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O pavão

11 Out

Georges Romey
Le Test de L’Arche de Noé
Paris, Robert Laffont, 1977
Excertos adaptados

O pavão

Vários séculos de expressão literária fizeram recair nas plumas do pavão o peso de todos os tesouros do mundo. E todos os tesouros do mundo – mesmo literários – são um fardo pesado. Não deveremos ter dó da alma que se põe a sonhar diante do pavão, a alma que se compraz nesta imagem, e que encontra um prolongamento psicológico para lá das plumas do pavão?

Mas será que existe algo para além do tesouro? Tal como a luz não penetra a superfície do metal polido, porque este a devolve, a alma só pode reflectir-se nos cem olhos da roda magnífica. Para lá do tesouro não há nada; apenas o vazio. Isto é fácil de demonstrar. A imaginação que se exibe junto da água pode estar a aguardar um destino, quer se trate de águas em movimento ou de águas estagnadas. Para além da superfície que favorece o sonho, há um futuro de liberdade purificada ou de renúncia nostálgica: a água não pára o sonho. Precede-o, continua-o, abre caminhos de acolhimento à fantasia imaginativa.

Diante das mil jóias do pavão, a fantasia quebra-se ou reflecte-se. Não se trata de uma união íntima, de penetração do imaginado pelo que imagina. A dinâmica da fantasia já não segue um caminho evolutivo; volta-se sobre si mesma no vaivém perpétuo do movimento narcísico. A expressão “olhar no fundo dos olhos” não resiste à análise. Os olhares enfrentam-se, agradam-se, rejeitam-se, cruzam-se, dão-se, atraem-se, procuram-se, mas não se penetram! Com a equivalência do símbolo aos cem olhos, o valor psicológico junta-se à verdade física.

O sonho diante do pavão é um sonho diante do espelho. Não é o impulso em direcção ao cerne das coisas; é a interrogação egoísta diante de uma superfície reflectora multiplicada. A atitude narcísica não é uma procura de aprofundamento procedente de um espírito de descoberta; é uma busca de indícios que devem confirmar o que constitui o postulado profundo: a satisfação de si próprio.

Haverá neste animal, para além dos seus adornos animados, uma capacidade real para voar no céu da vida e no dos nossos sonhos? Gaston Bachelard, cujas citações utilizarei frequentemente no decurso deste capítulo, assinala a pertença do pavão ao mundo terrestre: Não se pode – afirma ele – ser ao mesmo tempo cotovia e pavão! O pavão é eminentemente terrestre. É um museu mineral.

Quando tivermos visto de que modo a cotovia vive em nós como símbolo de uma alegria que se dirige verticalmente, compreenderemos melhor o quanto esta comparação liga o pavão e o seu tesouro a valores de um peso melancólico. Se encarna simbolicamente a verdade, o pavão poderia oferecer a espíritos arcados pelos diferentes elementos a oportunidade de se aperceberem da forma de vaidade que lhes é própria.

O culto budista também designa o pavão como um dos símbolos da ligação aos valores da aparência e da renúncia destes valores através de uma tomada de consciência. Mas por que razão a imagem do pavão, que sublinha a ideia da profusão das cores, da magnificência matizada, implica, ou pode implicar, a tomada de consciência e a renúncia aos valores da aparência? Por que razão uma junção de cores pode ser vivida como um excesso de cores?

O pavão é o fogo de artifício, a magia do caleidoscópio. Gaston Bachelard constata também o nosso sentimento de derrota diante de tantas cores:

Diante da profusão deixa de haver centro de contemplação, logo, deixa de haver contemplação. O excesso ultrapassa, na sua essência, a intuição. Desloca constantemente a admiração. Cansa a própria admiração.

Até agora, dei especial relevo às imagens que mostram o pavão adornado de jóias, de estrelas, de olhos, e de flores… Mas os textos insistem também na profusão de cores. O pássaro matizado! Com excepção de alguns aspectos, o que é verdadeiro para o pavão é-o para todos os pássaros ornados de múltiplas cores. Bachelard transforma a noção de pedras em cores e a noção de cores em multiplicidade:

As gemas encontram-se nos sonhos sobre a gruta iluminada e são sempre de cores várias e múltiplas. São imensas. São, por assim dizer, esta estranha cor onírica da multiplicidade matizada, que poderíamos apelidar de cor do inúmero. Dispersam o encantamento. Então, o sonhador, como se muitas luzes dividissem a sua visão, como se tantas cores descoordenassem a sua vida nervosa, perde o fio do seu sonho!

Diante de uma tal perspicácia analítica, o espírito enche-se de admiração. Estas frases contêm tudo. Como se tantas cores descoordenassem a sua vida nervosa! É exactamente isso o que se passa!

A maior parte dos textos sobre o pavão fazem alusão ao início do mundo. Parece que a criação dos seres animados está inscrita no espírito humano sob o signo da cor e da polimorfia animal. O leitor atento encontra nestes textos um determinismo de palavras, imagens e conceitos que me maravilha sem cessar. Um exemplo da associação cores-criação existe também na forma como a mitologia australiana descreve as origens do mundo. Os Australianos chamam a esta época da criação “a era do sonho”, porque acreditam que seres primordiais deram nascimento aos homens e aos animais no decurso dos seus sonhos.

