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A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

Etienne Perrot
Péril nucléaire et transformation de l’homme.
Conférences sur la vie intérieure
Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

(excertos adaptados)

A angústia dos tempos e o caminho da paz

Se escolhi este título, não foi por preocupação de demagogia ou para estar na moda. A realidade é bem diferente. Se as gerações que nos precederam conheceram a ansiedade diante da infelicidade do tempo, a nossa é mais precisamente a época em que a ansiedade e o medo aparecem de uma forma extremamente precisa. Todo aquele que recebe as confidências de seres normais, às voltas com problemas normais, tendo uma situação normal, uma boa posição social, etc., não pode deixar de se sentir chocado com a clivagem que existe entre uma aparência feliz, dinâmica, progressista, e o fosso, o vazio que tal aparência encobre.

Se aqui falo esta noite, é na qualidade de representante de uma percepção e de uma voz, cujo eco encontrei em mim e à minha volta, em pessoas que despertaram para esta maneira de ver na sequência de indicações, de directrizes, de sugestões vindas do interior. Essa voz imemorial da humanidade foi transmitida por Carl Gustav Jung (entre outros), falecido há vinte anos em Zurique, e que passou a sua juventude em Bâle, onde se formou o seu destino e delineou a sua carreira. Jung teve a intuição genial de que existe um sentido no ser, e um sentido que está para além do indivíduo, sentido esse que faz desabar as doutrinas e fere de caducidade muitos discursos. Tinha junto de si o pai, pastor protestante, que ele respeitava e que tinha visto praticamente morrer por ter perdido a fé.

Qual era o drama deste homem? Ele sentia que a sua noção de Deus era demasiado estreita, que não recobria a sua experiência vital, que não recobria a sua vida, e isso, Jung sabia-o desde a sua adolescência. Tendo decidido dedicar-se à exploração do homem em toda a sua amplitude, compreendeu que a sua via seria a psiquiatria, a medicina da alma: por meio dela, poderia abordar a totalidade do indivíduo. Deu-se conta de que havia para cada um de nós uma espécie de pano de fundo, todo um domínio que se manifestava sobretudo em actos realizados casualmente e nos sonhos. Foi assim que encontrou Freud. É conhecida a colaboração de Freud e de Jung que durou sete anos. Jung tinha sentido, desde o início, que ela não poderia ir muito mais além, por não ser sua intenção, em absoluto, limitar o domínio que se lhe oferecia à exploração.

Não suportava que se fizesse deste o objecto de uma teoria destinada a reduzir fenómenos demasiado desconfortáveis de observar, porque demasiado vastos e envolvendo em demasia o destino do observador, obrigando-o, a ele próprio, a uma transformação. Separou-se de Freud, mergulhou nos abismos, deixou emergir de dentro de si imagens e forças até então mantidas na retaguarda; viveu durante cinco anos aquilo a que deu o nome de confronto com o inconsciente, uma aventura vital, um corpo a corpo sem tréguas que, curiosamente, durou o espaço da Primeira Guerra Mundial, guerra que Jung tinha vislumbrado, numa visão de 1913, pressentindo-a anunciar‑se e abater-se sobre a Europa.

No final dessa exploração, sentiu que uma paz se instalava dentro dele, uma paz que ele representou por símbolos de totalidade que apareciam espontaneamente sob o seu pincel ou caneta. Designou-os pelo nome sânscrito de mandala e deu-lhes o nome filosófico de Si Mesmo, por oposição ao “eu”. Não inventou este nome, foi buscá-lo à filosofia da Índia para o tornar algo de bem diferente de um conceito filosófico. Para os hindus, o indivíduo possui uma essência sagrada, divina. Há um deus interior a que se dá o nome de Atman, e este deus interior é, ao mesmo tempo, a alma do universo; este nome é igualmente o pronome reflexo “Si”.

Jung tinha sentido instalar-se nele aquilo que designa por objectividade psíquica: “Tenho humores, movimentos contraditórios, surgem em mim imagens, ora obscuras ora claras, ora agressivas ora amigáveis, mas, se me dedicar à sua observação de uma forma serena, dizendo-me que este desenrolar tem sentido e se dirige para um objectivo, vejo estabelecer-se uma harmonia, operar-se uma reconciliação entre os contrários. Sou muito naturalmente um indivíduo com a minha equação pessoal, as minhas exaltações, as minhas impaciências, os meus pequenos senãos, mas sei que isso é a minha superfície e que há, por detrás, um centro imutável, um oceano de paz, ou ainda, por outras palavras, um sol sem ocaso, uma flor de ouro imortal, uma estrela.”

