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A floresta

Jean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados

A floresta

Menos aberta do que a montanha, menos fluida do que o mar, menos subtil do que o ar, menos árida do que o deserto, menos escura do que a gruta, mas fechada, enraizada, silenciosa, verdejante, sombria, nua, múltipla, e secreta, a floresta de faias é arejada e majestosa; a floresta de carvalhos, nos grandes caos rochosos, é céltica e druídica; a de pinheiros, nas encostas arenosas, evoca um oceano próximo ou origens marítimas. E é sempre a mesma floresta. (Bertrand d’Astorg).

Em múltiplas tradições, nomeadamente entre os Celtas, a floresta era um verdadeiro santuário em estado natural: na floresta de Brocéliande, na Bretanha, os sacerdotes (druidas) reuniam-se para as cerimónias rituais, à semelhança do que acontecia entre os Gregos, por exemplo, com a floresta de Dodona. Na Gália, aliás, os templos de pedra só foram construídos por influência romana, após a conquista.

Também na Índia os ascetas budistas, entre outros, nelas procuravam refúgio para meditar e nelas encontravam o repouso necessário às suas práticas religiosas. No Japão, as florestas de coníferas são verdadeiros santuários naturais e, na China, a montanha coberta por uma floresta é quase sempre o local de um templo.

Existe, pois, uma estrita equivalência semântica, na época antiga, entre a floresta e o santuário. Aliás, a árvore, um dos grandes arquétipos da Vida, faz parte integrante de florestas, bosques e até selvas, e representa sempre, em todas as tradições e culturas, do ponto de vista simbólico, o intermediário, por excelência, entre os três níveis do cosmos: o nível subterrâneo – já que as suas raízes mergulham no mundo ctoniano; o mundo terreno – o tronco ergue-se, vertical, convivendo com os demais elementos da natureza; e o plano aéreo – a copa frondosa, com os seus ramos, rebentos, flores e frutos, ergue-se para o céu, numa prece contínua ao transcendente e ao divino, testemunhada por todos os povos.

Mas, à semelhança dos outros símbolos, também a floresta apresenta uma evidente vertente dual: se é local privilegiado de diálogo com os deuses, se é oásis de paz e de silêncio, convite à interioridade e à meditação, se é espaço hierofânico, por excelência, também pode tornar-se “locus horrendus”, devorador e terrífico, selva virgem onde espreitam mil perigos e armadilhas.

Quantos não foram, e são, os que se deixam sensibilizar (na literatura e nas artes em geral) pelo mistério ambivalente da floresta, que pode ser, ao mesmo tempo, geradora de angústia e de serenidade, símbolo de opressão e de libertação.

Talvez seja por tudo isto que, em termos psicanalíticos, a floresta se encontra entre os grandes símbolos do inconsciente. Se pensarmos nos contos de fadas, lendas e mitos de muitas tradições, ou no folclore popular do mundo inteiro, veremos que neles abundam imagens de florestas que devem ser percorridas, atravessadas, e desvendadas nos seus caminhos labirínticos.

O temor, e até o terror, que provocam os monstros da floresta confundir-se-iam, segundo Jung, com o medo pressentido, por cada um de nós, perante as revelações do nosso inconsciente. Só atravessa a floresta o herói que ousar enfrentar os seus medos. No final da travessia, encontrar-se-ão o tesouro escondido, a Bela Adormecida, o elixir da imortalidade, o Graal.

 
 
 
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