Mircea Eliade escreve a este propósito: Walanganda “sonhava“ os seres que criava. Lançou do alto do céu uma “força espiritual”, e deu-lhe a forma de imagens. Estas estavam pintadas de vermelho, branco e preto, enquanto outras eram amarelo e ocre…

O inconsciente do homem tem, sem dúvida, a certeza, profundamente enraizada, de que o Deus criador é o distribuidor das cores. Esta afirmação tende a conferir à mentalidade que se identifica com o pássaro multicolor um orgulho de uma dimensão inultrapassável: a identificação do homem com Deus!

Dificilmente um ser que se julga Deus exprimiria melhor o seu delírio, a associação das cores, e a fantasia da criação! Uma vez que estou a falar da fantasia cristalina, da multiplicidade matizada e da prisão narcísica, vou contar uma história verdadeira que ilustra esta relação. Esta história demonstra que a análise das reacções não é um simples exercício intelectual, mas diz antes respeito à vida do homem, aos seus comportamentos e suas consequências muito concretas.

Escrevi “história” e não “episódio”, uma vez que se trata de quinze anos na vida de um homem. Um pouco mais de quinze anos separa o surgimento dos primeiros indícios simbólicos na psicologia de Jean D. da tomada de consciência salvífica através de uma prova difícil.

Jean D. tem quinze anos quando descobre, numa excursão a uma montanha, o fascínio que a contemplação de um cristal de rocha pode provocar. Disse-me que se apaixonou por estas pontas de quartzo translúcido que arrancou da rocha. Jean já era então um homem só. Toda a sua personalidade estava dividida entre a avidez imperiosa e incertezas alimentadas por um meio familiar desequilibrado.

Devido à falta de apoio moral, não pode tomar consciência das suas qualidades, nem teve forma de as exteriorizar. Agarra-se então a uma fantasia de poder e a uma atitude vaidosa compensatórias. Seguindo um ciclo clássico, a compensação narcísica cria dificuldades nos contactos que, por sua vez, reforçam a necessidade de isolamento. A sua evolução decorre, nem bem nem mal, num mundo que deve muito ao imaginário.

Durante anos, conservou essas pontas de quartzo, que tinham para ele o valor de um talismã. Na sua fantasia, o quartzo tornou-se diamante, mas são as pontas que o marcam, que exercem sobre a sua imaginação a atracção dos enigmas tenazes.

Jean D. tem vinte e dois anos quando tem um sonho que se inscreve na mesma área simbólica. Uma águia cai, do céu, numa fogueira acesa em pleno ar. O pássaro transforma-se num cilindro estreito de vidro transparente, oco, com cerca de 80 cm de altura, e fica em posição vertical no meio da fogueira. Jean lança um projéctil que parte o vidro e o transforma em serpente.

A queda da águia poderia representar uma certa tomada de consciência da cupidez ambiciosa. Mas o sonho é antes uma tentativa de agarrar uma totalidade que reúna todos os valores da verticalidade. Para Jean é uma ocasião de tomar consciência de que sucumbe no seu esforço para agarrar a unidade impossível. Porém, este não compreende a mensagem do inconsciente que lhe mostra que só agarra vazio. A elevação é, para ele, sinónimo de orgulho dominador (a águia), e o plano terreno representa a vaidade maldosa (a serpente).

Esta imagem é, ao mesmo tempo, uma promessa: quando aparece a serpente, a reactivação criativa dos impulsos não está longe. Vários anos decorrerão, porém, até que se produza o acontecimento que derrubará as resistências narcísicas de Jean e que lhe abrirá o caminho da realidade. Este acontecimento não será desprovido de dor, mas os resultados são à escala das provas.

Jean está casado há quatro anos e é pai de família quando, aos vinte e oito anos, se apaixona por uma jovem. É correspondido e segue-se uma aventura breve, mas que perturba a psicologia de Jean. É importante compreender por que motivo Jean, que está apaixonado pela sua mulher, se deixou aprisionar por uma projecção tão forte, que só ultrapassou à custa de uma crise íntima muito grave. Além do facto de ser muito bonita, a jovem tinha quatro características determinantes: era vaidosa, tinha um nariz afilado, era muito magra e alta, e tinha os pés maiores que o normal: pormenores surpreendentes, mas que se ligam à última imagem da história.

Disse que esta aventura abrira a Jean uma hipótese de contacto com a realidade. Mas o caminho ia ser longo. Quatro anos mais tarde, quando sonhava nostalgicamente com este episódio e quando vivia um paroxismo de comportamento dominador, apareceu-lhe esta surpreendente imagem: um pássaro estranho, sem carne, mas vivo. Uma cabeça pequena termina num nariz pontiagudo, feito de quartzo. O corpo é um tubo de vidro, em torno do qual estão dispostas plumas de todas as cores. Duas patas magras terminam em quatro dedos esticados e afastados.

