A porta
2007 às 10:35 am | Na categoria porta, símbolos, sonhos | 2 ComentáriosGeorges Romey
Excertos adaptados
A porta
O sonhador ou a sonhadora que se encontrem numa sequência onírica que lhes proporcione um encontro com a porta não terão qualquer interesse em munir-se de utensílios de serralheiro. Nem sequer terão necessidade de uma chave, na maior parte dos casos. O imaginário propõe quase sempre ao sonhador que transponha uma porta aberta.
A abertura da porta onírica depende da vontade do sonhador de efectuar ou não a passagem do limiar que o separa do mistério. Este símbolo serve dois projectos distintos da dinâmica da evolução. A porta abre-se seja para lá da consciência, pondo o sonhador em contacto com o que ele queria ignorar de si mesmo, seja para lá da vida, o que o confronta com o vazio, com o nada. A porta tende a reunir as partes separadas do ser.
A porta esconde para melhor mostrar. Em terminologia freudiana, poder-se-ia dizer que a porta permite a reabilitação das pulsões recalcadas ou que, se preferirmos a terminologia junguiana, a porta dá acesso a uma parte da sombra.
A abertura mágica é um dos exemplos mais evidentes da passagem do limiar, já que sabemos que esta não se realiza através de um esforço racional por parte do sonhador. Só quando este tiver renunciado à dominação racional é que a porta se abrirá. O sésamo que dá acesso ao outro lado nasce desta renúncia.
Não revelaremos o que espera o sonhador do outro lado da porta até termos sensibilizado o leitor para o carácter mágico da abertura. No início de um sonho, Allan encontra-se no corredor de um castelo. Tudo em seu redor é gigantesco, tanto mais que ele foi reduzido ao tamanho de uma ratazana. A redução de tamanho é um dos indícios da autenticidade desta etapa do caminho. Eis o que diz Allan:
É um grande corredor sem janelas…avanço em direcção a uma porta enorme, gigantesca, em madeira negra ou escura. Apercebo-me de que a fechadura da porta se encontra a quinze metros acima de mim, uma vez que tenho o tamanho de uma ratazana… quero passar para lá da porta. Tento abri-la mas ela não se abre…de repente, abre-se sozinha e entro numa grande divisão… agora, já tenho o meu tamanho habitual.
Na maior parte das situações, a porta onírica abre-se diante do sonhador para lhe dar a conhecer o que ele não aceita de si mesmo. A maioria dos sonhos estudados mostra que o sujeito tem de lidar com a sua agressividade recalcada. Violência, agressividade, combatividade, desejo de realização pessoal, constituem uma série de formas de enfrentar o mundo e de se confrontar com o outro que o sonhador recusa.
Há disto exemplos extraordinários fornecidos por pessoas de confissão judaica. As circunstâncias cruéis em que sempre se encontraram são mais do que justificativas da sua recusa da violência e da combatividade. Mas, ao recusar o princípio da violência, estão a condenar as suas próprias pulsões agressivas.
Quantas vezes ouvimos sonhos nos quais o sonhador encontra para lá da porta o espectáculo do que ele odeia: a violência nazi. Um sonho de William ilustra a reabilitação da capacidade combativa:
<p align=”justify“>… Encontro-me diante de duas portas…uma delas abriu-se sozinha…bastou que eu olhasse para ela…estou diante de uma escada… igual àquela que conduzia à cave da minha infância… tive vontade de lá ir… as portas eram azuis…mas agora vejo o vermelho e o negro da bandeira da Alemanha nazi…vejo um homem de uniforme… é estranho… hoje posso ver isto com uma certa distância… remete-me para os medos da infância…aconteceu qualquer coisa nesse período da minha vida que bloqueou a minha aceitação do mundo real… a vida não suporta que evitemos sempre o confronto com ela…
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