A casa e as suas dependências

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É natural que muitos sonhos se reportem à casa e às suas dependências, já que, na nossa cultura, os acontecimentos quotidianos se desenrolam mais dentro de casa do que ao ar livre. Os sonhos mais correntes falam de casas precisas, de dependências bem conhecidas, que o sonho não deturpa em demasia. Na casa onírica, vários conteúdos da nossa vida, mesmo que emergentes, fundem-se numa unidade psíquica.

Não podemos, de maneira alguma, tratar este assunto de uma forma exaustiva. Quando muito, poderemos afirmar: “Se me encontro numa determinada casa em sonhos, é porque a minha realidade psíquica dominante se exprime de forma mais clara através deste ambiente.”

O que se passa na casa passa-se dentro de nós mesmos. Nós somos, frequentemente, essa casa. De cada vez que num sonho estamos perante uma casa bem conservada, em ruínas, nova ou velha, essa casa refere-se ao sonhador. A casa informa-nos do nosso estado e mostra como nos comportamos interior e exteriormente. A actividade imaginativa da psique serve-se da casa, da maneira de a arrumarmos, para nos mostrar o modo como vivemos.

Há dependências que são consideradas secundárias. Ficam à sombra de tudo o que constitui a personalidade da casa. E, contudo, estas dependências despoletam toda uma gama de sentimentos, de perceções, de recordações particulares, e mesmo certos complexos. As partes da casa que utilizamos de forma óbvia, por exemplo, a sala de jantar ou o escritório, raramente aparecem nos sonhos. Pertencem totalmente à esfera consciente e o seu conteúdo simbólico parece pobre.

Os sonhos têm uma enorme predilecção pelas dependências cujo conteúdo emocional é ambivalente. É o que acontece com a cave. Podemos compará-la psicologicamente ao inconsciente pessoal (que é o lugar onde depositamos as coisas das quais já não nos servimos). Simultaneamente, como a cave mergulha na terra, está próxima das camadas profundas que são apanágio do inconsciente coletivo. Na cave há reservas; conservamos lá o vinho; abriga-nos quando nos sentimos ameaçados. Como é sombria, temos de a iluminar e as crianças não são as únicas a ter receio de um encontro perigoso.

Como acontece frequentemente na vida de todos os dias, os ladrões e os assaltantes escondem-se, em sonhos, na obscuridade desses lugares para nos assaltarem durante o sono, ou seja, quando estamos inconscientes. Se nos abstrairmos das caves modernas, construídas segundo todas as normas de higiene, o subsolo das casas esconde toda uma vida ilícita. As ratazanas comem os víveres; há sapos, salamandras e toda uma quantidade  de animais rastejantes nestes sítios húmidos.

Tal como na realidade, a cave dos sonhos encerra uma vida secreta. Conserva as reservas da alma e as possibilidades do inconsciente, tudo o que não foi ainda aberto e posto à nossa disposição. Quando sonhamos com a escada que conduz à cave, sonhamos com a descida às profundezas, a fim de irmos aí buscar os alimentos, o vinho, ou encontrarmo-nos com os aspetos obscuros da psique.

É por esta razão que a cave é um lugar de riquezas, mas também um lugar de medo. Esconde o que está por baixo, logo, a parte obscura do nosso eu. Muitas pessoas não têm, pois, qualquer tipo de empenho em conhecer estes conteúdos do subsolo, em saber o que aí se passa.

É importante reportarmo-nos a recordações da juventude para interpretar os sonhos relacionados com a cave ou com a cozinha. São dois lugares que impressionam profundamente a criança. No entanto, o seu caráter simbólico é comum a todas as pessoas. Não estamos a falar das caves e das cozinhas atuais, saturadas que estão dos últimos avanços da técnica.

A verdadeira cozinha é o centro da casa. Depois de manipulados, os alimentos são aí transformados em algo pronto a ser consumido (o que acontece também no nosso intestino). É esta uma das razões pelas quais os sonhos com a cozinha têm a ver com os nossos processos de transformação psíquica.

A cozinha é também um lugar de presença feminina. Quando nos aparece em sonhos uma mulher na cozinha, ela simboliza o nosso lado provedor e maternal. 

Por vezes, a ação onírica desenrola-se no quarto de dormir. Tais sonhos põem em evidência as camadas mais íntimas do sonhador. Os problemas atuais podem também desenrolar-se no quarto outrora ocupado pelos pais, talvez porque o que se passa hoje tenha aí a sua origem. O quarto de dormir representa a esfera íntima de cada um, bem como o inconsciente pessoal, uma vez que é o lugar do sono.

