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Arquivo da Categoria: sonhos

O lugar do mito na vida moderna – James Hollis

Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna

Dizem que, em média, gastamos seis anos de nossa vida sonhando. Essa façanha prodigiosa faz parte do intento teleológico da psique. Os sonhos são a rota íntima de saída da alma e constituem o processo gerador de mitos em cada pessoa. A rica tessitura de detalhes, a “transgressão” da lei de tempo e espaço vigente na vigília, o poder de síntese de novas combinações, as abundantes alusões a experiências anteriores, são todos aspectos conhecidos do estudioso de sonhos. Sempre misterioso e ineditamente surpreendente, em geral enigmático, trabalhar com sonhos vincula-nos de modo irremediável com o mistério. Se temos condições de acompanhar os sonhos durante certo período, eles efectivamente indicam movimentos, mostram, sem sombra de dúvida, como a pessoa está a trabalhar com as suas questões pessoais e resolvê-las. A soma desses sonhos constitui um épico heróico no mínimo tão extraordinário quanto os produzidos por Homero ou Dante. A descida ao mundo inferior está aí, os monstros temíveis, o imenso cartel de personagens, as batalhas titânicas – ou seja, o próprio conteúdo dos mitos.

As descobertas de Freud apresentadas na sua obra Interpretação dos sonhos são úteis quando se considera a natureza do trabalho mítico. Nos sonhos, o inconsciente condensa eventos aparentemente aleatórios numa epifania concisa e de sentido íntimo. O inconsciente fala por meio de imagens afectivamente carregadas e não através de conteúdos cognitivos. Essas imagens corporificam o significado nas metáforas e nos símbolos.

Às descrições freudianas do trabalho com os sonhos, Jung acrescentou a ideia do inconsciente colectivo, no qual as imagens são comuns não só à vida de cada um, mas também à do universo. Ele também percebeu que os sonhos não eram só desejos indirectamente satisfeitos, mas, muitas vezes, comentários espontâneos do Si-Mesmo a respeito da vida do sonhador. De acordo com Jung, os sonhos podem ser não só teleológicos, promovendo as metas da consciência e da completude, mas também estão em busca de compensações para as unilateralidades das adaptações conscientes. Dessa maneira, são dotados de propósito e capazes de efectuar correcções, desde que, é óbvio, a pessoa possa assimilar conscientemente a mensagem.

Na mesma medida que a psique é atemporal e abarca todas as coisas humanas, devemos reconhecer e admitir que as vidas que construímos são parciais, contidas pelo tempo e fragmentárias. Se pendemos à direita, privilegiando as escolhas conscientes, a psique arrasta-nos para a esquerda a fim de nos centrar. Os sonhos, por conseguinte, confrontam-nos com nossas vidas não-vividas, não com o que somos, mas com o que poderíamos tornar-nos; não com o que fizemos, mas com o que não conseguimos realizar. Quando discernimos a natureza e o motivo do trabalho onírico, podemos, igualmente, perceber o mesmo processo em funcionamento no trabalho mítico. Já se disse que o sonho é a mitologia da pessoa e que o mito é o sonho de uma tribo. Ambos se originam espontaneamente nas profundezas e confirmam as actividades de auto-regulação do psiquismo. Da mesma forma que os sonhos fazem parte do correctivo teleológico exercido pela psique individual, dando continuidade à misteriosa missão da natureza no íntimo de cada um de nós, também os mitos, procedendo das mesmas camadas abissais, contêm o correctivo teleológico da alma.

 

James Hollis
Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna
Paulus, São Paulo, 1999

 
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Publicado por em 2008 in psique, símbolos, sonhos

 

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A Jornada do Herói

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

A Jornada do Herói

Foi a preocupação com a possibilidade de não conseguirmos solucionar os grandes problemas políticos, sociais e filosóficos do nosso tempo, caso muitos de nós persistíssemos em ver o herói como algo de exterior a nós mesmos, que me inspirou a escrever The Hero Within. O livro pretende ser um convite a empreender a jornada e desafiar os leitores a reivindicarem o seu próprio heroísmo. Esta jornada não implica tornar-se maior, melhor, ou mais importante do que qualquer outra pessoa. Todos somos importantes. Todos temos uma contribuição fundamental a dar, o que só podemos fazer assumindo o risco de sermos nós mesmos e únicos.

Sabemos que, sob a busca frenética de dinheiro, estatuto, poder e prazer, bem como sob as atitudes obsessivas e viciadas habituais nos dias de hoje, existe uma sensação de vazio e uma ânsia de ir mais fundo, comum a todos os seres humanos. Ao escrever The Hero Within, pareceu-me que todos nós precisamos de encontrar, se não o “sentido da vida”, pelo menos o sentido das nossas próprias vidas individuais, para que possamos descobrir formas de viver e de ser fecundas, efectivas e autênticas.

Todos os mitos do herói, culturais ou individuais, mostram-nos os atributos que são considerados como definidores do bem, do belo e da verdade, e assim transmitem-nos as aspirações que são valorizadas culturalmente. Muitas dessas histórias são arquetípicas. Os arquétipos, como postulava Carl Jung, são padrões permanentes e profundos da psique humana, que se mantêm poderosos e actuantes ao longo do tempo. Para empregar a terminologia junguiana, tais padrões podem existir no “inconsciente colectivo”, na “psique objectiva”, ou mesmo estar codificados na constituição do cérebro humano.

Podemos aperceber-nos claramente desses arquétipos nos sonhos, nas artes, na literatura e no mito. Parecem-nos profundos, tocantes, universais e, por vezes, até mesmo aterrorizadores. Também podemos reconhecê-los ao contemplarmos as nossas vidas e as dos nossos amigos. Observando o que fazemos e como interpretamos o que fazemos, podemos identificar os arquétipos que orientam as nossas vidas.

Conhecemos a linguagem dos arquétipos porque eles vivem dentro de nós. Os povos antigos também conheciam essa linguagem. Para eles, os arquétipos eram os deuses e as deusas que se ocupavam de tudo nas suas vidas, do mais banal ao mais profundo. A psicologia arquetípica, em certo sentido, recupera as verdades de antigas teologias politeístas, que nos falam da natureza maravilhosamente múltipla da psique humana. Acontece que, mesmo quando essas divindades (ou arquétipos) são negados, a sua força não deixa de se fazer sentir dentro de nós.

Pelo contrário, recrudesce. Somos, então, possuídos pelos arquétipos e experimentamos a escravidão, e não a libertação, que eles nos oferecem. Devemos ter cuidado com o desprezo pelos deuses, pois, ironicamente, são exactamente as nossas tentativas de os negar e reprimir que provocam as suas manifestações destruidoras Os arquétipos são fundamentalmente amistosos. Podem ajudar-nos a evoluir, colectiva e individualmente. Se os respeitarmos, poderemos crescer.

Os heróis empreendem jornadas, enfrentam dragões e descobrem o tesouro do seu verdadeiro Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência]. Embora possam sentir-se muito sós durante a busca, no final experimentam um sentimento de comunhão: consigo mesmos, com as outras pessoas e com a Terra. De cada vez que enfrentamos a morte em vida, deparamos com um dragão. Se escolhermos a vida em vez da não-vida, mergulhamos mais profundamente na descoberta de quem somos e derrotamos o dragão. Infundimos, assim, vida nova em nós mesmos e na nossa cultura. Mudamos o mundo.

 

Segue: Os Arquétipos e a Evolução Humana

 

Uma Cultura Guerreira

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

Anterior: O Guerreiro

Uma Cultura Guerreira

Os Guerreiros mudam os seus mundos através da afirmação da sua vontade e do seu desejo de um mundo melhor. Nas famílias, nas escolas, nos locais de trabalho, nas amizades, nas comunidades ou na cultura como um todo, este arquétipo orienta as nossas exigências no sentido de harmonizar o ambiente circundante com os nossos próprios valores.

No entanto, aqueles que chegam à fase do Guerreiro sem antes lidarem com as suas identidades não podem ser verdadeiros Guerreiros, seja porque não sabem por que razão estão a lutar, seja porque lutam para provar a sua superioridade. “Quem sou eu neste momento?” Enquanto o Guerreiro não souber responder a esta pergunta, apenas se entregará a pseudo-lutas, nas quais o mito herói/vilão/vítima é valorizado por si mesmo, e não pelos resultados positivos que pode acarretar.

Estes Guerreiros acabam por descobrir que o ritual em si não pode transformar nem o herói nem o reino.

Podemos encontrar o ritual subjacente ao mito do Guerreiro na guerra, mas também está presente no desporto, nos negócios, nas religiões, e até mesmo nas teorias económicas e educativas da nossa sociedade. Na esfera dos desportos, assistimos a uma progressão que vai das disputas dos gladiadores, nas quais o perdedor é morto, ao futebol americano, ao basquetebol ou ao futebol, nos quais o adversário simplesmente perde.

Na política assistimos igualmente a uma progressão interessante. No modelo mais primitivo, o herói eliminava o velho rei (o tirano) e, pelo menos teoricamente, salvava o povo. É um facto que tais práticas prosseguem na era moderna, em diversas partes do mundo, onde a mudança política ainda é realizada por meio de golpes sangrentos ou de revoluções. Nos Estados Unidos, porém, descobrimos uma forma de evitar tais carnificinas. O velho rei não é ritualmente eliminado, como em algumas culturas primitivas, nem morto durante o sono, nem tão-pouco julgado e executado pelos seus crimes. É derrotado nas eleições, cuja retórica subjacente é assaz bélica e igualmente primitiva.

O aspirante a herói – seja na política eleitoral, seja na política intra-organizacional – explica como salvar o país ou a organização, e demonstra como a situação actual é responsável por todos os prejuízos. Apresenta um quadro em que a situação é revista, demonstrando as grandes melhorias que adviriam para o país/estado/organização, caso ele ganhasse as eleições, ou os prejuízos que a oposição causaria, caso estivesse no poder. É a linguagem da guerra: falamos em derrotar a oposição nas eleições, mas poderíamos dizer: “Havemos de massacrar!” É obvio que esta linguagem belicosa também é fundamental nos negócios, onde o objectivo é sair vitorioso da competição. A convicção central do capitalismo baseia-se na afirmação de que a competição, uma outra versão da luta, trará uma vida melhor para todos – produtos melhores, preços mais baixos. A vitalidade dos Estados Unidos depende de saírem vitoriosos da competição. Até mesmo o nosso sistema jurídico se baseia no modelo da luta.

Embora o derrotado nos desportos, na política ou nos negócios já não seja visto como um vilão, a derrota continua a trazer uma vergonha imensa ao perdedor, que interioriza a convicção de não é só o seu desempenho que é mau, mas de que ele é mau na sua essência. Causa vergonha ser a equipa ou o candidato derrotados. Causa vergonha ser pobre porque isso implica ter perdido na luta da livre concorrência. Tais suposições podem explicar por que motivo parecemos incapazes, enquanto cultura, de elaborar um sistema de prosperidade que não humilhe os beneficiários.

Muitos educadores vêem o processo de aprendizagem como uma corrida, na qual alguns alunos são rotulados desde o primeiro grau como “vencedores” e outros como “perdedores”. Essas expectativas podem converter-se em autênticas profecias. Os “perdedores” interiorizam a consciência de que são indignos, enquanto que os “vencedores” são estimulados a fazer esforços cada vez maiores, sem por isso deixarem de temer o fracasso. Ser expulso do colégio – ou, no caso de professores universitários, não ser promovido para determinado cargo – equivale a uma verdadeira desgraça.

Os Guerreiros costumam concentrar-se nos “factos”, na tentativa de se “endurecerem” mentalmente: um marxista insistirá que apenas a realidade é real. Qualquer outra consideração – sobre a realidade interior, subjectiva, ou sobre a espiritualidade –, é por ele vista como falsa. Um cristão fundamentalista, segundo o mesmo espírito, insistirá em considerar a Bíblia literalmente, e ver nela um projecto de acção. Nos desportos, fazemos a contagem, marcamos os pontos. Nos negócios, consideramos os lucros. Na educação, quantificamos cada vez mais os resultados e procuramos metodologias irrefutáveis. Na economia, catalogamos o Produto Nacional Bruto. Segundo esta visão do mundo, o pensamento correcto é linear, hierárquico e dualista.

Na verdade, o enredo herói/vilão/vítima é um dogma na nossa cultura cujo poder é tão grandioso que a sua mera invocação torna irrelevantes quaisquer provas em contrário. Os académicos, por exemplo, equacionam competição com qualidade de educação, embora a maioria das investigações levadas a cabo sustente a ideia de que uma abordagem cooperativa da aprendizagem é, na realidade, muito mais eficiente. Muitos administradores de empresas continuam a tentar obter uma maior produtividade dos seus empregados, criando assim uma atmosfera de competição feroz, pese embora as investigações sugerirem que as empresas comerciais mais bem sucedidas são aquelas que criam um ambiente de confiança e nas quais os empregados se auxiliam mutuamente.

O desafio que enfrentamos, enquanto Guerreiros, depende de nossa capacidade de imaginar e afirmar outras verdades, outras versões do mito do Guerreiro. A consequência lógica da insistência em definir a vida como uma luta é a fome mundial, a devastação ambiental, a desigualdade racial e sexual, a guerra nuclear e o desperdício dos talentos de todos quantos se consideram e são considerados perdedores.

Segue: Além do extermínio do Dragão

 

O reconhecimento dos símbolos

Georges Romey
Excertos adaptados

Anterior: Como surgiu o espírito nas imagens

O reconhecimento dos símbolos

A pessoa que se predispõe a interpretar os sonhos é fatalmente conduzida a formular duas interrogações:

• A importância do papel de uma imagem é proporcional à frequência do seu aparecimento?

• No enunciado produzido pelo sonhador no decorrer de um sonho de 40 minutos (cerca de 700 palavras) quais devem reter a atenção do tradutor? Será que este pode simplificar a sua abordagem organizando-as por categorias?

Do ponto de vista quantitativo, é necessário distinguir três grupos de símbolos:

• o grupo de imagens cuja presença se detecta em mais de 10% dos sonhos tais como: preto, branco, mão, sol, areia, etc.;

• o grupo de representações que observamos uma ou duas vezes em cada uma, ou seja, entre 4 e 10% das sessões, como sejam o velho sábio, a estrela, o objecto submerso, etc.;

•  o grupo de figuras raras que não chega a atingir o 1% tais como o icebergue, o cavalo-marinho, o menir, etc..

A elevada frequência de um símbolo não nos autoriza a considerá-lo banal nem a reconhecer nele uma importância particular. No seio do primeiro grupo temos arquétipos: a areia, a lua, o vermelho, o amarelo, etc., cuja participação na dinâmica de evolução é particularmente forte apesar da sua repetição.

As imagens do segundo grupo são frequentemente agentes especiais, arquétipos poderosos que intervêm no decurso de fases determinantes da transformação psíquica. Por fim, vêm as imagens raras, mas que se repetem no seio de uma mesma cura; ligam-se a temas específicos da problemática do sonhador e têm um grande valor informativo.

As palavras-imagens que compõem a linguagem simbólica nem sempre são inteligíveis e nunca são supérfluas.

Do ponto de vista qualitativo, proponho ao tradutor de um sonho uma chave que simplificará consideravelmente a sua abordagem. Os símbolos que aparecem num sonho podem ser classificados em três categorias:

 As balizas

A dinâmica do imaginário, tal como se manifesta no sonho livre acordado, resulta sempre de um confronto entre as duas forças das quais depende a vida:

• aquela que sustenta o adquirido e exprime o que se convencionou chamar de instinto de conservação. Se observarmos as produções oníricas que inspira, diremos que manifestam a permanência (positiva) ou a resistência (negativa);

• aquela que tende a promover o devir do ser. É uma pulsão de renovação e, segundo a nossa forma de ver as produções oníricas, diremos que manifestam a evolução (positiva) ou a entropia (negativa).

Um sonho de 600 ou 700 palavras tem entre 40 a 80 imagens cuja interpretação pode revelar o sentido oculto do sonho. É muito. No entanto, um terço destas imagens têm apenas como papel exprimir a resistência ou a evolução. São testemunho da dinâmica em acção no sonho e não dissimulam outros sentidos facilmente observáveis. Reduzem consideravelmente o campo de interpretação.

A permanência é representada por todas as imagens que exprimem rigidez, aprisionamento: a estátua, a máscara, a armadura, a parede, a múmia, o esqueleto, a prisão, o gelo, a neve, a mármore, etc. A evolução é representada por todas as imagens que simbolizam a flexibilidade, o movimento, a liberdade: a transparência, o vidro partido, o voo, os felinos, o pássaro, o trenó, a música, a dança, a cascata, etc.

 Os indicadores

Uma pequena parte das imagens que se propõem ser traduzidas, depois de retirarmos as da categoria precedente, são símbolos cujo significado está relacionado com um episódio da história pessoal do sonhador ou da sonhadora. Estas associações circunstanciais só farão sentido no momento em que os seus autores forem capazes de se lembrar da cena durante a qual essas associações foram estabelecidas. Não exigem nenhum esforço de tradução da parte do terapeuta, cujo papel se limita a solicitar que o/a sonhador/a se recorde.

 Os promotores

Trata-se, na maioria, de imagens que traduzem os valores arquetípicos universais. As projecções psicológicas a que se prestam são do conhecimento do terapeuta. A água, o fogo, a árvore, o mar, a fada, o velho sábio, as cores, a cidade branca, os cavalos, o rio, a aranha, e mais 500 outros são objecto de um estudo importante nos quatro volumes do meu Dictionnaire de la Symbolique.

 

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Como surgiu o espírito nas imagens

Georges Romey
Excertos adaptados

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Como surgiu o espírito nas imagens

A formação do símbolo

Quem se aproximar do universo misterioso dos símbolos sente-se irresistivelmente levado a colocar uma pergunta dominante: “O que quer isto dizer?” Pergunta natural, legítima, mas que invade o nosso pensamento e faz com que a pergunta fundamental (“O que faz isso?”) seja eclipsada.

O desejo de atribuir a cada imagem um sentido estável, estabilidade essa que ajudaria à pertinência da interpretação, opõe-se ao reconhecimento da natureza essencialmente activa do símbolo. A força da imagem-símbolo resulta do facto de ela intervir sempre como um agente dinâmico e de se tratar de uma expressão instantânea, coincidindo com uma necessidade bem precisa da evolução.

Um signo não tem vida própria. É apenas um ecrã, um suporte, um revelador que se oferece às nossas projecções logo que pode desempenhar um papel condutor na dinâmica psicológica. Antes deste instante, e depois dele, o símbolo é uma lâmpada apagada, um signo morto.

Não existem símbolos que tenham uma existência isolada e estável. Há apenas imagens que se integram em cadeias simbólicas, redes de representações compostas por elementos associados segundo as leis de sinonímia, de forma, de agregados culturais ou circunstanciais, e mesmo de uma simples proximidade de registo nos neurónios!

Estas cadeias, estes canais interpenetram-se, entrecruzam-se numa complexidade aparentemente indecifrável. No entanto, uma observação atenta de dados suficientemente numerosos permitiu-nos extrair algumas das lógicas às quais obedece a formação dessas cadeias. Estes fenómenos respondem a leis idênticas àquelas que regem o funcionamento neuronal sobre o qual repousam.

É raro poder reduzir uma imagem a um significado único. O que acontece com maior frequência é que as suas características dêem lugar a projecções múltiplas. Neste caso, é a cadeia de símbolos na qual a imagem se insere que determina o sentido dominante. Este tema será desenvolvido mais adiante, através de ilustrações exemplificativas. Uma imagem pode ser o elo de 3,4 ou 5 cadeias de representações diferentes.

O mental é o produto de uma confrontação multimilenar com as imagens. Imbuído das suas faculdades lógicas, ele quer ignorar as origens que desdenha. No entanto, quando o mental aceita que se arrogou o direito de reprimir os sentimentos, dá acesso às camadas mais longínquas das memórias ontogenética e filogenética.

Este retorno à imagem dá conta da eficácia quase mágica de uma técnica que confia ao símbolo o essencial da missão terapêutica e da abertura psicológica. Sob a aparência de um caminho humilde de imagens que parece ser, por vezes, de uma fantasia incoerente, dissimula-se uma via prodigiosa que conduz ao bem-estar.

A análise das correlações observadas entre os símbolos expressos nos sonhos oferece numerosas oportunidades de salientar a natureza das associações que existem entre as imagens, por um lado, e entre as imagens e a estrutura mental, por outro. Vários exemplos estabelecerão o papel da forma na génese de uma associação entre vários símbolos.

O estudo da bicicleta, cuja frequência no sonho acordado livre ultrapassa os 4%, mostra que esta imagem está no centro de uma rede de 33 correlações. Duas delas dominam nitidamente as outras. São os óculos e a coruja. Se nos deixarmos guiar por uma lógica normal, estas aproximações surpreendem-nos.

No entanto, para além de uma semelhança de sonoridade entre as três palavras [Em francês, as palavras são bicyclette, lunettes e chouette, respectivamente para bicicleta, óculos e coruja. (N.T.)] , o que não chega para detectar a correlação constatada, as três imagens estão ligadas por uma identidade de forma. A fim de a vermos, basta desenhar três pares de círculos:

arquetipos-1.jpg

A partir desta figura tripla, alguns traços secundários vão suscitar a evocação dos três símbolos:

arquetipos-2.jpg

Muitas correlações, reveladas pelos resultados da análise estatística, entre símbolos que nada parecia relacionar, repousam assim sobre uma ou mais características morfológicas comuns.

As cadeias de associações simbólicas não são produtos aleatórios de uma activação neuronal liberta dos constrangimentos racionais em situação de sonho acordado. Traduzem os mecanismos de funcionamento do imaginário e preenchem funções precisas.

A observação tão frequente de encadeamentos simbólicos nos sonhos autoriza-nos a fazer uma primeira afirmação relativa às regras gramaticais da língua dos símbolos: na expressão simbólica, o pleonasmo e a redundância não são impurezas linguísticas.

Do ponto de vista funcional, revelam caminhos convergentes de estímulos neuronais cuja soma permite atingir o limite de intensidade necessária para originar uma transformação. Do ponto de vista analítico, a sua constatação é uma das bases mais seguras da determinação do sentido de um símbolo.

Quando uma imagem, devido às suas características múltiplas, é susceptível de se prestar a várias projecções potenciais, é a cadeia na qual a imagem está inserida que indica a projecção activa no sonho em questão. Três sonhos, produzidos por três sonhadores diferentes, Hervé, Paul e Jacqueline, colocam o mesmo símbolo, o guarda-chuva, em três cadeias que determinam, todas elas, um sentido diferente para a imagem.

Hervé desce a uma gruta subterrânea, esgravata o pó que cobre o solo e descobre uma espécie de escudo medieval em metal. A imagem transforma-se e o escudo, agora em couro espesso, alonga-se e torna-se a pele rígida de um animal, cuja forma Hervé descreve com precisão.

Alguns minutos mais tarde, o sonhador, tendo abandonado o subterrâneo, sobe ao céu e voa como um pássaro. Imobiliza-se sobre uma pessoa que tem o guarda-chuva aberto. O sonhador insiste na imagem que oferece um guarda-chuva quando visto do céu. Em seguida, a imaginação conduz Hervé até um barco cuja barra do leme lhe lembra aquela forma. No final do sonho, o paciente admira-se com a curva formada por uma vela sustida por um mastro muito curto, o que forma uma retranca de tamanho desproporcionado.

Estas imagens encontram-se dispersas num sonho de 35 minutos e 500 palavras, e poderiam ser vistas como símbolos independentes uns dos outros. Seria estranho tentar traduzir cada um destes símbolos em relação à sequência na qual se inserem. No entanto, esta é a tentação do analista quando escuta um sonho. Poder-se-ão evitar alguns impasses se sobrevoarmos as imagens e virmos as suas semelhanças:

arquetipos-3.jpg

Hervé tem 43 anos e produziu este sonho numa fase da sua cura na qual há uma busca de equilíbrio entre uma componente feminina forte e pulsões viris culpabilizadas. O que se exprime através destas cinco imagens é a relação entre a curva e a ponta, os valores da anima e do animus. O guarda-chuva visto do céu é apenas uma das ilustrações inspiradas por esta relação.

Paul vê, no início do seu sonho, um automóvel descapotável “dos anos 20” e descreve-o minuciosamente. Um pouco mais tarde, cruza-se com um transeunte que leva um guarda-chuva preto aberto, sem que esteja a chover. Paul descreve seguidamente a forma de uma folha morta que plana no vento. No fim do sonho, vê um “morcego enorme.”

Nesta série de imagens, o guarda-chuva tem um sentido diferente daquele que tem no sonho de Hervé:

arquetipos-4.jpg

As imagens de Paul têm em comum três elementos específicos. Por um lado, apresentam uma estrutura que se estende sobre uma armação: nervuras ou varetas. Por outro lado, esta estrutura desenvolve-se a partir de um ponto central e todas as suas partes podem ser vistas ao contrário. Em repouso, o morcego fica com a cabeça para baixo, suspenso pelas patas; o guarda- chuva fechado fica na posição inversa àquela em que se encontra quando está a ser utilizado. A folha está unida à árvore pelo pecíolo e a capota do carro dobra-se ou desdobra-se a partir de um eixo de ligação à viatura.

As imagens de Paul exprimem uma fase determinante na evolução psicológica: aquela em que o paciente já está disponível para vivenciar a reabilitação dos opostos recalcados. Esta disponibilidade, condição indispensável para a realização do processo de individuação junguiano, manifesta-se frequentemente por símbolos que podem ser vistos de forma inversa.

Por fim, temos o sonho de Jacqueline que apresenta uma série de imagens ainda mais importantes. Entre elas, figura um guarda-chuva com barras multicolores. A sonhadora vê, pela ordem seguinte: uma palmeira, um pára-quedas, um guarda-chuva multicolor, um fogo de artifício, um jacto de água iluminado por um projector que refracta a luz, e um cogumelo.

Esta interpretação de formas que se desdobram a partir de um centro em todas as direcções do espaço, exprime a dissolução de um factor inibitório muito importante. O influxo nervoso acede repentinamente a zonas múltiplas da rede neurónica, provocando uma sensação de liberdade infinita.

Esta interpretação encontra a sua confirmação na multicoloração do guarda chuva, do jacto de água e do fogo de artifício. A profusão colorida no sonho é um dos indícios da reanimação psicológica: o guarda-chuva colorido de Jacqueline, inscrito nesta cadeia de imagens, alberga o sentido de uma libertação, de uma abertura psíquica.

Este exemplo do guarda-chuva, que aparece em três linhas simbólicas distintas, ilustra bem o papel determinante da importância da cadeia na tradução de um símbolo.

A estrutura do imaginário e da memória está organizada numa vasta rede que podemos comparar a um entrosamento de malhas cruzadas que vão em todas as direcções do espaço. Cada malha está ligada a uma quantidade variável de outras malhas. As ligações entre as malhas – os neurónios – fisicamente afastadas umas das outras, estabelecem-se ora de forma definitiva, ora conforme as necessidades. Fazem-no a uma velocidade vertiginosa e segundo disposições de uma subtileza espantosa.

Estas ligações podem estar inscritas na herança neuronal desde há milénios; podem ter-se estabelecido no decurso dos primeiros meses da infância ou podem ser o produto instantâneo do encaminhamento do fluxo nervoso ao longo do sonho. É este desdém biológico em relação ao tempo que choca a inteligência racional quando esta se confronta com o texto de um sonho.

Este não se situa no tempo contável. O seu espaço é o da eternidade. Quem já experimentou estas sessões de sonho acordado sabe até que ponto a noção de tempo se vai dissipando ao longo do sonho. No fim do sonho, o paciente não sabe se falou durante 15, 20 ou 40 minutos.

O enfraquecimento da vigilância racional durante a sessão não gera incoerência. É antes condição de uma dinâmica de harmonização de todo o ser, da dissolução de tensões que existem a nível de certas malhas da rede. O esforço intelectual para dominar a causa do mal-estar psicológico parece irrisório quando aprendemos que a harmonia só pode ser atingida quando abandonamos a ditadura do que chamamos, impropriamente, de racionalidade.

Esta confunde-se com o reconhecido, rejeitando para o irracional todas as formas de vida que a consciência se sente inapta a gerir! Este erro de perspectiva está na origem da maior parte dos desconfortos psicológicos.

 

Segue: O reconhecimento dos símbolos

 

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As imagens, palavras vindas do início dos tempos

Georges Romey
Excertos adaptados

As imagens, palavras vindas do início dos tempos

A consciência humana está ligada ao mundo pela imagem. Pelo termo “imagem” entendo o tudo o que é apreendido pelos cinco sentidos. As observações feitas a partir de um grande conjunto de sonhos acordados livres realçam uma curiosa repartição estatística.

Em 100 símbolos, 50 dizem respeito à visão, 25 ao tacto e ao movimento, 12 à audição, 6 ao olfacto e 3 ao paladar. Estes números são aproximados, obviamente, mas exprimem uma tendência muito nítida. Quanto mais os sons, os odores ou os sabores são evocados num sonho, mais parece que o imaginário exterioriza emoções que emergem de zonas muito antigas da problemática que afecta o paciente.

Para cada indivíduo, como para a humanidade em geral, os arquivos mais recônditos da memória são as imagens. Convém relembrar que sempre e em todo o lado:

• a imagem precedeu a linguagem;
• a linguagem precedeu a escrita;
• a escrita precedeu a gramática.

O cérebro do bebé impregnou-se de milhares de visões antes de o desenvolvimento do aparelho fonético e de a estrutura mental o terem dotado da capacidade de pronunciar uma frase articulada. Milhões de cenas impressionaram o sistema nervoso dos nossos antepassados da pré-história antes de o homem ter sido capaz de comunicar o seu pensamento através de sons convencionais.

Sinto-me tentado a ligar esta afirmação a uma constatação feita sobre o grupo de 50 símbolos que aparecem com mais frequência nos milhares de sonhos que analisámos. São 50 imagens que estão disponíveis na natureza desde a origem dos seres vivos. O grupo de 50 símbolos compreende 7 cores, o sol, a areia, a lua, a árvore, o mar, os animais. Não engloba, porém, nenhum dos aparelhos e objectos criados pela indústria humana, mesmo os que mais se impõem na nossa vida quotidiana.

O mundo oferece-se como um gigantesco livro de imagens que compõem cenas cuja variedade é infinita. O imaginário também é capaz de produzir uma variedade infinita de composições. No entanto, as imagens a partir das quais são elaboradas estas composições são em número relativamente limitado.

