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O Sábio

02 Nov

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

O Sábio

Quando trilhamos o caminho do Sábio na nossa jornada, depois de começarmos a responsabilizar-nos pelas nossas vidas e pelas nossas acções no mundo, descobrimos que o Sábio não é um feiticeiro ou um mágico, que entoa um cântico ou prepara uma infusão, através dos quais uma pessoa pode ser curada ou morta, e uma guerra pode ser ganha ou perdida. Esta é a concepção do Sábio segundo o ponto de vista do Órfão. Ao trilhar esse percurso, descobrimos que nós mesmos somos o Sábio. Os heróis passam a acreditar que o universo não é estático, e que se encontra num processo contínuo de criação. Todos nós estamos envolvidos nessa criação e, assim, todos somos Sábios.

Contudo, enquanto não abandonarmos a concepção do Órfão, segundo a qual o Sábio é alguém que faz magia ou exerce um poder maléfico capaz de matar os outros, não poderemos assumir a responsabilidade pela criação das nossas vidas. Enquanto lutarmos com questões de identidade e vocação, haverá sempre o perigo de usarmos o nosso poder de maneira destrutiva. Enquanto não solucionarmos as nossas questões de Guerreiro, correremos sempre o risco de utilizarmos o poder do Sábio para demonstrarmos a nossa superioridade ou tentarmos controlar as outras pessoas.

Enquanto Órfãos, Nómadas, Mártires e Guerreiros, forjamos as nossas identidades por oposição a um universo visto como hostil e perigoso. Enquanto Sábios, consideramos o universo como um lar afável e convidativo e assim recuperamos a inocência. Os Sábios percebem que uma nova forma de disciplina lhes é exigida, ou seja, que lhes é exigida clareza e força de vontade para agir sempre de acordo com seu o ser interior mais autêntico. Sabem que não são o centro do universo; contudo, esse conhecimento não os perturba. Sabem que são importantes, que as suas escolhas e actos individuais se unem para dar sentido ao universo e, tal como o Mártir, estão conscientes de que é apenas oferecendo o seu dom único ao universo que a verdadeira felicidade e auto-realização poderão ser alcançadas.

O Sábio compreende a graça. Não como uma ocorrência extraordinária, mas como uma forma de energia à nossa disposição. Há ocasiões em que as nossas energias declinam, em que as nossas capacidades falham, ou em que os meios normais e diários de solucionarmos os problemas se revelam ineficazes. Essas situações requerem uma capacidade de permanecer em equilíbrio com a fonte de energia última do universo. Os religiosos costumam chamar a isso “viver em harmonia com Deus”.

Os Sábios lutam para viver em harmonia com os mundos natural e sobrenatural, o que exige totalidade e equilíbrio interiores. Também pressupõe que os Sábios integrem as aprendizagens de todos os outros arquétipos. É fundamental que resolvam o dilema do Órfão, o que lhes permitirá confiarem num poder superior a si mesmos e submeterem-se a ele, afirmando: “Seja feita a Tua vontade.” É óbvio que os Sábios compreendem isto a um nível diferente do dos Órfãos. Estes supõem que fazer a vontade de Deus significa abandonar a sua própria vontade, porque não vêem esta como um comportamento egocêntrico, contrário ao plano divino. Por isso se sentem contrariados. Quando alcançamos um nível mais profundo de auto-conhecimento, tendo já solucionado muitas das questões do Nómada, tornamo-nos menos dualistas. Os Sábios transcendem as concepções dualistas e estáticas do bem e do mal e vêem a vida como um processo regido por Deus.

Quando impedimos alguma parte do nosso ser de crescer, essa parte manifesta-se como negatividade ou mesmo como mal. As pessoas que permanecem no início do estádio do Órfão, por exemplo, podem tornar-se criminosas ou vítimas, porque as suas qualidades positivas não encontraram formas de desenvolvimento. Ou, no caso do Guerreiro ou do Mártir, certas qualidades podem florescer em detrimento de outras, consideradas fracas ou egoístas, dando origem a personalidades desequilibradas e parciais.

Tendo estado longamente à mercê da sombra do puritanismo, a nossa cultura tem agora de lidar com a sombra da sexualidade. Daí que a sexualidade se manifeste sob formas pervertidas, embora extremamente poderosas. O sexo é usado na publicidade para vender um pouco de tudo, desde carros a ferramentas eficazes, seja por meios subliminares, seja através da exibição de mulheres seminuas colocadas junto ao objecto que se tenciona vender. Tal justaposição só tem um sentido lógico quando compreendemos que estamos a ser dominados pela nossa sexualidade reprimida. Nos filmes contemporâneos (e na vida contemporânea) a sexualidade é, regra geral, acompanhada de violência. Estupro, sedução violenta, abuso sexual de crianças, pornografia, sado-masoquismo, bem como a imagem mais subtil, embora ainda mais disseminada, de relacionamentos sexuais nos quais um parceiro (ou ambos) é transformado em objecto, todos atestam a realidade da possessão da nossa cultura pela Sombra.

Algumas pessoas com uma mentalidade de Guerreiro pressupõem que a resposta a este dilema será matar o dragão, ou seja, banir a sexualidade, interior e exterior. Mas isto implicaria ainda mais repressão, já que os monstros se tornariam maiores e a possessão mais acentuada. Quando o Guerreiro alcança uma compreensão mais profunda do seu arquétipo, aprende a enfrentar o dragão e a reconhecer que ele é perigoso – para ele e para os outros. Quando as pessoas integram a maior parte das suas sombras, despendem menos energia na repressão e na negação da sua realidade interna. Perdem menos tempo em batalhas inglórias, pois deixam de projectar com tanta frequência as suas sombras sobre os outros.

O Guerreiro acredita que precisamos de obrigar as pessoas a entrar num mundo novo, mas o Sábio sabe que só precisamos de ter mundos pelos quais optar. As pessoas são naturalmente atraídas por uma vida elevada e acabarão por gravitar até ela. Existem muito mais coisas à nossa disposição neste momento do que a maioria da humanidade jamais teve a oportunidade de usufruir. Quanto mais livres e criativas as pessoas se tornarem, mais oportunidades haverá à sua disposição.

Os Sábios não tentam forçar a mudança social, pois reconhecem que as pessoas precisam, antes de mais, de empreender as suas jornadas, para que possam viver num mundo efectivamente humanitário e pacífico. Por outro lado, reconhecem que muitas manifestações da nossa cultura retardam artificialmente as pessoas, mantendo-as desnecessariamente estacionárias. Actuam, então, como ímanes, que atraem e galvanizam a energia positiva necessária para a mudança. Podem fazê-lo identificando os aspectos que conduzem ao crescimento de indivíduos, instituições ou grupos sociais, para assim incrementarem esse mesmo crescimento.

Os Sábios conseguem infundir esperança nas outras pessoas, porque acreditam que é possível ter um mundo pacífico, humanitário, justo e zeloso: aprenderam a ser pacíficos, carinhosos, a respeitar os outros e a respeitar-se! Ademais, atraem aquilo que são e, por isso, também existem muitos aspectos das suas vidas que ilustram esse mesmo mundo.

Sabem que, quando abrimos os nossos corações, temos sempre amor suficiente. Que quando paramos de entesourar talentos, ideias, bens materiais, somos sempre prósperos. Que criamos a escassez através dos nossos medos, e que, quando oferecemos inteiramente os dons das nossas vidas ao universo e ao outro, encontramos o nosso verdadeiro trabalho, os nossos verdadeiros amores, e experimentamos a plenitude da nossa verdadeira natureza, que é sempre bondosa. Os Sábios acreditam que a vida pode ser alegria e abundância, a partir da experiência real das suas próprias vidas.

 
1 Comentário

Publicado por em 2007 em arquétipos, o Sábio, símbolos

 

One response to “O Sábio

  1. antonia regina correia

    2012 at 7:30 pm

    muito bom e verdadeiro este ensinamento, gostei muito são
    palavras de sabedoria.

     

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