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A parede

26 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

A parede

No sonho, como na vida, a parede é uma imagem de separação. Aquele que ergue uma parede busca sempre protecção. Mas a parede isola, fecha, limita. Uma parede simboliza sempre o aprisionamento. Seja de que lado estivermos, a liberdade está sempre do outro lado! Uma parede imaginária existe para ser escalada. O paciente que ultrapassa a parede estabelece uma conexão com conteúdos recalcados do inconsciente.

A parede do sonho não é um obstáculo que se opõe. A parede do sonho é feita para ser transposta. A parede e a transparência são imagens complementares. De tal forma que devemos considerá-las equivalentes psicológicos, valores oníricos complementares. Se assim não fosse, só haveria paredes tristes, simbolizando um aprisionamento sem esperança. A parede do sonho é uma provocação dinâmica, um convite ao movimento. A parede imaginária é a manifestação de um obstáculo que bloqueia a evolução da psique.

Quando tinha 34 anos, Alain teve um sonho com uma parede. Veio à consulta num estado de profunda depressão e sob o efeito de doses medicamentosas impressionantes. Na companhia onde trabalhava era dominado pelos colegas e sentia-se paralisado por inibições que faziam da sua vida privada um inferno.

As primeiras oito sessões permitiram o abandono da totalidade dos medicamentos. Dois meses mais tarde, exprime vontade de reatar as sessões. Durante uma dezena destas, começa por pronunciar apenas uma palavra. Insere-a depois numa curta frase:

Uma parede!…Vejo uma parede…estava a passear…há uma parede diante de mim, que me barra o caminho…uma parede muito alta, quase impossível de escalar…no entanto, tenho de ir para o outro lado da parede…não posso desviar-me dela…queria voltar atrás…mas o caminho que ali me conduziu apagou-se…estou diante dela…tenho de encontrar uma forma…mas só existe a parede…não há árvores…é muito alta e lisa…deve ser muito grande…é impossível contorná-la mas tenho de o fazer…

Tenho de ir para o outro lado porque…sei que é um outro mundo…sei que há vegetação…a vida está do outro lado…não sei de onde venho mas a vida está lá…não sei o que me conduziu até aqui, mas sei que tenho de ultrapassar esta parede…a todo o custo…vou escavar por debaixo dela…mas não tenho utensílios…só tenho uma pedra cortante…começo a escavar…o chão não é muito duro…encontro uma pedra melhor…escavo mais rapidamente…tenho cada vez mais pressa de passar para o outro lado…mas, a dada altura, apercebo-me de que a parede também está construída em profundidade…fico desesperado…

Só me resta contorná-la por cima…tento fazer um degrau com a terra que extraí…mas só fico um pouco mais alto…tenho de derrubar as suas pedras com o calhau que tenho…fazer um buraco pequeno…ao fim de algumas horas consegui abrir uma fresta…consigo atingir o cimo à custa de esforços sobre-humanos…a força que tinha no início continuo a tê-la…se não conseguir ultrapassar a parede nos próximos minutos, sinto que nunca mais o farei… e estarei perdido porque não posso voltar atrás…quando passo para o lado de lá tudo é diferente do que eu conhecia…há vegetação, um campo, um prado…tudo é novo para mim…não sei o que deixei para trás mas sei que fugi…era uma vida difícil…sem liberdade…sem poder ter ideias próprias…quando pergunto às pessoas se elas sabem o que está por detrás da parede, respondem-me que sabem apenas que a vida pára diante da parede…

Ter tido a possibilidade de passar para lá da parede permitiu-me apagar toda uma parte da minha vida…já não me lembro de nada…agora que estou do lado bom, vou conhecer melhor este mundo maravilhoso. Tudo é alegre…os pássaros cantam…as pessoas sorriem…sinto-me um pouco estranho entre eles…continuo o meu caminho…sinto-me mais relaxado…chego a uma aldeia…as pessoas são como eu…falamo-nos.

Sei que a escalada da parede me permitiu aceder a uma vida normal…a uma vida mais livre…a parede era uma muralha, uma forma de me impedir de me exprimir…neste mundo sinto-me forte, escutado e respeitado…

A passagem da parede foi a origem de uma transformação radical na vida de Alain. A liberdade de ser que o esperava do outro lado do obstáculo não era apenas um sonho compensatório para o seu sofrimento, mas uma nova forma de enfrentar a vida.

Quando estava junto à parede, Alain lamentava não ter utensílios que lhe permitissem aceder ao outro lado. Os seus esforços revelam-se infrutíferos. Não é a utilização da racionalidade industriosa, da vontade de dominação que ajudarão o paciente a encontrar a sua liberdade.

O acesso à vida livre depende do abandono desta pretensão. O que o salva é a intervenção que ele qualifica de “quase sobrenatural” e que tem a ver com a reabilitação das emoções.

A parede do sonho é um agente provocador que se presta a ser transposto e que permite o acesso ao natural. É uma das imagens mais determinantes da dinâmica da realização do Si Mesmo.

 
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Publicado por em 2007 em parede, símbolos

 

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