O repertório de símbolos que compilei desde o início das minhas pesquisas comportava 1700 símbolos, repartidos por 15 famílias (animais, vegetais, cores, personagens, etc.). A análise estatística feita com base em centenas de milhares de informações mostrou, desde então, que o número de símbolos cuja frequência é de, pelo menos, 1% nos sonhos, é inferior a 500. Foi este grupo de símbolos que escolhi tratar nos 4 volumes do Dictionnaire de la Symbolique.

São esses símbolos que os sonhadores e os psicoterapeutas encontram com mais frequência. O seu conjunto forma um verdadeiro vocabulário de imagens. São as palavras através das quais o imaginário se exprime e esta linguagem encontra-se submetida às mesmas leis que as que a linguística elaborou a partir do estudo das línguas.

Os 1700 símbolos que compõem o meu repertório inicial correspondem ao que os linguistas apelidam de vocabulário fundamental.

Certas pessoas, cuja cura acompanhei, voltaram anos mais tarde ao consultório, com a intenção de serem ajudadas numa nova fase de evolução. Quando isso acontece, o que me surpreende sempre é a constância do seu vocabulário de imagens. Assim como um escritor fica preso ao seu estilo e às suas palavras-chave, o sonhador reproduz o mesmo modelo de sonho e serve-se das mesmas imagens para exprimir episódios que são novos na sua evolução.

As observações precedentes são importantes. Antes de reconhecer que as imagens se inscrevem numa lógica de linguagem, era impossível conceber o esboço de uma gramática dos símbolos.

Segue: Como surgiu o espírito nas imagens

 
 

O sonho acordado livre

Georges Romey
Excertos adaptados

O sonho acordado livre

Ninguém escreverá jamais o dicionário exaustivo e definitivo dos símbolos. Esta afirmação decorre da própria natureza da função simbólica. Se o símbolo fosse um código inerte, portador de um ou mais sentidos facilmente apreendidos, que pudéssemos identificar de uma vez por todas, algumas das melhores obras escritas até hoje por teóricos competentes responderiam satisfatoriamente às necessidades dos analistas. Mas estes experimentam frequentemente um sentimento de frustração na sua prática quotidiana.

A nossa intenção de escrevermos mais um dicionário de símbolos não traduzirá uma atitude arrogante? Passaremos a explicar a pertinência da abordagem diferente com que esta obra pretende contribuir para responder de forma mais adequada às necessidades quotidianas do analista.

Se nos cingirmos apenas às obras que consideramos sérias, e que excluem as fantasiosas “chaves de sonhos”, constataremos que há dois tipos de obras: as que se organizam em dicionários e se pretendem indicadoras do sentido e as que tentam tornar as estruturas do imaginário mais precisas. O sucesso de algumas destas obras atesta o seu mérito.

No entanto, a sua capacidade de responder às interrogações do psicólogo clínico parece-nos diminuída pela sua tendência para se referirem quase exclusivamente ao fundo cultural mitológico de diversas civilizações. Quanto ao segundo tipo de obras, o facto de repousarem constantemente nos escritos dos seus predecessores pressupõe que esses mesmos escritos sejam infalíveis. Esta atitude opõe-se à liberdade criadora.

O Dicionário da Simbólica é o produto de uma atitude e de referências completamente diferentes das que acabámos de evocar. A base de dados a partir da qual conduzimos a exploração quantitativa e qualitativa do universo simbólico é constituída a partir de observações clínicas. Nesse aspecto, é provavelmente único.

Resulta de dezasseis anos de prática do sonho acordado livre. Inventada por Robert Desoille em 1923, a técnica do sonho acordado constitui um método eficaz em psicoterapia. Lamentamos que seja ainda tão pouco conhecida da psicologia e do público.

As condições de aplicação da técnica são simples. O sujeito é colocado numa posição que favorece o relaxamento, ou seja, confortavelmente alongado. Após um compasso de espera, é convidado, a partir da primeira imagem que lhe surge espontaneamente, a estabelecer um encadeamento imaginário que vai descrevendo à medida que este se desenrola.

Todas as pessoas que pensam participar neste tipo de sessão têm medo no início. Medo de não ver imagens, medo de não saber exprimi-las. Uma prática assaz longa permite-nos afirmar que estas apreensões nunca se confirmaram, desde que a pessoa estivesse realmente disposta a viver o sonho. O abaixamento do metabolismo, consequência da situação de relaxamento, age de forma natural sobre a consciência.

O estado que se atinge não é nem o da consciência normal nem o do sono e favorece a emergência de imagens que exprimem a problemática do paciente. Transporta imagens entre o consciente e o inconsciente, reenvia para as vivências patogénicas da infância e permite uma total memorização do sonho.

O sonho, que os pacientes chamam de cenário, de tal forma o desfile de imagens se assemelha à projecção de um filme, obedece a leis que organizam a estrutura, a orientação espacial da acção e o material simbólico que se exprime no sonho. Robert Desoille salientou que alguns temas ou arquétipos se repetiam no decurso das primeiras curas que presenciou.

Esta constatação levou-o a conceber, no sentido de uma maior eficácia, um método segundo o qual ele fornecia ao sonhador um tema de partida para o sonho. Convencido da importância da dinâmica vertical, ele próprio fornecia ao paciente imagens de subida ou de descida que julgasse oportunas. Levava-os também a substituir imagens “negativas” por imagens “positivas”. Isto fez com que chamasse ao seu método sonho acordado dirigido. Posso testemunhar da sua validade aquando de um tratamento que fiz aos vinte e dois anos.

Em 1979, decidimos, após uma longa maturação, utilizar a técnica do sonho acordado. Queríamos aprofundar o estudo dos símbolos, ao mesmo tempo que queríamos continuar a ajudar as pessoas. Algumas sessões experimentais de sonho acordado, conduzidas na altura da preparação da obra Le Test de L’Arche de Noé, obra que versa o simbolismo dos animais, tinham demonstrado que sempre que uma imagem é proposta, uma série de associações se lhe segue automaticamente.

Ora, nós queríamos que todo o material de que viéssemos a dispor fosse isento de qualquer indução e emitido de forma completamente espontânea. Estávamos dispostos a alterar as nossas premissas se o resultado terapêutico não se revelasse satisfatório. Em breve nos demos conta de que este tipo de abordagem suscitava curas surpreendentemente eficazes. Identificámos os factores que as determinavam e que hoje nos parecem incontornáveis.

Abria-se assim o caminho para a realização dos nossos dois objectivos: a cura e a pesquisa. Ao fim de dois anos de prática, dispúnhamos de material suficiente para escrever Rêver pour Renaître, livro no qual explanámos muitas das premissas que continuam úteis na escrita do Dictionnaire de la Symbolique.

Reunimos centenas de exemplos que havíamos previamente gravado. Uma parte deles tinha-nos sido comunicada por duas psicólogas analíticas que utilizavam o mesmo método. Elaborámos então um repertório de 1700 símbolos, repartidos por 15 famílias. No decurso dos anos que se seguiram, os pacientes produziram milhares de cenários dos quais foram extraídos sistematicamente todos os símbolos que figuram no repertório.

Centenas de milhar de informações simbólicas constituíram uma base de dados excepcional de 6000 sonhos, cada um com a duração média de 35 a 40 minutos, resultantes da expressão espontânea de quase 300 pessoas. Ao longo deste livro, utilizaremos os termos paciente e sonhador para designarmos estes exploradores do imaginário. Em 70% dos casos, a gama das problemáticas cobria todos os tipos de desconforto psicológico, desde a banal angústia difusa à depressão característica, passando por todas as manifestações das dificuldades de relacionamento no plano familiar e social.

Isto significa que 30% dos casos empreenderam a cura por interesse puramente didáctico, curiosidade intelectual ou esperança de alargar o campo da consciência e, assim, melhorar a sua capacidade de criação. Quando comparamos o conteúdo simbólico dos sonhos produzidos pelas pessoas que compõem estes dois últimos subgrupos, não verificamos diferenças notórias.

A estrutura dos cenários, a frequência e a natureza dos símbolos, a forma de expressão são, em grande medida, independentes das causas que provocaram a busca inicial da terapia. Não há nenhuma correlação entre a qualidade do resultado terapêutico e os parâmetros observados: sexo, idade, nível cultural, tendência filosófica, riqueza verbal, duração dos cenários, originalidade simbólica, etc.

Esta constatação, por paradoxal que pareça, torna-se compreensível quando admitimos que os símbolos são as palavras de uma linguagem universal e que qualquer estado do ser pode ser expresso através deles. Esta constatação é válida, pelos menos, para os povos de cultura ocidental.

A tentativa de esquecer tudo o que foi escrito sobre um símbolo para o observar no seu meio vivo, sob um olhar tão novo quanto possível, livre de pressupostos, permite que detectemos sentidos que de outra forma não estariam disponíveis. Frequentemente, os resultados são equiparáveis a outros obtidos anteriormente. Há também muitos aspectos surpreendentes e originais que surgem ao ouvirmos estes pacientes, cujo discurso tem a força da autenticidade.

As palavras, surgidas das camadas mais profundas da memória colectiva, exprimem as pulsões mais actuais da pessoa que as pronuncia e têm a intensidade absoluta do verbo criador. A palavra que traduz a imagem é a manifestação de uma alquimia criadora do ser. A maior parte dos artigos do dicionário desenvolve-se em torno de uma convicção: ser é tornar-se!

A palavra do paciente é o resultado de um encontro entre um fundo imaginário e a estrutura organizadora da qual depende a verbalização. Ela é não só a testemunha mas também o agente activo deste devir.

 
 

A imagem

Georges Romey
Excertos adaptados

A imagem

O mundo é um gigantesco livro de imagens. Imagens tranquilizadoras, se considerarmos que testemunham aquilo a que chamamos “realidade”. Imagens perturbadoras, quando adivinhamos que apenas exprimem aparências. Imagens prodigiosas, quando o espírito as impregna de transparência e nos conduzem à outra margem da realidade.

Estes capítulos compõem um vasto livro de imagens. Imagens que nenhuma máquina fotográfica poderia captar, já que foram captadas do outro lado do olhar.

Não é fruto da imaginação do seu autor, mas de uma análise feita por ele sobre dados verificáveis. Estes dados foram produzidos por cerca de três centenas de pessoas que escolheram viver a última aventura acessível a cada um de nós: a exploração do interior feita a partir do imaginário.

O papel e a natureza da imagem

Cada imagem que os nossos olhos identificam é um indício precioso que nos permite situarmo-nos no universo manifestado, sendo, ao mesmo tempo, uma malha do véu de Maya, um fragmento de cenário, uma armadilha que mascara a outra face da realidade.

Tomemos, como exemplo, o gato.

Assim que o olhar transmite ao cérebro sinais específicos que lhe permitem reconhecer as formas, as cores e as atitudes do gato, estes estímulos despoletam dois tipos de ressonâncias, completamente diferentes, embora ligados estreitamente um ao outro.

O primeiro diz respeito à realidade concreta, tangível e objectiva: permite-nos identificar o animal e reagir à sua presença em função de um sistema lógico de apreciação.

Consoante o lugar, as circunstâncias e a consideração que temos habitualmente por este felino, a reacção será de prazer, ternura, indiferença, agastamento, medo, violência, etc.. Este tipo de ressonância integra a imagem do gato no campo dos valores reconhecidos pela consciência e sobre os quais a razão se apoia para determinar os nossos actos, dos mais simples aos mais importantes.

O outro tipo funciona em paralelo e é composto pelos conteúdos inconscientes, simbólicos, dos quais todas as imagens são portadoras. No que diz respeito ao gato, e onde a razão não vê mais do que um quadrúpede cujas características lhe são familiares, a imagem do felino suscita uma série de associações que se agrupam em torno do tema da flexibilidade, da disponibilidade para a transformação, da plasticidade da conduta, da feminilidade, do mistério; em suma, da abertura, da aceitação da evolução psicológica.

A primeira percepção – racional – apreende o concreto, acompanhado dos nossos sentimentos em relação ao objecto; a segunda apreende o seu simbolismo.

O que se aplica ao gato aplica-se igualmente a cada uma das centenas de imagens a que poderíamos reduzir o mundo visível.

Na verdade, se a combinação de todas as formas e cores que o compõem se pode desenrolar em milhares de cenas diferentes, os elementos simbólicos básicos a que o imaginário se refere são apenas da ordem dos dois mil. O leitor poderia sentir uma certa vertigem ao pensar que, por detrás da cortina das aparências concretas, trabalham permanentemente centenas de agentes secretos que nos conduzem onde eles querem, mesmo contra a nossa vontade.

No entanto, se aceitarmos a imagem tal como ela é, para além das aparências, ou seja, como o artesão mais poderoso da nossa animação psicológica, seremos conduzidos ao cerne de um universo surpreendente. Descobriremos que não temos aliada mais digna de confiança. Os valores autênticos que nos serão revelados, longe de formar uma nova e angustiante complexidade, organizar-se-ão eles mesmos numa ordem simplificada, que nos abrirá a via da harmonia e da serenidade.

É raro que uma imagem se possa reduzir a um único sentido. O mais frequente é que as suas características múltiplas se ofereçam a projecções várias e que a cadeia de símbolos na qual a imagem está inserida determine o seu sentido principal. Uma imagem pode ser um elo de três, quatro, cinco ou seis cadeias de representações diferentes.

 
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Publicado por em 2007 in símbolos, sonhos

 

O Retorno do Herói

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

O Retorno

O mito clássico do herói descreve o reino como um deserto. As colheitas não crescem, a doença campeia, os bebés não nascem, a alienação e o desespero imperam. A fertilidade e o sentido da vida desapareceram do reino. Esta situação está relacionada com algum fracasso do rei, que é impotente, malvado ou despótico. O aspirante a herói empreende uma jornada, enfrenta um dragão e conquista um tesouro, que pode ser composto de riquezas materiais ou de um objecto mais simbólico (o Graal, nos mitos do Graal, ou um peixe sagrado, nos mitos do Rei Pescador). Quando o herói, habitualmente um homem, regressa, é coroado rei. O seu regresso transforma magicamente o reino: começa a chover, as colheitas crescem, os bebés nascem, a praga é debelada e as pessoas voltam a ter esperança e a sentirem-se vivas.

Heróis não são apenas as pessoas que crescem, mudam e empreendem as suas jornadas, mas também aquelas que ajudam a transformar o reino. Em The Hero: Myth/Image/Symbol, Dorothy Norman afirma que “os mitos dos heróis falam mais eloquentemente da busca do homem que escolhe a vida, e não a morte”. Joseph Campbell, em The Hero With a Thousand Faces, define o herói como “o campeão não das coisas transformadas, mas das coisas em transformação: o dragão que deve ser exterminado por ele é precisamente o monstro do status quo.” A tarefa do herói consiste sempre em infundir vida nova numa cultura agonizante.

Os heróis do nosso tempo têm exactamente a mesma função. Porém, diferem dos anteriores num aspecto essencial. Em vez de ser apenas uma pessoa a ter de empreender a busca e a ter de legar uma nova verdade ao reino, passamos a ser todos nós a precisar de o fazer. O heroísmo nesta era exige que empreendamos as nossas jornadas para encontrarmos o tesouro do nosso verdadeiro ser e que compartilharmos esse tesouro com a comunidade como um todo. À medida que o fizermos, os nossos reinos serão transformados.

Quando lemos os jornais, parece-nos que pouca coisa está a mudar – ou que as coisas estão a piorar, e não a melhorar. De facto, em tempos de transformação social maciça como estes, as coisas sempre melhoram e pioram simultaneamente. As sementes do novo mundo são plantadas nas ruínas do velho mundo, mas é ainda o velho mundo que ocupa as páginas dos jornais. Em tempos de transição não existe um reino, mas um número infinito de reinos. Trata- se de uma época marcada por esforços para encontrar um novo consenso.

No início da nossa busca, sentimo-nos solitários e separados do mundo, e partimos do pressuposto que, para nos ajustarmos, temos de nos adaptar àquilo que acreditamos ser a “realidade”. Contudo, à medida que mudamos, a realidade também muda. Quanto mais temos a coragem de sermos nós mesmos, mais hipóteses temos de viver em comunidades que estejam em sintonia connosco. Assim, a recompensa da jornada inevitavelmente solitária do herói é a comunhão – comunhão com o seu ser, com as outras pessoas e com os universos natural e espiritual. No fim da jornada, o herói sente que está em casa, e que a sua casa é o mundo.

Isso não significa o fim dos problemas. A realização das nossas jornadas não nos exime da vida; enfermidades, mortalidade, desilusões, traições e até mesmo fracassos, fazem parte da condição humana. Mas, se temos fé em nós mesmos e no universo, torna-se muito mais fácil suportar tudo isso. Ademais, como os heróis enfrentam os seus medos, não ficam tão limitados por eles. Podemos agir sem nos preocuparmos continuamente se estamos a agir correctamente, se alguém nos reprovará ou se alguém nos vai surpreender em falta.

Como explica Gerald Jampolsky em Love Is Letting Go of Fear, todas essas camadas de medo são justamente o que nos impede de experimentar o amor que se encontra dentro de nós. Quanto mais conseguimos libertar-nos dos nossos medos, mais podemos mergulhar na força vital que encerramos. Quando temos receios constantes, não podemos usufruir da energia espiritual fundamental ao nosso alcance.

Se tememos a natureza e a consideramos inferior ao espírito, um local de perigos onde animais selvagens ou insectos nos devoram, não poderemos ser nutridos por ela. Se receamos as outras pessoas, se tememos ser rejeitados, ridicularizados ou humilhados pela sua pretensa sabedoria, não podemos experimentar a profundidade do amor e da entrega. Por isso empreendemos a nossa jornada solitária: para que possamos viver em amor e harmonia connosco mesmos e com os outros, para que possamos ser banhados pelo fluxo de energia amorosa que nos circunda constantemente. Essa energia provém de dentro de nós, de outras pessoas, dos mundos natural e espiritual. Está sempre disponível. A tarefa do herói consiste em desenvolver o Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência] o suficiente para a receber, sem receio de nos perdermos nela ou de sermos esmagados pelo seu poder.

No contexto clássico antigo, o herói tornava-se rei – ou rainha. Talvez tornar-se rei ou rainha signifique responsabilizar-se – não apenas pela nossa realidade interior, mas pela forma como os nossos universos exteriores espelham esta realidade. Se assumimos a responsabilidade de governar o reino, isso significa que, quando os nossos reinos se assemelham a desertos, está na hora de buscar uma nova energia. Talvez nos tenhamos acomodado em demasia e tenhamos parado de crescer.

Seja o que for que façamos com o fito de melhorarmos o mundo em que vivemos, a nossa tarefa fundamental consiste sempre em realizarmos as nossas jornadas. Caso contrário, em vez de trazermos mais vida ao mundo, tornamo-nos buracos negros, vácuos que tragam a vida. Por mais que tentemos dar, na realidade consumimos a energia vital daqueles que nos cercam, empobrecemos os nossos mundos e tornamo-los menos vivos.

Como explica James Hillman em Re-Visioning Psychology, as nossas jornadas, e sobretudo os nossos encontros com os arquétipos, falam da “formação da alma”. Empreendemos as nossas jornadas para desenvolver as nossas almas. Colectivamente, estamos a criar a alma do mundo. O reino macrocósmico onde vivemos reflecte o estado dessa alma do mundo.

 

O Mártir

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

O Mártir

O enredo básico do arquétipo do Mártir está patente nos antigos rituais de sacrifício das religiões de fertilidade. Fala-nos do ciclo da natureza, que vai do nascimento na Primavera ao amadurecimento no Verão, da colheita no Outono à desolação e morte no Inverno. Os antigos ritos dionisíacos, por exemplo, incluíam a mutilação do deus e a dispersão das suas partes até que nada dele restasse. Na base de todas as religiões de fertilidade está o conhecimento de que a morte e o sacrifício são pré-requisitos para o renascimento. Esta é uma lei básica dos mundos natural e espiritual.

O sacrifício e o martírio foram alvo, nos últimos tempos, de uma propaganda muito negativa, tanto na sua versão masculina como na sua versão feminina. No entanto, dificilmente achamos que não fazem sentido. Na sua base está o reconhecimento fundamental de que “Não sou a única pessoa no mundo”. Às vezes decidimos fazer algo não tanto porque queremos, mas porque isso será bom para os outros, ou porque acreditamos que esse é o comportamento correcto. É sempre necessária uma certa dose de sacrifício no relacionamento amoroso com as outras pessoas.

O sacrifício apropriado proporciona aos Mártires o conhecimento mais profundo dos seus valores e compromissos com o trabalho e com as outras pessoas, e torna-os mais, e não menos, eles mesmos. Inversamente, o sacrifício impróprio faz-lhes perder o contacto consigo próprios e com a sua capacidade de amor, de intimidade, ou até mesmo de alegria na relação, o que resulta numa tendência para experiências subjectivas, para trocar a sua própria identidade pela dos outros. Isso resulta sempre numa exigência feita aos outros de que correspondam às nossas expectativas.

Por exemplo, os pais que abandonam as suas vidas pelas necessidades dos filhos quase sempre exigem que eles lhe paguem tributo – que a criança dê a sua própria vida para validar ou justificar o sacrifício do pai/mãe, sendo bem sucedida, atenciosa, obediente. Desta forma, os filhos não podem ser eles mesmos. Mas se a doação dos pais foi apropriada, e reflectir aquilo que os pais também precisavam de fazer por si mesmos, estes não necessitam de tributo, embora, obviamente, apreciem o amor e a gratidão dos filhos.

Os nossos primeiros sacrifícios parecem ter sido arrancados de nós como se estivéssemos a abandonar partes fundamentais de nós mesmos. Depois aprendemos que jamais se deve abandonar o que é essencial. As coisas que sacrificamos adequadamente devem ser sempre aquelas que estamos prontos a abandonar. Para a maioria das pessoas, o sacrifício é doloroso porque elas se sentem na obrigação de controlar ou manipular tudo, para que os frutos do sacrifício retornem a elas, sob a forma de benefícios.

A lição final do Mártir consiste em optar por doar a sua própria vida e saber que a própria vida é a recompensa, sem perder de vista que todas as pequenas mortes, todas as perdas nas nossas vidas trazem sempre consigo uma transformação e uma nova vida, e que as mortes reais não são o fim, mas simplesmente uma passagem mais drástica para o desconhecido.

 

A ave

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A ave

A ave é um símbolo de natureza arquetípica, dada a sua presença em todas as tradições e culturas. Basta pensarmos na pomba, na fénix, na águia, no falcão, etc.. É um dos símbolos mais poderosos da liberdade e da expansão da consciência. Dado que designa um ser que voa, é um símbolo utilizado para exprimir, de forma privilegiada, a relação entre o céu e a terra, entre o espírito e a matéria, entre o plano horizontal e o plano vertical.

Em grego, por exemplo, a palavra ave é sinónimo de presságio e de mensagem do céu. As aves simbolizam, pois, os estados superiores dos seres, daqueles seres que se libertaram do peso terrestre, e que assim ascenderam ao transcendente. Neste contexto, importa realçar a importância fundamental do voo, enquanto imagem da ânsia de ascensão, de verticalidade e de transcendência.

No Alcorão, o conhecimento espiritual, a verdadeira Sabedoria são designados por “língua das aves”. Na tradição hindu, a ave era um símbolo da amizade entre os deuses e os homens e, no Egipto antigo, representava a alma do defunto.

A pomba é, entre os cristãos, um dos símbolos da pureza, da paz, e a representação inequívoca do Espírito Santo. Recordemos que, no início do Génesis, o espírito de Deus se movia, como uma ave, sobre a superfície das águas primordiais.

A mais antiga demonstração da crença em almas-aves está, sem dúvida, contida no mito da Fénix. Designada como a ave de fogo, cor de púrpura (isto é, composta de força vital, solar), representava a alma para os egípcios. Segundo a lenda, após ter vivido muitos anos, a Fénix teve a coragem de se incinerar numa fogueira, regressando à vida mais bela e mais pura.

Os aspectos do seu simbolismo surgem aqui claramente: para que possa haver uma renovação da vida, é necessário que morram os aspectos mais negativos da psique humana. O homem novo só pode surgir quando tiver, em cada um de nós, morrido o homem velho.

Também a águia está presente em inúmeras tradições, simbolizando a realeza de Deus. É a rainha das aves, encarnação, substituto ou mensageira da mais alta divindade uraniana, e do fogo celeste, o sol, que só ela ousa fixar sem queimar os olhos. O ceptro de Zeus, pai dos deuses da antiga Grécia, era encimado por uma águia. Identificada com Cristo, esta ave exprime também a sua ascensão e realeza deste.

Na tradição iraniana, por exemplo, o falcão, ou a águia, simbolizavam o poder divino. Quando um rei lendário do Irão proferiu uma mentira, o poder divino abandonou-o sob a forma de um falcão. Nesse preciso momento, o rei viu-se despojado de todos os seus atributos, tendo sido, mais tarde, vencido pelos seus inimigos. E assim perdeu o trono.

Muitos dos aspectos aqui referidos mostram – embora de forma deveras sucinta – a importância simbólica da ave nas diferentes tradições e culturas de todo o mundo, pelo que podemos considerá-la um arquétipo. Daí a sua presença constante nos mitos, nas lendas e nos contos maravilhosos de todas as latitudes.

 
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Publicado por em 2007 in ave, águia, fénix, pomba, símbolos, sonhos

 

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A rosa

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A rosa

Famosa pela sua beleza, forma e perfume, a rosa é a flor simbólica mais utilizada no Ocidente. Corresponde, no seu conjunto, ao lótus da Ásia, estando as duas flores muito relacionadas com o símbolo da roda (a rosácea gótica e a rosa dos ventos marcam, aliás, a passagem de um simbolismo para o outro). A característica mais abrangente do simbolismo floral é a da manifestação: a flor, originária das águas primordiais, eleva-se sobre elas e desabrocha.

Este aspecto não é, aliás, estranho à Índia, onde a rosa cósmica (Triparasundari) serve de referência à beleza da Mãe Divina, designando uma perfeição total, uma realização sem defeito. Como se verá, a rosa simboliza a taça da vida, a alma, o coração e o amor. Pode-se contemplá- la como uma mandala, e considerá-la como um centro místico.

A rosa é, na iconografia cristã, quer o cálice que recolhe o sangue de Cristo, quer a transfiguração das gotas desse sangue, quer o símbolo das chagas de Cristo. Por exemplo, um símbolo rosa-cruz apresenta cinco rosas: uma no centro e uma sobre cada um dos braços da Cruz. Tais imagens evocam quer o Graal, quer o orvalho celeste da Redenção.

A rosa no centro da Cruz (no lugar do coração, do Sagrado Coração) remete também para a rosa cândida da Divina Comédia, para a rosa mística das litanias cristãs, símbolo da Virgem. A rosa de ouro, outrora abençoada pelo Papa no quarto domingo da Quaresma, era um símbolo de poder e de instrução espirituais. Era ainda uma metáfora da ressurreição e da imortalidade (a rosa, pela sua relação com o sangue derramado, aparece muitas vezes como símbolo de um renascimento místico).

As roseiras eram consagradas a Afrodite, bem como a Atena (a deusa que nasce em Rodes, a ilha das rosas), o que parece sugerir os mistérios da iniciação. Aliás, para os gregos, a rosa era uma flor branca, até que Adónis, protegido de Afrodite, foi ferido de morte. A deusa correu para ele, picou-se num espinho, e o sangue coloriu as rosas que lhe eram consagradas.

É este simbolismo da regeneração que faz com que, desde a Antiguidade, se deponham rosas sobre as campas. E Hécata, deusa dos infernos, era por vezes representada com a cabeça cingida por uma grinalda de rosas de cinco folhas. Sabe-se que o número cinco, sucedendo ao quatro, número da realização, marca o início de um novo ciclo.

Segundo Beda (séc. VII), o túmulo de Jesus estava pintado com uma cor que misturava o branco e o vermelho. Estes dois elementos, componentes do cor-de-rosa, encontram-se, com o seu valor simbólico tradicional, em todos os planos (do profano ao sagrado). Encontramo-los na diferença atribuída às oferendas de rosas brancas e vermelhas, assim como na diferença entre as noções de paixão e de pureza, bem como na diferença entre as noções de amor transcendente e de sabedoria divina.

A rosa tornou-se, assim, um símbolo do amor. Mais ainda, do dom do amor, do amor puro. O amor paradisíaco será comparado por Dante ao centro da rosa. E branca ou vermelha, a rosa é uma das flores predilectas dos alquimistas, cujos tratados se intitulam muitas vezes “roseiras dos filósofos”.

A rosa banca, como o lírio, foi ligada à pedra em branco, objectivo da pequena obra, enquanto que a rosa vermelha foi associada à pedra em rubro, objectivo da grande obra. A maior parte destas rosas tem sete pétalas, e cada uma dessas pétalas evoca um metal ou uma operação da obra.

 
 

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A taça — o vaso

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A taça – o vaso

O simbolismo, muito difundido, da taça apresenta-se sob dois aspectos essenciais: o do vaso da abundância e o do vaso que contém a bebida da imortalidade. No primeiro caso, ela é muitas vezes comparada com o seio materno que produz o leite. Mas o simbolismo mais geral da taça aplica-se ao Graal medieval, vaso que recolheu o sangue de Cristo na Última Ceia, e que contém, ao mesmo tempo, a tradição momentaneamente perdida e a bebida da imortalidade.

A taça contém o sangue, princípio de vida. É, portanto, homóloga do coração e, por conseguinte, do centro. Aliás, o hieróglifo egípcio do coração é uma taça. O Graal é, etimologicamente, ao mesmo tempo, um vaso e um livro, o que confirma o duplo significado do seu conteúdo: revelação e vida. O Graal era ainda designado como o Navio: metáfora da arca que continha os germes do renascimento cíclico, da tradição perdida. Note-se que o quarto crescente da lua, equivalente da taça, é também uma barca. Mas o amplo simbolismo do Graal aponta ainda para a expressão da imortalidade e do conhecimento. Estes obtêm-se mediante o renascimento iniciático, ou seja, a morte do nosso estado presente.

Vamos encontrar um simbolismo análogo nos alquimistas chineses que, perante a dificuldade em acederem directamente ao elixir da longa vida, transformavam o ouro obtido no cadinho em salvas e taças que se destinariam, um dia, a receber os alimentos e as bebidas da imortalidade. Relembremos os cálices eucarísticos, que contêm o Corpo e o Sangue de Cristo, e que, assim, perpetuam o Graal.

Pensemos ainda na taça como um símbolo cósmico: o ovo do mundo separado em duas formas, duas taças opostas, em que uma, a do céu, é a imagem do domo. Também no mundo céltico, a taça cheia de vinho ou de uma outra bebida embriagante, é um símbolo de soberania, geralmente oferecida por uma donzela ao futuro rei. Utilizada tanto nas libações rituais como nas refeições profanas, a taça também serve um simbolismo bastante desenvolvido nas tradições judaica e cristã.

