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Arquivo da Categoria: sonhos

O lugar do mito na vida moderna – James Hollis

Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna

Dizem que, em média, gastamos seis anos de nossa vida sonhando. Essa façanha prodigiosa faz parte do intento teleológico da psique. Os sonhos são a rota íntima de saída da alma e constituem o processo gerador de mitos em cada pessoa. A rica tessitura de detalhes, a “transgressão” da lei de tempo e espaço vigente na vigília, o poder de síntese de novas combinações, as abundantes alusões a experiências anteriores, são todos aspectos conhecidos do estudioso de sonhos. Sempre misterioso e ineditamente surpreendente, em geral enigmático, trabalhar com sonhos vincula-nos de modo irremediável com o mistério. Se temos condições de acompanhar os sonhos durante certo período, eles efectivamente indicam movimentos, mostram, sem sombra de dúvida, como a pessoa está a trabalhar com as suas questões pessoais e resolvê-las. A soma desses sonhos constitui um épico heróico no mínimo tão extraordinário quanto os produzidos por Homero ou Dante. A descida ao mundo inferior está aí, os monstros temíveis, o imenso cartel de personagens, as batalhas titânicas – ou seja, o próprio conteúdo dos mitos.

As descobertas de Freud apresentadas na sua obra Interpretação dos sonhos são úteis quando se considera a natureza do trabalho mítico. Nos sonhos, o inconsciente condensa eventos aparentemente aleatórios numa epifania concisa e de sentido íntimo. O inconsciente fala por meio de imagens afectivamente carregadas e não através de conteúdos cognitivos. Essas imagens corporificam o significado nas metáforas e nos símbolos.

Às descrições freudianas do trabalho com os sonhos, Jung acrescentou a ideia do inconsciente colectivo, no qual as imagens são comuns não só à vida de cada um, mas também à do universo. Ele também percebeu que os sonhos não eram só desejos indirectamente satisfeitos, mas, muitas vezes, comentários espontâneos do Si-Mesmo a respeito da vida do sonhador. De acordo com Jung, os sonhos podem ser não só teleológicos, promovendo as metas da consciência e da completude, mas também estão em busca de compensações para as unilateralidades das adaptações conscientes. Dessa maneira, são dotados de propósito e capazes de efectuar correcções, desde que, é óbvio, a pessoa possa assimilar conscientemente a mensagem.

Na mesma medida que a psique é atemporal e abarca todas as coisas humanas, devemos reconhecer e admitir que as vidas que construímos são parciais, contidas pelo tempo e fragmentárias. Se pendemos à direita, privilegiando as escolhas conscientes, a psique arrasta-nos para a esquerda a fim de nos centrar. Os sonhos, por conseguinte, confrontam-nos com nossas vidas não-vividas, não com o que somos, mas com o que poderíamos tornar-nos; não com o que fizemos, mas com o que não conseguimos realizar. Quando discernimos a natureza e o motivo do trabalho onírico, podemos, igualmente, perceber o mesmo processo em funcionamento no trabalho mítico. Já se disse que o sonho é a mitologia da pessoa e que o mito é o sonho de uma tribo. Ambos se originam espontaneamente nas profundezas e confirmam as actividades de auto-regulação do psiquismo. Da mesma forma que os sonhos fazem parte do correctivo teleológico exercido pela psique individual, dando continuidade à misteriosa missão da natureza no íntimo de cada um de nós, também os mitos, procedendo das mesmas camadas abissais, contêm o correctivo teleológico da alma.

 

James Hollis
Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna
Paulus, São Paulo, 1999

 
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Publicado por em 2008 in psique, símbolos, sonhos

 

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A Jornada do Herói

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

A Jornada do Herói

Foi a preocupação com a possibilidade de não conseguirmos solucionar os grandes problemas políticos, sociais e filosóficos do nosso tempo, caso muitos de nós persistíssemos em ver o herói como algo de exterior a nós mesmos, que me inspirou a escrever The Hero Within. O livro pretende ser um convite a empreender a jornada e desafiar os leitores a reivindicarem o seu próprio heroísmo. Esta jornada não implica tornar-se maior, melhor, ou mais importante do que qualquer outra pessoa. Todos somos importantes. Todos temos uma contribuição fundamental a dar, o que só podemos fazer assumindo o risco de sermos nós mesmos e únicos.

Sabemos que, sob a busca frenética de dinheiro, estatuto, poder e prazer, bem como sob as atitudes obsessivas e viciadas habituais nos dias de hoje, existe uma sensação de vazio e uma ânsia de ir mais fundo, comum a todos os seres humanos. Ao escrever The Hero Within, pareceu-me que todos nós precisamos de encontrar, se não o “sentido da vida”, pelo menos o sentido das nossas próprias vidas individuais, para que possamos descobrir formas de viver e de ser fecundas, efectivas e autênticas.

Todos os mitos do herói, culturais ou individuais, mostram-nos os atributos que são considerados como definidores do bem, do belo e da verdade, e assim transmitem-nos as aspirações que são valorizadas culturalmente. Muitas dessas histórias são arquetípicas. Os arquétipos, como postulava Carl Jung, são padrões permanentes e profundos da psique humana, que se mantêm poderosos e actuantes ao longo do tempo. Para empregar a terminologia junguiana, tais padrões podem existir no “inconsciente colectivo”, na “psique objectiva”, ou mesmo estar codificados na constituição do cérebro humano.

