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O espelho

Georges Romey
Excertos adaptados

O espelho

Ao evocar o espelho, dificilmente um psicólogo não pensará em Narciso, debruçado sobre a água, para sempre prisioneiro da contemplação do seu reflexo. No entanto, poder-se-ia afirmar que a armadilha narcísica, outrora omnipresente no discurso dos psicanalistas franceses, perdeu acuidade no pensamento dos que se lhes sucederam.

A atitude narcísica está tão disseminada como antigamente, mas fundiu-se de tal forma com um modo de vida dominado pelos valores da aparência que já não congrega as mesmas atenções do passado. Para falar verdade, a interpretação dos sonhos em que o espelho está presente não conduz a que nos detenhamos no tema do narcisismo.

Talvez porque todo o espelho imaginário se inscreve desde logo numa dinâmica de transgressão da aparência. Aproxima-se, assim, do valor que lhe conferem as grandes mitologias. O espelho do sonho funciona mais como uma passagem, como uma via de comunicação entre a aparência e a essência.

Tal como a janela, exprime transparência. Uma transparência ilusória para o olhar que se instala diante do espelho como espectador; uma transparência verdadeira para o sonhador que sentiu que todos os espelhos são feitos para serem atravessados.

Um espelho imaginado é, antes de mais, um espelho que deforma! Trairá sempre as expectativas do sonhador que o utilize com o intuito de captar a forma e de a fixar. O espelho revela a transformação inexorável e perpétua através da qual a vida se manifesta. Nos sonhos, como nos contos, é possível apelar à magia de um espelho. Podemos mesmo concluir que todo o espelho é um instrumento mágico.

Mas esta magia opera no sentido de uma dinâmica da metamorfose, de uma abertura em relação a aspectos imprevistos do ser. A magia nunca será cúmplice da memória, essa âncora tranquilizadora através da qual o sonhador quereria permanecer ligado ao passado. Uma das associações mais fortes do espelho é com a palavra fotografia. Esta correlação tem uma importância decisiva na tradução da palavra espelho.

Uma fotografia faz o que nenhum espelho aceitaria fazer: aprisiona um instante do passado! Incapaz de se opor à transformação de um presente em passado, a fotografia, numa atitude de presunção, apropria-se do presente e congela-o. Nos sonhos que analisámos, trata-se quase sempre da evocação de uma fotografia real que o paciente conhece e que relembra um instante da sua infância. Nestes clichés aparecem sempre pessoas ligadas à sua família.

O espelho imaginário só é mágico porque torna tudo fluido. A imaginação sabe que o vidro é um líquido. A fotografia e o instantâneo expõem um reflexo desesperado de conservação do presente. O espelho denuncia a vaidade do desejo de fixar a aparência.

O espelho só seria um falso testemunho se favorecesse a ilusão da perenidade. Na realidade, reenvia-nos constantemente para a verdade do instante e só pode dar conta das transformações sucessivas. Um espelho onírico é sempre testemunha e actor de metamorfose. Nos sonhos, todos os espelhos têm por vocação conduzir o ser ao encontro de si mesmo.

O espelho do sonho é um símbolo da transposição do limiar. Esta transposição é um movimento psíquico determinante para a reconciliação dos contrários. Uma sequência de um sonho de Anne ilustrará o que acabámos de dizer. Ao introduzir a ideia de um espelho sem limites, a sonhadora confere ao símbolo uma ressonância metafísica:

…Vejo, agora, pessoas que caminham, todas vestidas de branco…à parte o seu corpo, tudo é branco…tudo está demasiado uniformizado…e agora vejo…via um grande espelho que se quebrava…e todos os pedaços que caíam, liquefazendo-se, como se o espelho fosse feito de água…como se todos os postulados caíssem por terra, como se todas as velhas ideias fossem substituídas por novas…o espelho recompõe-se e é como se houvesse agora algo de novo no seu lugar…de repente, vejo a popa de um barco no espelho, um barco que desliza como se estivesse num lago…é um lago imenso…um espelho sem limites…parte-se tudo quando o barco deixa um rasto….

Uma vez que evocámos a dimensão metafísica, convém acrescentar que o espelho do sonho não convida apenas a conhecer a outra parte de nós mesmos. Favorece, também, quase sempre, o acesso ao outro lado do mundo visível! Todos os espelhos têm por modelo o espelho de Jean Cocteau em Orphée. O olhar que o atravessa caminha na direcção do outro mundo.

