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O mar

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994

Excertos adaptados

O mar

O mar é, antes de mais, um importante símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo a ele regressa. Por isso, ele é lugar de nascimentos, de transformações e de renascimentos.

Contendo águas em movimento, o mar simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informais e as realidades formais. Trata-se de uma situação de ambivalência, que é sinónimo de incerteza, de dúvida, de indecisão, e que pode acabar bem ou mal. Daí que o mar seja, ao mesmo tempo, a imagem da vida e da morte.

Gregos e romanos ofereciam ao mar sacrifícios de cavalos e touros, também eles símbolos de fecundidade. Sabiam que dele também podiam sair monstros, simbolizando os abismos e as profundidades da psique humana, a nossa sombra, que tanto pode ser vivificadora como mortal, tudo dependendo da “utilização” que dela façamos.

O mar, cujo simbolismo se aproxima do da água e do do oceano, desempenha um importante papel em quase todas as tradições e culturas. Na tradição celta, por exemplo, os deuses teriam chegado à Irlanda por mar, e era por mar que se ia para o Outro Mundo.

Também aqui, como noutras latitudes, a criança deitada ao mar é um dos temas mitológicos mais marcantes em relação ao simbolismo da água: Merlim, por exemplo, é Mori-genos, o que nasceu do mar. Já o nome gaulês para Apolo é Moritas-gus, o que vem do mar.

Também nos Génesis, o mar é visto como uma criação da Divindade e que, por isso, a Ela está submetido. Só Deus pode secar o Mar Vermelho para que o Seu povo saia do cativeiro, em direcção à Terra prometida; só Deus pode acalmar ou fazer eclodir as tempestades.

Só Ele domina as águas revoltas – por isso, para os místicos, não raro há um paralelismo entre o mar e as paixões humanas. Podemos afogarmo-nos nelas ou, pelo contrário, atravessá-las com a ajuda de um barco e de uma estrela polar…

 

A água

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A água

As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de renascimento. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações imaginárias mais díspares, ao mesmo tempo que mais coerentes. As águas, massa indiferenciada, representam a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção.

Mergulhar nas águas, para delas emergir sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é regressar às fontes, reabastecer-se num imenso reservatório de energia e dele beber uma força nova: fase passageira de regressão e de desintegração, que condiciona uma fase progressiva de reintegração e de renascimento.

Origem e veículo de toda a vida, a água é um símbolo universal de fecundidade e de fertilidade. A água é também um instrumento de purificação ritual. A ablução desempenha um papel essencial em todas as culturas. Pela sua virtude, a água apaga todas as faltas e todas as máculas. A água do baptismo, sozinha, lava os pecados, e só é conferida uma vez porque faz aceder a um outro estado: o do homem novo. A rejeição do homem velho, ou seja, a morte de um momento da história, pode comparar-se a um desaparecimento, a uma destruição: uma época é extinta e outra surge. Por isso a água é, ao mesmo tempo, morte e vida.

As grandes águas anunciam grandes calamidades e provações, e as águas calmas simbolizam a paz e a ordem. O oásis do deserto funciona como um local de encontro de povos diferentes, que devem partilhar da riqueza do deserto, sem olhar a distinções de raça ou credo. Da mesma forma, os lugares de culto estabeleciam-se preferencialmente junto de nascentes e os peregrinos procuravam nesses centros a força para poderem trilhar caminhos novos, interiores e exteriores. A água tinha, e tem, um poder sagrado e sacralizante.

Dos símbolos antigos da água como fonte de fecundação da Terra e dos seus habitantes podemos passar para os símbolos analíticos da água como fonte de fecundação da alma: o rio e o mar representam o curso da existência humana e as flutuações dos desejos e dos sentimentos. A água é o símbolo das energias inconscientes, dos poderes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas.

Uma interpretação simbólica da água não pode deixar de reconhecer a clivagem que existe entre águas vivas, generosas e águas adormecidas ou pérfidas. Quando o nosso imaginário quer promover os valores das primeiras, os sonhos falam-nos de nascente, de rio, ou de mar. Quando quer realçar os valores das segundas, trar-nos-á imagens do lamaçal, do pântano, ou do charco.

 
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Publicado por em 2007 in água, mar, rio, símbolos

 
 
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