Podemos aperceber-nos claramente desses arquétipos nos sonhos, nas artes, na literatura e no mito. Parecem-nos profundos, tocantes, universais e, por vezes, até mesmo aterrorizadores. Também podemos reconhecê-los ao contemplarmos as nossas vidas e as dos nossos amigos. Observando o que fazemos e como interpretamos o que fazemos, podemos identificar os arquétipos que orientam as nossas vidas.

Conhecemos a linguagem dos arquétipos porque eles vivem dentro de nós. Os povos antigos também conheciam essa linguagem. Para eles, os arquétipos eram os deuses e as deusas que se ocupavam de tudo nas suas vidas, do mais banal ao mais profundo. A psicologia arquetípica, em certo sentido, recupera as verdades de antigas teologias politeístas, que nos falam da natureza maravilhosamente múltipla da psique humana. Acontece que, mesmo quando essas divindades (ou arquétipos) são negados, a sua força não deixa de se fazer sentir dentro de nós.

Pelo contrário, recrudesce. Somos, então, possuídos pelos arquétipos e experimentamos a escravidão, e não a libertação, que eles nos oferecem. Devemos ter cuidado com o desprezo pelos deuses, pois, ironicamente, são exactamente as nossas tentativas de os negar e reprimir que provocam as suas manifestações destruidoras Os arquétipos são fundamentalmente amistosos. Podem ajudar-nos a evoluir, colectiva e individualmente. Se os respeitarmos, poderemos crescer.

Os heróis empreendem jornadas, enfrentam dragões e descobrem o tesouro do seu verdadeiro Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência]. Embora possam sentir-se muito sós durante a busca, no final experimentam um sentimento de comunhão: consigo mesmos, com as outras pessoas e com a Terra. De cada vez que enfrentamos a morte em vida, deparamos com um dragão. Se escolhermos a vida em vez da não-vida, mergulhamos mais profundamente na descoberta de quem somos e derrotamos o dragão. Infundimos, assim, vida nova em nós mesmos e na nossa cultura. Mudamos o mundo.

 

Segue: Os Arquétipos e a Evolução Humana

 

Uma Cultura Guerreira

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

Anterior: O Guerreiro

Uma Cultura Guerreira

Os Guerreiros mudam os seus mundos através da afirmação da sua vontade e do seu desejo de um mundo melhor. Nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas amizades, nas comunidades ou na cultura como um todo, este arquétipo orienta as nossas exigências no sentido de harmonizar o ambiente circundante com os nossos próprios valores.

No entanto, aqueles que chegam à fase do Guerreiro sem antes lidarem com as suas identidades não podem ser verdadeiros Guerreiros, seja porque não sabem por que razão estão a lutar, seja porque lutam para provar a sua superioridade. “Quem sou eu neste momento?” Enquanto o Guerreiro não souber responder a esta pergunta, apenas se entregará a pseudo-lutas, nas quais o mito herói/vilão/vítima é valorizado por si mesmo, e não pelos resultados positivos que pode acarretar.

Estes Guerreiros acabam por descobrir que o ritual em si não pode transformar nem o herói nem o reino.

Podemos encontrar o ritual subjacente ao mito do Guerreiro na guerra, mas também está presente no desporto, nos negócios, nas religiões, e até mesmo nas teorias económicas e educativas da nossa sociedade. Na esfera dos desportos, assistimos a uma progressão que vai das disputas dos gladiadores, nas quais o perdedor é morto, ao futebol americano, ao basquetebol ou ao futebol, nos quais o adversário simplesmente perde.

Na política assistimos igualmente a uma progressão interessante. No modelo mais primitivo, o herói eliminava o velho rei (o tirano) e, pelo menos teoricamente, salvava o povo. É um facto que tais práticas prosseguem na era moderna, em diversas partes do mundo, onde a mudança política ainda é realizada por meio de golpes sangrentos ou de revoluções. Nos Estados Unidos, porém, descobrimos uma forma de evitar tais carnificinas. O velho rei não é ritualmente eliminado, como em algumas culturas primitivas, nem morto durante o sono, nem tão-pouco julgado e executado pelos seus crimes. É derrotado nas eleições, cuja retórica subjacente é assaz bélica e igualmente primitiva.

O aspirante a herói – seja na política eleitoral, seja na política intra-organizacional – explica como salvar o país ou a organização, e demonstra como a situação actual é responsável por todos os prejuízos. Apresenta um quadro em que a situação é revista, demonstrando as grandes melhorias que adviriam para o país/estado/organização, caso ele ganhasse as eleições, ou os prejuízos que a oposição causaria, caso estivesse no poder. É a linguagem da guerra: falamos em derrotar a oposição nas eleições, mas poderíamos dizer: “Havemos de massacrar!” É obvio que esta linguagem belicosa também é fundamental nos negócios, onde o objectivo é sair vitorioso da competição. A convicção central do capitalismo baseia-se na afirmação de que a competição, uma outra versão da luta, trará uma vida melhor para todos – produtos melhores, preços mais baixos. A vitalidade dos Estados Unidos depende de saírem vitoriosos da competição. Até mesmo o nosso sistema jurídico se baseia no modelo da luta.

