosa. E branca ou vermelha, a rosa é uma das flores predilectas dos alquimistas, cujos tratados se intitulam muitas vezes “roseiras dos filósofos”.

A rosa banca, como o lírio, foi ligada à pedra em branco, objectivo da pequena obra, enquanto que a rosa vermelha foi associada à pedra em rubro, objectivo da grande obra. A maior parte destas rosas tem sete pétalas, e cada uma dessas pétalas evoca um metal ou uma operação da obra.

 
 

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