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O espelho

11 Out

Georges Romey
Excertos adaptados

O espelho

Ao evocar o espelho, dificilmente um psicólogo não pensará em Narciso, debruçado sobre a água, para sempre prisioneiro da contemplação do seu reflexo. No entanto, poder-se-ia afirmar que a armadilha narcísica, outrora omnipresente no discurso dos psicanalistas franceses, perdeu acuidade no pensamento dos que se lhes sucederam.

A atitude narcísica está tão disseminada como antigamente, mas fundiu-se de tal forma com um modo de vida dominado pelos valores da aparência que já não congrega as mesmas atenções do passado. Para falar verdade, a interpretação dos sonhos em que o espelho está presente não conduz a que nos detenhamos no tema do narcisismo.

Talvez porque todo o espelho imaginário se inscreve desde logo numa dinâmica de transgressão da aparência. Aproxima-se, assim, do valor que lhe conferem as grandes mitologias. O espelho do sonho funciona mais como uma passagem, como uma via de comunicação entre a aparência e a essência.

Tal como a janela, exprime transparência. Uma transparência ilusória para o olhar que se instala diante do espelho como espectador; uma transparência verdadeira para o sonhador que sentiu que todos os espelhos são feitos para serem atravessados.

Um espelho imaginado é, antes de mais, um espelho que deforma! Trairá sempre as expectativas do sonhador que o utilize com o intuito de captar a forma e de a fixar. O espelho revela a transformação inexorável e perpétua através da qual a vida se manifesta. Nos sonhos, como nos contos, é possível apelar à magia de um espelho. Podemos mesmo concluir que todo o espelho é um instrumento mágico.

Mas esta magia opera no sentido de uma dinâmica da metamorfose, de uma abertura em relação a aspectos imprevistos do ser. A magia nunca será cúmplice da memória, essa âncora tranquilizadora através da qual o sonhador quereria permanecer ligado ao passado. Uma das associações mais fortes do espelho é com a palavra fotografia. Esta correlação tem uma importância decisiva na tradução da palavra espelho.

Uma fotografia faz o que nenhum espelho aceitaria fazer: aprisiona um instante do passado! Incapaz de se opor à transformação de um presente em passado, a fotografia, numa atitude de presunção, apropria-se do presente e congela-o. Nos sonhos que analisámos, trata-se quase sempre da evocação de uma fotografia real que o paciente conhece e que relembra um instante da sua infância. Nestes clichés aparecem sempre pessoas ligadas à sua família.

O espelho imaginário só é mágico porque torna tudo fluido. A imaginação sabe que o vidro é um líquido. A fotografia e o instantâneo expõem um reflexo desesperado de conservação do presente. O espelho denuncia a vaidade do desejo de fixar a aparência.

O espelho só seria um falso testemunho se favorecesse a ilusão da perenidade. Na realidade, reenvia-nos constantemente para a verdade do instante e só pode dar conta das transformações sucessivas. Um espelho onírico é sempre testemunha e actor de metamorfose. Nos sonhos, todos os espelhos têm por vocação conduzir o ser ao encontro de si mesmo.

O espelho do sonho é um símbolo da transposição do limiar. Esta transposição é um movimento psíquico determinante para a reconciliação dos contrários. Uma sequência de um sonho de Anne ilustrará o que acabámos de dizer. Ao introduzir a ideia de um espelho sem limites, a sonhadora confere ao símbolo uma ressonância metafísica:

…Vejo, agora, pessoas que caminham, todas vestidas de branco…à parte o seu corpo, tudo é branco…tudo está demasiado uniformizado…e agora vejo…via um grande espelho que se quebrava…e todos os pedaços que caíam, liquefazendo-se, como se o espelho fosse feito de água…como se todos os postulados caíssem por terra, como se todas as velhas ideias fossem substituídas por novas…o espelho recompõe-se e é como se houvesse agora algo de novo no seu lugar…de repente, vejo a popa de um barco no espelho, um barco que desliza como se estivesse num lago…é um lago imenso…um espelho sem limites…parte-se tudo quando o barco deixa um rasto….

Uma vez que evocámos a dimensão metafísica, convém acrescentar que o espelho do sonho não convida apenas a conhecer a outra parte de nós mesmos. Favorece, também, quase sempre, o acesso ao outro lado do mundo visível! Todos os espelhos têm por modelo o espelho de Jean Cocteau em Orphée. O olhar que o atravessa caminha na direcção do outro mundo.

O espelho imaginário é, antes de mais, uma imagem que nos permite aceder ao outro lado das coisas. Um sonhador, Adrian, tendo descido, no decurso de um dos seus sonhos, ao fundo de uma gruta submarina, encontrou aí um espelho de Alice no país das maravilhas. Ao atravessar o espelho, Adrian admira-se da facilidade com que teve acesso ao outro lado das coisas…

A expressão o outro lado é a chave mestra da nossa teoria da passagem do limiar. No que diz respeito ao gelo e ao espelho, trata-se do outro lado da consciência e do outro lado do mundo visível. De um lado temos a aparência das coisas e do outro lado temos a essência das coisas. Entre as duas encontramos a transparência!

E já que citámos o mais clássico dos espelhos, o de Alice, convém relembrar as palavras que a menina pronuncia, dirigidas especialmente ao seu gato:

…Se prestares atenção, Minou, falar-te-ei de todas as minhas ideias sobre a casa do espelho. Há um quarto que podemos ver através do espelho…é igual ao nosso salão, embora as coisas aí estejam todas ao contrário…

Ao atravessar o espelho, Alice atinge uma zona da psique onde todos os valores estão ao contrário. O fenómeno não só se reporta a imagens mas também a palavras e a cronologia, como podemos constatar no diálogo em que a rainha diz que acaba de gritar porque se vai picar no dedo!

Quando a dinâmica do imaginário nos apresenta um espelho, está a convidar o sonhador a ultrapassar os valores da aparência, a viver na transparência, que é o único caminho que conduz à realidade do ser.

 
1 Comentário

Publicado por em 2007 em espelho, janela, símbolos, sonhos

 

One response to “O espelho

  1. Márcia Maria

    2013 at 1:42 am

    Gostei muito do texto. Hoje eu sonhei que estava numa sala de espelhos e eu me olhava, eu estava em peças íntimas eu mirava todo meu corpo, mas isto não me incomodava….acordei e achei o sonho interessante, acho que o texto me ajudou compreender.
    Abraços.

     

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