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A função dos símbolos

06 Out

Carl G. Jung (org.)
O Homem e os seus Símbolos
Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1987

Excertos adaptados

Ensaio sobre o inconsciente I

A função dos símbolos

Quando um psicanalista se interessa por símbolos, ocupa-se, em primeiro lugar, dos símbolos naturais, distintos dos símbolos culturais. Os primeiros são derivados dos conteúdos inconscientes da psique e, portanto, representam um número imenso de variações das imagens arquetípicas essenciais. Em alguns casos, pode-se chegar às suas origens mais arcaicas – isto é, a ideias e imagens que vamos encontrar nos registos mais antigos e nas sociedades mais primitivas. Os símbolos culturais, por outro lado, são aqueles que foram empregados para expressar “verdades eternas” e que ainda são utilizados em muitas religiões. Passaram por inúmeras transformações e mesmo por um longo processo de elaboração mais ou menos consciente, tornando-se assim imagens colectivas aceites pelas sociedades civilizadas.

O homem moderno não entende o quanto o seu racionalismo (que lhe destruiu a capacidade para reagir a ideias e símbolos numinosos) o deixou à mercê do submundo psíquico. Libertou-se das superstições (ou pelo menos pensa tê-lo feito), mas, neste processo, perdeu os seus valores espirituais numa escala positivamente alarmante. As suas tradições morais e espirituais desintegraram-se e, por este motivo, paga agora um preço elevado em termos de desorientação e dissociação universais.

Os antropólogos descreveram, muitas vezes, o que acontece a uma sociedade primitiva quando os seus valores espirituais sofrem o impacto da civilização moderna. A sua gente perde o sentido da vida, a sua organização social desintegra-se, os próprios indivíduos entram em decadência moral. Encontramo-nos agora em idênticas condições. Mas, na verdade, nunca chegamos a compreender a natureza do que perdemos, pois os nossos líderes espirituais, infelizmente, preocuparam-se mais em proteger as suas instituições do que em entender o mistério que os símbolos representam.

Na minha opinião, a fé não exclui a reflexão (a arma mais forte do homem); mas, desafortunadamente, numerosas pessoas religiosas parecem ter tamanho medo da ciência (e, incidentalmente, da psicologia) que se conservam cegas a estas forças psíquicas numinosas que regem, desde sempre, os destinos do homem. Despojamos todas as coisas do seu mistério e da sua numinosidade; e nada mais é sagrado.

Em épocas recuadas, enquanto os conceitos instintivos ainda se avolumavam no espírito do homem, a sua consciência podia, certamente, integrá-los numa disposição psíquica coerente. Mas o homem dito civilizado já não consegue fazê-lo. A sua consciência “avançada” privou-o dos meios de assimilar os contributos complementares dos instintos e do inconsciente. Estes meios de assimilação e de integração eram, exactamente, os símbolos numinosos tidos como sagrados por um consenso geral.

Hoje, por exemplo, fala-se da “matéria”. Descrevemos as suas propriedades físicas. Procedemos a experiências de laboratório para demonstrar alguns dos seus aspectos. Mas a palavra “matéria” permanece um conceito seco, inumano e puramente intelectual, e que para nós não tem qualquer significação psíquica. Como era diferente a imagem primitiva da matéria – a Grande Mãe – que podia conter e expressar todo o profundo sentido emocional da Mãe Terra! Do mesmo modo, o que era espírito identifica-se, actualmente, com intelecto e, assim, deixa de ser o Pai de Todos; degenerou até chegar aos limitados conhecimentos egocêntricos do homem. A imensa energia emocional expressa na imagem do “Pai Nosso” desvanece-se na areia de um verdadeiro deserto intelectual.

À medida que aumenta o conhecimento científico, diminui o grau de humanização do nosso mundo. O homem sente-se isolado no cosmos porque, já não estando envolvido com a natureza, perdeu a sua “identificação emocional inconsciente” com os fenómenos naturais. E os fenómenos naturais, por sua vez, perderam aos poucos as suas implicações simbólicas. Esta enorme perda é compensada pelos símbolos dos nossos sonhos. Eles revelam-nos a nossa natureza original, com os seus instintos e a sua forma peculiar de raciocínio. Lamentavelmente, no entanto, expressam os seus conteúdos na própria linguagem da natureza que, para nós, é estranha e incompreensível.

As palavras tornam-se fúteis quando não se sabe o que representam. Isto aplica-se especialmente à psicologia, onde se fala tanto de arquétipos como a anima e o animus, o homem sábio, a Grande Mãe, etc. Pode-se saber tudo a respeito dos santos, dos sábios, dos profetas, de todos os homens-deuses e de todas as mães-deusas adoradas pelo mundo fora. Mas se são meras imagens, cujo poder numinoso nunca experimentámos, será o mesmo que falar de um sonho, pois não se sabe do que se fala. As próprias palavras que usamos serão vazias e destituídas de valor. Elas só ganham sentido e vida quando se tenta levar em conta a sua numinosidade – isto é, a sua relação com o indivíduo vivo. Apenas então se começa a compreender que todos aqueles nomes significam muito pouco – o que importa é a maneira como estão relacionados connosco.

Reminiscências de memórias de infância e reproduções de comportamentos psíquicos, expressos por meio de arquétipos, podem alargar os nossos horizontes e aumentar o campo da nossa consciência – sob a condição de que os conteúdos readquiridos sejam assimilados e integrados na mente consciente. Como não são elementos neutros, a sua assimilação vai modificar a personalidade do indivíduo, já que também eles vão sofrer algumas alterações. Neste estado a que chamamos o processo de individuação, a interpretação dos símbolos exerce um papel prático de muito relevo, pois os símbolos representam tentativas naturais de reconciliação e união dos elementos antagónicos da psique.

Segue: Ensaio sobre o inconsciente V – A psique fala-nos?

 

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