Embora o derrotado nos desportos, na política ou nos negócios já não seja visto como um vilão, a derrota continua a trazer uma vergonha imensa ao perdedor, que interioriza a convicção de não é só o seu desempenho que é mau, mas de que ele é mau na sua essência. Causa vergonha ser a equipa ou o candidato derrotados. Causa vergonha ser pobre porque isso implica ter perdido na luta da livre concorrência. Tais suposições podem explicar por que motivo parecemos incapazes, enquanto cultura, de elaborar um sistema de prosperidade que não humilhe os beneficiários.

Muitos educadores vêem o processo de aprendizagem como uma corrida, na qual alguns alunos são rotulados desde o primeiro grau como “vencedores” e outros como “perdedores”. Essas expectativas podem converter-se em autênticas profecias. Os “perdedores” interiorizam a consciência de que são indignos, enquanto que os “vencedores” são estimulados a fazer esforços cada vez maiores, sem por isso deixarem de temer o fracasso. Ser expulso do colégio – ou, no caso de professores universitários, não ser promovido para determinado cargo – equivale a uma verdadeira desgraça.

Os Guerreiros costumam concentrar-se nos “factos”, na tentativa de se “endurecerem” mentalmente: um marxista insistirá que apenas a realidade é real. Qualquer outra consideração – sobre a realidade interior, subjectiva, ou sobre a espiritualidade –, é por ele vista como falsa. Um cristão fundamentalista, segundo o mesmo espírito, insistirá em considerar a Bíblia literalmente, e ver nela um projecto de acção. Nos desportos, fazemos a contagem, marcamos os pontos. Nos negócios, consideramos os lucros. Na educação, quantificamos cada vez mais os resultados e procuramos metodologias irrefutáveis. Na economia, catalogamos o Produto Nacional Bruto. Segundo esta visão do mundo, o pensamento correcto é linear, hierárquico e dualista.

Na verdade, o enredo herói/vilão/vítima é um dogma na nossa cultura cujo poder é tão grandioso que a sua mera invocação torna irrelevantes quaisquer provas em contrário. Os académicos, por exemplo, equacionam competição com qualidade de educação, embora a maioria das investigações levadas a cabo sustente a ideia de que uma abordagem cooperativa da aprendizagem é, na realidade, muito mais eficiente. Muitos administradores de empresas continuam a tentar obter uma maior produtividade dos seus empregados, criando assim uma atmosfera de competição feroz, pese embora as investigações sugerirem que as empresas comerciais mais bem sucedidas são aquelas que criam um ambiente de confiança e nas quais os empregados se auxiliam mutuamente.

O desafio que enfrentamos, enquanto Guerreiros, depende de nossa capacidade de imaginar e afirmar outras verdades, outras versões do mito do Guerreiro. A consequência lógica da insistência em definir a vida como uma luta é a fome mundial, a devastação ambiental, a desigualdade racial e sexual, a guerra nuclear e o desperdício dos talentos de todos quantos se consideram e são considerados perdedores.

Segue: Além do extermínio do Dragão

 

O reconhecimento dos símbolos

Georges Romey
Excertos adaptados

Anterior: Como surgiu o espírito nas imagens

O reconhecimento dos símbolos

A pessoa que se predispõe a interpretar os sonhos é fatalmente conduzida a formular duas interrogações:

• A importância do papel de uma imagem é proporcional à frequência do seu aparecimento?

• No enunciado produzido pelo sonhador no decorrer de um sonho de 40 minutos (cerca de 700 palavras) quais devem reter a atenção do tradutor? Será que este pode simplificar a sua abordagem organizando-as por categorias?

Do ponto de vista quantitativo, é necessário distinguir três grupos de símbolos:

• o grupo de imagens cuja presença se detecta em mais de 10% dos sonhos tais como: preto, branco, mão, sol, areia, etc.;

• o grupo de representações que observamos uma ou duas vezes em cada uma, ou seja, entre 4 e 10% das sessões, como sejam o velho sábio, a estrela, o objecto submerso, etc.;

•  o grupo de figuras raras que não chega a atingir o 1% tais como o icebergue, o cavalo-marinho, o menir, etc..

A elevada frequência de um símbolo não nos autoriza a considerá-lo banal nem a reconhecer nele uma importância particular. No seio do primeiro grupo temos arquétipos: a areia, a lua, o vermelho, o amarelo, etc., cuja participação na dinâmica de evolução é particularmente forte apesar da sua repetição.

As imagens do segundo grupo são frequentemente agentes especiais, arquétipos poderosos que intervêm no decurso de fases determinantes da transformação psíquica. Por fim, vêm as imagens raras, mas que se repetem no seio de uma mesma cura; ligam-se a temas específicos da problemática do sonhador e têm um grande valor informativo.

As palavras-imagens que compõem a linguagem simbólica nem sempre são inteligíveis e nunca são supérfluas.