A taça da salvação (ou da libertação) que o salmista eleva à divindade, é, ao mesmo tempo, uma realidade cultural e um símbolo de acção de graças. Mas a tónica principal do simbolismo da taça recai, na Bíblia, sobre o destino humano: o homem recebe das mãos de Deus o seu destino como uma taça, ou contido numa taça.

Pode, então, tratar-se de uma taça transbordante de bênçãos, ou duma taça cheia do fogo do castigo, a taça da cólera divina. Aliás, a taça do amor ou o vinho da alegria serão dados aos santos no Paraíso, como símbolo evidente da comunhão na adoração e no amor.

Na Cabala, o vaso significa o Tesouro. Apoderar-se de um vaso é conquistar um tesouro. Partir um vaso é aniquilar, pelo desprezo, o tesouro que ele representa.

Na literatura medieval, o vaso contém um tesouro – o Graal, as Litanias, etc. O vaso alquímico e o vaso hermético significam sempre o lugar onde as maravilhas se operam: é o seio materno, o útero no qual se forma um novo nascimento. Daí a crença que o vaso contém o segredo das metamorfoses.

Sob múltiplos aspectos, o vaso encerra o elixir da vida: é um reservatório de vida. Um vaso de ouro pode significar o tesouro da vida espiritual, o símbolo de uma força secreta.

O facto de o vaso ser aberto em cima indica uma receptividade às influências celestes.

 
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Publicado por em 2007 in cálice, símbolos, sonhos, taça, vaso

 

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As marionetas e os autómatos

Georges Romey
Excertos adaptados

As marionetas e os autómatos

O conteúdo dos sonhos em que aparecem estas personagens estranhas permite determinar o que leva a separá-las em dois grupos. Todas exprimem o desconforto de uma psicologia incapaz de se libertar de comportamentos estereotipados, o estado de uma personalidade incapaz de manifestar os seus próprios sentimentos, de desenvolver um pensamento autónomo. Uma psicologia que gera imagens de marionetas ou de autómatos anuncia assim a sua dependência em relação a uma referência exterior.

Os pacientes que povoam os seus cenários com estas figuras estão, em graus distintos, numa situação de sujeição face a um modelo imposto pelo meio familiar ou social. A diferença entre as marionetas e os autómatos reside, não nas origens, cuja natureza é pouco variável, menos ainda nos efeitos, que são idênticos, mas no tipo de relação que estabelecem com o modelo.

Para explicar esta distinção, basta deixarmo-nos guiar pela lógica das imagens: a marioneta é uma figurinha accionada por uma intervenção exterior. Perante uma pessoa cuja atitude não parece corresponder aos seus sentimentos e necessidades reais, a sabedoria da linguagem pergunta: “Quem puxa os cordelinhos?”.

A marioneta está e permanecerá inerte enquanto uma mão estranha não comandar os seus movimentos, ou puxando os fios ou insinuando-se no seu corpo. O autómato, de acordo com o próprio nome, parece entrar em contradição com as reflexões precedentes. O grego automatos significa que se move por si próprio.

O autómato é um objecto movido por uma maquinaria disposta no seu interior. Mostra uma autonomia aparente, que disfarça mal uma situação ainda mais restritiva do que a marioneta. Porque o autómato apenas cumprirá os gestos para que foi programado.

Não é difícil, logo que se reconhecem as identidades e as diferenças que aproximam ou separam marionetas e autómatos, compreender que todas estas personagens simbolizam o estado de personalidades dominadas, no primeiro caso por influências exteriores ainda actuais, no segundo pela marca de influências interiorizadas. Em todos os casos, a dinâmica do imaginário põe em cena marionetas e autómatos para exprimir, de forma flagrante, a submissão do eu às pressões de um superego tirânico.

Uma estátua simboliza a petrificação dos impulsos, a armadura expõe o aprisionamento numa atitude de protecção. Os seus primos, marionetas e autómatos, infligem a visão de uma situação talvez ainda mais digna de pena: a de um ser que se esforça por parecer uma pessoa capaz de sentir, de pensar e de agir por si própria mas que só consegue reproduzir os gestos inspirados por um modelo presente exterior ou interiormente.

A ambivalência da marioneta evidencia-se na exposição simultânea da inércia e da animação. Denuncia a separação dramática entre os motivos e os actos. O paciente que se identifica com Guignol ou Pinóquio expressa a ruptura entre os sentimentos reais recalcados e o seu comportamento, inspirado por uma programação exterior.

A figura de Pinóquio é particularmente expressiva já que a simpática marioneta articulada é ostensivamente guiada por Jiminy Cricket (o Grilo Falante) que, colocado perto do seu ouvido, lhe dita tudo o que ele deve ou não fazer. Seria difícil encontrar uma imagem mais explícita da exterioridade do modelo de comportamento.

O corpo de tais pacientes diz e faz uma coisa diferente da que lhes inspiraria a sua cabeça, se esta aceitasse as mensagens do coração. Alguns sonhos dizem respeito, por um lado, à imagem da separação da cabeça e do corpo que traduz a desarticulação fundamental entre o sentir e o agir; por outro lado, dizem respeito à evocação da maquinaria, de engrenagens, de fios, de todas estas próteses destinadas a criar uma ilusão de autonomia de movimentos.

Como é que uma pessoa irreal, cujas atitudes não estão em relação com o que ela sente, poderia assumir uma relação correcta com o seu meio? Ela não executa nunca os gestos que gostaria mas os que pensa que deve fazer. Daí resulta uma neutralização permanente da capacidade de troca, o que legitima o sentimento da nulidade do ser.

A cabeça separada do corpo, os dedos cortados, eis outras tantas imagens que remetem igualmente para o sentimento ou angústia da castração. É evidente que pessoas continuamente refugiadas por detrás de uma máscara, submetidas, em cada um dos seus actos, à censura do superego, são permanentemente levadas a constatar a sua impotência.

Marionetas, autómatos, Pinóquio, Guignol, Polichinelo, escafandrista “cujos cordelinhos se puxam”, peão de matraquilhos, o onirismo dispõe de uma grande reserva de imagens, das mais tradicionais às mais originais, quando se trata de exprimir a repressão dos verdadeiros sentimentos.

Quando se manifestam num cenário, tais representações raramente estão isoladas. Cada uma destas imagens tende a fazer aparecer vários dos seus equivalentes simbólicos. Em conjunto, elas inserem-se geralmente numa sequência cujas palavras falam claramente do sistema de repressão dos sentimentos.

As marionetas e os autómatos, figurações caricaturais de uma psicologia dominada por um superego esmagador, não devem nem fazer sorrir nem causar inquietude. Como todas as imagens que exprimem uma paragem da dinâmica de evolução, elas aparecem precisamente no momento em que os gelos da alma iniciam a sua deslocação.

Impõem aos sonhadores a visão insuportável daquilo que já não são. Quando estes reconhecem a marioneta em que se tornaram, não poderão mais aceitar sacrificar indefinidamente os seus verdadeiros sentimentos no altar de uma referência exterior, paterna ou outra.

Marionetas e autómatos são, na linguagem das imagens, uma mesma palavra para significar a submissão ao dever de conformidade. Colocados na dinâmica do sonho, adquirem sempre o sentido de acesso à autonomia e de libertação dos sentimentos verdadeiros.

 

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A filha do rei

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A filha do rei

O tema da Filha do Rei encontra-se, com muita frequência, em quase todas as tradições. A Filha do Rei é concedida ao herói como recompensa da sua audácia e da sua coragem. Um empreendimento difícil implica perigos que o herói soube vencer com o risco da própria vida. Daí os casais Atalanta e Hipómenes, Andrómeda e Perseu, Ariadne e Teseu, etc..

À Filha do Rei está associado o símbolo da Água enquanto elemento primordial. Nos textos antigos, a Filha do Rei acalma a cólera do oceano e, por vezes, é oferecida como vítima, salvando o náufrago. A este propósito, basta citar o exemplo de Ulisses que, sozinho numa jangada, enfrenta o mar tumultuoso e nada desesperadamente. Ulisses teria sucumbido sem o auxílio de Ino. Esta dá-lhe uma vela, o que permite ao nosso herói manter-se à superfície das águas enfurecidas, que procuravam devorá-lo. Ulisses vai dar à ilha dos Feácios. Aqui encontra a Filha do Rei, Nausíca.

Outras vezes, o herói é uma criança, cujo destino será muito importante. A água, que profetiza e julga, transporta a cesta de vime, ou a caixa de junco, com a criança, de tal forma que esta será descoberta por uma Filha de Rei, que fora banhar-se ou lavar a sua roupa no rio.

Assim, Moisés submeteu-se ao julgamento da água e foi recolhido pela Filha do Faraó. Muito antes de Moisés, existem outras histórias análogas. Por exemplo, a dos gémeos gregos Neleu e Pélias que, metidos numa gamela de madeira e abandonados no mar, são encontrados mais tarde pela sua própria mãe, a Filha do Rei da Élide.

A Filha do Rei é o símbolo da protecção inesperada, da virgem-mãe; esta é aquela cuja pureza desinteressada vem em socorro do homem ameaçado pelas águas. É a face propícia da água, sendo a outra face a da água que submerge. A primeira pertence àquela parte das águas superiores que Deus, no princípio, separou das águas inferiores. É a água celeste salvadora, o aspecto tranquilizador da mãe.

A Filha do Rei está também relacionada com o mito quase universal do Velho Rei. O Velho Rei é a memória do mundo, o inconsciente colectivo, aquele que recolheu todos os arquétipos da longa história dos homens. Geralmente, mantém a filha prisioneira: esta representa o inconsciente individual que, sem experiência própria, não consegue emergir do inconsciente colectivo, o pai, que a oprime com todo o seu passado.

Mas o príncipe encantado, ou princípio activo da consciência, virá despertá-la e libertá-la do peso desta opressão. Em compensação, ela dar-lhe-á um fragmento da memória do mundo, e ver-se-á assim aumentar a acção conjugada do príncipe encantado e da filha do rei, que simboliza a aliança do inconsciente colectivo (o velho rei), do inconsciente individual (a filha do rei), e do consciente (o príncipe).

 

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O príncipe e a princesa

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

O príncipe e a princesa

O Príncipe simboliza a promessa de um poder supremo, a primazia entre os seus pares, seja qual for o domínio em questão: um príncipe das letras, das artes, das ciências; a Princesa dos poetas. O Príncipe encantado e a Princesa distante fazem sonhar os jovens. Exprimem as virtudes reais no estado da adolescência, ainda não dominadas nem exercidas.

Uma ideia de juventude e de irradiação está ligada à figura do príncipe. Tem mais a ver com a personagem do herói do que com a do sábio. A ele pertencem mais as grandes acções do que a manutenção da ordem. O príncipe e a princesa são a idealização do homem e da mulher, quanto à beleza, ao amor, à juventude e ao heroísmo.

Nas lendas, o príncipe é muitas vezes vítima de feiticeiras que o transformam em monstro ou em animal, e só recupera a sua forma primitiva sob o efeito de um amor heróico. Por exemplo, em A Bela e o Monstro, o príncipe simboliza a metamorfose de um eu inferior num eu superior, pela força do amor. A qualidade de príncipe é a recompensa de um amor total, isto é, absolutamente generoso.

O símbolo tem também o seu lado obscuro: Lúcifer é o Príncipe das Trevas. O portador da luz não espalha senão sombra. É a corrupção do melhor, que se torna o pior. Principado do mal, da noite e da morte, é o estado extremo da falta de bem, de claridade e de vida: em suma, a inversão do símbolo.

 

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O príncipe

Georges Romey
Excertos adaptados

O príncipe

O Príncipe do sonho não é um príncipe de sonho, consolação insípida evocada por uma alma sofredora, nem mesmo apenas o activo animus, complemento providencial que intervém a convite da anima ou do psicoterapeuta. A figura do príncipe vem na altura certa, quando os tempos de espera se cumpriram. O símbolo manifesta-se quando o paciente aceita viver uma relação diferente com o tempo.

Muitas mulheres conheceram o destino de Branca de Neve, a jovem púbere que não compreende nem aceita uma transformação vinda demasiado cedo, demasiado depressa. Branca de Neve recusa, ao mesmo tempo, o corpo jovem, que já não reconhece, e o corpo de mulher que emerge e a transporta para um futuro angustiante. A referência à mãe, os jogos amargos da rivalidade edipiana fazem o resto: a culpabilidade – o pedaço de maçã envenenada – asfixia-a.

Eis a jovem estendida, como morta, no seu caixão de vidro. Para estas mulheres, os tormentos da metamorfose da puberdade converteram-se em apreensão e, em seguida, numa recusa em crescer, pura e simplesmente. Uma parte da anima tornou-se fixa. Deixou a terra dos risos e dos jogos de infância sem atingir o lugar da maturidade, que se apresenta como a visão inaceitável de um futuro cinzento, inscrito na perspectiva da velhice e da morte. A Alma, esse véu ao vento, petrificou-se.

A flexibilidade, essa condição da vida evolutiva, desapareceu. Branca de Neve, no seu caixão de vidro, a Bela Adormecida, no seu meio petrificado, adormeceram por um tempo pré determinado. O branco, símbolo da pureza, de isolamento e de morte, surge com insistência em 50% dos cenários tomados em referência. O tempo, a hibernação, a crisálida, o sono de gestação, a noção de tempo de espera, de vida contida, reservada, envolvem o príncipe em 50% dos sonhos estudados. O príncipe reina sobre o tempo acordado.

Quase todas as sonhadoras que sonham com a personagem do príncipe o situam na proximidade da dupla evocação da jovem e da mulher velha. O príncipe do sonho é sempre o Príncipe Encantado que exprime a espera do encontro com um homem que corresponda à projecção do animus da jovem. Durante a adolescência, tal projecção teria assegurado a passagem de criança a adulta, através do estádio intermédio de mulher apaixonada. Talvez a paciente seja já há algum tempo mãe de família. No entanto, o surgimento do príncipe no seu sonho traduz a espera do despertar do seu animus.

O príncipe, cujas prestações oníricas são muito mais raras do que as do rei e da rainha, surge essencialmente em cenários produzidos por mulheres. É uma das manifestações menos discutíveis do animus. Como tal é, ao mesmo tempo, o libertado e o libertador. Ao destruir os obstáculos que a tornavam prisioneira, a sonhadora liberta o princípio fecundador que será o fermento da realização da sua componente feminina.

Eis porque o terapeuta descobrirá, frequentemente, nestes sonhos, uma jovem à espera de despertar. “Jovem” é mais correcto do que “princesa”, visto que esta última palavra é raramente pronunciada pela sonhadora. A sonhadora que vê o príncipe não reivindica o lugar da mãe. Situa-se no limiar de uma autonomia de pensamento, que depende do reconhecimento do animus.

Seja qual for a idade da paciente, o príncipe vem quebrar o caixão de vidro no qual, enquanto adolescente, ela se tinha fechado para escapar às angústias da transformação da puberdade. O príncipe do sonho não é uma expressão ingénua da idealização do companheiro masculino. Ele é o animus sem rosto, aquele que transporta em si o poder do despertar.

 

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Glossário

  • ANIMA: componente feminina (características femininas) da psique humana.
  • ANIMUS: componente masculina da psique.
  • PERSONA: “máscaras socias”, papéis desempenhados “em público”

 
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Publicado por em 2007 in símbolos, sonhos

 

O rei

Georges Romey
Excertos adaptados

O rei

Rei, pela graça de Deus. Legitimado por transmissão hereditária, dita de direito divino, o poder temporal absoluto recebe daquela a aura dos valores sagrados. Na dinâmica onírica, a imagem real pode, por vezes, provar a aspiração à realização perfeita e é, na maioria das vezes, sinal de uma autoridade incontestável.

O duplo aspecto, temporal e sagrado, não se impõe apenas com evidência através da cadeia de associações primárias observadas no sonho, mas constitui a estrutura sobre a qual se formou a simbólica do rei.

As correlações mais visíveis compõem à volta do rei sonhado a imagem ingénua de uma cavalaria medieval. O trono, a coroa, o castelo, o guerreiro, a espada, a armadura, são as pesadas insígnias desta primeira figura de um rei anónimo, misturada com outros clichés que compõem uma visão sumária da Idade Média.

Logo que o imaginário sente a necessidade de fazer apelo a este ou aqueloutro soberano, trata-se, quase sempre (para o exemplo francês), ou de Luís XIV, o rei-Sol, ou de Luís XVI, o rei decapitado.

Estas duas imagens pontuam o itinerário brutal que vai da noção de poder incontestável à noção de poder contestado.

N.T. Assim como a Rainha (e a Princesa) dos contos e das produções oníricas parecem apontar para figurações superlativas daquilo que Jung designou por “anima” (a componente feminina da psique humana), também o Rei (e o Príncipe) sugere(m) constelações simbólicas tendentes a reflectir o “animus”, ou seja, a componente masculina da psique. Tais figuras arquetípicas parecem pois associar-se aos valores da razão, da força de vontade, a todas as componentes da virilidade (coragem, valentia, lucidez, capacidade de discernimento, poder de decisão, etc). Compreender-se-á então que o ser total (o andrógino) congregue em si valores do “animus” e valores da “anima”.

 

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O gigante

Georges Romey
Excertos adaptados

O gigante

A análise dos sonhos faz surgir duas correlações presentes em 60% dos cenários estudados. A primeira, determinante para a nossa interpretação, diz respeito à relação com os outros e, mais precisamente, a um estado de dificuldade de relacionamento cuja origem é a exaltação do desejo de dominação. A segunda é relativa à presença, na proximidade do gigante, da imagem do anão, da pequenez extrema.

Estas duas associações merecem ser desenvolvidas. A primeira considera os Titãs, opostos a Zeus e aspirando a destruir o Olimpo, como a figuração de uma revolta contra o espírito. Eles simbolizam um desvio perverso da ânsia de evolução em proveito da banalização, de uma vontade de satisfazer os desejos terrenos.

Paul Diel adianta que, diferentemente da banalização dionisíaca que se desenvolve no plano das aspirações sexuais, a banalização titânica é uma perversão da sociabilidade que se traduz por uma tendência para a dominação. É então fácil mostrar que cada sonhador que se presta a vivenciar esse confronto – por vezes mesmo até à identificação com a imagem do gigante – é esmagado até à impotência pela desmesura da ambição que nele habita!

A segunda associação que mostra que a imagem do anão está sempre pronta a surgir perto da do gigante exige um tratamento mais circunspecto. Seria presunçoso imputar o aparecimento simultâneo destas manifestações contrárias à tendência da dinâmica do imaginário para aproximar os opostos.

Se a intervenção do gigante no sonho provoca, com grande regularidade, a expressão da redução de tamanho, não se trata de uma alteração de valores mas, inegavelmente, de uma relação de grandezas. O sonhador – 80% das imagens do gigante são produzidas por homens – que se mede comparativamente ao exageradamente grande, coloca-se, naturalmente, na situação do exageradamente pequeno.

Quase todas as pessoas que acolhem esta figura impressionante se mostram impotentes para realizar uma comunhão satisfatória com o seu meio. Debruçadas sobre os seus próprios medos, podem dar a impressão de ter escolhido a filosofia do misantropo, enquanto, ao mesmo tempo, se queixam de não existir no olhar dos outros.

Com efeito, se tais pessoas são rejeitadas, sem realmente disso terem consciência, é porque a sua ambição secreta não é a de se colocarem no meio dos outros mas por cima dos outros. Quanto mais forte for o desejo de domínio material, mais desmesurado é o gigante do sonho. O gigante onírico escapa a qualquer escala de medida humana.

Quanto maior for o gigante, mais ele trai a desmesura das aspirações materiais. Desmesura é o termo correcto porque exprime a fatalidade do aumento do divórcio entre a ambição e as possibilidades do sonhador. Quanto mais cresce a ênfase posta no objectivo de poder, tanto mais o sentimento de impotência invade a pessoa.

Quanto mais o gigante cresce, por uma espécie de inflação psíquica, tanto mais o sonhador é relegado à sua pequenez, ao sentimento da sua nulidade. A banalização titânica, devoradora de energia, conduz à subtensão psíquica.

A personagem gigantesca é o indício de uma ilusão perigosa que leva a acreditar ser possível negar a necessidade de realização espiritual em proveito do desejo de domínio pela força. O espírito de competição, do qual se reconhecerá a virtude estimulante, torna-se, na sua versão exaltada, uma religião perversa que transforma em impasse os caminhos de esperança.

 
 

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A velha

Georges Romey
Excertos adaptados

A velha

O mito grego atribui à velha das Parcas a missão de cortar o fio da vida quando soa a hora inscrita no Livro do Destino. As três irmãs são frequentemente representadas como velhas com um ar severo. Atropos, a mais velha, aquela que não pode ser evitada, veste roupas negras e lúgubres. Personifica a morte. Quando produz a imagem da velha, o sonho associa-se ao mito.

A determinação do imaginário em confiar ao velho a representação da sabedoria, de uma experiência que ultrapassa os dados adquiridos de uma vida individual, e em confiar à velha os limites da idade e da morte, encontrará a sua confirmação na análise das correlações observadas em redor da segunda personagem.

A velha surge com a mesma frequência no onirismo masculino e nos cenários produzidos pelas sonhadoras. A cadeia de associações em que se inscreve o símbolo compreende quatro elos, que tanto vão buscar a sua substância ao imaginário dos homens como ao das mulheres: a morte, a rigidez, a multidão, as roupas negras. A rigidez exprime-se nos sonhos femininos pela estátua e nos cenários masculinos pela armadura.

Outras quatro associações repartem-se segundo uma divisão bastante reveladora. Na proximidade da velha, as sonhadoras evocam as imagens do bébé e da menina. Nas mesmas circunstâncias, os sonhadores fazem referência ao templo e ao campo de trigo. É possível deduzir daí que o imaginário feminino coloca a velha numa escala de avaliação do curso da vida.

O bébé, a menina, a velha e a morte! Esta escala poderia bem servir para medir a angústia do ego confrontado com o carácter inelutável da degradação da aparência física. O onirismo masculino, que conjuga a velha com o tempo religioso, de que são testemunhas a presença do templo, dos monges e do campo de trigo, manifesta antes uma angústia de natureza metafísica.

Para ambos, a velha, vestida de negro, com ares de feiticeira, prefiguração da morte, despoleta o terror perante o mistério do destino. A psicologia feminina, mais realista do que o que se possa pensar, mais impregnada dos valores da terra, receia sobretudo as marcas visíveis da idade. O imaginário masculino, mais comprometido no caminho especulativo, dá à sua inquietação a dimensão do universal.

A testemunha que se põe à escuta dos sonhos acolherá numerosas imagens da velha que se agruparão num ou noutro de três grupos, em geral fáceis de distinguir. O primeiro agrupa todas as evocações da avó, quer elas se relacionem ou não com os ascendentes da sonhadora ou do sonhador.

Quanto às outras imagens da velha, observaremos que 15% delas colocam o símbolo numa função de representação da sabedoria, de um conhecimento que ultrapassa as aquisições da consciência. A velha é então a réplica feminina do arquétipo do velho sábio.

Esta representação feminizada do velho sábio deve dirigir a atenção para uma possível indeterminação do sonhador ou sonhadora no que diz respeito à tonalidade determinante, animus ou anima, que se imprime nos seus comportamentos habituais.

Em todas as outras situações, ou seja em 85% dos cenários onde aparece, a velha é portadora do significado da velhice e da morte. Vestida de negro, mostrando uma cara de feiticeira desdentada, ela recorda, de uma maneira impressionante, a evolução inexorável que promete ao botão de rosa, depressa desaparecido, o destino da flor murcha. A velha, na dinâmica do sonho acordado, é então uma das figuras reveladoras da angústia metafísica

 

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O velho sábio

Georges Romey
Excertos adaptados

O velho sábio

De que regiões profundas do ser surge esta personagem? De que camadas misteriosas da consciência colectiva? Não há um lugar onde se possa situá-lo. Ele está presente na eternidade e só se manifesta em ocasiões excepcionais.

O Velho Sábio! O mais estranho, o mais determinante dos arquétipos! O velho é o arquétipo da sabedoria ligada à consciência universal. Para o leitor que não conheça a figura do velho solitário, convém desenhar-lhe a imagem-tipo.

Trata-se, geralmente, de um homem muito idoso, de barba ou cabelos brancos, que parece viver uma vida totalmente autónoma, longe das coisas deste mundo. Os seus atributos mais frequentes são, por ordem, a barba comprida, a vela, o Livro do Destino, o cajado e os carneiros ou cabras.

Tal enumeração deixa adivinhar que o velho tem, muitas vezes, a aparência de um sacerdote, de um pastor ou de um peregrino. Mas a lista de personificações que ele pode escolher é longa. Entre elas, notar-se-ão sobretudo o eremita, o monge, o pescador, o artesão, o druida, o chefe índio, o patriarca.

O velho sábio é sempre facilmente identificável porque se rodeia de características bem particulares. A mais relevante é esta estranha atitude que autoriza e interdita ao mesmo tempo, comunica e recusa dizer, manifesta uma benevolência tranquilizadora e uma reserva que parece ameaçar…

Por isto mesmo, o velho assinala a sua missão que é sempre a de cumprir uma acção mediadora. Cada um dos seus gestos, a sua aparência, o momento em que intervém na cura, colocam um par de valores relativos à luz de uma verdade total.

Os contrários antagónicos, à luz da sua vela, fundem-se numa unidade criadora, projectados repentinamente para além do bem e do mal tal como os apreende a razão humana. O papel do velho, arquétipo da sabedoria e do destino submetido à dimensão cósmica do sentido da vida, poderia preencher muitos volumes.

A sua aparição tem lugar no momento em que a atitude da pessoa face à imprevisibilidade do destino sofre uma transformação radical. A angústia nascida da confrontação com o mistério do devir tinha provocado uma reacção de vontade de domínio intelectual do destino. O esforço exacerbado para conjurar o carácter imprevisível do destino por uma previsão impossível absorve uma parte insustentável da energia vital.

Através da imagem do velho sábio, o paciente realiza a experiência da infinita relatividade. A relação com o destino não é mais uma procura de domínio, geradora de angústia, mas uma aceitação do significado desconhecido da vida, condição da harmonia essencial. O velho sábio convida o sonhador a colocar-se em comunhão com o mistério, atitude da qual depende a dissolução da angústia existencial

 

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O livro

Georges Romey
Excertos adaptados

O livro

O livro conduz o imaginário do sonhador às camadas mais profundas da psique universal. Trata-se de um dos símbolos mais enraizados no inconsciente colectivo da humanidade. O livro dos sonhos é sempre um volume imponente, antigo, valioso na aparência e no conteúdo. Um volume que apenas se abrirá a um olhar disponível para acolher o sagrado.

É um dos adereços mais frequentes do velho sábio. A estreita correlação que encontramos entre os dois símbolos seria suficiente para justificar a interpretação do livro com um factor de mediação entre o passado e o futuro. O livro onírico é o fiel depositário de uma história acabada, de uma memória que persiste, mesmo que tudo pareça ter sido esquecido.

Encerra também um futuro que se expõe à compreensão do sonhador. Tal como o velho sábio, o livro conhece o Destino. Nos sonhos onde as suas páginas são desfolhadas, há sempre um despertar da psique, o fim de uma letargia da consciência, que se reanima e reencontra o prazer da evolução.

O livro do sonho encerra um conhecimento sagrado. O sagrado é aquilo que está disponível apenas para aquele que se encontra na disposição autêntica de realizar o caminho interior. O lugar onde a visão do livro se manifestará só é acessível mediante um esforço.

Normalmente, trata-se de um lugar subterrâneo. Haverá alguns degraus para sublinhar a ideia da descida que se impõe àqueles ou àquelas a quem será facultada a contemplação do livro. Espera-os uma surpresa: poderão ver mas não compreender. Pelo menos numa primeira etapa. O livro imaginário encontra-se escrito numa língua que escapa à razão.

O protótipo de todas as cenas onde o velho sábio segura o Livro do Destino encontra-se no texto de Voltaire que descreve o encontro entre Zadig e o eremita. Vamos reproduzi-lo aqui, uma vez que exprime a essência do símbolo e que os inúmeros exemplos oníricos por nós estudados apenas reproduzem, sob formas variadas, os elementos que o compõem:

Zadig encontrou no caminho um eremita, cuja barba branca e venerável lhe descia até à cintura. Tinha na mão um livro que lia atentamente. Zadig parou e fez-lhe uma profunda vénia. O eremita saudou-o de forma tão nobre e doce que Zadig teve vontade de ficar a conversar com ele. Perguntou-lhe que livro estava a ler. “É o livro dos destinos. Queres lê-lo?” Pôs o livro nas mãos de Zadig que, embora conhecesse várias línguas, não pôde decifrar o que lá estava escrito.

Voltaire inspirou-se num texto de Addison, publicado em 1711, no qual Addison retomava um excerto do Talmud (transcrição da tradição oral judaica e serve de código do direito judaico, canónico e civil. (N.T.)). Este excerto, baseado numa antiga lenda oriental, mostra que o homem é incapaz de desvendar os desígnios da Providência. Essa impossibilidade deriva do facto de utilizarmos a razão para compreender esses escritos.

Quando, no seu sonho, o paciente cede simbolicamente ao sono, ou seja, quando abandona a vontade de tudo dominar através da razão, o sentido do conteúdo do livro é-lhe revelado, como que por magia. O Livro do Destino nunca está escrito numa linguagem familiar. Mostra signos, figuras geométricas, hieróglifos, imagens.

O velho sábio partilha com o livro uma linguagem simultaneamente obscura e clara. O velho, expressão da sabedoria inata, comunica por gestos e signos; raramente o faz através da palavra. O livro é a expressão por excelência deste tipo de comunicação. Há dois exemplos que podem ilustrar o que acabamos de dizer: o de Charlotte e o de Hervé. Charlotte vê uma jovem que acaba de dominar um dragão que impedia o acesso a uma aldeia construída sobre um mar subterrâneo. Charlotte enche-se de coragem e mergulha nas profundezas desse oceano.