Isto não é uma afirmação filosófica ou um ideal a que ligar uma crença. É antes uma experiência, uma realidade empírica que pode ser constatada e que impregna uma vida, a centra e lhe dá sentido. Eis o alcance da experiência vital levada a cabo por Jung, e eis que este nos tornou capazes de a vivermos também, não como uma crença, não como um programa que é preciso realizar à força de concentração e meditações, mas como uma respiração, como um ponto de chegada, fruto de uma atitude que me vou esforçar por descrever.


* Palavras pronunciadas em Mulhouse, em Abril de 1982.

Continuação:

  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  II
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  III
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV 
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    Publicado por em 2010 em símbolos

     

    A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    Etienne Perrot
    Péril nucléaire et transformation de l’homme.
    Conférences sur la vie intérieure
    Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

    (excertos adaptados)

    A angústia dos tempos e o caminho da paz  I

    Vivemos num mundo consciente, onde nos colocou a nossa educação, a nossa cultura. Fomos educados num quadro moral, seja ele religioso ou laico. Recebemos uma instrução centrada na aquisição de noções racionais, remetendo para o plano secundário toda a zona da imaginação e da emotividade. Esta é relegada para aquilo a que se dá o nome de inconsciente. O inconsciente não é apenas aquele receptáculo, aquela lata do lixo das pulsões sexuais a que Freud o quis reduzir; ele é, segundo o testemunho de Jung, a fonte das inspirações, a fonte do indivíduo, a fonte da vida psíquica, a fonte da expansão vital. Jung compreendeu que esse impulso em direcção à expansão era feito da reunião dos contrários e que ele aparecia, essencialmente e em primeiro lugar, nos sonhos.

     E é aqui que se encontra a intuição-chave, a extremidade do fio de Ariane que vos convido a agarrar. Freud tinha pronunciado esta fórmula admirável: Os sonhos são a via real do inconsciente. Mas não a explorou como poderia tê-lo feito, por causa do quadro intelectual e vital que era ainda o seu (tinha mais vinte e quatro anos do que Jung). Jung tomou à letra esta afirmação e quis explorá-la. Nós também. Vou fazer-lhes uma confissão: venho de muito longe, procurei muito, como se diz, no Oriente, no Ocidente, nas coisas antigas; depois, conheci a psicologia de Jung, a alquimia, a transformação que ela promete. Achei tudo isto apaixonante, mas pensei que, na prática, punha em jogo métodos demasiado complexos que aparecem nos conceitos que se encontram nos livros de Jung.

    Foi gradualmente, no decurso dos anos e da minha experiência, desde que me tornei, eu próprio, intérprete de sonhos, que compreendi que não éramos mestres nem psicólogos, seres que dirigem um processo, mas que éramos servidores desse processo, que estávamos à escuta do que se passa no interior. Não sou eu o mestre, mas o mestre está em mim, como em cada um de vós; fala pela voz dos sonhos. Não vou fazer aqui a história da interpretação dos sonhos através dos séculos. O que sei, o que vejo, o que posso comprovar é que, nesta angústia que é a nossa, neste caos intelectual e espiritual que é o nosso, neste desmoronar dos magistérios, nesta falência das igrejas, dos intelectualismos e das ideologias políticas, há uma fonte, uma luz que nasce. Este Deus não brilha na praça pública ou no céu das nações. Brilha humildemente no coração dos seres, no coração de cada um.

    Esta luz aparece nos sonhos, e nos sonhos vistos como devem sê-lo. Tive uma experiência marcante que data de há três anos, quando, por uma conjugação de circunstâncias, me foi dado “escutar” a alma francesa, acolhendo sonhos dos ouvintes da France-Inter. Vi aparecerem nesses sonhos revelações maravilhosas: nesta última semana, por exemplo, recebi a carta de um ouvinte que, com a mulher, mergulhou desde então no estudo dos seus sonhos. Voltou a ouvir as gravações, viu a sua vida transformada e vem agora perguntar‑me como poderiam ir ambos um pouco mais longe.