Do ponto de vista qualitativo, proponho ao tradutor de um sonho uma chave que simplificará consideravelmente a sua abordagem. Os símbolos que aparecem num sonho podem ser classificados em três categorias:

 As balizas

A dinâmica do imaginário, tal como se manifesta no sonho livre acordado, resulta sempre de um confronto entre as duas forças das quais depende a vida:

• aquela que sustenta o adquirido e exprime o que se convencionou chamar de instinto de conservação. Se observarmos as produções oníricas que inspira, diremos que manifestam a permanência (positiva) ou a resistência (negativa);

• aquela que tende a promover o devir do ser. É uma pulsão de renovação e, segundo a nossa forma de ver as produções oníricas, diremos que manifestam a evolução (positiva) ou a entropia (negativa).

Um sonho de 600 ou 700 palavras tem entre 40 a 80 imagens cuja interpretação pode revelar o sentido oculto do sonho. É muito. No entanto, um terço destas imagens têm apenas como papel exprimir a resistência ou a evolução. São testemunho da dinâmica em acção no sonho e não dissimulam outros sentidos facilmente observáveis. Reduzem consideravelmente o campo de interpretação.

A permanência é representada por todas as imagens que exprimem rigidez, aprisionamento: a estátua, a máscara, a armadura, a parede, a múmia, o esqueleto, a prisão, o gelo, a neve, a mármore, etc. A evolução é representada por todas as imagens que simbolizam a flexibilidade, o movimento, a liberdade: a transparência, o vidro partido, o voo, os felinos, o pássaro, o trenó, a música, a dança, a cascata, etc.

 Os indicadores

Uma pequena parte das imagens que se propõem ser traduzidas, depois de retirarmos as da categoria precedente, são símbolos cujo significado está relacionado com um episódio da história pessoal do sonhador ou da sonhadora. Estas associações circunstanciais só farão sentido no momento em que os seus autores forem capazes de se lembrar da cena durante a qual essas associações foram estabelecidas. Não exigem nenhum esforço de tradução da parte do terapeuta, cujo papel se limita a solicitar que o/a sonhador/a se recorde.

 Os promotores

Trata-se, na maioria, de imagens que traduzem os valores arquetípicos universais. As projecções psicológicas a que se prestam são do conhecimento do terapeuta. A água, o fogo, a árvore, o mar, a fada, o velho sábio, as cores, a cidade branca, os cavalos, o rio, a aranha, e mais 500 outros são objecto de um estudo importante nos quatro volumes do meu Dictionnaire de la Symbolique.

 

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Como surgiu o espírito nas imagens

Georges Romey
Excertos adaptados

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Como surgiu o espírito nas imagens

A formação do símbolo

Quem se aproximar do universo misterioso dos símbolos sente-se irresistivelmente levado a colocar uma pergunta dominante: “O que quer isto dizer?” Pergunta natural, legítima, mas que invade o nosso pensamento e faz com que a pergunta fundamental (“O que faz isso?”) seja eclipsada.

O desejo de atribuir a cada imagem um sentido estável, estabilidade essa que ajudaria à pertinência da interpretação, opõe-se ao reconhecimento da natureza essencialmente activa do símbolo. A força da imagem-símbolo resulta do facto de ela intervir sempre como um agente dinâmico e de se tratar de uma expressão instantânea, coincidindo com uma necessidade bem precisa da evolução.

Um signo não tem vida própria. É apenas um ecrã, um suporte, um revelador que se oferece às nossas projecções logo que pode desempenhar um papel condutor na dinâmica psicológica. Antes deste instante, e depois dele, o símbolo é uma lâmpada apagada, um signo morto.

Não existem símbolos que tenham uma existência isolada e estável. Há apenas imagens que se integram em cadeias simbólicas, redes de representações compostas por elementos associados segundo as leis de sinonímia, de forma, de agregados culturais ou circunstanciais, e mesmo de uma simples proximidade de registo nos neurónios!

Estas cadeias, estes canais interpenetram-se, entrecruzam-se numa complexidade aparentemente indecifrável. No entanto, uma observação atenta de dados suficientemente numerosos permitiu-nos extrair algumas das lógicas às quais obedece a formação dessas cadeias. Estes fenómenos respondem a leis idênticas àquelas que regem o funcionamento neuronal sobre o qual repousam.

É raro poder reduzir uma imagem a um significado único. O que acontece com maior frequência é que as suas características dêem lugar a projecções múltiplas. Neste caso, é a cadeia de símbolos na qual a imagem se insere que determina o sentido dominante. Este tema será desenvolvido mais adiante, através de ilustrações exemplificativas. Uma imagem pode ser o elo de 3,4 ou 5 cadeias de representações diferentes.

O mental é o produto de uma confrontação multimilenar com as imagens. Imbuído das suas faculdades lógicas, ele quer ignorar as origens que desdenha. No entanto, quando o mental aceita que se arrogou o direito de reprimir os sentimentos, dá acesso às camadas mais longínquas das memórias ontogenética e filogenética.

