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A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

22 Fev

Etienne Perrot
Péril nucléaire et transformation de l’homme.
Conférences sur la vie intérieure
Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

(excertos adaptados)

A angústia dos tempos e o caminho da paz

Se escolhi este título, não foi por preocupação de demagogia ou para estar na moda. A realidade é bem diferente. Se as gerações que nos precederam conheceram a ansiedade diante da infelicidade do tempo, a nossa é mais precisamente a época em que a ansiedade e o medo aparecem de uma forma extremamente precisa. Todo aquele que recebe as confidências de seres normais, às voltas com problemas normais, tendo uma situação normal, uma boa posição social, etc., não pode deixar de se sentir chocado com a clivagem que existe entre uma aparência feliz, dinâmica, progressista, e o fosso, o vazio que tal aparência encobre.

Se aqui falo esta noite, é na qualidade de representante de uma percepção e de uma voz, cujo eco encontrei em mim e à minha volta, em pessoas que despertaram para esta maneira de ver na sequência de indicações, de directrizes, de sugestões vindas do interior. Essa voz imemorial da humanidade foi transmitida por Carl Gustav Jung (entre outros), falecido há vinte anos em Zurique, e que passou a sua juventude em Bâle, onde se formou o seu destino e delineou a sua carreira. Jung teve a intuição genial de que existe um sentido no ser, e um sentido que está para além do indivíduo, sentido esse que faz desabar as doutrinas e fere de caducidade muitos discursos. Tinha junto de si o pai, pastor protestante, que ele respeitava e que tinha visto praticamente morrer por ter perdido a fé.

Qual era o drama deste homem? Ele sentia que a sua noção de Deus era demasiado estreita, que não recobria a sua experiência vital, que não recobria a sua vida, e isso, Jung sabia-o desde a sua adolescência. Tendo decidido dedicar-se à exploração do homem em toda a sua amplitude, compreendeu que a sua via seria a psiquiatria, a medicina da alma: por meio dela, poderia abordar a totalidade do indivíduo. Deu-se conta de que havia para cada um de nós uma espécie de pano de fundo, todo um domínio que se manifestava sobretudo em actos realizados casualmente e nos sonhos. Foi assim que encontrou Freud. É conhecida a colaboração de Freud e de Jung que durou sete anos. Jung tinha sentido, desde o início, que ela não poderia ir muito mais além, por não ser sua intenção, em absoluto, limitar o domínio que se lhe oferecia à exploração.

Não suportava que se fizesse deste o objecto de uma teoria destinada a reduzir fenómenos demasiado desconfortáveis de observar, porque demasiado vastos e envolvendo em demasia o destino do observador, obrigando-o, a ele próprio, a uma transformação. Separou-se de Freud, mergulhou nos abismos, deixou emergir de dentro de si imagens e forças até então mantidas na retaguarda; viveu durante cinco anos aquilo a que deu o nome de confronto com o inconsciente, uma aventura vital, um corpo a corpo sem tréguas que, curiosamente, durou o espaço da Primeira Guerra Mundial, guerra que Jung tinha vislumbrado, numa visão de 1913, pressentindo-a anunciar‑se e abater-se sobre a Europa.

No final dessa exploração, sentiu que uma paz se instalava dentro dele, uma paz que ele representou por símbolos de totalidade que apareciam espontaneamente sob o seu pincel ou caneta. Designou-os pelo nome sânscrito de mandala e deu-lhes o nome filosófico de Si Mesmo, por oposição ao “eu”. Não inventou este nome, foi buscá-lo à filosofia da Índia para o tornar algo de bem diferente de um conceito filosófico. Para os hindus, o indivíduo possui uma essência sagrada, divina. Há um deus interior a que se dá o nome de Atman, e este deus interior é, ao mesmo tempo, a alma do universo; este nome é igualmente o pronome reflexo “Si”.

Jung tinha sentido instalar-se nele aquilo que designa por objectividade psíquica: “Tenho humores, movimentos contraditórios, surgem em mim imagens, ora obscuras ora claras, ora agressivas ora amigáveis, mas, se me dedicar à sua observação de uma forma serena, dizendo-me que este desenrolar tem sentido e se dirige para um objectivo, vejo estabelecer-se uma harmonia, operar-se uma reconciliação entre os contrários. Sou muito naturalmente um indivíduo com a minha equação pessoal, as minhas exaltações, as minhas impaciências, os meus pequenos senãos, mas sei que isso é a minha superfície e que há, por detrás, um centro imutável, um oceano de paz, ou ainda, por outras palavras, um sol sem ocaso, uma flor de ouro imortal, uma estrela.”

Isto não é uma afirmação filosófica ou um ideal a que ligar uma crença. É antes uma experiência, uma realidade empírica que pode ser constatada e que impregna uma vida, a centra e lhe dá sentido. Eis o alcance da experiência vital levada a cabo por Jung, e eis que este nos tornou capazes de a vivermos também, não como uma crença, não como um programa que é preciso realizar à força de concentração e meditações, mas como uma respiração, como um ponto de chegada, fruto de uma atitude que me vou esforçar por descrever.


* Palavras pronunciadas em Mulhouse, em Abril de 1982.

Continuação:

  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  II
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  III
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV 
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    2 Comentários

    Publicado por em 2010 em símbolos

     

    2 responses to “A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    1. Rose Motta

      2010 at 3:54 am

      Quando tinha 23 para24 anos na busca de tentar saber quem sou entrei numa livraria passeando por éla encontrei um livro chamado o homem e seus simbolos comprei héra carro pra mim quando li fiquei apaixonada por aquele HOMEM tão corajoso aos meus olhos por compartilhar um conhecimento considerado dificil pra pessoas comuns como eu aconselhado por um sonho que ele descreve no comeso do livro eu pensei sr jung o sr escreveu para pessoas no mundo inteiro que como eu pensão ser a vida algo maior.agora 21 anos depois encontro essa pg que considero de grande importacia para o conhecimento HUMANO obrigada

       
    2. Daniela

      2011 at 8:12 pm

      Pôxa que organização!
      Parabéns, seu blog é bastante profissional, acolhedor, receptivo.
      Denota um grande trabalho.
      Agradeço de coração por compartilhar conosco!
      Cheguei aqui através do significado dos “golfinhos”.
      Sou analista junguiana, trabalho com os Toques Sutis.
      Prazer!
      Dani

       

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