    O inconsciente, tal como o vemos aparecer, era, por definição, o que é obscuro, o que é desconhecido. É por isso que Jung chamou aos elementos mais importantes que se manifestam de início a sombra. A sombra é aquilo de que tenho medo, que me angustia, é a insegurança, é o inimigo. Enquanto não mergulhar em mim próprio, vou ver este inimigo fora de mim: será o partido contrário, será a nação que ameaça a minha. E assim como a minha nação toma medidas de defesa contra os que a ameaçam, esta ameaça que sinto pesar sobre mim é reenviada àquele que me ameaça, que se defende por sua vez.

    Assiste-se assim a um fenómeno de ressonância que – aprendemos em física – adquire uma amplitude cada vez maior, a ponto de poder acabar num desabamento ou numa explosão. Portanto, se me inclinar sobre aquilo que há em mim, dou conta de que o inimigo exterior é longínquo e hipotético e que tenho de me reconciliar inicialmente com aquela angústia obscura que existe em mim. Se me reaproximar dela, se dialogar com ela, conseguirei um apaziguamento, desmontarei a angústia. Se a desmonto em mim, desmonto também uma parte da angústia colectiva. Esta parcela de paz que se instalou em mim entra, então, no capital da colectividade à qual pertenço.

    Continuação:

  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  III
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV 
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    A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    Etienne Perrot
    Péril nucléaire et transformation de l’homme.
    Conférences sur la vie intérieure
    Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

    (excertos adaptados)
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   I
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   II
  • Não é por nada que os antigos alquimistas diziam que a Grande Obra consistia em transformar a obscuridade em luz, em obter, em primeiro lugar, o caos, o caos dos sábios, que nós interpretamos de uma forma muito simples. Devo deixar o limite, o meu pequeno universo bem balizado: “Basta fazer isto, basta fazer aquilo, uns são maus e outros são bons.” É preciso aceitar entrar numa incerteza, enfrentar aquele jogo de imagens e de emoções desconcertantes que são oferecidas pelo inconsciente e pelos sonhos. É isto a realização do caos dos sábios. Os alquimistas chamavam-lhe também nigredo, negrura, onde se encontra a mesma ideia de obscuridade. Diziam que a luz nele nascia gradualmente, a partir das trevas.

    Diziam ainda – eis um outro tema dos sonhos – que a Grande Obra consistia em extrair o ouro do excremento: aurum ex stercore. Devemos pois abandonar a nossa atitude de dignidade, de boa educação, aceitando o que Freud nos ensinou: que existem em nós pulsões, lodo. A diferença em relação ao que ensina ainda uma certa psicanálise sem alma, sem nobreza, sem aspiração, é que nós não nos enterramos nesse lodo. Tendo-o contemplado com um sentimento de humildade, mas também de confiança na vida e na sua amplitude, sabemos que a fé e o amor que dedicamos à vida nos permitirão integrar esta matéria indigna, ignóbil, num conjunto em que ela se harmonizará com o que há de mais elevado, em que o mais baixo alcançará o mais alto. Ainda na linguagem dos alquimistas, o céu e a terra desposar-se-ão, isto é, o inconsciente e o consciente aliar-se-ão para produzirem um fruto de paz e de claridade.

    Poderia, a este respeito, enumerar um sem número de sonhos, mas o importante é fornecer‑vos um fio condutor. Para ir um pouco mais longe, vou expor um outro sonho, relatado muito recentemente: Há uma fonte que corre, o curso é abundante, mas a cor da água é turva. A sonhadora sabe que se regressar à origem da fonte, a água tornar-se-á cada vez mais clara. Chega assim ao próprio orifício onde vê que uma água transparente corre através de tufos de ervas, como se vê nas fontes dos campos. E (isto é muito importante) ela sabe que se olhar com atenção para aquela nascente, o curso de água vai aumentar e a nascente vai tornar-se mais abundante.

     Aquilo a que vos convido é a aceitardes olhar em face a vossa nascente e não vos espantardes se a produção for de início feia e mesmo fétida. A fonte da vida está presente nos sonhos e nos livros alquímicos mas, antes disso, antes da alquimia histórica que conhecemos, encontramo-la nos grandes ensinamentos religiosos. É a fonte donde jorra a vida eterna do Evangelho de João, é a fonte de vida apocalíptica, é a presença divina em nós.