Aí partilhamos a vida com os seres que nos são queridos. Daí que este tipo de sonhos anuncie a felicidade de uma relação onde reina o amor perfeito ou a dor indizível de uma relação votada à mais profunda inimizade. Mas estes sonhos só acontecem quando há algo de errado com essa esfera da vida do sonhador.

O sonho confere à cama uma importância particular. “Cada um se deita na cama que fizer.” Trata-se de uma situação relativa ao inconsciente. Na cama repousamos, nela estamos seguros. Nada é exigido àquele que dorme. Mas o sonho mostra o que o inquieta. É uma inquietação inconsciente que convém explorar. Habitualmente, a cama no sonho está do lado esquerdo, o lado do inconsciente.

Num sonho, uma mulher via a sua cama ocupar cada vez mais o quarto e a coberta adquirir um tom de vermelho vivo. Isso significava que uma paixão inconsciente  tinha tendência a ocupar demasiado espaço na sua vida.

Os sonhos com os sanitários são muito numerosos. Trata-se de um lugar que desempenha na vida das pessoas um papel mais importante do que quereríamos admitir. Com curiosidade e admiração, a criança aprende aí os fenómenos do corpo, considerando-os interessantes e inconvenientes, simultaneamente. Nos sanitários, o homem mais dotado intelectualmente está tão próximo dos animais como qualquer outro. Confronta-se com certas substâncias do seu corpo que se tornaram supérfluas e que é necessário eliminar. Está sozinho no momento em que o seu corpo tem de se desfazer da matéria mais vulgar.

E, contudo, este tipo de sonho nada tem de grosseiro. Remete mesmo para a libertação de certas questões psíquicas. Descarregamos o que já foi utilizado, aquilo que sempre foi considerado uma sujidade. Convém mencionar que os alquimistas sempre falaram da transformação dos excrementos em ouro. A experiência humana dá conta, aliás, que o mais vil se pode transformar no mais nobre.

O sótão é sombrio, misterioso, cheio de ruídos inquietantes. A criança penetra no sótão com inquietação e curiosidade à mistura. Projeta nele o seu pressentimento da existência de forças vitais obscuras. É o lugar das angústias de infância, que o sonho põe a nu, porque elas continuam a existir em nós, independentemente da idade, e é tempo de as fazer vir ao consciente.

Mas o sótão é também um lugar cheio de coisas antigas, de mistérios, de segredos de família a descobrir: cartas esquecidas, fotografias de pessoas desconhecidas, roupas de um outro tempo.

As escadas têm também a sua importância. Devem estar cuidadas e em bom estado, bem como ter os degraus equidistantes. As escadas ligam simbolicamente as diferentes partes da nossa personalidade. Quando há um degrau estragado ou o patamar é frágil, isso significa que há em nós um lado ao qual falta solidez. Pode haver certas escadas complexas ou difíceis de subir.

É o que se passa frequentemente com as que dão acesso à cave ou ao sótão. Não podemos deixar de mencionar a escada em espiral. Significa que só podemos aceder a zonas mais profundas se nos mantivermos ancorados no eixo da nossa vida. Estes sonhos surgem apenas a meio das nossas vidas.

A configuração da casa pode também ser diferente: grande, pequena, espaçosa, cheia de recantos; burguesa, palácio ou cabana, situada no campo ou na cidade. Estas diferenças dão-nos informações sobre o nosso ambiente psíquico. Cada adulto necessita de uma certa persona baseada no aspeto exterior. No decurso dos sonhos, a fachada da casa informa-nos sobre a persona. Algumas pessoas atribuir-lhe-ão um valor exagerado. Outras não lhe prestarão atenção alguma.

Um homem sonha que está a construir uma fábrica. Quando se aproxima dela, vê que por detrás de uma fachada imponente tem lugar um terreno vazio. O mesmo se passava com a sua vida igualmente vazia, destinada apenas a iludir os outros. Alguém vê que a fachada da sua casa, que representa o seu edifício conjugal, está a ser renovada, embora o resto da casa esteja completamente destruído pelas bombas. O seu casamento é, pois, puramente formal: é uma bela fachada de aspeto enganador, mas que, antes de mais, engana o próprio sonhador.

