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O Cativeiro

02 Nov

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

Anterior: O Nómada/O Cativeiro

O Cativeiro (cont.)

Quando começam a ver o mundo e se começam a ver a si mesmos com os seus próprios olhos, os Nómadas têm medo de que a punição por essa atitude seja o isolamento perpétuo ou, no sentido mais extremo, a morte solitária e a pobreza. Não obstante esse medo – que se prende com o terror infantil de não se conseguir sobreviver se não se agradar aos outros (aos pais, aos professores, aos chefes, aos companheiros) – os Nómadas tomam a decisão de abandonar o universo conhecido em prol do desconhecido.

São várias as formas de estarmos sozinhos. Uma delas consiste em viver sozinho, viajar sozinho, passar o tempo sozinho. Poucas são as pessoas que adoptam essa forma por muito tempo. Existem outras maneiras de estarmos sozinhos, algumas delas com a desvantagem de mascararem a nossa solidão, mesmo para nós mesmos. Uma forma de estarmos sozinhos consiste em não prestarmos atenção ao que sentimos e queremos e em darmos aos outros aquilo que pensamos que eles querem. Consiste em sermos o que nós pensamos que eles querem que sejamos. Outra forma é tratarmos as pessoas como objectos para gratificação dos nossos próprios desejos.

Uma outra maneira de estarmos sozinhos é representarmos sempre um papel: a mulher ou o homem perfeitos, a mãe ou o pai perfeitos, o patrão ou o empregado perfeitos. Continuar a viver com a nossa família, mesmo quando não nos damos bem com ela; manter um péssimo casamento; ter companheiros de quarto com os quais temos poucas coisas em comum. Uma mulher pode convencer-se de que todos os homens são chauvinistas e um homem convencer-se de que todas as mulheres são prostitutas ardilosas. Se queremos realmente ficar sozinhos, podemos convencer-nos de que todos nos querem magoar ou que todos desejam algo de nós.

Devo acrescentar que, na verdade, todas essas estratégias demonstram que temos imaginação suficiente para assegurar a realização das nossas jornadas. O próprio vazio e vulnerabilidade resultantes dessas abordagens erradas da vida motivam muitos de nós a empreender as suas jornadas e a descobrir ou a criar uma personalidade nova. Muitas pessoas conseguem sentir-se alienadas e ser solitárias durante toda a vida, sem jamais crescer ou mudar, mas outras utilizam essas ocasiões para serem “heróis secretos”, acalentando novas ideias e imaginando novas alternativas, enquanto que à superfície continuam a levar a vida enfadonha de sempre.

Uma mulher que conheço relembrava um casamento de onze anos, extremamente convencional e superficial, que tinha funcionado como um porto seguro, um casulo no qual ela se ocultara enquanto se preparava para voar. Durante o casamento, porém, não se tinha apercebido disso. Na verdade, foi o vazio do seu papel tradicional e a solidão desse relacionamento conjugal que a levou a empreender a busca. Para muitas pessoas, a vontade de cortar com a alienação do cativeiro constitui o estádio inicial do Nómada, seguido da escolha consciente de empreender a jornada.

Quando chega a hora de iniciar a jornada, o Nómada sentir-se-á sozinho, seja ou não casado, tenha ou não filhos e amigos, tenha ou não um trabalho prestigiante. Não há como evitar essa experiência. Todas as tentativas nesse sentido apenas reprimem a consciência do nosso estado, de forma que demoramos mais na aprendizagem das lições e, assim, permanecemos mais tempo solitários. Embora certas pessoas iniciem a sua busca com um elevado sentido de aventura, muitas passam por ela como algo que lhes é imposto, seja pelo sentimento de alienação ou claustrofobia que experimentam, seja pela morte de um ente querido, ou por terem sido alvo de abandono ou de traição.

Nos antigos mitos heróicos, o jovem herói é motivado a prosseguir a sua jornada solitária porque o reino se tornou uma terra estéril. Nessas histórias, o velho rei é visto como a causa dessa desolação; talvez seja impotente ou tenha cometido um crime. Noutras histórias, o rei é um tirano. O aspirante a herói parte rumo ao desconhecido, enfrenta o dragão, encontra um tesouro (o Graal, um peixe sagrado) e retorna, trazendo consigo o elemento necessário para proporcionar vida nova ao reino. É então sagrado rei.

A convicção de que temos de comprometer partes cruciais de nosso ser, a fim de nos ajustarmos ao mundo à nossa volta, põe em evidência tanto a nossa necessidade de amor como a nossa necessidade, igualmente forte, de explorar quem somos. A tensão entre esses impulsos, extremamente fortes e aparentemente conflituosos, leva-nos, em primeiro lugar, a abandonar partes importantes de nossa personalidade, a fim de nos ajustarmos e, dessa forma, a aprendermos o quanto o amor e o sentir-se ajustado significam para nós. Em último lugar, essa mesma tensão leva-nos a optar radicalmente por nós mesmos e pelas nossas jornadas, como coisas ainda mais importantes do que os cuidados a ter com os outros, ou do que a nossa própria sobrevivência.

Como a nossa cultura glorifica excessivamente a jornada solitária e árdua do herói clássico, e como a cultura precisa muito de pessoas capazes de colaborar, tem havido um grande desencanto com o ideal heróico do Nómada. O problema do Nómada, assim como o do Mártir, não é o arquétipo em si, mas sim a confusão acerca do significado do arquétipo para cada um de nós. Assim como o martírio é destrutivo quando o sofrimento se justifica por si mesmo, a solidão pode ser uma fuga à comunidade, destrutiva também se se quiser afirmar como um valor em si mesma. Por exemplo, se a maturidade for equiparada à independência, e se esta for definida como o facto de não ter necessidade dos outros, tal situação pode interromper o crescimento normal de um indivíduo.

Contudo, optarmos absolutamente por nós mesmos e pela nossa integridade, mesmo que isto signifique solidão e ausência de amor, constitui um pré-requisito do heroísmo e, em última análise, da capacidade de amar outras pessoas, permanecendo, ao mesmo tempo, autónomo. Isso é fundamental para a criação de limites adequados, para que possamos perceber a diferença que existe entre nós e o outro

Assim, o Nómada arquetípico parte da dependência para a independência, para uma autonomia definida no contexto da interdependência. Muitos daqueles que aprenderam a acolher a independência, e até mesmo a solidão, descobrem mais tarde que sentem falta das relações humanas. Entretanto, tornaram-se capazes de experimentar a intimidade a um novo nível, porque desenvolveram uma consciência suficientemente forte do seu próprio ser e não temem ser engolidos pelo outro. Para sua surpresa, costumam descobrir, quando estão prontos, que existem pessoas e comunidades que irão amá-los exactamente pelo que eles são.

Quando solucionamos o conflito entre amor e autonomia, optando por nós mesmos, sem negarmos o desejo de relacionamento, esse conflito, que antes nos parecia insolúvel, resolve-se. Nessa nova maneira de ver o mundo, a recompensa por sermos “inteiros” e totalmente nós mesmos é o amor, o respeito e a comunhão.

 
 

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