O espelho imaginário é, antes de mais, uma imagem que nos permite aceder ao outro lado das coisas. Um sonhador, Adrian, tendo descido, no decurso de um dos seus sonhos, ao fundo de uma gruta submarina, encontrou aí um espelho de Alice no país das maravilhas. Ao atravessar o espelho, Adrian admira-se da facilidade com que teve acesso ao outro lado das coisas…

A expressão o outro lado é a chave mestra da nossa teoria da passagem do limiar. No que diz respeito ao gelo e ao espelho, trata-se do outro lado da consciência e do outro lado do mundo visível. De um lado temos a aparência das coisas e do outro lado temos a essência das coisas. Entre as duas encontramos a transparência!

E já que citámos o mais clássico dos espelhos, o de Alice, convém relembrar as palavras que a menina pronuncia, dirigidas especialmente ao seu gato:

…Se prestares atenção, Minou, falar-te-ei de todas as minhas ideias sobre a casa do espelho. Há um quarto que podemos ver através do espelho…é igual ao nosso salão, embora as coisas aí estejam todas ao contrário…

Ao atravessar o espelho, Alice atinge uma zona da psique onde todos os valores estão ao contrário. O fenómeno não só se reporta a imagens mas também a palavras e a cronologia, como podemos constatar no diálogo em que a rainha diz que acaba de gritar porque se vai picar no dedo!

Quando a dinâmica do imaginário nos apresenta um espelho, está a convidar o sonhador a ultrapassar os valores da aparência, a viver na transparência, que é o único caminho que conduz à realidade do ser.

 
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Publicado por em 2007 in espelho, janela, símbolos, sonhos

 

O golfinho

Georges Romey
Excertos adaptados

O golfinho

Basta evocar este animal para que o nosso espírito se sinta mais leve já que o seu simbolismo lembra a prece cristã: Diz somente uma palavra e serei salvo! Após tantos sonhos em que o golfinho leva o sonhador até à luz, podemos estar cientes de que ele tem sempre uma função salvadora. Invariavelmente, tanto nos sonhos como nos mitos, o golfinho tem sempre o papel de guia e de salvador.

Cristo Salvador apresenta-se, por vezes, sob o aspecto de um golfinho. E desde a mais remota Antiguidade que o nosso peixe/mamífero desempenha sempre o papel de guia – basta pensarmos como os golfinhos se mantêm durante horas intermináveis à proa dos navios no mar alto, dando a impressão de que estão a abrir caminho.

Raros são os símbolos em que as associações de imagens se apresentam tão constantes e com um sentido tão evidente. Mas enquanto que a raposa, por exemplo, também desempenha a função de animal psicopompo (que serve de guia) – conduzindo as almas até às regiões da morte – a função do golfinho, embora seja também a de condutor, exerce-se em sentido oposto: o golfinho traz o sonhador do limiar do outro mundo até à luz, até à vida.

O papel de guia, de condutor, é atestado por uma associação íntima com os símbolos mais clássicos da dinâmica da “passagem”. Lembremos que o muro (que se ergue como um obstáculo ao progresso do sonhador) e que o espelho (que se interpõe de igual modo) e até mesmo a expressão da transparência que se apresenta sob a forma de um vidro, ou de uma janela, são indícios indiscutíveis do restabelecimento de uma conexão entre o consciente e o inconsciente.

O golfinho mostra muitas vezes que podemos ver o que desejamos e não exclusivamente o que pensamos que temos que impor a nós mesmos; reabilita, pois, o que é natural e incita à confiança nos impulsos instintivos. Aquele ou aquela que é guiado(a) pelo golfinho deve convencer-se da relação benéfica e positiva com o seu lado instintivo.

Os símbolos ligados ao universo do mar apresentam-se, naturalmente, em volta do golfinho: o mar, as algas, a praia e também a gruta marinha. É, aliás, muitas vezes nesta gruta que o sonhador, guiado pelo animal, vai encontrar as imagens da transparência: muros repletos de espelhos, o espelho de Alice, mesa e porta de vidro, etc…

Ora, a gruta marinha, tal como a gruta subterrânea, é uma representação do útero. E assim a gruta é como que o lugar de um renascimento psicológico. Como Jung lembrava, o termo grego que significa golfinho – delphis – está muito próximo da palavra delphus que significa útero.

Dois pares de valores opostos encontram-se constantemente presentes nos cenários em que nada o golfinho. Por um lado, o mergulho na profundidade que alterna com os saltos no ar e, por outro lado, a evocação das sensações alternadas de frio e calor.

Com efeito, o golfinho do sonho abrange um vasto campo de representações que permitem relacionar os mundos terreno e espiritual. Traduz ao mesmo tempo a angústia original do ser que é lançado no mundo e a interrogação metafísica de uma psicologia perturbada pelo insondável mistério da vida e da morte.

Mas o golfinho é, entre todos os símbolos que traduzem esta extrema dificuldade imposta ao espírito humano, aquele que pode ser considerado como o agente mais seguro do restabelecimento da dinâmica vital.

 
 
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