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Os sonhos quotidianos

06 Out

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

1 – O que é um símbolo

Dos sonhos aos símbolos

2 – Os sonhos quotidianos

São os sonhos que traduzem a nossa vida pessoal do momento, as nossas preocupações, desejos, impulsos, cóleras, etc.

Exemplo: Sonhei que agarrava num livro de estudo. Abrindo-o, com relutância, dentro dele encontrei um diamante. E, de súbito, senti-me cheio de alegria, mas não por causa do diamante… Trata-se de uma pessoa que deve estar a ser submetida a difíceis exames. O seu sonho diz-lhe: Este livro, que acabas de abrir, possui um valor que deves descobrir e que assegurará o teu futuro…

A maior parte dos pequenos sonhos quotidianos são do mesmo género. São interessantes, na medida em que esclarecem uma situação que não se encontra bem definida no estado consciente. Como tocam as cordas inconscientes, alimentam-se de fontes escondidas, que seríamos incapazes de examinar, quando acordados.

Exemplo: Sonhei que estava deitado na cama com a minha mulher. Se bem que estejamos casados há um ano, era o dia seguinte à nossa noite de núpcias. Uma pessoa entrou no quarto, trazendo uma bandeja. Era a minha mãe. Sobre a bandeja estava uma chávena fumegante de chá de camomila. Fiquei subitamente furioso e disse à minha mãe coisas odiosas das quais me envergonho só de pensar nelas …

Também aqui se trata de um sonho que traduz uma situação. Aquele homem foi continuamente abafado e protegido pela mãe e concebeu contra ela uma violenta revolta interior, a maior parte das vezes inconsciente. O que diz o seu sonho?
Vês? A tua mãe ainda aí está. Casaste mas, apesar disso, ela recusa-se a deixar-te só. Pretende ainda cuidar de ti e proteger-te! Recusa-se a admitir que já és um homem! Por isso te traz o chá de camomila. Apesar do teu casamento, considera-te ainda um bebé.

Deve ter-se em conta que a análise psicológica pôs a descoberto os violentos ressentimentos desse homem para com a sua mãe, cuja tirania lhe tinha distorcido o carácter. Essa análise psicológica foi feita a partir do sonho que tanto o havia perturbado, pois mostrara- lhe a situação real…

Dir-se-ia que os sonhos possuem uma visão bem mais lata de todos os acontecimentos e de todas as possibilidades. Os sonhos utilizam todo o material «esquecido» da nossa vida, conhecem as nossas possibilidades e desejos. Se fazemos, em estado de vigília, observações banais, elas depressa são esquecidas. Mas serão mesmo esquecidas? Não, nada disso. Elas continuam a permanecer nos centros nervosos inconscientes, onde alguns dos nossos sonhos irão descobri-las a fim de nos mostrarem situações a que devemos estar atentos.

Exemplo: Tive um sonho tenebroso… Estava em minha casa a escrever e abri uma gaveta da secretária. Dentro, vi o cadáver de um homem em ponto pequeno! Aterrorizado, comecei a tirá-lo para fora, mas ele aumentava de tamanho à medida que o tirava. Estou a ver a cena com todos os pormenores. O cadáver retomou a sua estatura normal e caiu pesadamente no solo; meti-o, em seguida, num baú… Reparei que o corpo crescia ainda e fechei ainda mais solidamente a mola. Depois, vi-me à beira de um rio. Lancei o cadáver à água e fiquei espantado por vê-lo nadar na minha direcção… Disse para comigo: «Estranho! Está morto e apesar disso consegue ainda nadar.» Finalmente, o corpo afundou-se; encontrei-me de repente numa estação de caminho de ferro e um homem, em uniforme, dizia-me: «Eis que chega o seu comboio!

Este sonho deve realmente meter medo? Nada disso. É verdade que nele intervém um cadáver mais ou menos recalcitrante, mas esse cadáver é verdadeiramente inofensivo. Qual é o significado do sonho? Vejamos quais são os seus elementos principais: um cadáver; um rio; deitar à água o cadáver que não se afunda imediatamente; uma estação; um comboio. Coloquemos então a questão, tal como num romance policial: quem é o cadáver? O que representa ele?