    O Si Mesmo, constata Jung, corresponde, tal como se apresenta, às definições que a teologia dá da divindade. Perguntaram-lhe um dia: “Então, para si, o Si Mesmo é Deus?” Ele respondeu: “Não sou teólogo, não faço metafísica, constato factos, vejo que estes factos têm o valor esclarecedor e tranquilizador que concede ao indivíduo um sentimento de certeza, lhe dá acesso a todo um mundo de experiência que é o mundo religioso tradicional, mas liberto de toda a estreiteza, de toda a doutrina, e isso basta-me.” E a mim, confesso-vos, também me basta.

    Falei-lhes, sumariamente, da reconciliação das energias que vêm do além para nos enriquecer, alargar a nossa vida numa conciliação de opostos, e que fazem do indivíduo testemunha e portador de uma realidade que o ultrapassa infinitamente. Encontrámos aí também os grandes ensinamentos do Oriente e do Ocidente: o homem é de essência sagrada, há um deus no homem: Est deus in nobis, dizia o estóico romano Séneca: “Há um Deus em nós.” O que nos parece – e alcançamos aqui o aspecto prático do nosso propósito, um dos que anunciei ao começar –, é que este “deus” é feito de conciliações de opostos e nos coloca em ressonância com o universo. Mostra-nos, nos próprios sonhos, aquilo que os alquimistas afirmavam, isto é, que o indivíduo é um microcosmos, um universo em ponto pequeno, onde se reflecte o grande universo.

     Segue: A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV

     
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    A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

    Etienne Perrot
    Péril nucléaire et transformation de l’homme.
    Conférences sur la vie intérieure
    Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

    (excertos adaptados)
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  I
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   II
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz   III
  • Parece assim que a visão caótica dos fenómenos que nos é oferecida pela ciência moderna (ou era oferecida, porque a ciência evoluiu muito), se harmoniza no indivíduo. Tendo realizado em si mesmo uma unidade e uma harmonia, o indivíduo vê a sua visão mudar e projecta um olhar transformado sobre o universo. Existe, neste sentido, uma corrente científica muito forte, nascida nos Estados Unidos, cujos ecos potentes vêm actualmente até nós, numa relação muito estreita com as descobertas de Jung. Estes autores falam muito, talvez demasiado, porque as palavras podem dispensar de realizar as coisas; trata-se de evocar a unidade do mundo, do unus mundus, que é o termo que Jung pediu “emprestado” aos alquimistas, para traduzir essa visão unificada do mundo.

    Ora, essa unidade do mundo vive em nós, em mim. Se essa unidade for realizada em mim, e se eu me sinto em ressonância com o universo, projecto invisível e insensivelmente essa unidade à minha volta. Expande-se uma radiação e, em vez de propagar a angústia, em vez de propagar desejos caóticos, arbitrários, frutos de pulsões que não sei até que ponto são legítimas, propago essa paz à minha volta. É assim que me torno um artífice da paz e é assim que a colectividade pode beneficiar daquela obra eminentemente individual e secreta que eu tiver empreendido.

    Antes de terminar, queria ler-vos um sonho. Julgo que não poderia encontrar melhor conclusão:

    Um cataclismo acaba de se abater sobre a terra, não se precisa qual, é talvez uma guerra, um sismo. A humanidade está mergulhada no sofrimento e na angústia. Os grandes agitam‑se, chovem decisões, mas a situação continua num impasse. Num canto retirado, três homens, simples de espírito, sentem-se acabrunhados por ouvirem os prantos à sua volta. Sofrem como os outros, com um sofrimento que ultrapassa as suas pessoas, como se transportassem sobre os seus pobres ombros o peso do mundo desnorteado. Mas, o que fazer? Sentem-se de tal modo impotentes… “Vinde”, disse um deles, “entremos, sentemo-nos à volta da mesa, talvez nos seja dada a inspiração.”

     Ei-los sentados à volta da pobre mesa de um quarto sombrio. Uma fraca lâmpada projecta sobre as paredes os seus ombros imóveis. Permanecem ali, a cabeça entre as mãos, a fronte enrugada, os cotovelos apoiados na mesa, os três encostados uns aos outros, fundidos num só pelo ardor da fé que existe nos seus corações. Sofrem, procuram sem palavras, sem pensar, no interior deles próprios, sem que nada do que se passa no exterior venha perturbar a sua meditação silenciosa.