Este retorno à imagem dá conta da eficácia quase mágica de uma técnica que confia ao símbolo o essencial da missão terapêutica e da abertura psicológica. Sob a aparência de um caminho humilde de imagens que parece ser, por vezes, de uma fantasia incoerente, dissimula-se uma via prodigiosa que conduz ao bem-estar.

A análise das correlações observadas entre os símbolos expressos nos sonhos oferece numerosas oportunidades de salientar a natureza das associações que existem entre as imagens, por um lado, e entre as imagens e a estrutura mental, por outro. Vários exemplos estabelecerão o papel da forma na génese de uma associação entre vários símbolos.

O estudo da bicicleta, cuja frequência no sonho acordado livre ultrapassa os 4%, mostra que esta imagem está no centro de uma rede de 33 correlações. Duas delas dominam nitidamente as outras. São os óculos e a coruja. Se nos deixarmos guiar por uma lógica normal, estas aproximações surpreendem-nos.

No entanto, para além de uma semelhança de sonoridade entre as três palavras [Em francês, as palavras são bicyclette, lunettes e chouette, respectivamente para bicicleta, óculos e coruja. (N.T.)] , o que não chega para detectar a correlação constatada, as três imagens estão ligadas por uma identidade de forma. A fim de a vermos, basta desenhar três pares de círculos:

arquetipos-1.jpg

A partir desta figura tripla, alguns traços secundários vão suscitar a evocação dos três símbolos:

arquetipos-2.jpg

Muitas correlações, reveladas pelos resultados da análise estatística, entre símbolos que nada parecia relacionar, repousam assim sobre uma ou mais características morfológicas comuns.

As cadeias de associações simbólicas não são produtos aleatórios de uma activação neuronal liberta dos constrangimentos racionais em situação de sonho acordado. Traduzem os mecanismos de funcionamento do imaginário e preenchem funções precisas.

A observação tão frequente de encadeamentos simbólicos nos sonhos autoriza-nos a fazer uma primeira afirmação relativa às regras gramaticais da língua dos símbolos: na expressão simbólica, o pleonasmo e a redundância não são impurezas linguísticas.

Do ponto de vista funcional, revelam caminhos convergentes de estímulos neuronais cuja soma permite atingir o limite de intensidade necessária para originar uma transformação. Do ponto de vista analítico, a sua constatação é uma das bases mais seguras da determinação do sentido de um símbolo.

Quando uma imagem, devido às suas características múltiplas, é susceptível de se prestar a várias projecções potenciais, é a cadeia na qual a imagem está inserida que indica a projecção activa no sonho em questão. Três sonhos, produzidos por três sonhadores diferentes, Hervé, Paul e Jacqueline, colocam o mesmo símbolo, o guarda-chuva, em três cadeias que determinam, todas elas, um sentido diferente para a imagem.

Hervé desce a uma gruta subterrânea, esgravata o pó que cobre o solo e descobre uma espécie de escudo medieval em metal. A imagem transforma-se e o escudo, agora em couro espesso, alonga-se e torna-se a pele rígida de um animal, cuja forma Hervé descreve com precisão.

Alguns minutos mais tarde, o sonhador, tendo abandonado o subterrâneo, sobe ao céu e voa como um pássaro. Imobiliza-se sobre uma pessoa que tem o guarda-chuva aberto. O sonhador insiste na imagem que oferece um guarda-chuva quando visto do céu. Em seguida, a imaginação conduz Hervé até um barco cuja barra do leme lhe lembra aquela forma. No final do sonho, o paciente admira-se com a curva formada por uma vela sustida por um mastro muito curto, o que forma uma retranca de tamanho desproporcionado.

Estas imagens encontram-se dispersas num sonho de 35 minutos e 500 palavras, e poderiam ser vistas como símbolos independentes uns dos outros. Seria estranho tentar traduzir cada um destes símbolos em relação à sequência na qual se inserem. No entanto, esta é a tentação do analista quando escuta um sonho. Poder-se-ão evitar alguns impasses se sobrevoarmos as imagens e virmos as suas semelhanças:

arquetipos-3.jpg

Hervé tem 43 anos e produziu este sonho numa fase da sua cura na qual há uma busca de equilíbrio entre uma componente feminina forte e pulsões viris culpabilizadas. O que se exprime através destas cinco imagens é a relação entre a curva e a ponta, os valores da anima e do animus. O guarda-chuva visto do céu é apenas uma das ilustrações inspiradas por esta relação.

Paul vê, no início do seu sonho, um automóvel descapotável “dos anos 20” e descreve-o minuciosamente. Um pouco mais tarde, cruza-se com um transeunte que leva um guarda-chuva preto aberto, sem que esteja a chover. Paul descreve seguidamente a forma de uma folha morta que plana no vento. No fim do sonho, vê um “morcego enorme.”

Nesta série de imagens, o guarda-chuva tem um sentido diferente daquele que tem no sonho de Hervé:

arquetipos-4.jpg

As imagens de Paul têm em comum três elementos específicos. Por um lado, apresentam uma estrutura que se estende sobre uma armação: nervuras ou varetas. Por outro lado, esta estrutura desenvolve-se a partir de um ponto central e todas as suas partes podem ser vistas ao contrário. Em repouso, o morcego fica com a cabeça para baixo, suspenso pelas patas; o guarda- chuva fechado fica na posição inversa àquela em que se encontra quando está a ser utilizado. A folha está unida à árvore pelo pecíolo e a capota do carro dobra-se ou desdobra-se a partir de um eixo de ligação à viatura.

