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O príncipe

26 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

O príncipe

O Príncipe do sonho não é um príncipe de sonho, consolação insípida evocada por uma alma sofredora, nem mesmo apenas o activo animus, complemento providencial que intervém a convite da anima ou do psicoterapeuta. A figura do príncipe vem na altura certa, quando os tempos de espera se cumpriram. O símbolo manifesta-se quando o paciente aceita viver uma relação diferente com o tempo.

Muitas mulheres conheceram o destino de Branca de Neve, a jovem púbere que não compreende nem aceita uma transformação vinda demasiado cedo, demasiado depressa. Branca de Neve recusa, ao mesmo tempo, o corpo jovem, que já não reconhece, e o corpo de mulher que emerge e a transporta para um futuro angustiante. A referência à mãe, os jogos amargos da rivalidade edipiana fazem o resto: a culpabilidade – o pedaço de maçã envenenada – asfixia-a.

Eis a jovem estendida, como morta, no seu caixão de vidro. Para estas mulheres, os tormentos da metamorfose da puberdade converteram-se em apreensão e, em seguida, numa recusa em crescer, pura e simplesmente. Uma parte da anima tornou-se fixa. Deixou a terra dos risos e dos jogos de infância sem atingir o lugar da maturidade, que se apresenta como a visão inaceitável de um futuro cinzento, inscrito na perspectiva da velhice e da morte. A Alma, esse véu ao vento, petrificou-se.

A flexibilidade, essa condição da vida evolutiva, desapareceu. Branca de Neve, no seu caixão de vidro, a Bela Adormecida, no seu meio petrificado, adormeceram por um tempo pré determinado. O branco, símbolo da pureza, de isolamento e de morte, surge com insistência em 50% dos cenários tomados em referência. O tempo, a hibernação, a crisálida, o sono de gestação, a noção de tempo de espera, de vida contida, reservada, envolvem o príncipe em 50% dos sonhos estudados. O príncipe reina sobre o tempo acordado.

Quase todas as sonhadoras que sonham com a personagem do príncipe o situam na proximidade da dupla evocação da jovem e da mulher velha. O príncipe do sonho é sempre o Príncipe Encantado que exprime a espera do encontro com um homem que corresponda à projecção do animus da jovem. Durante a adolescência, tal projecção teria assegurado a passagem de criança a adulta, através do estádio intermédio de mulher apaixonada. Talvez a paciente seja já há algum tempo mãe de família. No entanto, o surgimento do príncipe no seu sonho traduz a espera do despertar do seu animus.

O príncipe, cujas prestações oníricas são muito mais raras do que as do rei e da rainha, surge essencialmente em cenários produzidos por mulheres. É uma das manifestações menos discutíveis do animus. Como tal é, ao mesmo tempo, o libertado e o libertador. Ao destruir os obstáculos que a tornavam prisioneira, a sonhadora liberta o princípio fecundador que será o fermento da realização da sua componente feminina.

Eis porque o terapeuta descobrirá, frequentemente, nestes sonhos, uma jovem à espera de despertar. “Jovem” é mais correcto do que “princesa”, visto que esta última palavra é raramente pronunciada pela sonhadora. A sonhadora que vê o príncipe não reivindica o lugar da mãe. Situa-se no limiar de uma autonomia de pensamento, que depende do reconhecimento do animus.

Seja qual for a idade da paciente, o príncipe vem quebrar o caixão de vidro no qual, enquanto adolescente, ela se tinha fechado para escapar às angústias da transformação da puberdade. O príncipe do sonho não é uma expressão ingénua da idealização do companheiro masculino. Ele é o animus sem rosto, aquele que transporta em si o poder do despertar.

 

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