A atitude dos nossos semelhantes traduz-se pela modificação da sua própria casa. Uma fortaleza cinzenta indica que é inútil tentar penetrá-la. Também pode acontecer que uma pessoa aparentemente impenetrável more numa casa ampla e clara, com as varandas rasgadas: eis-nos perante a sua verdadeira natureza.  Por vezes, temos de mudar de casa, para uma casa mais espaçosa e mais clara. A vida parece querer conceder-nos um espaço vital mais amplo. Mas temos de atingir um grau de consciência mais elevado, temos de saber quem somos realmente. Uma mulher que não tinha preenchido estas condições teve o seguinte sonho:

Tinha de me instalar numa casa mais bonita e mais bem arranjada. Quando estava tudo pronto não conseguia encontrar o meu certificado de emprego nem o meu passaporte. Então, proibiram-me de mudar de casa.

Se a casa do sonho representa a construção do Eu, não é de surpreender que apresente divisões desconhecidas para o sonhador, algumas até fechadas à chave. São regiões inexploradas da psique, que o sonho procura revelar.

Os sonhos que mostrem reconstruções são extremamente favoráveis. Querem dizer que nos renovamos. Podemos observar os progressos da reconstrução. Se a casa está quase terminada mas ainda não a habitamos, isso significa que ainda nos falta percorrer um pedaço de caminho. No entanto, este tipo de sonhos é muito favorável, porque indica que podemos edificar uma nova vida com maior segurança.

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5 thoughts on “A casa e as suas dependências

  1. Gostei muito do artigo. O assunto chamou-me à atenção porque sonho constantemente com casas. A casa é sempre antiga, em pedra de granito, e costumo percorre-la. Quantos mais recantos tem a casa melhores sensações o sonho me transmite.

  2. Tenho sonhado muito com minha mãe, minha paterna e minha tia avo paterna, todas falecidas.
    Normalmente sonho com elas em um mesmo quarto todas juntas ou as vezes estou somente em companhia de uma delas.
    Qual seria o sentido disso? Sinto uma sensação agradável durante o sonho. Poderei estar lembrando de algum desdobramento?

  3. Sonho muito com casas, partes delas eu reconheço pois já morei em várias, o engraçado é que elas não se misturam em um sono. Se sonho com a ktnet que morei a fachada é a mesma (simples), mas quanto eu abro a porta ela é imensa, tem até jardim que as vezes parece mais uma selva de tão grande. E tudo isso que é adicionado eu não sei de onde vem.Se algum ponto me lembra a casa onde passei a minha infância, logo eu me vejo nesta casa e a ktnet desaparece.Elas se ligam mas não se misturam. O lugar que mais ocupo na minha antiga casa são os quartos (meu e minha irmã/irmão e pais)Na verdade mais com o do meu irmão que era meu antes dele nascer e que eu cedi com coração mas quando me mudei p/ quarto da minha irmã não fui bem recebida o quarto era dela e eu uma visita.Acho que me senti uma-sem-quarto. O quato está sempre escuro eu não acho as minhas coisas nem reconheço as dele, eu nunca deito na cama pq sei que não é minha, eu sento no chão com um livro muito grosso de capa preta e velho com a capa solta igual aos que eu estudo na faculdade, mas não leio só foleio como se eu sobesse tudo o que tem escrito. Sempre acho q o livro vai me levar p/ algum lugar fora do país, não sei bem longe um lugar q sempre sonhei

  4. Sempre sonho com casa ela é grande e antiga possui salas com muitas janelas o teto é alto e tem um sotão que as vezes me vejo limpando tirando as teias de aranha ouço fantasmas lá também, as vezes lá de cima começo outro sonho de que stou voando por cima de uma floresta tropical com seus rios tortuosos sinto-me feliz mas com medo muito medo, eu acordo,.. as vezes levanto e volto a dormir e o sonho muitas recomeça..da rua da minha casa de infancia só que eu tento voar e não consigo passar do fios da rede eletrica. Este sonho já me acompanha desde a infancia. Hoje em dia me vejo sempre reformando a casa montando fontes no jardim, reformando paredes..

  5. Republicou isto em drudenicola and commented:
    Sotãos s]ao lugares seguros (the upstore) onde se armazenam experiencias, demonstram ao individual ou pessoal as provas de passagens por onde se evolui a experiencia e na vida real as possibilidades para melhoras em um futuro próximo.

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