As imagens de Paul exprimem uma fase determinante na evolução psicológica: aquela em que o paciente já está disponível para vivenciar a reabilitação dos opostos recalcados. Esta disponibilidade, condição indispensável para a realização do processo de individuação junguiano, manifesta-se frequentemente por símbolos que podem ser vistos de forma inversa.

Por fim, temos o sonho de Jacqueline que apresenta uma série de imagens ainda mais importantes. Entre elas, figura um guarda-chuva com barras multicolores. A sonhadora vê, pela ordem seguinte: uma palmeira, um pára-quedas, um guarda-chuva multicolor, um fogo de artifício, um jacto de água iluminado por um projector que refracta a luz, e um cogumelo.

Esta interpretação de formas que se desdobram a partir de um centro em todas as direcções do espaço, exprime a dissolução de um factor inibitório muito importante. O influxo nervoso acede repentinamente a zonas múltiplas da rede neurónica, provocando uma sensação de liberdade infinita.

Esta interpretação encontra a sua confirmação na multicoloração do guarda chuva, do jacto de água e do fogo de artifício. A profusão colorida no sonho é um dos indícios da reanimação psicológica: o guarda-chuva colorido de Jacqueline, inscrito nesta cadeia de imagens, alberga o sentido de uma libertação, de uma abertura psíquica.

Este exemplo do guarda-chuva, que aparece em três linhas simbólicas distintas, ilustra bem o papel determinante da importância da cadeia na tradução de um símbolo.

A estrutura do imaginário e da memória está organizada numa vasta rede que podemos comparar a um entrosamento de malhas cruzadas que vão em todas as direcções do espaço. Cada malha está ligada a uma quantidade variável de outras malhas. As ligações entre as malhas – os neurónios – fisicamente afastadas umas das outras, estabelecem-se ora de forma definitiva, ora conforme as necessidades. Fazem-no a uma velocidade vertiginosa e segundo disposições de uma subtileza espantosa.

Estas ligações podem estar inscritas na herança neuronal desde há milénios; podem ter-se estabelecido no decurso dos primeiros meses da infância ou podem ser o produto instantâneo do encaminhamento do fluxo nervoso ao longo do sonho. É este desdém biológico em relação ao tempo que choca a inteligência racional quando esta se confronta com o texto de um sonho.

Este não se situa no tempo contável. O seu espaço é o da eternidade. Quem já experimentou estas sessões de sonho acordado sabe até que ponto a noção de tempo se vai dissipando ao longo do sonho. No fim do sonho, o paciente não sabe se falou durante 15, 20 ou 40 minutos.

O enfraquecimento da vigilância racional durante a sessão não gera incoerência. É antes condição de uma dinâmica de harmonização de todo o ser, da dissolução de tensões que existem a nível de certas malhas da rede. O esforço intelectual para dominar a causa do mal-estar psicológico parece irrisório quando aprendemos que a harmonia só pode ser atingida quando abandonamos a ditadura do que chamamos, impropriamente, de racionalidade.

Esta confunde-se com o reconhecido, rejeitando para o irracional todas as formas de vida que a consciência se sente inapta a gerir! Este erro de perspectiva está na origem da maior parte dos desconfortos psicológicos.

 

Segue: O reconhecimento dos símbolos

 

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As imagens, palavras vindas do início dos tempos

Georges Romey
Excertos adaptados

As imagens, palavras vindas do início dos tempos

A consciência humana está ligada ao mundo pela imagem. Pelo termo “imagem” entendo o tudo o que é apreendido pelos cinco sentidos. As observações feitas a partir de um grande conjunto de sonhos acordados livres realçam uma curiosa repartição estatística.

Em 100 símbolos, 50 dizem respeito à visão, 25 ao tacto e ao movimento, 12 à audição, 6 ao olfacto e 3 ao paladar. Estes números são aproximados, obviamente, mas exprimem uma tendência muito nítida. Quanto mais os sons, os odores ou os sabores são evocados num sonho, mais parece que o imaginário exterioriza emoções que emergem de zonas muito antigas da problemática que afecta o paciente.

Para cada indivíduo, como para a humanidade em geral, os arquivos mais recônditos da memória são as imagens. Convém relembrar que sempre e em todo o lado:

• a imagem precedeu a linguagem;
• a linguagem precedeu a escrita;
• a escrita precedeu a gramática.

O cérebro do bebé impregnou-se de milhares de visões antes de o desenvolvimento do aparelho fonético e de a estrutura mental o terem dotado da capacidade de pronunciar uma frase articulada. Milhões de cenas impressionaram o sistema nervoso dos nossos antepassados da pré-história antes de o homem ter sido capaz de comunicar o seu pensamento através de sons convencionais.