Apercebe-se da existência de uma segunda aldeia, réplica exacta da superfície:

…de repente, todas as casas iluminadas do fundo do mar apagaram as luzes…está escuro…avanço por tentativas…há uma luz muito ténue numa das casas. Bato no vidro da janela…entro e vejo um homem muito velho, um velho artesão, que trabalha à luz de uma vela sobre um velho manuscrito. Desenha signos que não compreendo muito bem: rodas, triângulos, coisas que se entrecortam, símbolos um pouco alquímicos…é ele que alimenta, através desta pequena vela, as luzes de todas as outras casas…diz-me que é importante que haja zonas de sombra e zonas de luz…

Numa montanha, Hervé encontra um amontoado de pedras, um túmulo, que começa a explorar durante vários dias. Descobre:

…utensílios, armas, ossadas…descubro também um livro, folhas de papiro cosidas, nas quais estão escritos hieróglifos incompreensíveis para mim…embrenho-me na montanha com o livro, tentando encontrar quem possa explicar-mo. O livro contém também desenhos, figuras geométricas muito complexas, e fico admirado de ver que uma coisa tão antiga possui elementos tão sábios. Encontro um velho que vive numa cabana, no bosque, e que começa a explicar-me o conteúdo do livro…estão lá todas as leis do universo que as pessoas que as escreveram conheciam através de uma compreensão perfeita da natureza e não através da ciência…

O livro assume também uma função de mediação. No caso de Charlotte, o velho sábio e o livro mostram à sonhadora o valor da sombra e da luz. A jovem tinha uma tendência excessiva para a sublimação e o sonho condu-la a um registo de vida mais realista.

Contudo, na maior parte das situações, o livro imaginário simboliza o tempo. Transporta o peso de todas as épocas da memória individual e colectiva e, por isso mesmo, contém o sentido profundo das coisas da vida, inacessível à razão. Christine diz num sonho:

…Anda tudo muito depressa; dir-se-ia que as páginas do livro se voltam muito depressa, como se se tratasse de um pião…não se consegue ver o que lá está escrito…dir-se-ia que se trata de um riacho…é o Tempo que se escoa, o navio do Tempo!…

Uma outra sonhadora, Rachel, exprimiu a ideia de que o livro onírico tem a capacidade de conferir ao ser uma unidade que depende da sua aceitação de um futuro permanente. Um livro sonhado contém tudo o que aconteceu e tudo o que está para acontecer.

Anula os compartimentos de tempo mensurável, que separam a consciência do campo ilimitado de um tempo total. Não deve funcionar como um refúgio, como um abrigo para a consciência medrosa, mas antes como um terreno do qual se alimenta a dinâmica da realização pessoal.

 

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O outro mundo

Georges Romey
Excertos adaptados

O outro mundo

Se há um lugar que recusa definições é o outro mundo. Se há expressões que nos causam medo, esta é uma delas. A sua evocação activa um fundo de angústia metafísica que todas as almas possuem, mesmo que seja em estado latente. O outro mundo impressiona porque o vemos como um outro lado do mundo dos vivos. Mas só uma percentagem ínfima de sonhos estabelece essa correlação.

No vocabulário das imagens, o outro mundo é uma expressão que se inscreve no simbolismo da passagem. É quase equivalente ao outro lado. As cenas de travessia de um espelho ou de passagem através de um buraco negro são as mais constantes do símbolo. Este não equivale um inverso da vida, mas a um além do consciente.
Penetrar num outro mundo, abandonar-se à força que nos impele para o buraco negro são atitudes oníricas que revelam que os sonhadores querem abandonar as máscaras. Denunciam a fraqueza das sábias construções de defesa do eu. O acesso a valores recalcados ou que ficaram inconscientes, o estabelecer de novas ligações entre o inconsciente e o consciente, levam-nos a descobrir o que ignorávamos de nós mesmos.

Este alargamento do campo da consciência conduz a uma aceitação da progressão no desconhecido. É fácil compreender como esta faceta desconhecida do ser se confunde com o universo desconhecido de algo que está para além da vida. Esta sobreposição, tão fatal quanto deplorável, leva a uma interrupção do desenvolvimento da psique.

Tal como o outro lado, o outro mundo é um auxiliar activo do verbo atravessar. Para além do limiar encontram-se valores contrários àqueles que o consciente adoptou. Ambas as expressões apelam para uma dinâmica de conciliação dos opostos. Diante do outro mundo, a pessoa sente-se face a horizontes ilimitados, num espaço onde cada valor é enriquecido pelo seu contrário e vice-versa.

Vejamos alguns excertos de um sonho de Dominique:

É estranho! Via um lugar muito turístico, um porto cheio de lojas onde se vendiam coisas horrorosas que não serviam para nada…como pano de fundo havia um barco de cruzeiro…sobreposta a esta imagem vejo uma espécie de Robinson Crusoe numa jangada, barbudo e maltrapilho…que chega a terra…Desço uma escada interminável…tenho a impressão de me enfiar num buraco negro…até que vejo que se trata da entrada num bosque…é como se estivesse a entrar noutro mundo…

Todas estas imagens me fazem pensar numa forma de vida artificial…ou social, que dá origem a uma vida mais natural…já não há diferença entre elas, cada uma dá acesso à outra…não há rupturas…à entrada do bosque há uma luz, é como uma chama…há duas velas de cada lado…é algo de simples e de eterno ao mesmo tempo…de repente tudo muda…é como se o meu olhar pudesse abraçar a totalidade do mundo…tenho a impressão de ser um gigante e de assistir a uma cena em que o mundo é representado em miniatura…onde tudo se entrelaça como os elos de uma cadeia fechada…não há princípio nem fim…penso também nos nómadas…essas pessoas sem lugar…os nómadas vivem na simplicidade, na natureza, em contacto com as coisas naturais, sem desconforto…sinto-me muito bem com estas visões…

O outro mundo deve ser visto como um sinónimo do outro lado. Exprime uma nova relação entre o campo da consciência e alguns valores que permaneceram inconscientes. Devido à conotação com o desconhecido, pode acontecer que haja uma sobreposição angustiante do outro mundo e do mundo além vida.

A confusão é lamentável, uma vez que faz equivaler um desconhecimento provisório dos valores inconscientes e o desconhecimento inultrapassável do que está para lá do mundo manifestado.

 

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Entre o céu e a terra

Georges Romey
Excertos traduzidos

Entre o céu e a terra

Quando há vinte anos me predispus a escutar sonhos, influenciado, entre outros conhecimentos, pelo pensamento freudiano, esperava encontrar, na maior parte dos pacientes, uma problemática dominada pela sexualidade. Cedo me apercebi de que isso só se passava em 30% dos casos. Além disso, fui surpreendido por uma observação. Qualquer que fosse a expectativa inicial das pessoas que vinham às consultas, o desconforto psicológico que manifestavam tinha, na maioria dos casos, uma origem comum.

Sem disso estarem conscientes, todos estes pacientes sofriam, em maior ou menor proporção, de uma dificuldade de posicionamento entre a sua aspiração de realização material e a sua necessidade de realização espiritual.

Uma das tarefas mais difíceis com que se confrontam os homens e as mulheres privilegiados que conhecem a civilização da abundância é justamente a de restabelecer um equilíbrio, que está sempre a ser rompido, entre o apelo dos bens materiais (TER) e a necessidade de realização psíquica (SER).

Num mundo onde o cinismo se instala em nome do combate contra a hipocrisia, onde a lei da competição, ou seja, da comparação, impregna todas as actividades humanas numa proporção absurda, é preciso ter muita consciência para cultivar os valores do Si Mesmo, já que todas as solicitações se dirigem à persona. Um erro não justifica o erro inverso. A época das intolerâncias espirituais não justifica a do horror económico!

Desenvolvi amplamente estes temas nos artigos do Dictionnaire de la Symbolique consagrados ao ouro e às pedras preciosas . Inúmeros exemplos nesses artigos atestam que o/a sonhador/a alcançou a gruta das riquezas, onde brilham o ouro e as pedras preciosas de todas as cores, e que se dá conta de que o tesouro que busca é, na verdade, o tesouro interior.

Em nenhum dos sonhos que escutei houve algum/a sonhador/a que trouxesse da gruta fosse o que fosse. Quando lá chegam, todos se dão conta de que o tesouro que procuram está, de facto, dentro deles mesmos e de que as suas cores luminosas são inalteráveis.

O meu objectivo é mostrar a constância que caracteriza a emergência da relação entre as aspirações terrenas e o apelo da espiritualidade. Algumas frases extraídas de sonhos diferentes ilustrarão, por vezes ingenuamente, por vezes subtilmente, a realidade deste aspecto:

  • Michèle:

    É uma porta maciça, ogival, em madeira, um pouco medieval…uma porta grande, em carvalho…de castelo ou de mosteiro…está rodeada de pedras sólidas…no interior há uma grande sala…é enorme, vazia, nua…há grandes lajes de pedra…também há uma ogiva no tecto…poderia ser uma sala de armas ou uma sala para acolher peregrinos…

  • Jean-Pierre:

    Estou a ver alguém que, de um copo de pé alto, deita vinho de missa…ou champanhe…

  • Elisabeth:

    Voltei à casa pequena…o velho acolhe-me com bondade, mas sem pronunciar palavra…dá-me a entender, ou pelo menos assim o penso, que durante o dia chegou um padre…e um notário…não sei o que isso quer dizer!

  • Pierre:

    Volto a ver a mesma rapariga…chamava-se Marie-Anne, não Marianne, como o símbolo da República,…no entanto, é ambas as coisas ao mesmo tempo…é a jacobina e a mãe e a avó de Cristo…nunca pensei que casasse com um burguês…que escolheria a segurança, o conforto material…mas ela explicou-me que isso lhe conferia liberdade para criar os filhos como quer, para sonhar, para se poder realizar…

  • Marie:

    É uma costura enorme, feita com paus…e vejo que está descosida num lado!…Vejo um cálice…sim, um cálice ou uma taça, um troféu…uma forma perfeita…um cálice de igreja….

 

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A porta

Georges Romey
Excertos adaptados

A porta

O sonhador ou a sonhadora que se encontrem numa sequência onírica que lhes proporcione um encontro com a porta não terão qualquer interesse em munir-se de utensílios de serralheiro. Nem sequer terão necessidade de uma chave, na maior parte dos casos. O imaginário propõe quase sempre ao sonhador que transponha uma porta aberta.

A abertura da porta onírica depende da vontade do sonhador de efectuar ou não a passagem do limiar que o separa do mistério. Este símbolo serve dois projectos distintos da dinâmica da evolução. A porta abre-se seja para lá da consciência, pondo o sonhador em contacto com o que ele queria ignorar de si mesmo, seja para lá da vida, o que o confronta com o vazio, com o nada. A porta tende a reunir as partes separadas do ser.

A porta esconde para melhor mostrar. Em terminologia freudiana, poder-se-ia dizer que a porta permite a reabilitação das pulsões recalcadas ou que, se preferirmos a terminologia junguiana, a porta dá acesso a uma parte da sombra.

A abertura mágica é um dos exemplos mais evidentes da passagem do limiar, já que sabemos que esta não se realiza através de um esforço racional por parte do sonhador. Só quando este tiver renunciado à dominação racional é que a porta se abrirá. O sésamo que dá acesso ao outro lado nasce desta renúncia.

Não revelaremos o que espera o sonhador do outro lado da porta até termos sensibilizado o leitor para o carácter mágico da abertura. No início de um sonho, Allan encontra-se no corredor de um castelo. Tudo em seu redor é gigantesco, tanto mais que ele foi reduzido ao tamanho de uma ratazana. A redução de tamanho é um dos indícios da autenticidade desta etapa do caminho. Eis o que diz Allan:

É um grande corredor sem janelas…avanço em direcção a uma porta enorme, gigantesca, em madeira negra ou escura. Apercebo-me de que a fechadura da porta se encontra a quinze metros acima de mim, uma vez que tenho o tamanho de uma ratazana… quero passar para lá da porta. Tento abri-la mas ela não se abre…de repente, abre-se sozinha e entro numa grande divisão… agora, já tenho o meu tamanho habitual.

Na maior parte das situações, a porta onírica abre-se diante do sonhador para lhe dar a conhecer o que ele não aceita de si mesmo. A maioria dos sonhos estudados mostra que o sujeito tem de lidar com a sua agressividade recalcada. Violência, agressividade, combatividade, desejo de realização pessoal, constituem uma série de formas de enfrentar o mundo e de se confrontar com o outro que o sonhador recusa.

Há disto exemplos extraordinários fornecidos por pessoas de confissão judaica. As circunstâncias cruéis em que sempre se encontraram são mais do que justificativas da sua recusa da violência e da combatividade. Mas, ao recusar o princípio da violência, estão a condenar as suas próprias pulsões agressivas.

Quantas vezes ouvimos sonhos nos quais o sonhador encontra para lá da porta o espectáculo do que ele odeia: a violência nazi. Um sonho de William ilustra a reabilitação da capacidade combativa:
<p align=”justify“>… Encontro-me diante de duas portas…uma delas abriu-se sozinha…bastou que eu olhasse para ela…estou diante de uma escada… igual àquela que conduzia à cave da minha infância… tive vontade de lá ir… as portas eram azuis…mas agora vejo o vermelho e o negro da bandeira da Alemanha nazi…vejo um homem de uniforme… é estranho… hoje posso ver isto com uma certa distância… remete-me para os medos da infância…aconteceu qualquer coisa nesse período da minha vida que bloqueou a minha aceitação do mundo real… a vida não suporta que evitemos sempre o confronto com ela…

 
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Publicado por em 2007 in porta, símbolos, sonhos

 

O espelho

Georges Romey
Excertos adaptados

O espelho

Ao evocar o espelho, dificilmente um psicólogo não pensará em Narciso, debruçado sobre a água, para sempre prisioneiro da contemplação do seu reflexo. No entanto, poder-se-ia afirmar que a armadilha narcísica, outrora omnipresente no discurso dos psicanalistas franceses, perdeu acuidade no pensamento dos que se lhes sucederam.

A atitude narcísica está tão disseminada como antigamente, mas fundiu-se de tal forma com um modo de vida dominado pelos valores da aparência que já não congrega as mesmas atenções do passado. Para falar verdade, a interpretação dos sonhos em que o espelho está presente não conduz a que nos detenhamos no tema do narcisismo.

Talvez porque todo o espelho imaginário se inscreve desde logo numa dinâmica de transgressão da aparência. Aproxima-se, assim, do valor que lhe conferem as grandes mitologias. O espelho do sonho funciona mais como uma passagem, como uma via de comunicação entre a aparência e a essência.

Tal como a janela, exprime transparência. Uma transparência ilusória para o olhar que se instala diante do espelho como espectador; uma transparência verdadeira para o sonhador que sentiu que todos os espelhos são feitos para serem atravessados.

Um espelho imaginado é, antes de mais, um espelho que deforma! Trairá sempre as expectativas do sonhador que o utilize com o intuito de captar a forma e de a fixar. O espelho revela a transformação inexorável e perpétua através da qual a vida se manifesta. Nos sonhos, como nos contos, é possível apelar à magia de um espelho. Podemos mesmo concluir que todo o espelho é um instrumento mágico.

Mas esta magia opera no sentido de uma dinâmica da metamorfose, de uma abertura em relação a aspectos imprevistos do ser. A magia nunca será cúmplice da memória, essa âncora tranquilizadora através da qual o sonhador quereria permanecer ligado ao passado. Uma das associações mais fortes do espelho é com a palavra fotografia. Esta correlação tem uma importância decisiva na tradução da palavra espelho.

Uma fotografia faz o que nenhum espelho aceitaria fazer: aprisiona um instante do passado! Incapaz de se opor à transformação de um presente em passado, a fotografia, numa atitude de presunção, apropria-se do presente e congela-o. Nos sonhos que analisámos, trata-se quase sempre da evocação de uma fotografia real que o paciente conhece e que relembra um instante da sua infância. Nestes clichés aparecem sempre pessoas ligadas à sua família.

O espelho imaginário só é mágico porque torna tudo fluido. A imaginação sabe que o vidro é um líquido. A fotografia e o instantâneo expõem um reflexo desesperado de conservação do presente. O espelho denuncia a vaidade do desejo de fixar a aparência.

O espelho só seria um falso testemunho se favorecesse a ilusão da perenidade. Na realidade, reenvia-nos constantemente para a verdade do instante e só pode dar conta das transformações sucessivas. Um espelho onírico é sempre testemunha e actor de metamorfose. Nos sonhos, todos os espelhos têm por vocação conduzir o ser ao encontro de si mesmo.

O espelho do sonho é um símbolo da transposição do limiar. Esta transposição é um movimento psíquico determinante para a reconciliação dos contrários. Uma sequência de um sonho de Anne ilustrará o que acabámos de dizer. Ao introduzir a ideia de um espelho sem limites, a sonhadora confere ao símbolo uma ressonância metafísica:

…Vejo, agora, pessoas que caminham, todas vestidas de branco…à parte o seu corpo, tudo é branco…tudo está demasiado uniformizado…e agora vejo…via um grande espelho que se quebrava…e todos os pedaços que caíam, liquefazendo-se, como se o espelho fosse feito de água…como se todos os postulados caíssem por terra, como se todas as velhas ideias fossem substituídas por novas…o espelho recompõe-se e é como se houvesse agora algo de novo no seu lugar…de repente, vejo a popa de um barco no espelho, um barco que desliza como se estivesse num lago…é um lago imenso…um espelho sem limites…parte-se tudo quando o barco deixa um rasto….

Uma vez que evocámos a dimensão metafísica, convém acrescentar que o espelho do sonho não convida apenas a conhecer a outra parte de nós mesmos. Favorece, também, quase sempre, o acesso ao outro lado do mundo visível! Todos os espelhos têm por modelo o espelho de Jean Cocteau em Orphée. O olhar que o atravessa caminha na direcção do outro mundo.

O espelho imaginário é, antes de mais, uma imagem que nos permite aceder ao outro lado das coisas. Um sonhador, Adrian, tendo descido, no decurso de um dos seus sonhos, ao fundo de uma gruta submarina, encontrou aí um espelho de Alice no país das maravilhas. Ao atravessar o espelho, Adrian admira-se da facilidade com que teve acesso ao outro lado das coisas…

A expressão o outro lado é a chave mestra da nossa teoria da passagem do limiar. No que diz respeito ao gelo e ao espelho, trata-se do outro lado da consciência e do outro lado do mundo visível. De um lado temos a aparência das coisas e do outro lado temos a essência das coisas. Entre as duas encontramos a transparência!

E já que citámos o mais clássico dos espelhos, o de Alice, convém relembrar as palavras que a menina pronuncia, dirigidas especialmente ao seu gato:

…Se prestares atenção, Minou, falar-te-ei de todas as minhas ideias sobre a casa do espelho. Há um quarto que podemos ver através do espelho…é igual ao nosso salão, embora as coisas aí estejam todas ao contrário…

Ao atravessar o espelho, Alice atinge uma zona da psique onde todos os valores estão ao contrário. O fenómeno não só se reporta a imagens mas também a palavras e a cronologia, como podemos constatar no diálogo em que a rainha diz que acaba de gritar porque se vai picar no dedo!

Quando a dinâmica do imaginário nos apresenta um espelho, está a convidar o sonhador a ultrapassar os valores da aparência, a viver na transparência, que é o único caminho que conduz à realidade do ser.

 
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Publicado por em 2007 in espelho, janela, símbolos, sonhos

 

A cor dourada

Georges Romey
Excertos adaptados

A cor dourada

O ouro carrega, como matéria, uma ambivalência pesada, que o torna ora um símbolo de intuição superior ora um símbolo da avidez de poder. Não esqueçamos que pode também ser ocasionalmente conectado com a disposição narcísica.

Quando percorre os cenários que falam dos dourados, o pesquisador é levado a interrogar-se se dourado não poderá ser traduzido por emoldurado*. Há muitas frases construídas em torno de termos como aparência, fachada, decorado, que legitimam uma tal interrogação. No entanto, outros sonhos e outras passagens desses mesmos sonhos dão-nos a entender que é através do dourado que se alcança o coração do ser.

Há imagens que associam o Centro e o interior ao dourado, na atmosfera de fervor que caracteriza a conexão com o centro do Si Mesmo [o nó mais íntimo da Consciência]. O dourado imaginário adquire então um sentido que se afasta da ideia de ornamento. Liga-se ao sagrado, ou seja, ao que é inacessível ao profano.

A cor dourada protege e dá, simultaneamente, acesso ao coração do ser. Se o dourado tem quotidianamente uma conotação de artificialismo, no imaginário liga-se à sua dimensão original, na qual se confunde com a Fonte, com uma Totalidade que escapa ao aprisionamento da razão.

A rosa de ouro dos alquimistas, símbolo do fermento da Obra, e que C.G. Jung propõe como símbolo do Si Mesmo, seria fruto da união da rosa, configuração da totalidade da psique, com a cor dourada, símbolo do acesso ao coração do ser.

Alguns exemplos ilustrarão estes temas através de imagens e de comentários convincentes. Anne começa o seu sonho com as seguintes palavras:

Vejo uma casa, uma casa velha dentro de um parque… diante dela há uma bela rosa vermelha…a casa é antiga, feita de pedra, uma pedra dourada! É cor de ouro velho… a rosa é muito grande mas a casa ultrapassa-a em tamanho… protege-a… esta casa tem uma forma muito acolhedora… é uma imagem… como dizer? Ideal! Mas não é.

Sei que dentro da casa há um quarto onde se pratica o budismo… e que no centro desse quarto há uma luz muito forte…há um pergaminho que irradia uma luz que parece um sol. É um pouco como o centro da terra, quente e misterioso, que na superfície parece uma crosta morta e insensível! No interior é o oposto…tenho de regular a troca entre a efervescência do núcleo e a frieza da crosta!…

* No original, o autor joga com as palavras or e décor. (N.T.)

 
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Publicado por em 2007 in dourado, rosa, símbolos, sonhos

 

As pedras preciosas

Georges Romey
Excertos adaptados

As pedras preciosas

Quando o sonhador chega ao centro da caverna e se encontra diante de um cofre com ferragens enferrujadas, dentro do qual se encontra o tesouro de pedras preciosas, procura em vão a chave que vai abrir o cofre. Esta chave não pertence ao mundo material. Quando chegar a altura, o cofre abrir-se-á como que por magia.

Uma frase de Oscar Wilde conduz-nos rápida e certeiramente ao coração do simbolismo das pedras ditas preciosas: O cínico é o que conhece o preço de tudo e o valor de nada! Estas palavras denunciam a armadilha à qual se expõe o imaginário que se embrenha em sonhos lapidares. O olhar que o sonhador lançar sobre o tesouro mostrará se está perdido ou se será recompensado.

O tesouro cobiçado, que traduz a atracção pelas riquezas, é uma expressão da exaltação da vontade de poder. Inscreve-se na imaginação petrificadora. O tesouro revelado, que indica o atingir da luz interior, é, simultaneamente, agente e testemunha de realização. Participa no imaginário transformador. O tesouro cobiçado torna-nos estéreis, o tesouro revelado fertiliza- nos.

As pedras são a essência luminosa do mistério interior. São, por natureza, o tesouro escondido. A luz multicolor só se revelará àqueles ou àquelas que souberem penetrar na gruta, atingir o centro da terra, abrir o cofre, descartar o que não tem valor!

A alma à qual é permitido ver o tesouro multicolor é uma alma que soube ultrapassar as aparências, desmascarar o artifício convencional do preço e descobrir a virtude universal do valor. Se o cínico é o oposto do místico, poderíamos ousar uma paráfrase: O místico é aquele que não atribui preço a nada e respeita o valor de tudo.

Se quiséssemos atribuir um preço a uma pedra onírica, estaríamos a enganar-nos. O sonho sabe que a pedra é preciosa quando participa na difusão luminosa, no raiado colorido. O tesouro interior associa o ouro às pedras preciosas.

Na maior parte dos sonhos, as pedras preciosas só valem pela sua multiplicidade. As sequências nas quais o sonhador alcança o tesouro podem agrupar-se em duas categorias:

• a das imagens que significam que o sonhador atingiu o centro de si próprio, nesse lugar incerto onde a Totalidade se revela;

• aquela em que o imaginário coloca o sonhador diante do tesouro a fim de que ele tome consciência da sua cobiça, para que escolha o abandono das riquezas e parta, valorizado por ter renunciado.

Estelle encontra-se numa rua estreita de uma cidade medieval. Há tranças de lã estendidas de um lado ao outro da rua. A sonhadora desce até aos subterrâneos de uma fortaleza. Passa diante do sarcófago de uma rainha, e, conduzida por um guia, entra num barco, num rio sombrio. As paredes encolhem, é preciso deixar o barco e baixar-se.

É a subir que Estelle atravessa um canal e se encontra numa pequena gruta:

É uma antiga pedreira de pedras preciosas… Ainda encontramos algumas enfiadas na terra. O guia diz que é perigoso estar aqui. Abre um cofre dentro do qual há dois sacos de tecido. No primeiro há pedras acastanhadas: são esmeraldas e rubis em estado bruto. São enormes e terão um aspecto magnífico quando estiverem trabalhados. No outro saco há pedras muito belas e já talhadas.

São verdes e vermelhas e brilham, soberbas. O guia tem as pedras não talhadas na mão esquerda e as pedras preciosas na mão direita. Coloca-as todas no cofre e fecha-o à chave. Precisamos de partir porque não temos o direito de estar ali.

As tranças de lã eram um prenúncio da festa multicolor. Toda esta sequência exprime a ambiguidade de uma linguagem na qual o controlo mental exerce uma atitude redutora sobre a autenticidade das imagens. As pedras que se encontram em bruto e as soberbas pedras talhadas são a imagem das potencialidades psíquicas ainda não devoradas pelos compromissos materiais.

No artigo consagrado ao ouro, reproduzimos uma longa sequência do nono sonho de Véronique. A sonhadora encontra-se numa gruta inteiramente atapetada de ouro e pedras preciosas:

Encontro-me num mar de pedrarias… estendo-me ao comprido e observo o tecto… subo à abóbada das riquezas… começo a encher um saco… e depois acho isso idiota… deixo cair o saco…

Véronique desce ao chão da gruta, inteiramente revestido de ouro. Diverte-se a deslizar, vai de encontro a um muro e a gruta desaba. As pedras que se encontram no chão são pedras vulgares. A sonhadora transforma-se em pedreiro e constrói uma pequena casa em frente ao mar, à qual vê chegar todos aqueles de quem gosta e aqueles dos quais virá a gostar.

Esta sequência é provavelmente o mais belo exemplo de como o tesouro onírico se oferece como revelador da vaidade das aparências e do valor da autenticidade.

A pedra do sonho nunca será preciosa em função do seu peso ou do seu preço. Tem o valor ilimitado do raiado multicolor, da psique inesgotável, indefinidamente criadora.

Uma das associações mais frequentes da pedra preciosa prende-se com o religioso: Cristo, Buda, um sacerdote, um monge cristão ou budista, um lugar de culto, estão em relação estreita com o tesouro da autenticidade. Esta observação implica a sensação comum a todos quantos tocam o centro do seu ser e se sentem em contacto com o Ser.

A luz total não se vê: é raiada. A Luz e a luz são como o mar e como cada gota de água que o compõe.

 
 

O ouro

Georges Romey
Excertos adaptados

O ouro

Os mitos e as lendas sempre utilizaram este elemento em abundância. Alguns dos contos mais antigos evocam imagens que veremos surgir espontaneamente no inconsciente contemporâneo. Mais perto de nós no tempo, os alquimistas empreenderam, durante vários séculos, a sua busca misteriosa, que nos é apresentada como a transformação dos metais vis em ouro. As suas obras contribuíram largamente para a profusão dos sonhos em que o ouro é um elemento dominante.

As corridas ao ouro que marcaram as conquistas do Novo Mundo deixaram-nos um legado de sonhos loucos e de realidades sórdidas ao mesmo tempo. O que há de comum entre estas febres, estes sonhos com ouro e o ouro dos sonhos?

O ouro dos sonhos é uma das imagens mais carregadas de ambivalência. O ouro solar, o ouro real, metal inalterável, simboliza o cume da perfeição espiritual. A rosa de ouro do sonho pode representar, tal como a dos alquimistas, um fermento de realização interior. Mas o ouro é, também, um sinal de avidez, o desejo de posse de riquezas, garante do poder temporal.

A renúncia às riquezas, aos valores da aparência, à posse ávida, no quadro de uma reestruturação da psique que se desenvolve na simplicidade e na autenticidade, exprimem-se de forma magistral num sonho de Véronique. A jovem entra numa vasta gruta, cuja abóbada está incrustada de pedras preciosas. Há barras metálicas que lhe permitem passear-se ao longo da abóbada:

As barras começam a transformar-se em ouro…quanto mais subo, mais resplandecentes se tornam…chego à abóbada…à abóbada das riquezas. Mas é necessário tomar atenção para não cair na escada…começo a tirar os objectos que compõem a abóbada e a metê-los num saco…até que o saco começa a enervar-me…acho-o idiota! Então deixo-o cair. Afinal de contas, o que estou a apanhar? Tenho a impressão de que isso não serve para nada. Agora estou num buraco, uma cratera na abóbada que serve de tecto, em plena camada de pedras preciosas e de ouro…trata-se afinal de uma grande sala, cujo chão é também de ouro e extremamente escorregadio. Divirto-me a deslizar, como se estivesse no gelo e, de repente, caio. Vou de encontro a um muro e todo o tecto desaba.

Vejo, então, que o que cai são pedras vulgares e que formam no chão um campo em ruínas. Transformo-me em pedreiro e começo a construir. Mas não construo como costumava fazê-lo. Construo uma casa com um vitral que ocupa a quase totalidade de uma parede. É junto ao mar, sobre uma falésia não muito escarpada. Há muito vento e sol e vejo um barco aparecer ao longe. Lá dentro estão todos os meus amigos… todas as pessoas de quem gosto e todas as que virei a conhecer mais tarde e das quais virei igualmente a gostar. Chegam todos e fazemos uma festa.

Neste tipo de situação, o ouro está quase sempre associado às pedras preciosas. Constituem, conjuntamente, um tesouro inútil, símbolo da vaidade das riquezas e não do tesouro do Si Mesmo (o nó mais íntimo da Consciência) que, noutras circunstâncias, é representado pela multicoloração das pedras preciosas.

 

O pavão

Georges Romey
Le Test de L’Arche de Noé
Paris, Robert Laffont, 1977
Excertos adaptados

O pavão

Vários séculos de expressão literária fizeram recair nas plumas do pavão o peso de todos os tesouros do mundo. E todos os tesouros do mundo – mesmo literários – são um fardo pesado. Não deveremos ter dó da alma que se põe a sonhar diante do pavão, a alma que se compraz nesta imagem, e que encontra um prolongamento psicológico para lá das plumas do pavão?