    Isto dura muito tempo e eis que, uma manhã, um jovem surge cheio de entusiasmo. Grita, canta, abraça os três homens espantados e arrasta-os numa dança louca: “Acabou! Como? Foi graças a vós e não sabíeis? Era de calor e unicamente de calor que os homens tinham necessidade para que a paz regressasse. E foi desta concentração inocente, desta imobilidade activa que era a vossa que nasceu esse calor. Primeiro imperceptível, ele intensificou-se e irradia agora para lá das fronteiras, activado à medida que o vosso recolhimento se tornava mais intenso.”

    Isto não foi uma meditação, a aspiração de uma alma espiritualista confiante na virtude da caridade; tratou-se de uma experiência interior que foi concedida a uma pessoa e que lhe foi dada através de um sonho.

    Queria simplesmente, à guisa de comentário, referir que os sonhos apontam o trabalho que deve ser o nosso (um trabalho que reclama de nós atenção, docilidade e amor): domesticação, integração e valorização da energia central que em nós reside. Tal tarefa é mostrada sempre pelos sonhos como o antídoto para a desintegração nuclear.

    Penso noutro sonho que resumo: Um homem distribuía pelos jovens urânio enriquecido, para permitir que atravessassem os cataclismos atómicos que se anunciavam. Uranium significa “metal celeste.” O urânio enriquecido, matéria‑prima da bomba atómica, era manifestamente aqui o resultado do trabalho interior que era o antídoto da desintegração exterior.

    À conflagração que nos espera, podemos opor aquilo que nos é oferecido pela natureza, que é a sobrenatureza em nós: a eclosão de uma estrela irradiante. Esta estrela é a estrela de Natal, é a estrela do nascimento divino, é a estrela do Deus-menino que se apresenta humilde e despojado de todos os atributos do poder. Esta criança tem um nome: Emanuel, “Deus connosco”. Entre os epítetos tradicionais que lhe são atribuídos figuram os de “Pai do século vindouro” e de “Príncipe da Paz”.[1]

    É a este nascimento que todos somos convidados.

    [1] Isaías 9,6.

     
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    O lugar do mito na vida moderna – James Hollis

    Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna

    Dizem que, em média, gastamos seis anos de nossa vida sonhando. Essa façanha prodigiosa faz parte do intento teleológico da psique. Os sonhos são a rota íntima de saída da alma e constituem o processo gerador de mitos em cada pessoa. A rica tessitura de detalhes, a “transgressão” da lei de tempo e espaço vigente na vigília, o poder de síntese de novas combinações, as abundantes alusões a experiências anteriores, são todos aspectos conhecidos do estudioso de sonhos. Sempre misterioso e ineditamente surpreendente, em geral enigmático, trabalhar com sonhos vincula-nos de modo irremediável com o mistério. Se temos condições de acompanhar os sonhos durante certo período, eles efectivamente indicam movimentos, mostram, sem sombra de dúvida, como a pessoa está a trabalhar com as suas questões pessoais e resolvê-las. A soma desses sonhos constitui um épico heróico no mínimo tão extraordinário quanto os produzidos por Homero ou Dante. A descida ao mundo inferior está aí, os monstros temíveis, o imenso cartel de personagens, as batalhas titânicas – ou seja, o próprio conteúdo dos mitos.

    As descobertas de Freud apresentadas na sua obra Interpretação dos sonhos são úteis quando se considera a natureza do trabalho mítico. Nos sonhos, o inconsciente condensa eventos aparentemente aleatórios numa epifania concisa e de sentido íntimo. O inconsciente fala por meio de imagens afectivamente carregadas e não através de conteúdos cognitivos. Essas imagens corporificam o significado nas metáforas e nos símbolos.

    Às descrições freudianas do trabalho com os sonhos, Jung acrescentou a ideia do inconsciente colectivo, no qual as imagens são comuns não só à vida de cada um, mas também à do universo. Ele também percebeu que os sonhos não eram só desejos indirectamente satisfeitos, mas, muitas vezes, comentários espontâneos do Si-Mesmo a respeito da vida do sonhador. De acordo com Jung, os sonhos podem ser não só teleológicos, promovendo as metas da consciência e da completude, mas também estão em busca de compensações para as unilateralidades das adaptações conscientes. Dessa maneira, são dotados de propósito e capazes de efectuar correcções, desde que, é óbvio, a pessoa possa assimilar conscientemente a mensagem.