Um cadáver é, evidentemente, uma coisa morta. Essa «coisa» é fechada numa mala e deitada ao rio. O sonhador terá, por conseguinte, algo a «enterrar», a fazer desaparecer? Após uma conversa com este homem, tive conhecimento de que toda a sua vida era uma máscara, se bem que ele próprio o ignorasse.

Tudo o que lhe parecia ser não correspondia em nada ao que era realmente. A sua agressividade prejudicava-o na vida profissional e sentimental. Julgava-se um homem forte e enérgico. No entanto, no fundo dele reinava uma intensa timidez, apoiada em grandes complexos de inferioridade.

Esta pessoa tratava assim de disfarçar a sua atitude, pelo que o sonho se pode explicar da seguinte forma: Esse cadáver és tu! Esse cadáver significa tudo o que te inibe, em termos de falsas atitudes, de concepções erradas de vida. Mostra-te o que existe de petrificado em ti. Se te desembaraçares dos teus medos interiores e dos complexos, deixarás de estar moralmente «morto» e renascerás para uma vida nova.

O nosso sonhador coloca a sua vida «fingida» numa mala e tenta desembaraçar-se dela, deitando-a ao rio. Mas as falsas convicções perduram, como o demonstra o cadáver que não se submerge logo. Com efeito, temos de compreender que este homem vive há já muito tempo por detrás de uma máscara. À sua volta criou-se uma verdadeira fortaleza de defesas, que não se destrói facilmente. Por fim, o cadáver desaparece. O sonhador encontra-se numa estação de caminho de ferro e alguém lhe diz: «Aí vem o seu comboio». Quer isto dizer: Podes partir agora para novos horizontes, pois já te desembaraçaste de tudo o que havia em ti de falso e de morto.

Insisto no facto de que, quando me procurou, este homem acreditava conscientemente na realidade profunda da sua aparência exterior. Por vezes, tinha a sensação vaga (portanto, inconsciente) de que tudo aquilo era falso, mas pensava rapidamente noutras coisas. Tinha medo de se ver tal como era… O sonho serviu assim de aviso, dizendo-lhe: Acreditas nisso? Julgas-te forte? Pois bem, é tudo ridículo. És fraco, tímido e só te tornarás um verdadeiro homem quando trabalhares para te conheceres a ti próprio e para seres tu próprio.

Aliás, o sonho não termina aqui. Voltarei a falar dele mais tarde, quando examinarmos os grandes símbolos.

Eis outro sonho do mesmo género: Sonhei que me encontrava nos bancos da escola. Tinha a minha idade actual, mas os meus antigos condiscípulos conservavam as suas feições de crianças. Fui obrigado a fazer os meus trabalhos, como os outros. Em seguida, fui submetido a um exame diante de todos e condenado a ser esquartejado.

Este género de sonhos (escola, exames, condenação à morte) é muito frequente e diz sempre respeito à situação actual do sonhador. A escola representa a «escola da vida». O exame significa: Vejamos se estás armado suficientemente para enfrentar a vida.

No caso deste sonho, a resposta é NÃO. Com efeito, o sonhador é condenado a ser esquartejado, o que quer dizer: Não te encontras apto a enfrentar os problemas da tua escola da vida; deves morrer para renascer; deves liquidar tudo o que em ti existe de mau e de errado; serás, por conseguinte, “esquartejado” ou seja, “desmembrado”. É indispensável que assim aconteça, pois deves ser desmembrado (dividido) para que isso te permita analisares-te e conheceres-te melhor. Quando isso for feito, poderás de novo reagrupar os fragmentos «esquartejados» da tua personalidade, como ponto de partida mais lúcido e mais enérgico.

Espero ter mostrado nestes exemplos como os sonhos quotidianos nos colocam na pista de nós próprios. Muitas vezes, as pessoas julgam-se «alguém», crêem ter uma «forte personalidade», etc., e uma simples análise vem demonstrar que nada disso existe, pois o fundo dessa personalidade é fraco, timorato, recheado de complexos, etc.

Quantos sonhos não têm dado início a novas vidas! Por quê? Porque o sonho perturbou o sonhador e este procurou então descobrir o seu significado. Tendo conseguido decifrá-lo, com a ajuda de um psicólogo especializado, deu-se conta de que «qualquer coisa não estava bem». E abençoou o sonho por tê-lo avisado da necessidade de modificar a sua situação anterior.

 

3 – As forças da natureza

 

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Publicado por em 2007 in símbolos, sonhos

 

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