Mas será que existe algo para além do tesouro? Tal como a luz não penetra a superfície do metal polido, porque este a devolve, a alma só pode reflectir-se nos cem olhos da roda magnífica. Para lá do tesouro não há nada; apenas o vazio. Isto é fácil de demonstrar. A imaginação que se exibe junto da água pode estar a aguardar um destino, quer se trate de águas em movimento ou de águas estagnadas. Para além da superfície que favorece o sonho, há um futuro de liberdade purificada ou de renúncia nostálgica: a água não pára o sonho. Precede-o, continua-o, abre caminhos de acolhimento à fantasia imaginativa.

Diante das mil jóias do pavão, a fantasia quebra-se ou reflecte-se. Não se trata de uma união íntima, de penetração do imaginado pelo que imagina. A dinâmica da fantasia já não segue um caminho evolutivo; volta-se sobre si mesma no vaivém perpétuo do movimento narcísico. A expressão “olhar no fundo dos olhos” não resiste à análise. Os olhares enfrentam-se, agradam-se, rejeitam-se, cruzam-se, dão-se, atraem-se, procuram-se, mas não se penetram! Com a equivalência do símbolo aos cem olhos, o valor psicológico junta-se à verdade física.

O sonho diante do pavão é um sonho diante do espelho. Não é o impulso em direcção ao cerne das coisas; é a interrogação egoísta diante de uma superfície reflectora multiplicada. A atitude narcísica não é uma procura de aprofundamento procedente de um espírito de descoberta; é uma busca de indícios que devem confirmar o que constitui o postulado profundo: a satisfação de si próprio.

Haverá neste animal, para além dos seus adornos animados, uma capacidade real para voar no céu da vida e no dos nossos sonhos? Gaston Bachelard, cujas citações utilizarei frequentemente no decurso deste capítulo, assinala a pertença do pavão ao mundo terrestre: Não se pode – afirma ele – ser ao mesmo tempo cotovia e pavão! O pavão é eminentemente terrestre. É um museu mineral.

Quando tivermos visto de que modo a cotovia vive em nós como símbolo de uma alegria que se dirige verticalmente, compreenderemos melhor o quanto esta comparação liga o pavão e o seu tesouro a valores de um peso melancólico. Se encarna simbolicamente a verdade, o pavão poderia oferecer a espíritos arcados pelos diferentes elementos a oportunidade de se aperceberem da forma de vaidade que lhes é própria.

O culto budista também designa o pavão como um dos símbolos da ligação aos valores da aparência e da renúncia destes valores através de uma tomada de consciência. Mas por que razão a imagem do pavão, que sublinha a ideia da profusão das cores, da magnificência matizada, implica, ou pode implicar, a tomada de consciência e a renúncia aos valores da aparência? Por que razão uma junção de cores pode ser vivida como um excesso de cores?

O pavão é o fogo de artifício, a magia do caleidoscópio. Gaston Bachelard constata também o nosso sentimento de derrota diante de tantas cores:

Diante da profusão deixa de haver centro de contemplação, logo, deixa de haver contemplação. O excesso ultrapassa, na sua essência, a intuição. Desloca constantemente a admiração. Cansa a própria admiração.

Até agora, dei especial relevo às imagens que mostram o pavão adornado de jóias, de estrelas, de olhos, e de flores… Mas os textos insistem também na profusão de cores. O pássaro matizado! Com excepção de alguns aspectos, o que é verdadeiro para o pavão é-o para todos os pássaros ornados de múltiplas cores. Bachelard transforma a noção de pedras em cores e a noção de cores em multiplicidade:

As gemas encontram-se nos sonhos sobre a gruta iluminada e são sempre de cores várias e múltiplas. São imensas. São, por assim dizer, esta estranha cor onírica da multiplicidade matizada, que poderíamos apelidar de cor do inúmero. Dispersam o encantamento. Então, o sonhador, como se muitas luzes dividissem a sua visão, como se tantas cores descoordenassem a sua vida nervosa, perde o fio do seu sonho!

Diante de uma tal perspicácia analítica, o espírito enche-se de admiração. Estas frases contêm tudo. Como se tantas cores descoordenassem a sua vida nervosa! É exactamente isso o que se passa!

A maior parte dos textos sobre o pavão fazem alusão ao início do mundo. Parece que a criação dos seres animados está inscrita no espírito humano sob o signo da cor e da polimorfia animal. O leitor atento encontra nestes textos um determinismo de palavras, imagens e conceitos que me maravilha sem cessar. Um exemplo da associação cores-criação existe também na forma como a mitologia australiana descreve as origens do mundo. Os Australianos chamam a esta época da criação “a era do sonho”, porque acreditam que seres primordiais deram nascimento aos homens e aos animais no decurso dos seus sonhos.

Mircea Eliade escreve a este propósito: Walanganda “sonhava“ os seres que criava. Lançou do alto do céu uma “força espiritual”, e deu-lhe a forma de imagens. Estas estavam pintadas de vermelho, branco e preto, enquanto outras eram amarelo e ocre…

O inconsciente do homem tem, sem dúvida, a certeza, profundamente enraizada, de que o Deus criador é o distribuidor das cores. Esta afirmação tende a conferir à mentalidade que se identifica com o pássaro multicolor um orgulho de uma dimensão inultrapassável: a identificação do homem com Deus!

Dificilmente um ser que se julga Deus exprimiria melhor o seu delírio, a associação das cores, e a fantasia da criação! Uma vez que estou a falar da fantasia cristalina, da multiplicidade matizada e da prisão narcísica, vou contar uma história verdadeira que ilustra esta relação. Esta história demonstra que a análise das reacções não é um simples exercício intelectual, mas diz antes respeito à vida do homem, aos seus comportamentos e suas consequências muito concretas.

Escrevi “história” e não “episódio”, uma vez que se trata de quinze anos na vida de um homem. Um pouco mais de quinze anos separa o surgimento dos primeiros indícios simbólicos na psicologia de Jean D. da tomada de consciência salvífica através de uma prova difícil.

Jean D. tem quinze anos quando descobre, numa excursão a uma montanha, o fascínio que a contemplação de um cristal de rocha pode provocar. Disse-me que se apaixonou por estas pontas de quartzo translúcido que arrancou da rocha. Jean já era então um homem só. Toda a sua personalidade estava dividida entre a avidez imperiosa e incertezas alimentadas por um meio familiar desequilibrado.

Devido à falta de apoio moral, não pode tomar consciência das suas qualidades, nem teve forma de as exteriorizar. Agarra-se então a uma fantasia de poder e a uma atitude vaidosa compensatórias. Seguindo um ciclo clássico, a compensação narcísica cria dificuldades nos contactos que, por sua vez, reforçam a necessidade de isolamento. A sua evolução decorre, nem bem nem mal, num mundo que deve muito ao imaginário.

Durante anos, conservou essas pontas de quartzo, que tinham para ele o valor de um talismã. Na sua fantasia, o quartzo tornou-se diamante, mas são as pontas que o marcam, que exercem sobre a sua imaginação a atracção dos enigmas tenazes.

Jean D. tem vinte e dois anos quando tem um sonho que se inscreve na mesma área simbólica. Uma águia cai, do céu, numa fogueira acesa em pleno ar. O pássaro transforma-se num cilindro estreito de vidro transparente, oco, com cerca de 80 cm de altura, e fica em posição vertical no meio da fogueira. Jean lança um projéctil que parte o vidro e o transforma em serpente.

A queda da águia poderia representar uma certa tomada de consciência da cupidez ambiciosa. Mas o sonho é antes uma tentativa de agarrar uma totalidade que reúna todos os valores da verticalidade. Para Jean é uma ocasião de tomar consciência de que sucumbe no seu esforço para agarrar a unidade impossível. Porém, este não compreende a mensagem do inconsciente que lhe mostra que só agarra vazio. A elevação é, para ele, sinónimo de orgulho dominador (a águia), e o plano terreno representa a vaidade maldosa (a serpente).

Esta imagem é, ao mesmo tempo, uma promessa: quando aparece a serpente, a reactivação criativa dos impulsos não está longe. Vários anos decorrerão, porém, até que se produza o acontecimento que derrubará as resistências narcísicas de Jean e que lhe abrirá o caminho da realidade. Este acontecimento não será desprovido de dor, mas os resultados são à escala das provas.

Jean está casado há quatro anos e é pai de família quando, aos vinte e oito anos, se apaixona por uma jovem. É correspondido e segue-se uma aventura breve, mas que perturba a psicologia de Jean. É importante compreender por que motivo Jean, que está apaixonado pela sua mulher, se deixou aprisionar por uma projecção tão forte, que só ultrapassou à custa de uma crise íntima muito grave. Além do facto de ser muito bonita, a jovem tinha quatro características determinantes: era vaidosa, tinha um nariz afilado, era muito magra e alta, e tinha os pés maiores que o normal: pormenores surpreendentes, mas que se ligam à última imagem da história.

Disse que esta aventura abrira a Jean uma hipótese de contacto com a realidade. Mas o caminho ia ser longo. Quatro anos mais tarde, quando sonhava nostalgicamente com este episódio e quando vivia um paroxismo de comportamento dominador, apareceu-lhe esta surpreendente imagem: um pássaro estranho, sem carne, mas vivo. Uma cabeça pequena termina num nariz pontiagudo, feito de quartzo. O corpo é um tubo de vidro, em torno do qual estão dispostas plumas de todas as cores. Duas patas magras terminam em quatro dedos esticados e afastados.

Num ápice, compreende o seu orgulho, a insistência das suas motivações profundas, o carácter arcaico desta atitude, as projecções que o conduziam a esta mulher… Jean conta-me, então, a sua história e voltámos aos cristais de quartzo da adolescência. O leitor que me seguiu nesta história surpreendente terá compreendido que a jovem encarnava a própria vaidade de Jean. O gosto pelo par esbelto tem uma relação estreita com a psicologia da vaidade.

Para Jean, esta mulher é imaterial e asséptica, como o corpo de vidro do pássaro. O seu nariz afilado é uma etapa que conduz do quartzo original ao bico de quartzo do pássaro matizado. Os dedos espalmados, tal como os pés grandes da mulher, assinalam a dispersão dos impulsos na busca de objectivos vaidosos. Tudo isto é fácil de provar, mas não o faremos.

Só o relatei para dar conta da associação dos cristais, do pássaro matizado, da serpente, do orgulho da criação, do narcisismo. Eis o que me levou a contar a história de Jean: a pretensão de ser tudo e de tudo poder. Em vez de exprimir uma explicação das origens, a imagem do pavão pode denunciar uma das armadilhas da alma humana e um dos seus estados fundamentais!

A ponta de um cristal sugere a ideia de um movimento psicológico que vai da multiplicidade interior ao princípio da unidade que se encontra situado fora de nós. O ser dispõe da riqueza de impulsos múltiplos e concentra-os num único objectivo. A extremidade de uma ponta de cristal, centro de convergência, é uma quintessência da unidade, é um símbolo do impulso em direcção à concentração. Esta é a força essencial que os mitos exprimem através do poder mágico.

Na atitude narcísica, o sentido está invertido, a ponta está virada para nós. É uma psicologia que pretende captar a multiplicidade exterior, todos os elementos do mundo visível, e tirar proveito de uma convergência que faria dela o centro unitário! Isto liga-nos a todas as fantasias relativas às gemas, ao pavão, a todos os olhos coloridos de um mundo que admira a alma que os olha.

Para concluir, que tipo de pessoa sonha com o pavão? Talvez uma cuja psicologia é rica e receosa face à variedade das leis do mundo? O amor de si próprio poderia ter como origem o medo diante da diversidade difícil de agarrar? São os seres com a percepção mais rica que estão mais expostos ao desvio narcísico. Seja qual for o grau de inteligência conceptual daquele que cai na armadilha do espelho, podemos afirmar que os sentidos dominam o pensamento. São as impressões que comandam e a função pensamento que justifica.

É uma mentalidade de artista. Pode ter uma hiper-reactividade, uma actividade que se confunde quase com agitação, mas não está menos sujeita à inflexibilidade, no que diz respeito ao essencial. Fica petrificada pela preocupação de tudo abarcar, de tudo guardar, de se apropriar de tudo, de integrar tudo o que diz respeito aos valores universais, com a ideia subjacente de que é a primeira a dar-se conta deles. Tolera a ideia de que partilha essa percepção com algumas raras elites.

É uma psicologia na qual a estética é mais importante do que a moral, a beleza mais importante do que a bondade, a expressão do que o fundo, o parecer do que o ser… Pretende apreender as coisas de um ponto de vista novo e conferir-lhes o carácter de jóia única! Será o que Nietzsche quer dizer com Esta parábola é dedicada aos poetas. O seu espírito é o pavão maior de todos, um verdadeiro mar de vaidade.?

Uma tal mentalidade presta-se também a todas as subjectividades. Ou melhor, é a subjectividade por excelência. Uma vez que ela é o mundo e as suas leis, que é a pretensão da Unidade, só aprecia as coisas e as pessoas em função de si mesma. Não tolera contradições. Prefere a solidão, que favorece os sonhos, ao contacto com os homens, que reserva sempre confrontações dolorosas.

O que vier perturbar a beleza da fantasia acabada de construir encontra logo agressividade da sua parte. Assim, enquanto alguns têm necessidade de banhos de multidão, esta alma aspira a banhos de horizontes livres. A natureza é dócil e contenta-se em ser e deixar-se aprisionar em todos os seus sonhos!

Dominada, aparentemente, por um entusiasmo quase delirante, trata-se, no fundo, de uma mentalidade melancólica, triste, e a alegria de um mundo que se contenta em viver é-lhe quase insuportável. Não tem amigos. Amigos pelos quais esteja disposta a dar tudo. As suas relações mais próximas proporcionam objectos de análise e fornecem impressões que são partes de um mundo que o narcísico quer agarrar. Se essas pessoas não podem ensinar mais nada, a ruptura está próxima: já não servem!

Uma mentalidade assim adapta-se rapidamente aos dissabores materiais, o que não significa que o material lhe seja alheio. Mas o seu rancor é mais dirigido ao que a fere na sua vaidade do que ao que a lesa no plano material.

 

O leão

Georges Romey
Le Test de L’Arche de Noé
Paris, Robert Laffont, 1977
Excertos adaptados

O leão

O leão auto-proclamou-se rei. Quem mais lhe poderia conferir o título? É claro que Deus foi invocado na circunstância, mas não era necessário, uma vez que direito divino e direito leonino se confundem. É próprio da essência leonina receber homenagem feudal. Por natureza, o leão espera louvores e tributos. O zelo dos súbditos deve ser estimulado, sobretudo quando a oferta não é espontânea.

Uma soberania tão total, tão natural, nem se discute. Nunca foi discutida e La Fontaine é minha testemunha que esta real majestade encontrou um reino animal disposto a prestar vassalagem. Mas não será sensato honrar uma silhueta tão majestosa, uma voz tão peremptória quando estas usam como argumento persuasivo a força da garra e do dente?

Nasce-se leão. O ser impregnado da imagem leonina é inocentemente soberano. O seu narcisismo é aparente, mostrado ingenuamente, evidente para todos menos para ele que o ignora. A mentalidade que encontra o seu reflexo no leão tem semelhanças com a maior parte dos traços psicológicos ligados ao simbolismo dos felinos e apresenta também características bastante específicas.

O leão é um dos raros animais que tem interpretações homogéneas: o astrólogo, o alquimista, o fabulista, o heraldista e o psicólogo estão de acordo sobre o símbolo do leão. Para todos, a crina flamejante, sol dos mais fortes calores do verão, poder do fogo criador e destruidor, é a imagem da paixão devoradora.

O simbolismo leonino é caracterizado pela necessidade de se libertar: dos outros, das leis, de si mesmo, com medo de se sentir sujeito ao seu próprio passado. Os outros são prisioneiros da sua própria imagem, e conduzem os seus actos e a sua vida de acordo com ela. O leão não tem estas dependências. É livre por natureza, porque é leão e traz consigo as suas próprias justificações. O seu presente é o seu quadro de referência. A aspiração do leão é erigir uma nova legitimidade, ao sabor da sua paixão criadora.

Libertar-se, escreve Nietzsche, a fim de se tornar apto a criar valores novos, é possível para a força do leão. Mas libertar-se, desejo incansável da psicologia leonina, é também isolar-se. A palavra que aparece mais vezes ligada ao leão é “solidão”. O reino deste rei é um deserto, que é uma constante em todos os símbolos de aspiração ao absoluto. O leão cria a sua solidão na terra. É o preço da sua liberdade.

Todos os textos conduzem ao mesmo medo: o medo da servidão. Nietzshe di-lo melhor do que ninguém: Esfaimado, violento, solitário, ímpio, assim deve ser o querer leonino. Libertado de uma felicidade servil, dos deuses e dos cultos, sem medo, terrível, grande e solitário, assim deve ser o querer do verdadeiro. É no deserto que sempre viveram os verdadeiros, tal como os espíritos livres, senhores do deserto.

Jung insiste sobre o perigo que representa a alma habitada pelo leão, devido à violência da sua paixão. Um dos primeiros animais que aparecem no inferno de Dante é um leão de farta crina, que lá expia os abusos de poder que cometeu na vida. Ao matar o leão de Nemeia, Hércules consegue, simbolicamente, uma vitória sobre si mesmo, sobre a força titânica da sua paixão.

Este feito dá-se numa caverna. Isto quer dizer que o herói entrou dentro de si, no inconsciente, para combater o seu próprio poder passional. Da carcaça do leão morto saem as abelhas, que não são só produtoras de mel, mas também símbolos de vida gregária, solidária, de uma organização fixa.

Criadores de filosofias novas, a maior parte dos grandes profetas são comparados ao leão nas escrituras sagradas: Krishna, Buda, Cristo. Buda ruge quando ensina, o que explicita a força da fecundação, do pôr em causa, da espiritualidade. Mais do que qualquer outro felino, o leão tem na alma uma aspiração poderosa de transformação, de todas as transformações. Inimigo instintivo do acabado e do rígido, este ser quer-se disponível a todas as aberturas. Também é sinónimo de mistério, intangível nas suas formas e nos seus objectivos.

Aquele que possui uma psicologia leonina está seguro do seu direito. Admira-se quando se vê posto em causa. Mas quer as suas qualidades sejam medíocres, quer se trate de um sobredotado, vamos encontrar uma constante: um desejo de perfeição particularmente exigente. Nada se compara ao ar compungido do leão que acaba de obter um enorme sucesso num negócio complexo e que se apercebe de ter descurado um pormenor insignificante: fica mortificado. Mas há também leões de fachada, que adoptaram atitudes de rei e os privilégios correspondentes, mas que não possuem as virtudes da raça.

Ou antes, desenvolveram apenas os aspectos negativos. Ambiciosos, sempre prontos a serem os primeiros, nada poderemos esperar deles quando tiverem atingido a meta autoproposta. É melhor não esperar recompensas para aqueles que os ajudaram a ascender ao trono!

Todos são capazes de cóleras terríveis. Todos sabem convencer e impacientam-se com facilidade quando o seu ponto de vista não é imediatamente aprovado. Não renunciam facilmente. Pronto a apropriar-se das regras, o leão é susceptível em relação às leis que ele próprio promulgou. No entanto, não é desprovido de magnanimidade. Dá provas frequentes de pensamentos verdadeiramente elevados e detesta ninharias. É um legislador sensato.

O ser habitado pela imagem do leão é um ser orgulhoso, que vive os seus impulsos apaixonadamente. Mostra uma força criadora pouco comum, que lida mal com os obstáculos. Encontra-se totalmente virado para a procura do absoluto. Tem um narcisismo estrutural. É exigente face a si e aos outros. Aspira permanentemente à liberdade.

Esta personalidade conhece a solidão dos que vivem apaixonadamente para um objectivo, pelo qual estão dispostos a sacrificar todos os outros. Austeridade firme e suave, aproximação oblíqua dos problemas. A confrontação será rude, mas ocorrerá no momento que ele escolher.

 
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Publicado por em 2007 in caverna, leão, símbolos, sonhos

 

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Peixe

Georges Romey
Le Test de L’Arche de Noé
Paris, Robert Laffont, 1977

Excertos adaptados

O mundo do silêncio

Os peixes pertencem ao mais secreto dos universos, ao mais escondido dos mundos, ao meio menos acessível ao homem, aquele que oferece mais resistência aos seus esforços de investigação.

O mundo do silêncio! As expressões conhecem o destino da sua verdade. Esta deve a sorte à autenticidade da sua inspiração: “o mundo do silêncio”, “o silêncio do mar”, são títulos que encontram correspondência na alma e, por isso, são inesquecíveis. A alma sente o mundo aquático como o mundo em que reina, ou deve reinar, o silêncio.

Vamos penetrar num mundo animado por seres cuja característica principal, para a imaginação, é serem mudos, facto mencionado por um grande número de autores. Necessitaríamos de um livro inteiro para descrever os cambiantes simbólicos representados pelos peixes. Do peixe vermelho ao tubarão, passando pela truta e pelo golfinho, encontramos um sem número de diferenças! Deveria concentrar-me em apenas alguns destes símbolos, nos mais significativos. Mas os temas gerais estão ligados ao peixe em geral, sem diferenciação de espécies.

Desde tempos remotos, quando os seres que dariam origem ao homem perderam algumas das suas características de anfíbios, que se estabeleceu uma diferença considerável nas relações do homem com a imagem do peixe. Em 2.200.000 palavras analisadas na literatura, nas obras mais diversas, fiz um levantamento de 6.236 citações de animais. Entre estas, só 91 dizem respeito aos peixes. Trata-se de uma relação muda, distante e discreta, com seres mudos, distantes e discretos.

O simbolismo do peixe é inseparável do da água. Representa a vida manifestada desta. Seria necessário falar do simbolismo das águas, símbolo da renovação universal da vida, que comporta etapas que têm, cada uma delas, um significado particular. Nascimento, realização, plenitude, dissipação e renascimento têm as suas correspondências nas imagens da fonte que brota, do riacho alegre, do rio abundante, do mar eterno, da evaporação e da chuva fecundante. À margem destas etapas, houve acidentes do ciclo que produziram as águas mortas.

Pântanos, braços de rio mortos, charcos fechados, são imagens que se opõem às da água viva, símbolo da energia psíquica que segue o seu curso. Do ponto de vista psicológico, o pântano representa o marasmo. Do ponto de vista onírico, as águas mortas, estagnadas, lamacentas, são símbolos da retenção neurótica do impulso vital.

O simbolismo do peixe conduz-nos a uma longa viagem. Ser-me-ia necessário inventariar o que, simbolicamente, pertence ao conjunto de seres que dão pelo nome de peixes. As imagens literárias, tal como os escritos dos psicanalistas, parecem indicar-nos duas direcções opostas.

Para uns, o peixe é um símbolo da vida e da sua renovação. Para outros, é o símbolo do pecado, do sentimento culpabilizador e, por extensão, do mal-estar neurótico e da morte. Uma reflexão aprofundada permite-nos aperceber-nos de uma unidade simbólica que se manifesta, por exemplo, no acto eucarístico.

Todas as grandes revelações religiosas estão marcadas pelo símbolo do peixe. É o emblema de Cristo e da Sua Igreja. Foi ao metamorfosear-se em peixe que Vishnu reconquistou os Vedas; é um peixe que revela a Moisés a personagem de Chidder; é contra o deus-peixe Miske-Nahma que Hiawatha realiza o seu combate de deus solar. Oannes-Râ sai todos os dias da água sob a forma de peixe para transmitir a sabedoria aos homens…

É curioso ver este interesse universal dos profetas por um animal que não vimos presente nos espíritos das pessoas. Se o peixe não está contido na imaginação imediata, pertence, no entanto, às zonas profundas da nossa psicologia. O desenvolvimento de alguns dos exemplos citados mostrará que se trata de um símbolo universal, profundamente enraizado em cada um de nós, e capaz de se manifestar de forma autónoma, sem qualquer iniciação prévia.

O peixe é, ao mesmo tempo, a água e os elementos que esta dissimula. É, ao mesmo tempo, a vida e o que as profundezas desta podem encobrir de perturbador. O simbolismo do peixe relaciona-se com o mergulho nas profundezas e o reencontro do sentimento de culpa. Uma vez feita esta “descida aos Infernos”, a acção purificadora da água conduz à esperança de uma inocência nova.

A literatura fornece uma quantidade de exemplos que mostram que a água é, antes de mais, a profundeza perigosa de um mundo escondido. Como não reconhecer, neste império aquático, a figura do inconsciente? O mundo onde o homem evolui habitualmente, o mundo captado pelos sentidos, feito de coisas visíveis, de expressões audíveis e de pontos de apoio sólidos simboliza a consciência lúcida e limitada. A imensidade pressentida das forças inconscientes, das quais os pontos de apoio do pensamento racional estão ausentes, exprime-se pela imagem da profundidade das águas.

O inconsciente é composto de imensas potencialidades que ainda não foram integradas na consciência, e que, para alguns, nunca o serão. Mas contém também o que a consciência rejeita, os elementos recalcados. Ora, o que é objecto de recalcamento só pode ser um elemento desagradável, que tem relação com um elemento portador de culpa.

O objectivo que o mecanismo de recalcamento persegue é a paz, o esquecimento da lembrança desagradável, a supressão do remorso. É um processo ilusório, já que a recusa do reconhecimento da falta, a tentativa de a empurrar para o inconsciente, faz aparecer uma angústia culpabilizante. Não é a falta que dá origem à angústia, mas a recusa de a aceitar. Busca-se a pacificação, a indiferença.

Os elementos-base do simbolismo do peixe encontram-se esboçados nas noções anteriores. Será que o animal exprime as forças disponíveis do inconsciente? Será, então, símbolo de vida e de renovação do impulso vital. Estas forças inconscientes são sentidas como duvidosas por uma psicologia tímida? O símbolo assume o sentido de perigo, de excesso, de dissipação. O peixe representa os conteúdos recalcados? Então é sinónimo de culpabilidade.

O peixe é símbolo de energia vital? A lenda de Chidder é perfeitamente explícita. Moisés e Josué iniciam uma viagem que dura oitenta anos. Chegados ao destino da viagem, perdem os mantimentos que tinham levado. O peixe que levavam ressuscita, escapa-se-lhes e mergulha no mar. No lugar onde desapareceu aparece Chidder, o velho eternamente jovem, que representa a sabedoria eterna. Este relato evidencia a relação entre o peixe e a renovação da energia vital. No termo da viagem, Moisés e Josué gastaram todos os recursos. O seu impulso vital junta-se ao Grande Todo, do qual surge a noção da eternidade da vida.

O velho sábio encarna esta noção. A identificação com os antepassados, diz Jung, significa uma integração do inconsciente, um verdadeiro banho de juventude na fonte da vida, onde nos tornamos peixes.

No decurso de um sonho acordado, Olivier segue um peixe que o conduz a uma cidade outrora submersa por “uma chuva que durou dias e dias”. À parte outros elementos interessantes deste sonho, que utilizarei adiante, o peixe conduz Olivier até uma antiga nascente, na qual vivia quando a cidade não estava submersa, nascente essa que é guardada por inúmeros peixes. Aqui o peixe conduz o sonhador para lá de um dilúvio que, como todos os dilúvios, tem por objectivo apagar uma culpa na fonte primordial, na origem da própria vida.

A aventura de Jonas é a representação mais conhecida do perigo de ser engolido pelas forças inconscientes, e fala do apelo ao combate heróico, ou seja, ao confronto com as pulsões inconscientes, que deixarão de ser perigosas quando forem identificadas.

O tema da absorção pelo peixe devorador existe em muitos relatos. Nos mitos e nos sonhos de absorção protagonizada por um peixe, o herói passa frequentemente por um período de obscuridade total, que devemos interpretar como um mergulho corajoso no desconhecido, para encontrar uma luz ou uma fogueira, que o ajudam a escapar ao monstro. O mergulho na profundeza aquática faz aparecer a cor verde.

Resta ver o peixe como símbolo de culpa. Os conteúdos recalcados são noções desagradáveis, recordações que trazem sofrimentos ou remorsos, e que a consciência recusa. A literatura, tal como os sonhos nocturnos, contém numerosas imagens nas quais os peixes estão explicitamente ligados aos remorsos, às recordações e aos pensamentos recalcados.

Diante de cada situação mítica, os autores que abordam o simbolismo do peixe esforçam- se por identificar uma espécie particular, apoiando-se em argumentos frequentemente fracos. No entanto, a maior parte dos relatos evita cuidadosamente afastar-se do termo genérico e falar de um peixe em particular. O símbolo mítico nunca é preciso. O peixe sob cuja forma Vishnu reconquistou os Vedas também não tem uma forma precisa…

A própria Bíblia não diz que peixe engoliu Jonas! O Eterno fez vir um peixe para engolir Jonas… Não há nenhum indício da baleia no relato bíblico. Em Psicologia e Alquimia, Jung reproduz quatro desenhos do século XV e o motivo de uma lâmpada datada dos primórdios do Cristianismo. Estas cinco ilustrações mostram Jonas no momento em que o peixe o engole. Este desenho é muito preciso e nenhum deles faz minimamente pensar numa baleia.

Podíamos ver tubarões, lúcios, golfinhos, douradas, ou um qualquer outro peixe. Um deles, aliás, parece mais um dragão do que um peixe. Nos sonhos acordados, também é frequente que o peixe não seja especificado, a não ser que o analista o requeira. A resposta é quase sempre formulada assim: “É uma espécie de tainha, de truta…” O peixe imaginado espontaneamente pelo sonhador não pertence a uma espécie precisa. Esta constatação é importante para provar que o essencial do simbolismo do peixe é comum a todas as espécies.

A imaginação de todos os homens contém uma noção capital: a da ressurreição para a vida eterna. A atitude adoptada pelo intelecto face a esta noção é de recusa ou aceitação, mas isto não é o mais importante. O mais importante é a universalidade deste conceito e a constância com a qual ele é associado ao peixe.

Moisés, no fim da sua vida, acede à vida eterna quando o seu peixe, ressuscitado, regressa ao mar. Numa pequena casa em Jerusalém, alguns dias depois de morrer, Cristo aparece aos seus discípulos e mostra-lhes as mãos e os pés atravessados pelos pregos. Diante dos discípulos estupefactos, pede um alimento que possa ser partilhado. O Ressuscitado tem fome. Dão-Lhe um peixe, o Seu emblema.