    Na mesma medida que a psique é atemporal e abarca todas as coisas humanas, devemos reconhecer e admitir que as vidas que construímos são parciais, contidas pelo tempo e fragmentárias. Se pendemos à direita, privilegiando as escolhas conscientes, a psique arrasta-nos para a esquerda a fim de nos centrar. Os sonhos, por conseguinte, confrontam-nos com nossas vidas não-vividas, não com o que somos, mas com o que poderíamos tornar-nos; não com o que fizemos, mas com o que não conseguimos realizar. Quando discernimos a natureza e o motivo do trabalho onírico, podemos, igualmente, perceber o mesmo processo em funcionamento no trabalho mítico. Já se disse que o sonho é a mitologia da pessoa e que o mito é o sonho de uma tribo. Ambos se originam espontaneamente nas profundezas e confirmam as actividades de auto-regulação do psiquismo. Da mesma forma que os sonhos fazem parte do correctivo teleológico exercido pela psique individual, dando continuidade à misteriosa missão da natureza no íntimo de cada um de nós, também os mitos, procedendo das mesmas camadas abissais, contêm o correctivo teleológico da alma.

     

    James Hollis
    Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna
    Paulus, São Paulo, 1999

     
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    Publicado por em 2008 em psique, símbolos, sonhos

     

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    A Jornada do Herói

    Carol Pearson
    The Hero Within
    San Francisco, Harper & Row, 1989
    Excertos adaptados

    A Jornada do Herói

    Foi a preocupação com a possibilidade de não conseguirmos solucionar os grandes problemas políticos, sociais e filosóficos do nosso tempo, caso muitos de nós persistíssemos em ver o herói como algo de exterior a nós mesmos, que me inspirou a escrever The Hero Within. O livro pretende ser um convite a empreender a jornada e desafiar os leitores a reivindicarem o seu próprio heroísmo. Esta jornada não implica tornar-se maior, melhor, ou mais importante do que qualquer outra pessoa. Todos somos importantes. Todos temos uma contribuição fundamental a dar, o que só podemos fazer assumindo o risco de sermos nós mesmos e únicos.

    Sabemos que, sob a busca frenética de dinheiro, estatuto, poder e prazer, bem como sob as atitudes obsessivas e viciadas habituais nos dias de hoje, existe uma sensação de vazio e uma ânsia de ir mais fundo, comum a todos os seres humanos. Ao escrever The Hero Within, pareceu-me que todos nós precisamos de encontrar, se não o “sentido da vida”, pelo menos o sentido das nossas próprias vidas individuais, para que possamos descobrir formas de viver e de ser fecundas, efectivas e autênticas.

    Todos os mitos do herói, culturais ou individuais, mostram-nos os atributos que são considerados como definidores do bem, do belo e da verdade, e assim transmitem-nos as aspirações que são valorizadas culturalmente. Muitas dessas histórias são arquetípicas. Os arquétipos, como postulava Carl Jung, são padrões permanentes e profundos da psique humana, que se mantêm poderosos e actuantes ao longo do tempo. Para empregar a terminologia junguiana, tais padrões podem existir no “inconsciente colectivo”, na “psique objectiva”, ou mesmo estar codificados na constituição do cérebro humano.

    Podemos aperceber-nos claramente desses arquétipos nos sonhos, nas artes, na literatura e no mito. Parecem-nos profundos, tocantes, universais e, por vezes, até mesmo aterrorizadores. Também podemos reconhecê-los ao contemplarmos as nossas vidas e as dos nossos amigos. Observando o que fazemos e como interpretamos o que fazemos, podemos identificar os arquétipos que orientam as nossas vidas.

    Conhecemos a linguagem dos arquétipos porque eles vivem dentro de nós. Os povos antigos também conheciam essa linguagem. Para eles, os arquétipos eram os deuses e as deusas que se ocupavam de tudo nas suas vidas, do mais banal ao mais profundo. A psicologia arquetípica, em certo sentido, recupera as verdades de antigas teologias politeístas, que nos falam da natureza maravilhosamente múltipla da psique humana. Acontece que, mesmo quando essas divindades (ou arquétipos) são negados, a sua força não deixa de se fazer sentir dentro de nós.

    Pelo contrário, recrudesce. Somos, então, possuídos pelos arquétipos e experimentamos a escravidão, e não a libertação, que eles nos oferecem. Devemos ter cuidado com o desprezo pelos deuses, pois, ironicamente, são exactamente as nossas tentativas de os negar e reprimir que provocam as suas manifestações destruidoras Os arquétipos são fundamentalmente amistosos. Podem ajudar-nos a evoluir, colectiva e individualmente. Se os respeitarmos, poderemos crescer.