Sinto-me tentado a ligar esta afirmação a uma constatação feita sobre o grupo de 50 símbolos que aparecem com mais frequência nos milhares de sonhos que analisámos. São 50 imagens que estão disponíveis na natureza desde a origem dos seres vivos. O grupo de 50 símbolos compreende 7 cores, o sol, a areia, a lua, a árvore, o mar, os animais. Não engloba, porém, nenhum dos aparelhos e objectos criados pela indústria humana, mesmo os que mais se impõem na nossa vida quotidiana.

O mundo oferece-se como um gigantesco livro de imagens que compõem cenas cuja variedade é infinita. O imaginário também é capaz de produzir uma variedade infinita de composições. No entanto, as imagens a partir das quais são elaboradas estas composições são em número relativamente limitado.

O repertório de símbolos que compilei desde o início das minhas pesquisas comportava 1700 símbolos, repartidos por 15 famílias (animais, vegetais, cores, personagens, etc.). A análise estatística feita com base em centenas de milhares de informações mostrou, desde então, que o número de símbolos cuja frequência é de, pelo menos, 1% nos sonhos, é inferior a 500. Foi este grupo de símbolos que escolhi tratar nos 4 volumes do Dictionnaire de la Symbolique.

São esses símbolos que os sonhadores e os psicoterapeutas encontram com mais frequência. O seu conjunto forma um verdadeiro vocabulário de imagens. São as palavras através das quais o imaginário se exprime e esta linguagem encontra-se submetida às mesmas leis que as que a linguística elaborou a partir do estudo das línguas.

Os 1700 símbolos que compõem o meu repertório inicial correspondem ao que os linguistas apelidam de vocabulário fundamental.

Certas pessoas, cuja cura acompanhei, voltaram anos mais tarde ao consultório, com a intenção de serem ajudadas numa nova fase de evolução. Quando isso acontece, o que me surpreende sempre é a constância do seu vocabulário de imagens. Assim como um escritor fica preso ao seu estilo e às suas palavras-chave, o sonhador reproduz o mesmo modelo de sonho e serve-se das mesmas imagens para exprimir episódios que são novos na sua evolução.

As observações precedentes são importantes. Antes de reconhecer que as imagens se inscrevem numa lógica de linguagem, era impossível conceber o esboço de uma gramática dos símbolos.

Segue: Como surgiu o espírito nas imagens

 
 

O sonho acordado livre

Georges Romey
Excertos adaptados

O sonho acordado livre

Ninguém escreverá jamais o dicionário exaustivo e definitivo dos símbolos. Esta afirmação decorre da própria natureza da função simbólica. Se o símbolo fosse um código inerte, portador de um ou mais sentidos facilmente apreendidos, que pudéssemos identificar de uma vez por todas, algumas das melhores obras escritas até hoje por teóricos competentes responderiam satisfatoriamente às necessidades dos analistas. Mas estes experimentam frequentemente um sentimento de frustração na sua prática quotidiana.

A nossa intenção de escrevermos mais um dicionário de símbolos não traduzirá uma atitude arrogante? Passaremos a explicar a pertinência da abordagem diferente com que esta obra pretende contribuir para responder de forma mais adequada às necessidades quotidianas do analista.

Se nos cingirmos apenas às obras que consideramos sérias, e que excluem as fantasiosas “chaves de sonhos”, constataremos que há dois tipos de obras: as que se organizam em dicionários e se pretendem indicadoras do sentido e as que tentam tornar as estruturas do imaginário mais precisas. O sucesso de algumas destas obras atesta o seu mérito.

No entanto, a sua capacidade de responder às interrogações do psicólogo clínico parece-nos diminuída pela sua tendência para se referirem quase exclusivamente ao fundo cultural mitológico de diversas civilizações. Quanto ao segundo tipo de obras, o facto de repousarem constantemente nos escritos dos seus predecessores pressupõe que esses mesmos escritos sejam infalíveis. Esta atitude opõe-se à liberdade criadora.

O Dicionário da Simbólica é o produto de uma atitude e de referências completamente diferentes das que acabámos de evocar. A base de dados a partir da qual conduzimos a exploração quantitativa e qualitativa do universo simbólico é constituída a partir de observações clínicas. Nesse aspecto, é provavelmente único.

Resulta de dezasseis anos de prática do sonho acordado livre. Inventada por Robert Desoille em 1923, a técnica do sonho acordado constitui um método eficaz em psicoterapia. Lamentamos que seja ainda tão pouco conhecida da psicologia e do público.

As condições de aplicação da técnica são simples. O sujeito é colocado numa posição que favorece o relaxamento, ou seja, confortavelmente alongado. Após um compasso de espera, é convidado, a partir da primeira imagem que lhe surge espontaneamente, a estabelecer um encadeamento imaginário que vai descrevendo à medida que este se desenrola.

Todas as pessoas que pensam participar neste tipo de sessão têm medo no início. Medo de não ver imagens, medo de não saber exprimi-las. Uma prática assaz longa permite-nos afirmar que estas apreensões nunca se confirmaram, desde que a pessoa estivesse realmente disposta a viver o sonho. O abaixamento do metabolismo, consequência da situação de relaxamento, age de forma natural sobre a consciência.

O estado que se atinge não é nem o da consciência normal nem o do sono e favorece a emergência de imagens que exprimem a problemática do paciente. Transporta imagens entre o consciente e o inconsciente, reenvia para as vivências patogénicas da infância e permite uma total memorização do sonho.