Alguns dias mais tarde, aparece a Simão Pedro e a vários outros discípulos, que tentaram pescar, sem sucesso. Cristo indica-lhes o lugar onde devem lançar as redes e pescam abundantemente. S. João insiste que Simão Pedro era filho de Jonas. O peixe era um alimento sagrado em inúmeros países, muito antes da vinda de Jesus. S. Lucas associa claramente a ideia da ressurreição e a de um festim à base de peixe. O peixe, como o pão, participa da eucaristia.
Georges, quando tem um sonho acordado, não tem ideia da lenda de Chidder nem da cena de Cristo. Eis o que imaginou:

Estou numa grande sala, num castelo medieval…a atmosfera é grave…tudo está silencioso…um velho senhor está junto de mim…não há luz mas uma luminosidade desconhecida torna os objectos perceptíveis…abre-se uma porta…ao fundo…em silêncio…entram dois criados a passo ritmado…devagar…transportam uma grande travessa de prata…a atmosfera é solene…sobre a bandeja está um peixe cozinhado, já trinchado…pego nele e ponho-o num recipiente com água…ressuscita imediatamente…no lugar do recipiente há uma fonte…o peixe nada…

Este fragmento é extraído de uma sessão de psicoterapia. O que Georges encontrou através do tratamento foi a sua vitalidade.

Claudine segue um peixe que a conduz por galerias subterrâneas:

…sala mais larga, uma mulher está sentada num trono…a luz provém dos véus dela…continuo o meu caminho…chego ao fim das galerias: está lá um velho cujo corpo é metade peixe…

Vemos que o tema do desaparecimento numa caverna obscura, no ventre de um peixe, numa sala de um castelo, subterrânea ou submarina, é constante, tal como o da luz sem proveniência conhecida, símbolo da iluminação interior do iniciado guiado pelo velho pescador ou pelo homem semi-peixe.

O peixe é um símbolo do guia. É salvador. O pescador é aquele que captura o que está escondido sob as águas, seja o tesouro dos valores inconscientes, sejam os sentimentos de culpa que traz à luz da consciência, com o esforço da lucidez.

Antes do Cristianismo havia muitos cultos do peixe. O peixe parece ter tido sempre um carácter sagrado. O consumo de peixe era objecto de rituais que se exprimiam, quer por interdições, quer pela sua ingestão solene. Aquele que come o peixe alimenta-se dos valores inconscientes ou do reconhecimento da sua falta. Seja como for, fortifica-se.

É neste sentido que o festim do peixe realiza a unidade simbólica, uma vez que, frequentemente, o peixe é sinónimo de energia vital, que conduz ao peixe devorador, que contém o peixe-culpa… No sonho de Olivier, o aspecto do peixe como elemento salvador é evidente. O peixe conduz Olivier através da cidade submersa até ao sopé de uma cruz enorme que emerge muito longe, por cima deles.

Sobre o solo podem ver-se traços dos pés de todos os que tentaram salvar-se da água subindo para a cruz… mas nunca ninguém se salvou por este caminho. O peixe salvará Olivier ao mostrar-lhe um outro caminho. Estes sonhos acordados experimentais são demasiado fragmentados para poderem constituir uma base de análise da psicologia do sujeito. Mas podemos constatar a associação espontânea dos termos: peixe, salvação, cruz.

Os sonhos acordados fornecem numerosas ocasiões para constatar a associação peixe- guia. François atravessa emaranhados de algas…com dificuldade…agora está muito luminoso…luminosidade branca…como as suas escamas…pergunto-lhe quem é: um servidor como os outros peixes, um criado humilde que guia os meus passos. Olivier produz imagens parecidas: Pergunto-lhe de onde vem…está lá desde sempre…guarda a cidade…é o seu guarda…impede as pessoas de vir, excepto os que escolhe…a esses dá mais informações…. É o tema dos “eleitos” que está patente nos jovens, através desta percepção do peixe-guia iniciático.

Claudine, depois de ter sido guiada em direcção à rainha de véus luminosos e para junto do velho-peixe, pergunta ao seu peixe-guia quem é: Sou um dos numerosos servidores da rainha. A luz interior está reservada a almas predestinadas? A regularidade com a qual todos os sujeitos submetidos a este tipo de experiência encontram as mesmas imagens e as mesmas palavras levar-nos-ia a pensar que se trata de características universais alargadas.

A superfície da água é uma fronteira entre dois mundos: o universo manifestado e o mundo interior, o visível e o desconhecido, a consciência e o inconsciente…Esta noção de fronteira conduz à associação com a pele, separação natural entre o interno e o externo. Daí as numerosas ligações literárias entre as duas imagens. Paul Fort fala da pele dos pântanos. Paul Éluard escreveu:

A água, qual pele
que ninguém pode ferir
é acariciada
pelo homem e pelo peixe.

Esta pele que ninguém pode ferir é a fronteira que ninguém pode atravessar sem o auxílio do peixe-guia, do impulso vital autêntico, da lucidez que conduzirá aos tesouros do inconsciente, evitando os perigos da dispersão esquizofrénica.

Jung escreve: Todos aqueles que passam por esta experiência, que sabem que o tesouro repousa na profundeza das águas e que irão tentar extrai-lo de lá… nunca devem, sob preço algum, esquecer quem são, perder a sua consciência…

Tendo explorado a interpretação do peixe, compreenderemos melhor por que razão o pássaro do mar, emanação simbólica da água, provoca imagens próximas daquelas que estão associadas ao peixe e que são marcadas pelo sentido da religiosidade.

 

Perigos

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

Os perigos

Já aconteceu certamente a todos os sonhadores conhecerem grandes perigos. Alguns lembram-se mesmo só desse tipo de sonhos. A rubrica dos “crimes e acidentes” ocupa um lugar de destaque no nosso jornal nocturno de sonhos. O repórter que existe em nós serve-se amplamente desta rubrica e amplia-a.

Estes sonhos indicam um perigo. Porém, nunca devemos esquecer que o símbolo do perigo é utilizado para mostrar de uma forma explícita uma situação que requer uma compreensão e uma atenção particulares. Esta é a razão pela qual estes sonhos não devem ser interpretados totalmente à letra.

É raro que estes sonhos constituam um prognóstico, ou seja, uma previsão de outros acontecimentos. Quando muito dizem-nos: “Eis o estado do teu inconsciente e eis como as coisas podiam passar-se de uma forma consciente.” A alma fornece-nos a sua concepção de perigo e os aspectos particulares que essa concepção assume.

O nosso guia interior considera perigosas as seguintes situações: o facto de um adulto ser inconsciente; a falta de espaço vital para nos desenvolvermos; as perdas de energia ocasionadas por certas relações; a inflação psíquica; a formação de complexos rígidos que se faz em detrimento da totalidade psíquica.

A tomada de consciência, tanto do indivíduo como da humanidade, constitui uma oportunidade que não se deve perder. Se o perigo persistir, sonhamos com um afogamento, perdemo-nos numa floresta escura ou no nevoeiro. Procuramos ansiosamente uma lanterna ou uma janela iluminada.

Podemos também colocar-nos numa situação perigosa se corrermos riscos superiores aos nossos meios: tentamos empurrar um carro pesado; travá-lo numa descida; estamos no alto de uma montanha e as rochas mexem sob os nossos pés; um corrimão de escada parte-se e ficamos suspensos no vazio. Nos sonhos, o facto de não estarmos com os pés assentes na terra é sempre negativo.

Há também sonhos com ladrões, que impressionam muitos sonhadores como se fossem histórias de criminosos espectaculares. Um ladrão entra na nossa casa em sonhos: trata-se de alguém de perigoso, mas cuja identidade desconhecemos. Trata-se frequentemente de alguém que pertence ao nosso próprio mundo interior.

Vindo das profundezas incontroláveis da alma, irrompe na consciência, ameaçando perturbá-la e roubá-la. Representa frequentemente um desejo instintivo camuflado, um pensamento criminoso. Sonhamos que um crime foi cometido e procuramos o criminoso. Adivinhamo-lo apenas: é alguém de indistinto, uma sombra.

Algo no sonhador foi assassinado: um sentimento, uma certeza, uma possibilidade de desenvolvimento. Acontece também que, ao passar diante de um espelho, o sonhador se reconheça como sendo ele o criminoso…

Há também perigos que derivam de ideias fixas, de complexos, de pensamentos insuficientemente fundamentados, que podem ameaçar a nossa ordem psíquica. Estes perigos do espaço mental materializam-se no incêndio no sótão; no bombardeamento aéreo; em pássaros a voltejar num espaço estreito, ou num pássaro pousado na cabeça do sonhador.

A interpretação do sonho poderá ajudar a localizar os perigos que ameaçam a saúde mental do sujeito. Combates com aves nocturnas, que simbolizam forças destrutivas do pensamento, podem ser longos e cansativos.

Nos sonhos que alertam para perigos, encontramos também invernos frios e rigorosos. São sonhos de solidão. A relação positiva do homem com o inverno é recente. Só há bem pouco tempo é que o vê como uma estação capaz de lhe trazer alegrias. Na nossa latitude, o inverno é visto como um acontecimento arcaico desagradável.

Durante milénios, constituiu mesmo um verdadeiro flagelo. O aquecimento conveniente das casas data de há dois séculos e os desportos de inverno têm meio século de existência. Desde há milénios que a alma humana sabe que o inverno significa frio e solidão, que pode trazer fome e morte. Estes últimos anos confirmaram tragicamente este receio numa grande parte da Europa.

Considerados numa perspectiva histórica, os desportos de inverno são recentes e, por isso, a sua aparição em sonhos está normalmente ligada a acontecimentos felizes. À parte estes dois exemplos, o inverno está conotado com o frio da alma. A paisagem invernal tem algo de grandioso e aterrador.

Um sonhador atravessava uma paisagem dessas e levava pouca bagagem no seu trenó. Procurava atravessar em seguida uma passagem muito estreita. O trenó derrapava e caíam juntos. Começava a cair neve. O sonhador tentava pôr os seus bens a salvo na outra margem. A passagem estreita e estas precauções são os únicos indícios positivos neste sonho tão penoso, já que indicam uma possibilidade de salvação.

Os sonhos anunciam perigos a um sonhador que ainda não os pressente sequer. E há sonhos que podem terminar com uma nota de desespero completo. Atentemos no seguinte sonho:

Era noite e estava com a minha mãe à esquerda de um edifício. Sabia que havia lá dentro um incêndio e que a minha irmã mais nova estava lá fechada. Não se via nada de fora e eu esperava, calmo e fatalista. Admiro-me com a minha calma no sonho. De repente, vê-se o fogo nas janelas, que rapidamente alcança o meu quarto. Ouve-se a minha irmã rezar o Pai-Nosso dominada por uma angústia mortal. Não posso mais. Salto para a direita e vejo numa escada um bombeiro vestido de preto, que observa a cena tão passivamente quanto eu. Peço-lhe que faça algo, proponho-me agir.O homem encolhe os ombros e mede a temperatura do quarto com um telescópio. Quando a vê muito elevada, faz um comentário que leva a crer que a minha irmã começou a sofrer os horrores do fogo. Diz, de forma quase científica, que já não é possível salvar a minha irmã. Bato desesperado contra as paredes desta casa de pedra. A voz de uma criança só e aterrorizada penetra o âmago da minha alma. Constato, com impotência, a solidão e a situação desesperada do indivíduo no universo.

 

O dinheiro

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

O dinheiro

É normal sonhar-se com dinheiro num mundo onde o dinheiro desempenha frequentemente um papel decisivo. Quer se trate de uma simples questão de dinheiro, quer se trate de uma determinada soma equivalente às necessidades de um orçamento médio, todos temos diariamente um certo número de despesas, que se apresentam sob a forma de montantes variáveis. Podemos encontrar quase todo o tipo de montantes nos sonhos. Certos números fortuitos terão de ser alvo de um exame mais pormenorizado, tal como qualquer número em geral.

Por que razão uma sonhadora dispunha apenas de 485 francos na carteira? É um montante corrente e, contudo, trata-se de uma soma curiosa. A sonhadora tentará lembrar-se de quando e onde despendeu esta soma. Mesmo que o consiga, o significado do sonho pode ainda ser difícil de encontrar. Pode tratar-se do número de uma casa, da página de um livro ou de uma indicação de idade. Provavelmente, não valerá a pena seguir todas estas pistas.

No entanto, sonhos deste teor trazem à superfície aspectos importantes. Uma mulher encontra cinco moedas de prata novas e brilhantes no caminho. O marido, que se encontra a seu lado, não viu a mulher pegar alegremente no dinheiro. Este valor constitui algo que só ela pode encontrar, embora o faça junto do marido. A existência desse valor escapa ao marido. Como são moedas de prata, podemos concluir que se trata de valores tipicamente femininos.

O tipo de sonho que se segue é comum, embora possa ocorrer com variações múltiplas: um homem quer inscrever-se num curso profissional. Tem de comprar um livro de estudo que o surpreende pelo seu preço elevado. No decurso da interpretação do sonho, dá-se conta de que o montante a pagar corresponde à sua idade. Vê que tem de empenhar toda a sua vida para agarrar a oportunidade que se lhe depara presentemente.

Um outro homem perdeu dinheiro. Dizem-lhe que foi a namorada que o roubou. Esta hipótese parece-lhe completamente impensável. No entanto, dá-se conta de que consagrava demasiado tempo e energia àquela relação amorosa, e que esta não vale o sacrifício. Também há sonhos em que o troco que se recebe é superior ao montante que se pagou por algo. Pode tratar-se de um bilhete de teatro ou de autocarro, que nos conduziu até à casa de amigos. Isso significa que ganhámos alguma coisa, que nos enriquecemos interiormente.

Geralmente, pensamos que os sonhos com dinheiro têm uma interpretação favorável. Isto só acontece quando o recebemos ou encontramos inesperadamente. Um aluno preguiçoso encontra notas numa revista científica. Pensou, não sem razão, que teria algo a ganhar com isso. O tesouro escondido no campo, de que falam as velhas lendas, aparece em sonhos, com variantes. O objecto precioso é frequentemente de ouro. São moedas de ouro. Raramente o sonho se serve de cheques. A sua teoria monetária é extremamente simples.

O dinheiro é energia psíquica prestes a ser investida. A sua posse abre-nos novos caminhos. Tem a medida das energias que estão à nossa disposição e que teremos de gastar para obter algo. A vida é cara; é preciso pagá-la. Cada sucesso custa-nos algo. Estes custos aparecem nos sonhos sob a forma de dinheiro. Todas as variedades de poder ou impotência podem encontrar-se nos sonhos, sob a forma de posse, de perda ou de ganho de dinheiro. Em sonhos, é particularmente reconfortante termos de novo dinheiro na mão, após uma doença ou uma perda de energia vital; vermos que estamos ricos depois de termos estado na miséria.

Estes sonhos contêm uma mensagem muito importante para aqueles que na vida desperdiçam as suas forças e os seus talentos. Mostram-nos a nós mesmos como pessoas desprovidas, frequentemente acompanhadas por uma silhueta tenebrosa.

Pode acontecer que o sonhador esteja relacionado com um banco, que é um símbolo muito moderno. Dão-nos somas imprevistas ao balcão ou pagam-nos em moeda estrangeira ou desconhecida. Temos um depósito que não podemos levantar porque está bloqueado. O banco simboliza as energias cujo acesso nos está momentaneamente interdito.

Às vezes, trata-se do banco regional ou do banco nacional, que é um centro de energias internas. Quem de lá retirar algo traz novas forças para o mundo da sua actividade. Se deposita algo, retira energias que estavam em circulação. Sonhar com um ladrão que tenta entrar num banco por baixo, furando o chão, equivale a um ataque contra a nossa reserva de energia proveniente das profundezas, do mundo da sombra. Perguntamo-nos, então, quem quererá roubar-nos. Um outro sonhador encontra-se no banco quando um assaltante armado com uma faca o ataca. Isto já não tem a ver com dinheiro. Trata-se do seu próprio interior, que esconde uma energia destrutiva e agressiva. O sonhador parece possuir forças primitivas perigosas.

 
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Publicado por em 2007 in banco, dinheiro, símbolos, sonhos

 

A casa e as suas dependências

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

A casa e as suas dependências

É natural que muitos sonhos se reportem à casa e às suas dependências, já que, na nossa cultura, os acontecimentos quotidianos se desenrolam mais dentro de casa do que ao ar livre. Os sonhos mais correntes falam de casas precisas, de dependências bem conhecidas, que o sonho não deturpa em demasia. Nos sonhos mais importantes, a casa simboliza a casa em geral.

O arquitecto que desenha os nossos sonhos transforma a casa conhecida segundo os seus critérios. A sua actividade soberana junta as partes pertencentes às casas mais diversas, de uma forma improvisada e segundo uma inspiração que lhe é muito própria. Uma tal construção, misto de realidade e ficção, é uma combinação de imagens reais e de símbolos. Na casa onírica, vários conteúdos da nossa vida, mesmo que emergentes, fundem-se numa unidade psíquica.

A razão de estarmos nessa casa é quase sempre esclarecida pelo contexto e pelas ideias sugeridas, para que possamos reconhecer o motivo por que estamos a habitar aquele sítio. Sabemos, por experiência própria, que a maior parte das casas e dos quartos por onde passámos são recordações muito particulares, onde os destinos dos que os habitam desempenham um papel muito importante. É esta atmosfera que emerge no sonho e que cria um certo ambiente onírico.

Não podemos, de maneira alguma, tratar este assunto de uma forma exaustiva. Quando muito, poderemos afirmar: “Se me encontro numa determinada casa em sonhos, é porque a minha realidade psíquica dominante se exprime de forma mais clara através deste ambiente.”

O que se passa na casa passa-se dentro de nós mesmos. Nós somos, frequentemente, essa casa. De cada vez que num sonho estamos perante uma casa bem conservada, em ruínas, nova ou velha, essa casa refere-se ao sonhador. A casa informa-nos do nosso estado e mostra como nos comportamos interior e exteriormente. A actividade imaginativa da alma serve-se da casa, da maneira de a arrumarmos, para nos mostrar o nosso corpo e o que se passa nele.

Há dependências que são consideradas secundárias. Ficam à sombra de tudo o que constitui a personalidade da casa. E, contudo, estas dependências despoletam toda uma gama de sentimentos, de percepções, de recordações particulares, e mesmo certos complexos. As partes da casa que utilizamos de forma óbvia, por exemplo, a sala de jantar ou o escritório, raramente aparecem nos sonhos. Pertencem totalmente à esfera consciente e o seu conteúdo simbólico parece pobre.

Os sonhos têm uma enorme predilecção pelas dependências cujo conteúdo emocional é ambivalente. É o que acontece com a cave. Podemos compará-la psicologicamente ao inconsciente pessoal (que é o lugar onde depositamos as coisas das quais já não nos servimos). Simultaneamente, como a cave mergulha na terra, está próxima das camadas profundas que são apanágio da colectividade. Na cave há reservas; conservamos lá o vinho; abriga-nos quando nos sentimos ameaçados. Como é sombria, temos de a alumiar e as crianças não são as únicas a ter receio de um encontro perigoso.

Como acontece frequentemente na vida de todos os dias, os ladrões e os assaltantes escondem-se, em sonhos, na obscuridade desses lugares para nos assaltarem durante o sono, ou seja, quando estamos inconscientes. Se nos abstrairmos das caves modernas, construídas segundo todas as normas de higiene, o subsolo das casas esconde toda uma vida ilícita. As ratazanas comem os víveres; há sapos, salamandras e toda uma quantidade horrorosa de animais rastejantes nestes sítios húmidos.

Tal como na realidade, a cave dos sonhos encerra uma vida secreta e cheia de perigos. Conserva as reservas da alma e as possibilidades do inconsciente, tudo o que não foi ainda aberto e posto à nossa disposição. Quando sonhamos com a escada que conduz à cave, sonhamos com a descida às profundezas, a fim de irmos aí buscar os alimentos, o vinho, ou encontrarmo-nos com os aspectos obscuros da alma.

É por esta razão que a cave é um lugar de riquezas, mas também um lugar de terror. Esconde o que está por baixo, logo, a parte obscura do nosso corpo. Muitas pessoas não têm, pois, qualquer tipo de empenho em conhecer estes conteúdos do subsolo, em saber o que aí se passa.

É importante reportarmo-nos a recordações da juventude para interpretar os sonhos relacionados com a cave ou com a cozinha. São dois lugares que impressionam profundamente a criança. No entanto, o seu carácter simbólico é comum a todas as pessoas. Não estamos a falar das caves e das cozinhas actuais, saturadas que estão dos últimos avanços da técnica.

A verdadeira cozinha é o centro da casa. Depois de manipulados, os alimentos são aí transformados em algo pronto a ser consumido (o que acontece também no nosso intestino). É esta uma das razões pelas quais os sonhos com a cozinha têm a ver com a nossa digestão psíquica.

A cozinha é também um lugar de dominação feminina. A mulher encontra-se aí no seu elemento. Quando nos aparece em sonhos uma mulher na cozinha, ela simboliza o nosso lado provedor e maternal. Muitos homens projectam os seus desejos sobre o “pessoal da cozinha”, de forma indiferenciada, e interpretam esses desejos de uma forma puramente sexual. Seria útil ver nessa projecção a vontade de participar no alimento vital primitivo.

Nas cozinhas velhas, onde a decoração é irreal e crepuscular, reina uma actividade feminina incompreensível para o homem. E, contudo, de tempos a tempos, o homem é obrigado a ir, qual Fausto, ao lugar onde se encontram os poderes elementares da vida. A cozinha evoca os fantasmas mais bizarros: desde as intuições mais elevadas que se reportam às transmutações alquímicas – as da alma – às representações sexuais mais imediatas (o buraco do forno, a chaminé, o almofariz e o pilão).

Por vezes, a acção onírica desenrola-se no quarto de dormir. Tais sonhos põem em evidência as camadas mais íntimas do sonhador. Os problemas actuais podem também desenrolar-se no quarto outrora ocupado pelos pais, talvez porque o que se passa hoje tenha aí a sua origem. O quarto de dormir representa a esfera íntima de cada um, bem como o inconsciente pessoal, uma vez que é o lugar do sono.

Aí partilhamos a vida com os seres que nos são queridos. Daí que este tipo de sonhos anuncie a felicidade de uma relação onde reina o amor perfeito ou a dor indizível de uma relação votada à mais profunda inimizade. Mas estes sonhos só acontecem quando há algo de errado com essa esfera da vida do sonhador.

O sonho confere à cama uma importância particular. “Cada um se deita na cama que fizer.” Trata-se de uma situação relativa ao inconsciente. Na cama repousamos, nela estamos seguros. Nada é exigido àquele que dorme. Mas o sonho mostra o que o inquieta. É uma inquietação inconsciente que convém explorar. Habitualmente, a cama no sonho está do lado esquerdo, o lado do inconsciente.

Quando uma mulher deslocou a sua cama para a esquerda em sonhos, viu aparecer um fantasma. Os fantasmas só aparecem quando a ordem natural das coisas é alterada. Num outro sonho, uma mulher via a sua cama ocupar cada vez mais o quarto e a coberta adquirir um tom de vermelho vivo. Isso significava que uma paixão inconsciente e histórias de cama tinham tendência a ocupar demasiado espaço na sua vida.

Os sonhos com os sanitários são muito numerosos. Trata-se de um lugar que desempenha na vida das pessoas um papel mais importante do que quereríamos admitir. Com curiosidade e admiração, a criança aprende aí os fenómenos do corpo. Se recebeu uma educação esmerada, considerá-los-á interessantes e inconvenientes, simultaneamente. Nos sanitários, o homem mais dotado intelectualmente está tão próximo dos animais como qualquer outro. Confronta-se com certas substâncias do seu corpo que se tornaram supérfluas e que é necessário eliminar. Está sozinho no momento em que o seu corpo tem de se desfazer da matéria mais vulgar.

E, contudo, este tipo de sonho nada tem de grosseiro. Remete mesmo para a libertação de certas questões psíquicas. Descarregamos o que já foi utilizado, aquilo que sempre foi considerado uma sujidade. É raro que este tipo de sonhos se prenda com o convencionado estado anal infantil ou com o erotismo anal. Convém mencionar que os alquimistas sempre falaram da transformação dos excrementos em ouro. A experiência humana dá conta, aliás, que o mais vil se pode transformar no mais nobre.

Os sonhos que se prendem com o sótão são sempre um pouco suspeitos. Relacionam-se com recordações de juventude, com episódios eróticos precoces, com buscas e pesquisas interditas, tudo isto tendo como pano de fundo um cenário de velharias que despertam sempre a nossa curiosidade.

Para muitas crianças, a mansarda semi-obscura é um lugar de terror, tal como a cave. A criança projecta nela o seu pressentimento da existência de forças vitais obscuras. Nos sonhos com o sótão, encontramos frequentemente conteúdos cómicos, velhos ou proibidos, e tendemos a ver todo o tipo de pormenores e fantasias.

As escadas têm também a sua importância. Devem estar cuidadas e em bom estado, bem como ter os degraus equidistantes. As escadas ligam simbolicamente as diferentes partes da nossa personalidade. Quando há um degrau estragado ou o patamar é frágil, isso significa que há em nós um lado ao qual falta solidez. Pode haver certas escadas complexas ou difíceis de subir.

É o que se passa frequentemente com as que dão acesso à cave ou ao sótão. Não podemos deixar de mencionar a escada em espiral. Significa que só podemos aceder a zonas mais profundas se nos mantivermos ancorados no eixo da nossa vida. Estes sonhos surgem apenas a meio das nossas vidas.

A configuração da casa pode também ser diferente: grande, pequena, espaçosa, cheia de recantos; burguesa, palácio ou cabana, situada no campo ou na cidade. Estas diferenças dão-nos informações sobre o nosso ambiente psíquico. Cada adulto necessita de uma certa persona baseada no aspecto exterior. No decurso dos sonhos, a fachada da casa informa-nos sobre a persona. Algumas pessoas atribuir-lhe-ão um valor exagerado. Outras não lhe prestarão atenção alguma.

Um homem sonha que está a construir uma fábrica. Quando se aproxima dela, vê que por detrás de uma fachada imponente tem lugar uma imensa exploração. O mesmo se passava com a sua vida vazia, destinada apenas a enganar os outros. Um outro vê que a fachada da sua casa, que representa o seu edifício conjugal, está a ser renovada, embora o resto da casa esteja completamente destruído pelas bombas. O seu casamento é, pois, puramente formal: é uma bela fachada de aspecto enganador, mas que, antes de mais, engana o próprio sonhador.

A atitude dos nossos semelhantes traduz-se pela modificação da sua própria casa. Uma fortaleza cinzenta indica que é inútil tentar penetrá-la. Também pode acontecer que um homem impenetrável more numa casa ampla e clara, com as varandas rasgadas: eis-nos perante a sua verdadeira natureza. Sentimos que está pronto a acolher-nos. Por vezes, temos de mudar de casa, para uma casa mais espaçosa e mais clara. A vida parece querer conceder-nos um espaço vital mais amplo. Mas temos de atingir um grau de consciência mais elevado, temos de saber quem somos realmente. Uma mulher que não tinha preenchido estas condições teve o seguinte sonho:

Tinha de me instalar numa casa mais bonita e mais bem arranjada. Quando estava tudo pronto não conseguia encontrar o meu certificado de emprego nem o meu passaporte. Então, proibiram-me de mudar de casa.

Os sonhos que mostrem reconstruções são extremamente favoráveis. Querem dizer que nos renovamos. Podemos observar os progressos da reconstrução. Se a casa está quase terminada mas ainda não a habitamos, isso significa que ainda nos falta percorrer um pedaço de caminho. No entanto, este tipo de sonhos é muito favorável, porque indica que podemos edificar uma nova vida com maior segurança.

 

A montanha

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A montanha

O simbolismo da montanha é múltiplo: está ligado ao simbolismo da altura e ao simbolismo do centro. Na medida em que é alta, vertical, elevada, próxima do céu, a montanha participa do simbolismo da transcendência. Na medida em que é o centro de hierofanias atmosféricas e de numerosas teofanias, participa do simbolismo da manifestação. Funciona, assim, como o encontro do céu e da terra, morada dos deuses e termo da ascensão humana.

Todos os países, todos os povos, e a maioria das cidades têm a sua montanha sagrada. Este duplo simbolismo da altura e do centro, próprio da montanha, encontra-se também entre os autores espirituais. As etapas da vida mística, por exemplo, são descritas por S. João da Cruz como uma ascensão, a “subida do Carmelo”. Já Santa Teresa de Ávila as define como as diferentes “moradas da alma” ou o “castelo interior”.

A montanha exprime também as noções de estabilidade, de imutabilidade, por vezes até de pureza. É, ao mesmo tempo, o eixo e o centro do mundo. É a morada dos deuses e a sua ascensão é representada como uma elevação em direcção ao céu, como o meio de entrar em comunhão com a divindade, como um regresso ao Princípio. Os imperadores chineses sacrificavam no cimo das montanhas; Moisés recebe as Tábuas da Lei no cimo do Monte Sinai. Os Imortais taoistas elevavam-se ao céu do cimo de uma montanha e as mensagens destinadas ao céu eram colocadas no mesmo cume.

As montanhas axiais mais conhecidas são o Meru, na Índia, o Ku’en-luen, na China, o Olimpo grego, a Ka’ba de Meca, o monte Tabor, a montanha branca dos celtas, o Montsalvat onde se encontra o Graal, etc. Também Dante situa o paraíso terrestre no cimo da montanha do Purgatório e a Acrópole de Atenas eleva os seus templos no cume de um monte sagrado. Mas todas as tradições são unânimes em assinalar as dificuldades e os perigos da subida íngreme. Se a ascensão é símbolo da evolução espiritual, é também símbolo de um progresso e da conquista árdua do verdadeiro conhecimento.

No próprio coração da religião judaica, a montanha, herdeira da montanha divina primordial, simboliza frequentemente a presença e a proximidade de Deus. À revelação no Sinai podemos acrescentar o sacrifício de Isaac, também no cimo de uma montanha, mais tarde identificada com a colina do Templo, o milagre da chuva que Elias obtém depois de ter orado no cimo do Carmelo, e a revelação de Deus que tem no monte Horeb. Aliás, os apocalipses judaicos multiplicam as cenas de teofanias ou as visões no cume das montanhas.

Devemos ainda lembrar o Sermão da Montanha, que corresponde, sem dúvida, na Nova Aliança, à Lei dada a Moisés no Antigo Testamento; a narrativa da transfiguração de Cristo num monte elevado, e a narrativa da ascensão no Monte das Oliveiras. Não esqueçamos que muitos dos cultos pagãos eram celebrados em locais elevados (planaltos, colinas, montes e cordilheiras).

Mas como todos os símbolos, também o da montanha apresenta uma dupla vertente, uma dualidade que importa referir. Por um lado, a montanha é o espaço privilegiado da comunicação com o divino (a montanha faz a junção da terra e do céu). Quando é sagrada, situa-se no centro do mundo – ela é a imagem do mundo – e o templo encontra-se muitas vezes associado a ela. Por outro lado, a montanha também pode significar, enquanto elevação, a hybris, o orgulho desmedido dos que pretendem rivalizar com os deuses. Pense-se na Torre de Babel, por exemplo.

