RSS

A angústia dos tempos e o caminho da paz – E. Perrot

22 Fev

Etienne Perrot
Péril nucléaire et transformation de l’homme.
Conférences sur la vie intérieure
Paris, Ed. Jacqueline Renard, 1991

(excertos adaptados)

A angústia dos tempos e o caminho da paz  I

Vivemos num mundo consciente, onde nos colocou a nossa educação, a nossa cultura. Fomos educados num quadro moral, seja ele religioso ou laico. Recebemos uma instrução centrada na aquisição de noções racionais, remetendo para o plano secundário toda a zona da imaginação e da emotividade. Esta é relegada para aquilo a que se dá o nome de inconsciente. O inconsciente não é apenas aquele receptáculo, aquela lata do lixo das pulsões sexuais a que Freud o quis reduzir; ele é, segundo o testemunho de Jung, a fonte das inspirações, a fonte do indivíduo, a fonte da vida psíquica, a fonte da expansão vital. Jung compreendeu que esse impulso em direcção à expansão era feito da reunião dos contrários e que ele aparecia, essencialmente e em primeiro lugar, nos sonhos.

 E é aqui que se encontra a intuição-chave, a extremidade do fio de Ariane que vos convido a agarrar. Freud tinha pronunciado esta fórmula admirável: Os sonhos são a via real do inconsciente. Mas não a explorou como poderia tê-lo feito, por causa do quadro intelectual e vital que era ainda o seu (tinha mais vinte e quatro anos do que Jung). Jung tomou à letra esta afirmação e quis explorá-la. Nós também. Vou fazer-lhes uma confissão: venho de muito longe, procurei muito, como se diz, no Oriente, no Ocidente, nas coisas antigas; depois, conheci a psicologia de Jung, a alquimia, a transformação que ela promete. Achei tudo isto apaixonante, mas pensei que, na prática, punha em jogo métodos demasiado complexos que aparecem nos conceitos que se encontram nos livros de Jung.

Foi gradualmente, no decurso dos anos e da minha experiência, desde que me tornei, eu próprio, intérprete de sonhos, que compreendi que não éramos mestres nem psicólogos, seres que dirigem um processo, mas que éramos servidores desse processo, que estávamos à escuta do que se passa no interior. Não sou eu o mestre, mas o mestre está em mim, como em cada um de vós; fala pela voz dos sonhos. Não vou fazer aqui a história da interpretação dos sonhos através dos séculos. O que sei, o que vejo, o que posso comprovar é que, nesta angústia que é a nossa, neste caos intelectual e espiritual que é o nosso, neste desmoronar dos magistérios, nesta falência das igrejas, dos intelectualismos e das ideologias políticas, há uma fonte, uma luz que nasce. Este Deus não brilha na praça pública ou no céu das nações. Brilha humildemente no coração dos seres, no coração de cada um.

Esta luz aparece nos sonhos, e nos sonhos vistos como devem sê-lo. Tive uma experiência marcante que data de há três anos, quando, por uma conjugação de circunstâncias, me foi dado “escutar” a alma francesa, acolhendo sonhos dos ouvintes da France-Inter. Vi aparecerem nesses sonhos revelações maravilhosas: nesta última semana, por exemplo, recebi a carta de um ouvinte que, com a mulher, mergulhou desde então no estudo dos seus sonhos. Voltou a ouvir as gravações, viu a sua vida transformada e vem agora perguntar‑me como poderiam ir ambos um pouco mais longe.

O inconsciente, tal como o vemos aparecer, era, por definição, o que é obscuro, o que é desconhecido. É por isso que Jung chamou aos elementos mais importantes que se manifestam de início a sombra. A sombra é aquilo de que tenho medo, que me angustia, é a insegurança, é o inimigo. Enquanto não mergulhar em mim próprio, vou ver este inimigo fora de mim: será o partido contrário, será a nação que ameaça a minha. E assim como a minha nação toma medidas de defesa contra os que a ameaçam, esta ameaça que sinto pesar sobre mim é reenviada àquele que me ameaça, que se defende por sua vez.

Assiste-se assim a um fenómeno de ressonância que – aprendemos em física – adquire uma amplitude cada vez maior, a ponto de poder acabar num desabamento ou numa explosão. Portanto, se me inclinar sobre aquilo que há em mim, dou conta de que o inimigo exterior é longínquo e hipotético e que tenho de me reconciliar inicialmente com aquela angústia obscura que existe em mim. Se me reaproximar dela, se dialogar com ela, conseguirei um apaziguamento, desmontarei a angústia. Se a desmonto em mim, desmonto também uma parte da angústia colectiva. Esta parcela de paz que se instalou em mim entra, então, no capital da colectividade à qual pertenço.

Continuação:

  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  III
  • A angústia dos tempos e o caminho da paz  IV 
  •  
    Deixe o seu comentário

    Publicado por em 2010 em símbolos

     

    Deixe uma Resposta

    Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

    Logótipo da WordPress.com

    Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

    Imagem do Twitter

    Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

    Facebook photo

    Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

    Google+ photo

    Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

    Connecting to %s

     
    %d bloggers like this: