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O gigante

26 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

O gigante

A análise dos sonhos faz surgir duas correlações presentes em 60% dos cenários estudados. A primeira, determinante para a nossa interpretação, diz respeito à relação com os outros e, mais precisamente, a um estado de dificuldade de relacionamento cuja origem é a exaltação do desejo de dominação. A segunda é relativa à presença, na proximidade do gigante, da imagem do anão, da pequenez extrema.

Estas duas associações merecem ser desenvolvidas. A primeira considera os Titãs, opostos a Zeus e aspirando a destruir o Olimpo, como a figuração de uma revolta contra o espírito. Eles simbolizam um desvio perverso da ânsia de evolução em proveito da banalização, de uma vontade de satisfazer os desejos terrenos.

Paul Diel adianta que, diferentemente da banalização dionisíaca que se desenvolve no plano das aspirações sexuais, a banalização titânica é uma perversão da sociabilidade que se traduz por uma tendência para a dominação. É então fácil mostrar que cada sonhador que se presta a vivenciar esse confronto – por vezes mesmo até à identificação com a imagem do gigante – é esmagado até à impotência pela desmesura da ambição que nele habita!

A segunda associação que mostra que a imagem do anão está sempre pronta a surgir perto da do gigante exige um tratamento mais circunspecto. Seria presunçoso imputar o aparecimento simultâneo destas manifestações contrárias à tendência da dinâmica do imaginário para aproximar os opostos.

Se a intervenção do gigante no sonho provoca, com grande regularidade, a expressão da redução de tamanho, não se trata de uma alteração de valores mas, inegavelmente, de uma relação de grandezas. O sonhador – 80% das imagens do gigante são produzidas por homens – que se mede comparativamente ao exageradamente grande, coloca-se, naturalmente, na situação do exageradamente pequeno.

Quase todas as pessoas que acolhem esta figura impressionante se mostram impotentes para realizar uma comunhão satisfatória com o seu meio. Debruçadas sobre os seus próprios medos, podem dar a impressão de ter escolhido a filosofia do misantropo, enquanto, ao mesmo tempo, se queixam de não existir no olhar dos outros.

Com efeito, se tais pessoas são rejeitadas, sem realmente disso terem consciência, é porque a sua ambição secreta não é a de se colocarem no meio dos outros mas por cima dos outros. Quanto mais forte for o desejo de domínio material, mais desmesurado é o gigante do sonho. O gigante onírico escapa a qualquer escala de medida humana.

Quanto maior for o gigante, mais ele trai a desmesura das aspirações materiais. Desmesura é o termo correcto porque exprime a fatalidade do aumento do divórcio entre a ambição e as possibilidades do sonhador. Quanto mais cresce a ênfase posta no objectivo de poder, tanto mais o sentimento de impotência invade a pessoa.

Quanto mais o gigante cresce, por uma espécie de inflação psíquica, tanto mais o sonhador é relegado à sua pequenez, ao sentimento da sua nulidade. A banalização titânica, devoradora de energia, conduz à subtensão psíquica.

A personagem gigantesca é o indício de uma ilusão perigosa que leva a acreditar ser possível negar a necessidade de realização espiritual em proveito do desejo de domínio pela força. O espírito de competição, do qual se reconhecerá a virtude estimulante, torna-se, na sua versão exaltada, uma religião perversa que transforma em impasse os caminhos de esperança.

 
 

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