    Os heróis empreendem jornadas, enfrentam dragões e descobrem o tesouro do seu verdadeiro Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência]. Embora possam sentir-se muito sós durante a busca, no final experimentam um sentimento de comunhão: consigo mesmos, com as outras pessoas e com a Terra. De cada vez que enfrentamos a morte em vida, deparamos com um dragão. Se escolhermos a vida em vez da não-vida, mergulhamos mais profundamente na descoberta de quem somos e derrotamos o dragão. Infundimos, assim, vida nova em nós mesmos e na nossa cultura. Mudamos o mundo.

     

    Segue: Os Arquétipos e a Evolução Humana

     

    O Sábio

    Carol Pearson
    The Hero Within
    San Francisco, Harper & Row, 1989
    Excertos adaptados

    O Sábio

    Quando trilhamos o caminho do Sábio na nossa jornada, depois de começarmos a responsabilizar-nos pelas nossas vidas e pelas nossas acções no mundo, descobrimos que o Sábio não é um feiticeiro ou um mágico, que entoa um cântico ou prepara uma infusão, através dos quais uma pessoa pode ser curada ou morta, e uma guerra pode ser ganha ou perdida. Esta é a concepção do Sábio segundo o ponto de vista do Órfão. Ao trilhar esse percurso, descobrimos que nós mesmos somos o Sábio. Os heróis passam a acreditar que o universo não é estático, e que se encontra num processo contínuo de criação. Todos nós estamos envolvidos nessa criação e, assim, todos somos Sábios.

    Contudo, enquanto não abandonarmos a concepção do Órfão, segundo a qual o Sábio é alguém que faz magia ou exerce um poder maléfico capaz de matar os outros, não poderemos assumir a responsabilidade pela criação das nossas vidas. Enquanto lutarmos com questões de identidade e vocação, haverá sempre o perigo de usarmos o nosso poder de maneira destrutiva. Enquanto não solucionarmos as nossas questões de Guerreiro, correremos sempre o risco de utilizarmos o poder do Sábio para demonstrarmos a nossa superioridade ou tentarmos controlar as outras pessoas.

    Enquanto Órfãos, Nómadas, Mártires e Guerreiros, forjamos as nossas identidades por oposição a um universo visto como hostil e perigoso. Enquanto Sábios, consideramos o universo como um lar afável e convidativo e assim recuperamos a inocência. Os Sábios percebem que uma nova forma de disciplina lhes é exigida, ou seja, que lhes é exigida clareza e força de vontade para agir sempre de acordo com seu o ser interior mais autêntico. Sabem que não são o centro do universo; contudo, esse conhecimento não os perturba. Sabem que são importantes, que as suas escolhas e actos individuais se unem para dar sentido ao universo e, tal como o Mártir, estão conscientes de que é apenas oferecendo o seu dom único ao universo que a verdadeira felicidade e auto-realização poderão ser alcançadas.

    O Sábio compreende a graça. Não como uma ocorrência extraordinária, mas como uma forma de energia à nossa disposição. Há ocasiões em que as nossas energias declinam, em que as nossas capacidades falham, ou em que os meios normais e diários de solucionarmos os problemas se revelam ineficazes. Essas situações requerem uma capacidade de permanecer em equilíbrio com a fonte de energia última do universo. Os religiosos costumam chamar a isso “viver em harmonia com Deus”.

    Os Sábios lutam para viver em harmonia com os mundos natural e sobrenatural, o que exige totalidade e equilíbrio interiores. Também pressupõe que os Sábios integrem as aprendizagens de todos os outros arquétipos. É fundamental que resolvam o dilema do Órfão, o que lhes permitirá confiarem num poder superior a si mesmos e submeterem-se a ele, afirmando: “Seja feita a Tua vontade.” É óbvio que os Sábios compreendem isto a um nível diferente do dos Órfãos. Estes supõem que fazer a vontade de Deus significa abandonar a sua própria vontade, porque não vêem esta como um comportamento egocêntrico, contrário ao plano divino. Por isso se sentem contrariados. Quando alcançamos um nível mais profundo de auto-conhecimento, tendo já solucionado muitas das questões do Nómada, tornamo-nos menos dualistas. Os Sábios transcendem as concepções dualistas e estáticas do bem e do mal e vêem a vida como um processo regido por Deus.