Ao simbolizar a morada dos deuses, de Deus, das divindades solares, a montanha representa ainda as qualidades superiores dos que perseguem a via do Conhecimento, da Sabedoria. Chegar ao seu cume é, pois, penetrar o mistério em toda a sua plenitude. Daí que a montanha sagrada seja sempre um espaço de isolamento, de contemplação, de jejum e de meditação. Só assim se poderá manifestar o Invisível.

 
 

A estrela

Georges Romey
Excertos adaptados

A estrela

A estrela brilha, desde as profundezas do imaginário, como luz que emana da Fonte primordial. É um símbolo evidente do mistério, e contém a eternidade e o infinito dos espaços. A estrela é símbolo da relação indizível com a divindade. Por isso é que, muitas vezes, nos sonhos, a estrela anuncia o caminho até Deus. Daí que ela seja uma metáfora da fé, a aceitação plena de um futuro imprevisível, representando o abandono da vontade exacerbada de dominar e de controlar o destino.

A estrela é um sinónimo simbólico do velho sábio, daquele que guia no caminho da interioridade, do que ajuda a encontrar o centro ou o tesouro escondido. Daí que a estrela seja guia e esperança. Nos sonhos, traduz a receptividade à metamorfose, a adesão e o abandono ao inesperado, ao mundo do Mistério.

A estrela é a mensageira desse mesmo mistério e, pela sua luz, assegura ao homem a libertação dos medos e da angústia que o tinham aprisionado. O seu brilho incomparável abre ao ser o campo infinito das riquezas inconscientes. A sua visão convida a renascer para a vida intuitiva, a pôr de lado a couraça das construções racionais. Daí que a estrela possa ser símbolo de um crescimento psíquico.

A estrela, um céu estrelado, relacionam-se geralmente nos sonhos com o céu, a noite, a lua, o espaço, mas também com as figuras do velho sábio, do anjo, e com a música. Os cenários são invadidos frequentemente pela cor azul, símbolo de aprofundamento espiritual e cor feminina por excelência. Basta pensarmos na associação desta cor com o manto da Virgem Maria.

A estrela aponta o caminho: é ela que conduz os pastores até ao estábulo da Natividade, é ela que guia o eremita até Compostela, é ainda ela que guia a barca de Osíris… Por isso, de acordo com a dinâmica simbólica, todos os ventos são favoráveis para aquele que confia na sua estrela.

 

A floresta

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A floresta

Menos aberta do que a montanha, menos fluida do que o mar, menos subtil do que o ar, menos árida do que o deserto, menos escura do que a gruta, mas fechada, enraizada, silenciosa, verdejante, sombria, nua, múltipla, e secreta, a floresta de faias é arejada e majestosa; a floresta de carvalhos, nos grandes caos rochosos, é céltica e druídica; a de pinheiros, nas encostas arenosas, evoca um oceano próximo ou origens marítimas. E é sempre a mesma floresta. (Bertrand d’Astorg).

Em múltiplas tradições, nomeadamente entre os Celtas, a floresta era um verdadeiro santuário em estado natural: na floresta de Brocéliande, na Bretanha, os sacerdotes (druidas) reuniam-se para as cerimónias rituais, à semelhança do que acontecia entre os Gregos, por exemplo, com a floresta de Dodona. Na Gália, aliás, os templos de pedra só foram construídos por influência romana, após a conquista.

Também na Índia os ascetas budistas, entre outros, nelas procuravam refúgio para meditar e nelas encontravam o repouso necessário às suas práticas religiosas. No Japão, as florestas de coníferas são verdadeiros santuários naturais e, na China, a montanha coberta por uma floresta é quase sempre o local de um templo.

Existe, pois, uma estrita equivalência semântica, na época antiga, entre a floresta e o santuário. Aliás, a árvore, um dos grandes arquétipos da Vida, faz parte integrante de florestas, bosques e até selvas, e representa sempre, em todas as tradições e culturas, do ponto de vista simbólico, o intermediário, por excelência, entre os três níveis do cosmos: o nível subterrâneo – já que as suas raízes mergulham no mundo ctoniano; o mundo terreno – o tronco ergue-se, vertical, convivendo com os demais elementos da natureza; e o plano aéreo – a copa frondosa, com os seus ramos, rebentos, flores e frutos, ergue-se para o céu, numa prece contínua ao transcendente e ao divino, testemunhada por todos os povos.

Mas, à semelhança dos outros símbolos, também a floresta apresenta uma evidente vertente dual: se é local privilegiado de diálogo com os deuses, se é oásis de paz e de silêncio, convite à interioridade e à meditação, se é espaço hierofânico, por excelência, também pode tornar-se “locus horrendus”, devorador e terrífico, selva virgem onde espreitam mil perigos e armadilhas.

Quantos não foram, e são, os que se deixam sensibilizar (na literatura e nas artes em geral) pelo mistério ambivalente da floresta, que pode ser, ao mesmo tempo, geradora de angústia e de serenidade, símbolo de opressão e de libertação.

Talvez seja por tudo isto que, em termos psicanalíticos, a floresta se encontra entre os grandes símbolos do inconsciente. Se pensarmos nos contos de fadas, lendas e mitos de muitas tradições, ou no folclore popular do mundo inteiro, veremos que neles abundam imagens de florestas que devem ser percorridas, atravessadas, e desvendadas nos seus caminhos labirínticos.

O temor, e até o terror, que provocam os monstros da floresta confundir-se-iam, segundo Jung, com o medo pressentido, por cada um de nós, perante as revelações do nosso inconsciente. Só atravessa a floresta o herói que ousar enfrentar os seus medos. No final da travessia, encontrar-se-ão o tesouro escondido, a Bela Adormecida, o elixir da imortalidade, o Graal.

 
 

A morte

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

Os grandes acontecimentos da vida

A MORTE. Se sonharem com a morte, ficarão com certeza muito aflitos! É natural, pois a morte é um acontecimento capital que atemoriza a maior parte das pessoas. Mas não procurem encontrar um presságio num sonho com a morte. Também aqui se torna necessário transformar o acontecimento físico numa circunstância psíquica. Lembrem-se do sonho do cadáver já atrás referido, no qual se tratava de um «cadáver psíquico», ou seja, de «qualquer coisa de morto» que o sujeito trazia com ele.

Portanto, frequentemente, podemos fazer equivaler:

  • morte física em sonho = morte psíquica na realidade
     

  • agonia física em sonho = agonia psíquica na realidade
     

  • enterro físico em sonho = enterro psíquico na realidade

Muitos sonhos dizem respeito à própria pessoa do sonhador e significam: «Existe em ti qualquer coisa que está morta – ou vai morrer – ou deve morrer.» É necessário em seguida procurar essa «qualquer coisa», examinando o seguimento do sonho. O que morreu ou vai morrer interiormente, sem que o sujeito se dê conta disso? Um amor? Um afecto? O respeito por valores morais? Tratar-se-á de uma concepção errada ou insuficiente da vida?

Do mesmo modo, se um sonho nos mostra um enterro, é preciso perguntarmos: o quê ou quem se enterra? E a resposta, nove em dez vezes, dir-nos-á que se trata de qualquer coisa de si próprio. É preciso tomar-se consciência disso, e procurar deitar fora aquilo que deve ser «enterrado» (esquecido, extirpado), a fim de se viver de forma mais liberta e desprendida.

Exemplo: O meu amigo morreu há dois anos e ajudava-me moralmente… Em sonhos, via-o muitas vezes, subindo caminhos, e tentava alcançá-lo e tocar-lhe… Mas ou ele me repelia ou recusava falar-me. Cada vez me sentia mais triste e desesperada… A noite passada tive o mesmo sonho, no entanto acrescido de mais qualquer coisa. Via a mesma estrada que subia…lá estava o meu amigo, mas mais baixo do que eu. Mostrou-me qualquer coisa, no cimo do caminho: era um enterro, com cavalos brancos que puxavam um barco branco sobre um mar luminoso. Aproximei-me e vi que era o meu amigo que levavam; estava morto! Depois voltei-me e vi que o caminho continuava a subir… Atrás de mim, o meu amigo tinha desaparecido e acordei, desta vez sem a menor sensação de tristeza.

Que significa este sonho? Significa não somente que esta mulher sente dificuldade em subir sozinha na vida, mas também que ela deseja atingir qualquer coisa situada «no alto», algo que o seu amigo lhe mostrara durante a vida.

Com efeito, ela e ele haviam feito juntos estudos de filosofia. Esses estudos estavam já bastante adiantados e ela é perfeitamente capaz de continuar sozinha. Ela sabe isso no fundo de si própria (simbolizado pelo amigo que a repele ou que se afasta). No entanto, ela recusa submeter-se à lei impiedosa que lhe diz: O teu amigo morreu e deves adaptar-se a essa situação.

O seu último sonho mostra que deu um passo em frente. Vê um enterro e verifica que levam o corpo do amigo. Mas os cavalos são brancos (branco = desaparecimento de tristeza, alegria, libertação). Não há carreta fúnebre, mas um barco branco sobre um mar luminoso (encontramos aqui os velhos mitos nos quais as almas dos defuntos eram transportadas em barcos pelos rios do além-túmulo).

Neste segundo desaparecimento, tudo é esperança: o branco, o luminoso… Além do mais, quando ela se volta, verifica que o amigo desapareceu e repara igualmente que o seu caminho continua a subir. Portanto, esta jovem compreendeu que era capaz de continuar a «subir sozinha», que devia ir «mais alto» e que a sua dedicação sentimental a esse amigo morto se transformou numa sensação de esperança…

 

O pai

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

O PAI – Um pai representa a força viril, o guia na vida. É a pessoa a quem se faz perguntas, que se imita, que se tenta igualar ou ultrapassar. O pai ideal surge como um sol que ilumina e aquece, constitui a experiência, a maturidade, a sabedoria. Apresentar-se-ão, em sonhos, símbolos que apontam para todas estas interpretações.

Exemplo: Um adolescente sonha com um grande sol, brilhante e pousado no chão. Aproxima-se, mas o sol diminui de tamanho. Chegado a pouca distância, o sonhador estende um braço e «fura» esse sol, que se desfaz como uma vulgar folha de papel.

Qual é a interpretação? Oito dias antes, este adolescente verificara que o pai não correspondia de forma alguma à ideia que tinha dele. O seu sonho reflecte isto: o sol (seu pai) diminui de dimensão à medida que ele se aproxima; desfaz-se lamentavelmente (como o pai, no espírito do adolescente).

Quais os símbolos oníricos mais frequentes do pai?

• um rei, um imperador (que simbolizam a grandeza e o poder);
• um guarda, um agente de polícia, um professor, um médico, etc. Tudo o que represente a autoridade, a sabedoria, a bondade e a experiência;
• uma árvore, uma coluna (força, grandeza, solidez);
• um chefe de escritório, um graduado do exército (isto sucede quando os adultos têm medo do pai e reagem, portanto, na vida de todos os dias, como faziam diante dele).

Os sonhos do pai são menos vastos que os da mãe. Mostram, geralmente, situações inconscientes (sobretudo complexos), sem a grande extensão dos símbolos maternais. São, no entanto, muito interessantes para a análise de uma personalidade; permitirão evitar os terrores, a falta de virilidade, os recalcamentos, etc…

Os grandes acontecimentos da vida: MORTE

 
 

O golfinho

Georges Romey
Excertos adaptados

O golfinho

Basta evocar este animal para que o nosso espírito se sinta mais leve já que o seu simbolismo lembra a prece cristã: Diz somente uma palavra e serei salvo! Após tantos sonhos em que o golfinho leva o sonhador até à luz, podemos estar cientes de que ele tem sempre uma função salvadora. Invariavelmente, tanto nos sonhos como nos mitos, o golfinho tem sempre o papel de guia e de salvador.

Cristo Salvador apresenta-se, por vezes, sob o aspecto de um golfinho. E desde a mais remota Antiguidade que o nosso peixe/mamífero desempenha sempre o papel de guia – basta pensarmos como os golfinhos se mantêm durante horas intermináveis à proa dos navios no mar alto, dando a impressão de que estão a abrir caminho.

Raros são os símbolos em que as associações de imagens se apresentam tão constantes e com um sentido tão evidente. Mas enquanto que a raposa, por exemplo, também desempenha a função de animal psicopompo (que serve de guia) – conduzindo as almas até às regiões da morte – a função do golfinho, embora seja também a de condutor, exerce-se em sentido oposto: o golfinho traz o sonhador do limiar do outro mundo até à luz, até à vida.

O papel de guia, de condutor, é atestado por uma associação íntima com os símbolos mais clássicos da dinâmica da “passagem”. Lembremos que o muro (que se ergue como um obstáculo ao progresso do sonhador) e que o espelho (que se interpõe de igual modo) e até mesmo a expressão da transparência que se apresenta sob a forma de um vidro, ou de uma janela, são indícios indiscutíveis do restabelecimento de uma conexão entre o consciente e o inconsciente.

O golfinho mostra muitas vezes que podemos ver o que desejamos e não exclusivamente o que pensamos que temos que impor a nós mesmos; reabilita, pois, o que é natural e incita à confiança nos impulsos instintivos. Aquele ou aquela que é guiado(a) pelo golfinho deve convencer-se da relação benéfica e positiva com o seu lado instintivo.

Os símbolos ligados ao universo do mar apresentam-se, naturalmente, em volta do golfinho: o mar, as algas, a praia e também a gruta marinha. É, aliás, muitas vezes nesta gruta que o sonhador, guiado pelo animal, vai encontrar as imagens da transparência: muros repletos de espelhos, o espelho de Alice, mesa e porta de vidro, etc…

Ora, a gruta marinha, tal como a gruta subterrânea, é uma representação do útero. E assim a gruta é como que o lugar de um renascimento psicológico. Como Jung lembrava, o termo grego que significa golfinho – delphis – está muito próximo da palavra delphus que significa útero.

Dois pares de valores opostos encontram-se constantemente presentes nos cenários em que nada o golfinho. Por um lado, o mergulho na profundidade que alterna com os saltos no ar e, por outro lado, a evocação das sensações alternadas de frio e calor.

Com efeito, o golfinho do sonho abrange um vasto campo de representações que permitem relacionar os mundos terreno e espiritual. Traduz ao mesmo tempo a angústia original do ser que é lançado no mundo e a interrogação metafísica de uma psicologia perturbada pelo insondável mistério da vida e da morte.

Mas o golfinho é, entre todos os símbolos que traduzem esta extrema dificuldade imposta ao espírito humano, aquele que pode ser considerado como o agente mais seguro do restabelecimento da dinâmica vital.

 

Símbolos, Sonhos, Arquétipos – resumo

A importância dos sonhos

Símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua significados especiais para além do seu significado evidente e convencional. Implica algo de vago, desconhecido ou oculto para nós. É um sinal ou uma imagem, representando um objecto, um ser vivo ou uma situação.

Eis alguns exemplos: um lírio é muitas vezes um símbolo de pureza; uma rosa simbolizará a beleza, a mulher, etc.; a cruz é o símbolo do sofrimento e da ressurreição.

Um símbolo encerra – ou resume, representa – uma ideia ou um conceito muito mais complexo. Determinados símbolos estão fortemente carregado de emoções. Por essa razão é muito mais fácil usar um símbolo em vez de expressar, verbalmente ou por escrito, o seu significado. Acontece-nos muitas vezes sabermos o que um símbolo representa mas não conseguimos expressá-lo por palavras. Dizemos muitas vezes de alguém se vai abaixo emocionalmente, que parece uma flor a murchar, por exemplo.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que utilizamos frequentemente termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender na totalidade. Mas o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de sonhos.

Estas mensagens do inconsciente têm uma importância bem maior do que se pensa. Na nossa vida consciente, estamos expostos a todos os tipos de influência. As pessoas estimulam-nos ou deprimem-nos, ocorrências da nossa vida profissional ou social desviam a nossa atenção. Todas estas influências podem levar-nos para caminhos opostos à nossa individualidade; e quer percebamos quer não o seu efeito, a nossa consciência é perturbada e exposta, quase sem defesas, a estes incidentes. Isto ocorre em especial com pessoas de atitude mental extrovertida, que dão muita importância a objectos exteriores, ou com as que abrigam sentimentos de inferioridade e de dúvida, envolvendo o mais íntimo da sua personalidade.

Quanto mais a consciência foi influenciada por estes preconceitos, erros, fantasias e anseios infantis, mais se dilata a fenda entre o “como vivemos” e o “como a nossa individualidade devia viver”, até se chegar a uma vida mais ou menos artificial, em tudo distanciada dos instintos normais, da natureza e da verdade. A função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico (dos sonhos) que reconstitui, de maneira subtil, o equilíbrio psíquico total.

É aquilo a que chamo função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica. Explica por que motivo pessoas com ideias pouco realistas, ou que têm um alto conceito de si mesmas, ou ainda que constroem planos grandiosos em desacordo com a sua verdadeira capacidade, sonham que voam ou caem. O sonho compensa as deficiências das suas personalidades e, ao mesmo tempo, previne-as dos perigos dos seus rumos actuais.

É necessário haver alguma coisa eficaz para que mudemos de atitude ou de comportamento. E é isto que a linguagem do sonho faz: o seu simbolismo tem tanta energia psíquica que somos obrigados a prestar-lhe atenção.

Por que motivo os sonhos se desenrolam sob a forma simbólica?

É um facto que um verdadeiro sonho emprega, quase sempre, meios retirados do simbolismo. Uma vez que o sonho é uma expressão da vida psíquica mais profunda, é fácil de compreender que deve utilizar um meio igualmente profundo. O nosso inconsciente constitui a nossa vida mais íntima. Contém todo o nosso atavismo, as hereditariedades, as recordações, os recalcamentos e os complexos… O nosso inconsciente oculta-se nas profundidades mais recônditas do nosso ser. Os símbolos conduzem o nosso espírito para fora do tempo, em direcção a horizontes infinitos de cuja existência a nossa razão nem sequer suspeita.

Um exemplo: pensemos na palavra PÃO.

Que diz a nossa razão? Que o pão é o resultado do trabalho que o padeiro efectua com a farinha. Nada mais.

Mas… o que diz a nossa emoção profunda? Que o pão representa bem mais coisas…

Desde sempre que a palavra pão surge ornada de poesia e de simbolismo. O pão é simultaneamente banal e sagrado; evoca outros símbolos importantes, como a terra, o sulco da charrua, o trigo, a chuva, a fertilização dos campos, etc.

Intervém na oração: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Fala-se do “pão dos anjos”. Para os cristãos, o corpo de Cristo torna-se numa hóstia de pão; etc. Foi assim que o pão se transformou nesse belo símbolo de riqueza humana, de simplicidade e de fraternidade… Haverá, porventura, acção mais comovente (em profundidade) do que «compartilhar o pão»? E, no entanto, racionalmente, compartilhar do mesmo pão é a mesma coisa que dividir por dois um pau de chocolate.

Se pensarmos em compartilhar um pedaço de chocolate com alguém, tal acto deixa-nos completamente indiferentes, ao passo que a ideia de compartilhar o pão já representa uma emoção de outra ordem. É por esta razão que o pão surge tão frequentemente nos sonhos, simbolizando toda uma riqueza positiva e benéfica, com múltiplos significados.

Ainda um outro exemplo: se vemos com emoção um navio partir, é porque, sem o sabermos, sofremos a acção do seu simbolismo. Racionalmente, é apenas um barco que se afasta, mas, simbolicamente, é a aventura, a separação, a mudança de vida, a procura da felicidade, a viagem rumo a novos horizontes ou a busca de um paraíso perdido…

Se certos sonhos ecoam tão profundamente em nós, é natural que o meio empregue esteja em proporção. Existe nos símbolos uma riqueza emotiva inacreditável. Os grandes símbolos conservam-se intactos através dos milénios e das civilizações. Reviver, em sonhos, um dos grandes símbolos do mundo equivale a mergulhar na nossa mais universal humanidade.

Os sonhos quotidianos

São os sonhos que traduzem a nossa vida pessoal do momento, as nossas preocupações, desejos, impulsos, cóleras, etc.

São interessantes, na medida em que esclarecem uma situação que não se encontra bem definida no estado consciente. Como tocam as cordas inconscientes, alimentam-se de fontes escondidas, que seríamos incapazes de examinar, quando acordados.

Os sonhos utilizam todo o material «esquecido» da nossa vida, conhecem as nossas possibilidades e desejos. Se fazemos, em estado de vigília, observações banais, elas depressa são esquecidas. Mas serão mesmo esquecidas? Não, nada disso. Elas continuam a permanecer nos centros nervosos inconscientes, onde alguns dos nossos sonhos irão descobri-las a fim de nos mostrarem situações a que devemos estar atentos. Os sonhos quotidianos ajudam-nos à nossa própria descoberta. Chamam-nos à atenção. Podem lembrar-nos características nossas às quais não temos dado a devida importância mas que podem prejudicar-nos. Tanto nos mostram as consequências dessa característica, como nos mostram os benefícios de uma mudança. Muitas vezes indicam-nos o percurso que teremos de fazer para nos mudar-nos, as vias que temos de seguir para nos “libertar-nos”.

Os sonhos quotidianos colocam-nos na pista de nós próprios. Muitas vezes, as pessoas julgam-se «alguém», crêem ter uma «forte personalidade», etc., e uma simples análise vem demonstrar que nada disso existe, pois o fundo dessa personalidade é fraco, timorato, recheado de complexos, etc.

Quantos sonhos não têm dado início a novas vidas! Porquê? Porque o sonho perturbou o sonhador e este procurou então descobrir o seu significado. Tendo conseguido decifrá-lo, com a ajuda de um psicólogo especializado, deu-se conta de que «qualquer coisa não estava bem». E abençoou o sonho por tê-lo avisado da necessidade de modificar a sua situação anterior.

É como se a nossa essência, o ‘nós’ que existe no mais fundo de cada um, que guarda o “material esquecido”, que nos conhece verdadeiramente, velasse e zelasse por si mesmo e comunicasse com o nosso lado consciente (que comanda as “manobras”).

Como as mensagens que um sonho envia são complexas e profundas, utiliza símbolos, a forma mais fácil de guardar determinados conceitos.

Na vida normal, a compreensão dos sonhos é até, por vezes, considerada supérflua. De um modo geral, é uma tolice acreditar-se em guias pré-fabricados e sistematizados para a interpretação dos sonhos, como se pudéssemos comprar um livro de consultas para nele encontrarmos a tradução de um determinado símbolo. Nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho.

Os arquétipos

As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.

Uma das grandes fontes do sonho são os factos e as imagens do mundo que vivemos e conformam a sua experiência. A outra é o mundo íntimo da nossa alma, o inconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu. É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos de arquétipo.

Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.

Nestas imagens arcaicas estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos. Todos os marcos (etapas) da vida pelos quais o homem passou desde os primórdios ficaram “gravados” em nós. Desde os primórdios da nossa existência, e independentemente da raça, do sexo, da época, etc, todos passámos e continuaremos a passar pelas mesmas experiências. Nascimentos, mortes, dúvidas existenciais, desesperos, alegrias, calamidades, guerras, medos…

Há muitos exemplos, mas não em número infinito, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais. Estes agrupam-se em arquétipos, que são como que a essência de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração. Se desde os primórdios da existência se faz sempre o mesmo percurso, se esses padrões são repetidos incessantemente e fazem parte da herança do inconsciente das gerações que se seguem, não só ficam “gravadas” as experiências como a melhor forma de ultrapassá-las.

O número de arquétipos é limitado. O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atamo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.

De forma geral, fazemos hoje o que o homem sempre fez em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são e sempre foram idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.

Estes legados ancestrais, arquetípicos, aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.

O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.

Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens.

Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.

Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens simbólicas acessíveis ao bom senso.

É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. Era através deles que se transmitia a sabedoria e a experiência. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.

Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte. Daí os dicionários de símbolos serem por vezes exaustivos, explicando o símbolo à luz das mais diversas culturas, na literatura, etc, etc.

Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.

A voz dos arquétipos é a voz do género humano.

* * *

Na interpretação de um sonho temos, então, os seguintes símbolos:

Símbolos naturais – derivados dos conteúdos inconscientes da psique individual.

Símbolos culturais – símbolos usados para expressar “verdades eternas”. São imagens colectivas aceites pelas sociedades civilizadas.

Símbolos arquetípicos ou Arquétipos – símbolos comuns a todos nós desde os primórdios da humanidade.

Como foi dito acima, o sonho não pode nunca ser separado de quem o sonhou. Só essa pessoa sabe o significado dos símbolos – o que cada símbolo representa para si. Um mesmo símbolo (natural) pode ter significados diferentes para duas pessoas.

Seguem-se os símbolos culturais. É preciso saber, grosso modo, o significado do símbolo. Por exemplo, o pão. Depois, pensar no significado que o pão tem para si. O que é que o significado do símbolo pão pode ter em particular para a pessoa que o sonhou.

Por último, os arquétipos. Insere-se num símbolo arquetípico?

Há determinadas regularidades simbólicas com matizes para cada pessoa.

De forma geral, não se encontra a resposta num livro banal. “Sonhar com X quer dizer Y.” Tem de procurar-se sempre o significado do símbolo ou do arquétipo e reflectir no que isso pode significar para nós. O mesmo sonho sonhado por duas pessoas não tem forçosamente de transmitir a mesma mensagem.

 

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A terra

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

Dos sonhos aos símbolos

A TERRA – Eis um dos maiores símbolos da Humanidade!… Qual o papel da terra?

• é fecundada (pela chuva e pelo sol);

• é passiva;

• dá frutos.

São estas as razões por que se compara a terra com uma mulher. Aliás, diz-se correntemente: a Terra-Mãe, as entranhas da terra, etc.

Além disso, muitas são as lendas que comparam os campos a uma jovem. Por quê? Porque os campos serão fecundados pela semente e darão frutos… É curioso saber-se, aliás, que alguns povos primitivos fecundavam a terra, passeando sobre ela amuletos representando o órgão sexual masculino. Creio não haver melhor exemplo que possa demonstrar que a terra sempre tem sido considerada mulher… Querem outros exemplos?

Se a terra simboliza a mulher, é normal que os instrumentos que se destinam a trabalhá-la (tendo em vista a fecundação) sejam considerados como símbolos de órgãos sexuais masculinos. É o que se passa com a relha do arado, com a enxada, etc. Se sonharem que «trabalham» a terra com qualquer daqueles instrumentos, estão a ter provavelmente um sonho sexual (de que falaremos mais adiante).

Outro exemplo: durante as danças sexuais, os povos primitivos cravavam na terra paus ou lanças para assim simbolizarem a união do macho (pau) com a fêmea (terra). Voltaremos a este assunto mais tarde.

Nos sonhos, a terra simboliza às vezes a Mãe ou a Virgem. Trata-se então da MÃE, em geral, ao seio da qual se retorna após a morte, para se dissolver e reviver eternamente…

Eis um sonho de uma jovem, na véspera do seu casamento:

Vi-me na casa que tínhamos alugado na cidade. Saí e encontrei-me num lindo campo fértil, com muitas árvores, flores e frutos de todas as cores…

Neste sonho, a terra fértil representa ela própria mas já casada (fecundada), desabrochada (com flores) e mãe (com frutos).

A água

 
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Publicado por em 2007 in mãe, símbolos, sonhos, terra

 

O fogo

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

Dos sonhos aos símbolos

O FOGO – O fogo tem sido sempre objecto de um verdadeiro culto. Na Antiguidade, o fogo era sinónimo de vida, de luz, de força e de amor… Aliás, o fogo encontra-se ligado aos sentimentos amorosos… Não se diz vulgarmente: uma paixão ardente… o coração em brasa… consumido de amor…a chama do amor?

Em sânscrito, a palavra tejas significa simultaneamente fogo, luz, força espiritual e esperma viril.

Se sonham com fogo, os sonhadores estão junto de grandes fontes de energia física. Nos sonhos surgem então chamas claras ou sombrias, forjas com ferro em brasa, altos-fornos gigantescos, etc.

O fogo permite transformar a matéria, por fusão. Além disso, é considerado um elemento purificador. Se no vosso sonho entra o fogo, podem estar certos de que esse sonho é cheio de significado. Procurarão, então, desembaraçar-se das vossas impurezas morais e das futilidades, a menos que o vosso sonho vos previna de que, inconscientemente, nasceram em vós novos sentimentos e ideais ardentes e puros.

O fogo, nos sonhos, é símbolo de luz, de purificação, de energia ou de sexualidade (tal como o sol! Os antigos, aliás, chamavam ao fogo «filho do sol»).

Eis um exemplo:

Encontro-me numa planície imensa, obscura… no meio da qual brilha um fogo claro, magnífico… Aproximo-me, com um receio misturado de um grande respeito. O braseiro torna-se cada vez mais claro e vivo, ouvindo-se o crepitar das chamas. Sem qualquer hesitação, entro nessas chamas, que me lambem, não me queimam. Caminho sobre o fogo e saio das chamas. À minha frente, ergue se uma coluna luminosa que sobe no céu, tendo no seu cume um outro fogo em forma de sol…

Eis um belo sonho, cheio de grande energia psíquica. Trata-se aqui de um jovem tímido, apagado, mas cuja alma estava «repleta de fogo» e sequiosa de beleza. Este sonho revelou-lhe inconscientemente muitas coisas: deu-lhe a certeza interior do que necessitava. E notem bem isto: saindo do fogo, viu uma coluna que subia no espaço em direcção a um sol. Eis outros dois grandes símbolos que mostram bem o carácter construtivo do seu sonho.

No entanto, o fogo mostra, em certos sonhos, numerosas deformações, a mais corrente das quais é o INCÊNDIO.

Se sonharem com incêndios, trata-se de um fogo que destrói, e o sonho tem o significado de um perigo interior que vos ameaça. Acendeu-se um fogo num recanto da vossa alma, que foi captado pelo vosso inconsciente, mas que sois incapazes de detectar quando em estado de vigília. Torna-se, por isso, necessário procurar a destruição que em vós se começa a operar e, portanto, deve fazer-se uma análise dos sentimentos inconscientes.

Tratar-se-á de uma paixão «ardente» e destruidora? De um esgotamento que põe em perigo os vossos nervos? De uma transformação nociva no ritmo dos vossos instintos? Só um profundo exame permite desvendar estes casos.

A terra

 

Subir e descer

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

Dos sonhos aos símbolos

SUBIR E DESCER – Em sonhos, a sensação de subir é quase sempre associada a grandeza e poderio. Falta ver, contudo, de que espécie de grandeza se trata.