O sonho, que os pacientes chamam de cenário, de tal forma o desfile de imagens se assemelha à projecção de um filme, obedece a leis que organizam a estrutura, a orientação espacial da acção e o material simbólico que se exprime no sonho. Robert Desoille salientou que alguns temas ou arquétipos se repetiam no decurso das primeiras curas que presenciou.

Esta constatação levou-o a conceber, no sentido de uma maior eficácia, um método segundo o qual ele fornecia ao sonhador um tema de partida para o sonho. Convencido da importância da dinâmica vertical, ele próprio fornecia ao paciente imagens de subida ou de descida que julgasse oportunas. Levava-os também a substituir imagens “negativas” por imagens “positivas”. Isto fez com que chamasse ao seu método sonho acordado dirigido. Posso testemunhar da sua validade aquando de um tratamento que fiz aos vinte e dois anos.

Em 1979, decidimos, após uma longa maturação, utilizar a técnica do sonho acordado. Queríamos aprofundar o estudo dos símbolos, ao mesmo tempo que queríamos continuar a ajudar as pessoas. Algumas sessões experimentais de sonho acordado, conduzidas na altura da preparação da obra Le Test de L’Arche de Noé, obra que versa o simbolismo dos animais, tinham demonstrado que sempre que uma imagem é proposta, uma série de associações se lhe segue automaticamente.

Ora, nós queríamos que todo o material de que viéssemos a dispor fosse isento de qualquer indução e emitido de forma completamente espontânea. Estávamos dispostos a alterar as nossas premissas se o resultado terapêutico não se revelasse satisfatório. Em breve nos demos conta de que este tipo de abordagem suscitava curas surpreendentemente eficazes. Identificámos os factores que as determinavam e que hoje nos parecem incontornáveis.

Abria-se assim o caminho para a realização dos nossos dois objectivos: a cura e a pesquisa. Ao fim de dois anos de prática, dispúnhamos de material suficiente para escrever Rêver pour Renaître, livro no qual explanámos muitas das premissas que continuam úteis na escrita do Dictionnaire de la Symbolique.

Reunimos centenas de exemplos que havíamos previamente gravado. Uma parte deles tinha-nos sido comunicada por duas psicólogas analíticas que utilizavam o mesmo método. Elaborámos então um repertório de 1700 símbolos, repartidos por 15 famílias. No decurso dos anos que se seguiram, os pacientes produziram milhares de cenários dos quais foram extraídos sistematicamente todos os símbolos que figuram no repertório.

Centenas de milhar de informações simbólicas constituíram uma base de dados excepcional de 6000 sonhos, cada um com a duração média de 35 a 40 minutos, resultantes da expressão espontânea de quase 300 pessoas. Ao longo deste livro, utilizaremos os termos paciente e sonhador para designarmos estes exploradores do imaginário. Em 70% dos casos, a gama das problemáticas cobria todos os tipos de desconforto psicológico, desde a banal angústia difusa à depressão característica, passando por todas as manifestações das dificuldades de relacionamento no plano familiar e social.

Isto significa que 30% dos casos empreenderam a cura por interesse puramente didáctico, curiosidade intelectual ou esperança de alargar o campo da consciência e, assim, melhorar a sua capacidade de criação. Quando comparamos o conteúdo simbólico dos sonhos produzidos pelas pessoas que compõem estes dois últimos subgrupos, não verificamos diferenças notórias.

A estrutura dos cenários, a frequência e a natureza dos símbolos, a forma de expressão são, em grande medida, independentes das causas que provocaram a busca inicial da terapia. Não há nenhuma correlação entre a qualidade do resultado terapêutico e os parâmetros observados: sexo, idade, nível cultural, tendência filosófica, riqueza verbal, duração dos cenários, originalidade simbólica, etc.

Esta constatação, por paradoxal que pareça, torna-se compreensível quando admitimos que os símbolos são as palavras de uma linguagem universal e que qualquer estado do ser pode ser expresso através deles. Esta constatação é válida, pelos menos, para os povos de cultura ocidental.

A tentativa de esquecer tudo o que foi escrito sobre um símbolo para o observar no seu meio vivo, sob um olhar tão novo quanto possível, livre de pressupostos, permite que detectemos sentidos que de outra forma não estariam disponíveis. Frequentemente, os resultados são equiparáveis a outros obtidos anteriormente. Há também muitos aspectos surpreendentes e originais que surgem ao ouvirmos estes pacientes, cujo discurso tem a força da autenticidade.

As palavras, surgidas das camadas mais profundas da memória colectiva, exprimem as pulsões mais actuais da pessoa que as pronuncia e têm a intensidade absoluta do verbo criador. A palavra que traduz a imagem é a manifestação de uma alquimia criadora do ser. A maior parte dos artigos do dicionário desenvolve-se em torno de uma convicção: ser é tornar-se!

A palavra do paciente é o resultado de um encontro entre um fundo imaginário e a estrutura organizadora da qual depende a verbalização. Ela é não só a testemunha mas também o agente activo deste devir.

 
 
 
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