Num ápice, compreende o seu orgulho, a insistência das suas motivações profundas, o carácter arcaico desta atitude, as projecções que o conduziam a esta mulher… Jean conta-me, então, a sua história e voltámos aos cristais de quartzo da adolescência. O leitor que me seguiu nesta história surpreendente terá compreendido que a jovem encarnava a própria vaidade de Jean. O gosto pelo par esbelto tem uma relação estreita com a psicologia da vaidade.

Para Jean, esta mulher é imaterial e asséptica, como o corpo de vidro do pássaro. O seu nariz afilado é uma etapa que conduz do quartzo original ao bico de quartzo do pássaro matizado. Os dedos espalmados, tal como os pés grandes da mulher, assinalam a dispersão dos impulsos na busca de objectivos vaidosos. Tudo isto é fácil de provar, mas não o faremos.

Só o relatei para dar conta da associação dos cristais, do pássaro matizado, da serpente, do orgulho da criação, do narcisismo. Eis o que me levou a contar a história de Jean: a pretensão de ser tudo e de tudo poder. Em vez de exprimir uma explicação das origens, a imagem do pavão pode denunciar uma das armadilhas da alma humana e um dos seus estados fundamentais!

A ponta de um cristal sugere a ideia de um movimento psicológico que vai da multiplicidade interior ao princípio da unidade que se encontra situado fora de nós. O ser dispõe da riqueza de impulsos múltiplos e concentra-os num único objectivo. A extremidade de uma ponta de cristal, centro de convergência, é uma quintessência da unidade, é um símbolo do impulso em direcção à concentração. Esta é a força essencial que os mitos exprimem através do poder mágico.

Na atitude narcísica, o sentido está invertido, a ponta está virada para nós. É uma psicologia que pretende captar a multiplicidade exterior, todos os elementos do mundo visível, e tirar proveito de uma convergência que faria dela o centro unitário! Isto liga-nos a todas as fantasias relativas às gemas, ao pavão, a todos os olhos coloridos de um mundo que admira a alma que os olha.

Para concluir, que tipo de pessoa sonha com o pavão? Talvez uma cuja psicologia é rica e receosa face à variedade das leis do mundo? O amor de si próprio poderia ter como origem o medo diante da diversidade difícil de agarrar? São os seres com a percepção mais rica que estão mais expostos ao desvio narcísico. Seja qual for o grau de inteligência conceptual daquele que cai na armadilha do espelho, podemos afirmar que os sentidos dominam o pensamento. São as impressões que comandam e a função pensamento que justifica.

É uma mentalidade de artista. Pode ter uma hiper-reactividade, uma actividade que se confunde quase com agitação, mas não está menos sujeita à inflexibilidade, no que diz respeito ao essencial. Fica petrificada pela preocupação de tudo abarcar, de tudo guardar, de se apropriar de tudo, de integrar tudo o que diz respeito aos valores universais, com a ideia subjacente de que é a primeira a dar-se conta deles. Tolera a ideia de que partilha essa percepção com algumas raras elites.

É uma psicologia na qual a estética é mais importante do que a moral, a beleza mais importante do que a bondade, a expressão do que o fundo, o parecer do que o ser… Pretende apreender as coisas de um ponto de vista novo e conferir-lhes o carácter de jóia única! Será o que Nietzsche quer dizer com Esta parábola é dedicada aos poetas. O seu espírito é o pavão maior de todos, um verdadeiro mar de vaidade.?

Uma tal mentalidade presta-se também a todas as subjectividades. Ou melhor, é a subjectividade por excelência. Uma vez que ela é o mundo e as suas leis, que é a pretensão da Unidade, só aprecia as coisas e as pessoas em função de si mesma. Não tolera contradições. Prefere a solidão, que favorece os sonhos, ao contacto com os homens, que reserva sempre confrontações dolorosas.

O que vier perturbar a beleza da fantasia acabada de construir encontra logo agressividade da sua parte. Assim, enquanto alguns têm necessidade de banhos de multidão, esta alma aspira a banhos de horizontes livres. A natureza é dócil e contenta-se em ser e deixar-se aprisionar em todos os seus sonhos!

Dominada, aparentemente, por um entusiasmo quase delirante, trata-se, no fundo, de uma mentalidade melancólica, triste, e a alegria de um mundo que se contenta em viver é-lhe quase insuportável. Não tem amigos. Amigos pelos quais esteja disposta a dar tudo. As suas relações mais próximas proporcionam objectos de análise e fornecem impressões que são partes de um mundo que o narcísico quer agarrar. Se essas pessoas não podem ensinar mais nada, a ruptura está próxima: já não servem!

Uma mentalidade assim adapta-se rapidamente aos dissabores materiais, o que não significa que o material lhe seja alheio. Mas o seu rancor é mais dirigido ao que a fere na sua vaidade do que ao que a lesa no plano material.

 

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