Nos grandes sonhos, a ascensão é uma pesquisa ou uma garantia de força e de espiritualidade. A subida está ligada à LUZ, como iremos ver. Se fizermos uma ascensão numa atmosfera obscura, é porque existe provavelmente em nós uma força moral suficiente para furar essa obscuridade interior e encontrar a luz e a verdade. Se subirmos envolvidos em luz, o sonho mostra então que já alcançámos um desprendimento de nós próprios e um poder interior.

Pode acontecer, no entanto, que, na nossa vida corrente, estejamos ainda inconscientes desse facto e que não tenhamos sentido essa força em estado de vigília. É necessário, por conseguinte, encontrarmos a sua pista, para nos apoiarmos nela. Por que razão uma subida indica, no inconsciente humano, a ideia de luz e de beleza? Subir é um símbolo que toca os nossos instintos mais primitivos. Desde sempre, os homens colocaram «em cima» tudo quanto lhes parecia grande, luminoso e sublime.

Em cima colocam-se Deus e o Paraíso, ao passo que o Inferno é colocado em baixo. Por que não ao contrário? Jesus Cristo teve a sua ascensão. Diz-se de alguém que «sobe na vida». Afirma-se de outrem que tem «altos pensamentos», que possui uma «alta categoria», etc. Poder- se-ia crer que se trata de uma simples convenção, mas tal assim não é. O símbolo subir provém da ASCENSÃO DO SOL no céu.

Esta subida do nosso astro do dia provocou, nos tempos mais recuados, sentimentos de alegria, de euforia, de segurança, etc. A luz do sol, que se repete todos os dias, está associada à claridade e à beleza, pelo que não admira que a palavra subir se tenha tornado num grande e benéfico símbolo!

Estes elementos inconscientes encontram-se evidentemente nos grandes sonhos. Já lhes contei algumas páginas atrás o sonho de um homem que se desembaraçava de um incómodo cadáver. Deixámo-lo no momento em que o chefe da estação lhe dizia: «Aí vem o seu comboio!»

Vejamos agora o final desse sonho:

Tomei esse comboio que partiu a toda a velocidade; sentia-me encantado por me ter livrado do cadáver. Depois de uma grande viagem, encontrei-me numa espécie de Feira Popular, onde havia escadas que subiam bem alto para o céu. Observei uma multidão de pessoas a saltar em pára-quedas, a tornar a subir, a voltar a saltar… Quanto a mim, escolhi a escada mais alta, que se perdia no infinito. E disse para comigo: «Eu cá não terei necessidade de pára-quedas». Pus-me a subir, deslizando rapidamente ao longo da escada e encontrei-me no cimo, sozinho, em plena luz. Águias azuis precipitaram-se para mim, mas combati-as, caminhando sempre para o infinito…

Aqui temos, portanto, o sonho completo. Depois de se ter livrado do cadáver encontrado numa gaveta (que simbolizava aquilo de que o sujeito se devia desembaraçar interiormente), o sonhador empreende uma viagem (parte para outros horizontes interiores). Chega junto de uma escada e diz consigo: «Não terei necessidade de pára-quedas» (sinto-me suficientemente forte para subir bem alto sem receio de cair). Inicia a escalada, prosseguindo assim a libertação de si próprio e perseverando no caminho da perfeição.

A acção resulta: encontra-se banhado de luz. É atacado pelas águias: estes pássaros simbolizavam pensamentos elevados e serenos. Se assim se precipitam sobre o trepador, é para lhe arrancarem as suas últimas imperfeições e o impedirem de atingir o cume, antes de ter realizado o seu trabalho espiritual. O sonhador combate-as e continua. Pode ter-se a certeza de que a situação física e mental deste homem está em vias de perfeição e que se encontra destinado a alegrias e conquistas elevadas.

Noutros casos, sonhar com subir significa que o sujeito procura dominar os que o cercam. Este género de sonhos é muito frequente em pessoas tímidas, possuídas de complexos de inferioridade, pessoas que sofreram fortes humilhações, etc. Por se considerarem inferiores, essas pessoas procuram inconscientemente tornar-se superiores, mas no mau sentido do termo. Trata-se assim de uma compensação, que não é mais do que uma vingança. O sonho já não pertence à categoria dos «grandes sonhos», mas dos sonhos correntes que apenas traduzem um estado de espírito quotidiano.

Eis um exemplo deste tipo de sonho:

Encontrei-me no topo de uma montanha, de onde distingui um vale que formigava de escravos. Disse para comigo: «Tudo isto será meu se conseguir subir ainda mais alto». Senti-me elevado no ar, armado com uma espada com a qual despedaçava tudo o que me passava ao pé…

DESCER – Ao contrário da subida, a descida conduz o sonhador para os seus instintos mais primitivos ou para os seus impulsos mais brutais. Não raro, o sonhador, depois de ter chegado ao termo da descida, volta a subir (volta portanto a tomar consciência de si, após ter explorado o seu inconsciente). Nas descidas, o sujeito é muitas vezes acompanhado por imagens tenebrosas e infernais (não é verdade que os maus sentimentos se chamam «sentimentos baixos»?). É frequentemente interessante analisar estes sonhos de descida, pois revelam os cantos mais escondidos do inconsciente.

O Fogo

 
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Publicado por em 2007 in símbolos, sonhos

 

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As forças da natureza

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

2 – Os sonhos quotidianos

Dos sonhos aos símbolos

3 – As forças da natureza

O SOL é o maior símbolo de energia. Quando o vemos em sonhos, podemos acreditar em resultados fecundos da nossa actividade, no nosso poder moral, e na nossa tendência para a perfeição. Porquê?
O sol é um símbolo de vida. Permite a fecundidade da terra. É graças a ele que as árvores e os campos produzem os seus frutos. Além disso, para todos os homens de todos os tempos, a aparição do sol (e a subida desse astro ao céu) faz desaparecer os terrores nocturnos, traz consigo segurança, claridade e calor.

Eis um exemplo:

Sonhei que era uma estátua de pedra, com a impressão indefinível de me encontrar fechado num caixão, de onde me era impossível sair. Apenas os meus olhos se moviam. Estava no centro de um imenso sol vermelho, que não irradiava qualquer calor. Em seguida, pouco a pouco, sóis mais pequenos começaram a andar à volta do grande disco e tive a sensação nítida de que o sol onde me encontrava petrificado começava a aquecer progressivamente. Senti então – e não posso esquecer essa impressão – que saía da minha prisão e me punha de pé… Toda a atmosfera era de fogo e oiro. Subi lentamente em direcção a essa claridade fantástica, deslizando verticalmente para o alto. À medida que subia, via, cada vez mais distintamente, uma porta estreita e iluminada, onde por fim cheguei. Sempre rodeado por essa auréola de luz, bati à porta e ouvi uma voz que me dizia: “Arde ainda durante cinquenta anos e só depois poderás passar esta porta…”. Este sonho tornou-me muito feliz. Não sei bem a causa, mas, no dia seguinte, comecei a rezar…

Eis o que se pode chamar um «grande sonho». O que encontramos nele? Um aprisionamento moral devido às imperfeições do sujeito (sente-se fechado num caixão de pedra, banhado por uma luz fria), seguido de uma libertação. Com efeito, a luz torna-se mais quente e o homem liberta-se da sua prisão. Tudo se torna luminoso e doirado (riqueza espiritual). Repare- se que, em seguida, ele sobe (veremos a seguir estes símbolos).

Chega a uma porta estreita, luminosa, que simboliza a «passagem» do seu estado de aperfeiçoamento à perfeição total. São-lhe, todavia, impostas certas condições: Arde ainda… ou seja, purifica-te ainda mais antes de poderes penetrar nesta porta da perfeição!

Não é, pois, de admirar que este homem se tenha posto a rezar, coisa que nunca se lembrara de fazer! Este sonho obrigou-o a sair do seu «eu» para abraçar a humanidade, no seu sentido mais lato, mais elevado e mais fecundo. Mostrou-lhe o quanto as suas pesquisas espirituais eram fecundas, assim como o caminho ainda a percorrer…
Este sonho foi para ele uma «voz interior», como certas vozes que determinam as grandes vocações e criam os profetas.
Nos sonhos, o sol é sempre sinónimo de força activa e de consciência de si próprio. Constitui um sinal de espiritualidade e de amor. Não é verdade que de um santo se diz que «brilha como o sol»? O sol significa esperança, riqueza interior, perfeição, beleza; às vezes até é sinónimo de sexualidade, no seu sentido mais belo. E por quê a sexualidade? Porque ela exige purificação e dádiva, de que o sol é o símbolo, sendo sempre positivo e benéfico. Os sonhos em que o sol entra devem ser sempre analisados com o maior cuidado, tendo em conta a energia que trazem consigo.

No entanto, se o SOL SE PÕE no sonho, esse facto assume o mesmo significado que assume na vida desperta. Significa que a atmosfera interior está em declínio; a energia diminui, a claridade cede o lugar às trevas e ao medo. Muito frequentemente os sonhos mostram um sol que desce lentamente sobre o mar. Prestem atenção! Este sonho quer dizer (grosso modo) que a consciência e a lucidez começam a perder-se no inconsciente cego… Este género de pensamentos é, muitas vezes, uma «actualização» bastante nefasta do inconsciente e deve ser analisada com profundidade.

Subir e descer

 
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Publicado por em 2007 in símbolos, sonhos

 

Sonhos com a escola e com exames

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

Sonhos com a escola e com exames

Os adultos não costumam gostar de sonhar com o ambiente escolar, porque lhes parece que as coisas do passado perseguem por demasiado tempo as pessoas. Pode acontecer que o sonhador, após dezenas de anos, se encontre de novo nos bancos da escola, seja sozinho, seja com os companheiros de outrora. Mas também se pode ver nesse mesmo cenário como adulto, rodeado de pessoas que conhece na actualidade.

Trata-se, uma vez mais, de fazer os deveres. Estes deveres assemelham-se aos da escola e, contudo, não o são. Sobre o estrado, encontra-se o professor particularmente severo da nossa juventude. Mas trata-se de alguém que se assemelha ao nosso chefe de escritório, ou até mesmo a um amigo. Pode também tratar-se de um desconhecido. Um determinado assunto está a ser objecto de estudo: o sonhador tem de fornecer as respostas correctas, tem de prestar provas de novo.

Existe uma enorme quantidade de sonhos que mostram o quanto a escola, muitas vezes considerada como um período sem importância nas nossas vidas, marcou o inconsciente da maioria dos indivíduos. Esses sonhos têm algo de actual: basta assistir a determinadas conversas, tão desprovidas de interesse para os que nelas não tomam parte, para vermos que os episódios que se relembram são mais do que simples recordações.

Quando é pedido ao psicoterapeuta que interprete estes sonhos, aquele não tem dificuldade em convencer o paciente de que se trata de sonhos que se reportam à sua vida actual. A escola é a escola da vida, na qual nos são dados deveres. Estes podem consistir em sanar um conflito num determinado período de tempo, ou em ultrapassar com sucesso as diferentes etapas da nossa existência.

Quando nos interrogam no sonho, a pergunta é posta pelo destino todo-poderoso e tem uma importância vital. Pode acontecer que o professor desconhecido esteja particularmente atento a alguém que não está a comportar-se devidamente. Também podemos ter de nos exprimir numa língua que nos é estranha, por exemplo, a língua do sentimento. Pode tratar-se de uma situação em que temos de deixar falar o coração.

Não podemos fazer batota ou soprar as respostas, porque estes sonhos contêm a personalidade total do sonhador, que compreende a escola, os alunos e o professor. Nem sequer podemos faltar às aulas. Se tentarmos fazê-lo, os sonhos seguintes trar-nos-ão uma resposta assaz significativa. Os sonhos escolares devem, pois, ser levados a sério.

Foi o que compreendeu uma sonhadora que se via entrar numa sala de alunos deficientes mentais, mal vestidos e pouco asseados. Esses alunos eram a sua criança interior, obviamente. No quadro viam-se exercícios de fácil resolução, mas que as crianças não conseguiam resolver. Estava também lá escrito o nome de um homem cuja relação lhe causara problemas sentimentais. Este sonho permitiu a esta mulher começar a desenvolver esse seu lado menos evoluído. Havia alunos que tinham de aprender a tratar das flores. Outros, embora ocupassem na vida lugares de destaque, ficavam a saber que não tinham passado de classe.

Freud e Adler, que centraram as suas investigações nos primeiros anos da vida do indivíduo, negligenciaram o aspecto actual e futuro dos sonhos com a escola.

Acontece frequentemente sonharmos na meia-idade com exames que devemos fazer para aceder a uma escola superior. Esta corresponde a uma etapa derradeira de formação da personalidade. Nos países de língua alemã, este exame designa-se por Matura, ou seja, é um exame de “maturidade”.

Contava um cientista, profundamente emocionado:

No sonho, via-me a dar aulas no liceu feminino de B. As alunas preparavam-se para o exame, trabalhando sobre um tema que lhes havia proposto e do qual me orgulhava. De repente, dei-me conta de que o examinando era eu. Fiquei angustiado. Sentei-me entre as alunas, que entretanto se tinham tornado homens e mulheres adultos. Escrevi sem parar até ao fim do exame, que devia entregar a um homem de rosto sério e bondoso. Acordei banhado em lágrimas.

O narrador lembrou-se de que ainda lhe restavam vinte minutos.

Este sonho deve ser interpretado psicanaliticamente. Trata-se de um sonho de maturidade, do qual sobressai o medo da impotência, o receio que o sonhador tem de não poder afirmar-se eroticamente diante das mulheres.

É preciso examinar o aspecto da sala de aula neste tipo de sonhos. O quadro é importante, uma vez que nele estão escritos, preto no branco, os deveres a executar. Pode ser a fórmula matemática da vida ou uma escrita exótica. A vida não aceita desculpas. Não se conseguir resolver o problema que é colocado em sonhos significa que as dificuldades da vida consciente não foram compreendidas na sua essência, nem sequer analisadas sob o ângulo de uma solução provável.

É mais do que altura de recuperar o tempo perdido.

O exame pode reportar-se a todo o tipo de acontecimentos. Um industrial, por exemplo, opunha-se à explicação de questões dogmáticas particularmente difíceis que surgiam num catecismo esquecido, enquanto um teólogo, dado à abstracção, tinha de resolver um exame de zoologia, tendo querido examinar mais de perto certas questões referentes à animalidade humana. Há também exames oníricos que não decorrem na escola.

Um homem de quarenta anos tinha de fazer um exame de barco a motor. Não tinha ainda compreendido, mesmo tendo um medo pavoroso de habitar junto de um lago, que as águas do inconsciente tinham formado dentro dele um enorme mar interior. Aquele que vai fazer exames deve ver se possui os conhecimentos necessários para passar. Se os tiver, a vida abrir-lhe-á novas possibilidades de maturidade.

 
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Publicado por em 2007 in escola, exames, professor, símbolos, sonhos

 

Os arquétipos

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

Os arquétipos

“Porquê tanto barulho a propósito do que é novo? Os valores mais antigos são mais importantes do que os valores mais modernos!” Esta afirmação foi feita num artigo recentemente publicado numa revista cultural. O mais antigo e o mais recente são dois pólos que habitualmente se opõem. No entanto, aquilo que existe em nós de mais passado reflecte sempre o que nos acontece no presente.

As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, isto é, comum a todos, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Além do mais, contêm a semente e o símbolo da vida presente e da vida futura. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.

Estas reflexões ajudam-nos a ver a importância do que a psicologia complexa chama de situação arquetípica e símbolo arquetípico. A interpretação dos sonhos só se torna possível se partirmos da realidade fundamental destes fenómenos psíquicos.

Os factos e as imagens deste mundo estão à disposição de cada indivíduo e conformam a sua experiência, sendo uma das grandes fontes das quais o sonho se serve. A outra fonte é o mundo íntimo da nossa alma, o inconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu.

O inconsciente colectivo pertence a todos nós e prolonga-se em cada um dos nossos seres. Contudo, não nos movimentamos totalmente à vontade neste mundo, uma vez que ele próprio nos resiste, mesmo que a sua riqueza esteja presente dentro do nosso próprio inconsciente pessoal, da nossa imaginação e dos nossos sonhos. Esse mundo influencia igualmente o nosso eu.

É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos de arquétipo.

Mas a existência desta realidade, atestada pela psicologia moderna, não nos dispensa da obrigação de explicar a origem e a natureza deste material onírico primitivo. Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.

Nestas imagens arcaicas, como lhes chamou Jung, utilizando uma expressão de Jakob Burckhardt, estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos.

Os arquétipos contêm igualmente as imagens tradicionais e as imagens perdidas, que simbolizam as relações humanas com os poderes do alto e com os poderes do mundo subterrâneo. Estamos aqui perante os grandes símbolos religiosos. O ser humano sempre se confrontou com a luz diurna e com a obscuridade nocturna, e esta alternância incessante marcou profundamente a sua alma.

Os homens conheceram as estações ricas e as estações pobres. Ficaram profundamente ligados à transformação da vegetação. Dominaram o fogo e domaram os animais, a fim de os colocarem ao seu serviço e, durante milénios, recearam o inverno e os animais selvagens.

No seio da comunidade familiar, do clã ou da tribo, o homem encontrava-se rodeado pela vida e pela morte dos parentes, pela juventude e pela velhice. Tomava contacto com a sua tendência sexual e com a sua relação de dependência no seio do casal. A maternidade e a paternidade eram formas de vida importantes e aceites, como tal, pela comunidade. O milagre que a criança representava e o desabrochar dos jovens enchiam os adultos de felicidade.

A comunidade, bem como a luta dos indivíduos e das grandes associações espontâneas, criava incessantemente situações nas quais se começava a desenhar um certo comportamento humano típico. A cultura emergente difundia-se através da invenção da roda e da utilização do animal. As barcas e os navios atravessavam águas revoltas e construíam-se pontes sobre os rios. Formas de vida surgiam e conservavam-se através dos tempos, mesmo que sujeitas a modificações superficiais.

Poderíamos multiplicar os exemplos, embora não indefinidamente, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais, à semelhança do que acontece com as experiências de cada indivíduo. Estas agrupam-se em arquétipos, que são como que o núcleo de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração.

O número de arquétipos é limitado. Mas isso não os torna menos capazes de gerarem energia. Num comentário breve, Jung falou da analogia entre as formas típicas do inconsciente e a repetição morfológica ou funcional de certas semelhanças no domínio da natureza. À primeira vista, trata-se de “normas biológicas da actividade psíquica.”

O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atemo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. E fazemos bem. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.

Grosso modo, fazemos o que o homem sempre fez – desde as origens – em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.

Estes legados aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.

O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.

Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens. Assim, a criança (o arquétipo da criança) simboliza sempre a sobrevivência e as possibilidades futuras.

As mulheres são conduzidas ao seu ser mais profundo quando sonham que vão ter um filho (veremos mais adiante como o mesmo pode acontecer com os homens). Em todas as épocas, as mulheres prodigalizaram carinho e cuidados e continuaram a sentir-se ligadas ao que nascia delas. Assim se imortalizou a figura universal da grande mater (mãe).

Em todas as épocas, o guerreiro aceitou, ou teve de aceitar, a morte, e o nómada errou pelos caminhos ou pelas comunidades. Fomos sempre jovens e fomos sempre velhos. Sempre convivemos com a miséria e o medo, bem como com os frutos da vida. Construímos a casa e o fogo destruiu-a. O rio e o mar foram sempre símbolos da existência.

Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.

Frequentemente, é só com a ajuda de um intérprete que podemos ter acesso aos nossos conteúdos internos. No entanto, a sua energia é-nos facultada de igual modo. Segundo Nietzsche, que apenas pressentia a existência e a profundidade de certas relações, é através do sono e do sonho que refazemos certas tarefas dos nossos antepassados.

Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens oníricas acessíveis ao bom senso. Não é um homem em particular que simboliza o nómada, mas antes uma figura cinzenta embrulhada num manto e com um chapéu de abas largas. O nómada mexe com o nosso lado que prefere a preguiça e a comodidade. Talvez nunca tenhamos estado em determinados locais ou situações.

Porém, no sonho, as ondas embatem furiosamente contra o nosso navio; atravessamos desfiladeiros e perdemo-nos numa paisagem glaciar; estamos no meio de uma batalha e não sabemos se escaparemos com vida; catedrais magníficas rodeiam-nos e o rosto de um deus sorri-nos, mesmo que nunca tenhamos estado numa igreja. Qual de nós já encontrou um tesouro? Ei-lo nos nossos sonhos, guardado por um gigante ou um monstro aterradores.

É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda.

A linguagem que utilizam é a mesma, mas a causalidade dos fenómenos é apresentada de forma diferente. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.

Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte.

Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Cada ser humano seria apenas uma unidade minúscula, isolada dos seus semelhantes. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.

Não podemos deixar de referir que há pessoas que se outorgam uma importância desmedida, e que crêem que antes delas nada de significativo se passou, e que nada de significativo ocorrerá após a sua morte. Outras há, aparentemente desprovidas de orgulho, que acreditam que os seus problemas individuais se revestem de uma gravidade imensa. Nunca ninguém amará ou odiará mais do que elas. O que lhes acontece é exclusivo.

Estes indivíduos terão provavelmente sonhos nos quais se confrontarão com imagens sombrias. Cabe-lhes aceitar ou não o significado dessas imagens. Muito ganhariam em inscrever o que se passa com eles no quadro da existência colectiva do ser humano. Carl Jung observa, enquanto médico:

Os arquétipos foram e são as grandes forças vitais do psiquismo e evidenciam-se da forma mais inusitada. Sempre nos trouxeram segurança e salvação e ignorá-los equivale a incorrermos nos perigos da alma. Podem também desencadear, infalivelmente, problemas neuróticos ou mesmo psicoses, comportando-se como órgãos ou sistemas funcionais negligenciados ou maltratados.

A voz dos arquétipos é a voz do género humano. Sentir-nos-emos bem quando a nossa vida consciente responder de forma adequada ao que os arquétipos têm para nos dizer. Quando os símbolos ancestrais nos aparecerem em sonhos, isso será sinónimo de uma maturidade acrescida.

O sonho traz à superfície o que alma tem de mais íntimo, a fim de que possamos abrir uma nova página na nossa vida. Dessa forma, vamos ao encontro do que nos pertence e somos reconduzidos à totalidade do nosso ser.

 
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Publicado por em 2007 in arquétipos, sonhos

 

Os sonhos quotidianos

Pierre Real
Dos Sonhos aos Símbolos – Interpretação dos Sonhos
Lisboa, Ed. Marabu-Notícias, 1967
Excertos adaptados

1 – O que é um símbolo

Dos sonhos aos símbolos

2 – Os sonhos quotidianos

São os sonhos que traduzem a nossa vida pessoal do momento, as nossas preocupações, desejos, impulsos, cóleras, etc.

Exemplo: Sonhei que agarrava num livro de estudo. Abrindo-o, com relutância, dentro dele encontrei um diamante. E, de súbito, senti-me cheio de alegria, mas não por causa do diamante… Trata-se de uma pessoa que deve estar a ser submetida a difíceis exames. O seu sonho diz-lhe: Este livro, que acabas de abrir, possui um valor que deves descobrir e que assegurará o teu futuro…

A maior parte dos pequenos sonhos quotidianos são do mesmo género. São interessantes, na medida em que esclarecem uma situação que não se encontra bem definida no estado consciente. Como tocam as cordas inconscientes, alimentam-se de fontes escondidas, que seríamos incapazes de examinar, quando acordados.

Exemplo: Sonhei que estava deitado na cama com a minha mulher. Se bem que estejamos casados há um ano, era o dia seguinte à nossa noite de núpcias. Uma pessoa entrou no quarto, trazendo uma bandeja. Era a minha mãe. Sobre a bandeja estava uma chávena fumegante de chá de camomila. Fiquei subitamente furioso e disse à minha mãe coisas odiosas das quais me envergonho só de pensar nelas …

Também aqui se trata de um sonho que traduz uma situação. Aquele homem foi continuamente abafado e protegido pela mãe e concebeu contra ela uma violenta revolta interior, a maior parte das vezes inconsciente. O que diz o seu sonho?
Vês? A tua mãe ainda aí está. Casaste mas, apesar disso, ela recusa-se a deixar-te só. Pretende ainda cuidar de ti e proteger-te! Recusa-se a admitir que já és um homem! Por isso te traz o chá de camomila. Apesar do teu casamento, considera-te ainda um bebé.

Deve ter-se em conta que a análise psicológica pôs a descoberto os violentos ressentimentos desse homem para com a sua mãe, cuja tirania lhe tinha distorcido o carácter. Essa análise psicológica foi feita a partir do sonho que tanto o havia perturbado, pois mostrara- lhe a situação real…

Dir-se-ia que os sonhos possuem uma visão bem mais lata de todos os acontecimentos e de todas as possibilidades. Os sonhos utilizam todo o material «esquecido» da nossa vida, conhecem as nossas possibilidades e desejos. Se fazemos, em estado de vigília, observações banais, elas depressa são esquecidas. Mas serão mesmo esquecidas? Não, nada disso. Elas continuam a permanecer nos centros nervosos inconscientes, onde alguns dos nossos sonhos irão descobri-las a fim de nos mostrarem situações a que devemos estar atentos.

Exemplo: Tive um sonho tenebroso… Estava em minha casa a escrever e abri uma gaveta da secretária. Dentro, vi o cadáver de um homem em ponto pequeno! Aterrorizado, comecei a tirá-lo para fora, mas ele aumentava de tamanho à medida que o tirava. Estou a ver a cena com todos os pormenores. O cadáver retomou a sua estatura normal e caiu pesadamente no solo; meti-o, em seguida, num baú… Reparei que o corpo crescia ainda e fechei ainda mais solidamente a mola. Depois, vi-me à beira de um rio. Lancei o cadáver à água e fiquei espantado por vê-lo nadar na minha direcção… Disse para comigo: «Estranho! Está morto e apesar disso consegue ainda nadar.» Finalmente, o corpo afundou-se; encontrei-me de repente numa estação de caminho de ferro e um homem, em uniforme, dizia-me: «Eis que chega o seu comboio!

Este sonho deve realmente meter medo? Nada disso. É verdade que nele intervém um cadáver mais ou menos recalcitrante, mas esse cadáver é verdadeiramente inofensivo. Qual é o significado do sonho? Vejamos quais são os seus elementos principais: um cadáver; um rio; deitar à água o cadáver que não se afunda imediatamente; uma estação; um comboio. Coloquemos então a questão, tal como num romance policial: quem é o cadáver? O que representa ele?

Um cadáver é, evidentemente, uma coisa morta. Essa «coisa» é fechada numa mala e deitada ao rio. O sonhador terá, por conseguinte, algo a «enterrar», a fazer desaparecer? Após uma conversa com este homem, tive conhecimento de que toda a sua vida era uma máscara, se bem que ele próprio o ignorasse.

Tudo o que lhe parecia ser não correspondia em nada ao que era realmente. A sua agressividade prejudicava-o na vida profissional e sentimental. Julgava-se um homem forte e enérgico. No entanto, no fundo dele reinava uma intensa timidez, apoiada em grandes complexos de inferioridade.

Esta pessoa tratava assim de disfarçar a sua atitude, pelo que o sonho se pode explicar da seguinte forma: Esse cadáver és tu! Esse cadáver significa tudo o que te inibe, em termos de falsas atitudes, de concepções erradas de vida. Mostra-te o que existe de petrificado em ti. Se te desembaraçares dos teus medos interiores e dos complexos, deixarás de estar moralmente «morto» e renascerás para uma vida nova.

O nosso sonhador coloca a sua vida «fingida» numa mala e tenta desembaraçar-se dela, deitando-a ao rio. Mas as falsas convicções perduram, como o demonstra o cadáver que não se submerge logo. Com efeito, temos de compreender que este homem vive há já muito tempo por detrás de uma máscara. À sua volta criou-se uma verdadeira fortaleza de defesas, que não se destrói facilmente. Por fim, o cadáver desaparece. O sonhador encontra-se numa estação de caminho de ferro e alguém lhe diz: «Aí vem o seu comboio». Quer isto dizer: Podes partir agora para novos horizontes, pois já te desembaraçaste de tudo o que havia em ti de falso e de morto.

Insisto no facto de que, quando me procurou, este homem acreditava conscientemente na realidade profunda da sua aparência exterior. Por vezes, tinha a sensação vaga (portanto, inconsciente) de que tudo aquilo era falso, mas pensava rapidamente noutras coisas. Tinha medo de se ver tal como era… O sonho serviu assim de aviso, dizendo-lhe: Acreditas nisso? Julgas-te forte? Pois bem, é tudo ridículo. És fraco, tímido e só te tornarás um verdadeiro homem quando trabalhares para te conheceres a ti próprio e para seres tu próprio.

Aliás, o sonho não termina aqui. Voltarei a falar dele mais tarde, quando examinarmos os grandes símbolos.

Eis outro sonho do mesmo género: Sonhei que me encontrava nos bancos da escola. Tinha a minha idade actual, mas os meus antigos condiscípulos conservavam as suas feições de crianças. Fui obrigado a fazer os meus trabalhos, como os outros. Em seguida, fui submetido a um exame diante de todos e condenado a ser esquartejado.

Este género de sonhos (escola, exames, condenação à morte) é muito frequente e diz sempre respeito à situação actual do sonhador. A escola representa a «escola da vida». O exame significa: Vejamos se estás armado suficientemente para enfrentar a vida.

No caso deste sonho, a resposta é NÃO. Com efeito, o sonhador é condenado a ser esquartejado, o que quer dizer: Não te encontras apto a enfrentar os problemas da tua escola da vida; deves morrer para renascer; deves liquidar tudo o que em ti existe de mau e de errado; serás, por conseguinte, “esquartejado” ou seja, “desmembrado”. É indispensável que assim aconteça, pois deves ser desmembrado (dividido) para que isso te permita analisares-te e conheceres-te melhor. Quando isso for feito, poderás de novo reagrupar os fragmentos «esquartejados» da tua personalidade, como ponto de partida mais lúcido e mais enérgico.

Espero ter mostrado nestes exemplos como os sonhos quotidianos nos colocam na pista de nós próprios. Muitas vezes, as pessoas julgam-se «alguém», crêem ter uma «forte personalidade», etc., e uma simples análise vem demonstrar que nada disso existe, pois o fundo dessa personalidade é fraco, timorato, recheado de complexos, etc.

Quantos sonhos não têm dado início a novas vidas! Por quê? Porque o sonho perturbou o sonhador e este procurou então descobrir o seu significado. Tendo conseguido decifrá-lo, com a ajuda de um psicólogo especializado, deu-se conta de que «qualquer coisa não estava bem». E abençoou o sonho por tê-lo avisado da necessidade de modificar a sua situação anterior.

 

3 – As forças da natureza

 

 
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