    Quando impedimos alguma parte do nosso ser de crescer, essa parte manifesta-se como negatividade ou mesmo como mal. As pessoas que permanecem no início do estádio do Órfão, por exemplo, podem tornar-se criminosas ou vítimas, porque as suas qualidades positivas não encontraram formas de desenvolvimento. Ou, no caso do Guerreiro ou do Mártir, certas qualidades podem florescer em detrimento de outras, consideradas fracas ou egoístas, dando origem a personalidades desequilibradas e parciais.

    Tendo estado longamente à mercê da sombra do puritanismo, a nossa cultura tem agora de lidar com a sombra da sexualidade. Daí que a sexualidade se manifeste sob formas pervertidas, embora extremamente poderosas. O sexo é usado na publicidade para vender um pouco de tudo, desde carros a ferramentas eficazes, seja por meios subliminares, seja através da exibição de mulheres seminuas colocadas junto ao objecto que se tenciona vender. Tal justaposição só tem um sentido lógico quando compreendemos que estamos a ser dominados pela nossa sexualidade reprimida. Nos filmes contemporâneos (e na vida contemporânea) a sexualidade é, regra geral, acompanhada de violência. Estupro, sedução violenta, abuso sexual de crianças, pornografia, sado-masoquismo, bem como a imagem mais subtil, embora ainda mais disseminada, de relacionamentos sexuais nos quais um parceiro (ou ambos) é transformado em objecto, todos atestam a realidade da possessão da nossa cultura pela Sombra.

    Algumas pessoas com uma mentalidade de Guerreiro pressupõem que a resposta a este dilema será matar o dragão, ou seja, banir a sexualidade, interior e exterior. Mas isto implicaria ainda mais repressão, já que os monstros se tornariam maiores e a possessão mais acentuada. Quando o Guerreiro alcança uma compreensão mais profunda do seu arquétipo, aprende a enfrentar o dragão e a reconhecer que ele é perigoso – para ele e para os outros. Quando as pessoas integram a maior parte das suas sombras, despendem menos energia na repressão e na negação da sua realidade interna. Perdem menos tempo em batalhas inglórias, pois deixam de projectar com tanta frequência as suas sombras sobre os outros.

    O Guerreiro acredita que precisamos de obrigar as pessoas a entrar num mundo novo, mas o Sábio sabe que só precisamos de ter mundos pelos quais optar. As pessoas são naturalmente atraídas por uma vida elevada e acabarão por gravitar até ela. Existem muito mais coisas à nossa disposição neste momento do que a maioria da humanidade jamais teve a oportunidade de usufruir. Quanto mais livres e criativas as pessoas se tornarem, mais oportunidades haverá à sua disposição.

    Os Sábios não tentam forçar a mudança social, pois reconhecem que as pessoas precisam, antes de mais, de empreender as suas jornadas, para que possam viver num mundo efectivamente humanitário e pacífico. Por outro lado, reconhecem que muitas manifestações da nossa cultura retardam artificialmente as pessoas, mantendo-as desnecessariamente estacionárias. Actuam, então, como ímanes, que atraem e galvanizam a energia positiva necessária para a mudança. Podem fazê-lo identificando os aspectos que conduzem ao crescimento de indivíduos, instituições ou grupos sociais, para assim incrementarem esse mesmo crescimento.

    Os Sábios conseguem infundir esperança nas outras pessoas, porque acreditam que é possível ter um mundo pacífico, humanitário, justo e zeloso: aprenderam a ser pacíficos, carinhosos, a respeitar os outros e a respeitar-se! Ademais, atraem aquilo que são e, por isso, também existem muitos aspectos das suas vidas que ilustram esse mesmo mundo.

    Sabem que, quando abrimos os nossos corações, temos sempre amor suficiente. Que quando paramos de entesourar talentos, ideias, bens materiais, somos sempre prósperos. Que criamos a escassez através dos nossos medos, e que, quando oferecemos inteiramente os dons das nossas vidas ao universo e ao outro, encontramos o nosso verdadeiro trabalho, os nossos verdadeiros amores, e experimentamos a plenitude da nossa verdadeira natureza, que é sempre bondosa. Os Sábios acreditam que a vida pode ser alegria e abundância, a partir da experiência real das suas próprias vidas.

     
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    Publicado por em 2007 em arquétipos, o Sábio, símbolos