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A casa e as suas dependências

Ernest Aeppli
Les rêves et leur interprétation
Paris, Payot, 2002
Excertos adaptados

A casa e as suas dependências

É natural que muitos sonhos se reportem à casa e às suas dependências, já que, na nossa cultura, os acontecimentos quotidianos se desenrolam mais dentro de casa do que ao ar livre. Os sonhos mais correntes falam de casas precisas, de dependências bem conhecidas, que o sonho não deturpa em demasia. Nos sonhos mais importantes, a casa simboliza a casa em geral.

O arquitecto que desenha os nossos sonhos transforma a casa conhecida segundo os seus critérios. A sua actividade soberana junta as partes pertencentes às casas mais diversas, de uma forma improvisada e segundo uma inspiração que lhe é muito própria. Uma tal construção, misto de realidade e ficção, é uma combinação de imagens reais e de símbolos. Na casa onírica, vários conteúdos da nossa vida, mesmo que emergentes, fundem-se numa unidade psíquica.

A razão de estarmos nessa casa é quase sempre esclarecida pelo contexto e pelas ideias sugeridas, para que possamos reconhecer o motivo por que estamos a habitar aquele sítio. Sabemos, por experiência própria, que a maior parte das casas e dos quartos por onde passámos são recordações muito particulares, onde os destinos dos que os habitam desempenham um papel muito importante. É esta atmosfera que emerge no sonho e que cria um certo ambiente onírico.

Não podemos, de maneira alguma, tratar este assunto de uma forma exaustiva. Quando muito, poderemos afirmar: “Se me encontro numa determinada casa em sonhos, é porque a minha realidade psíquica dominante se exprime de forma mais clara através deste ambiente.”

O que se passa na casa passa-se dentro de nós mesmos. Nós somos, frequentemente, essa casa. De cada vez que num sonho estamos perante uma casa bem conservada, em ruínas, nova ou velha, essa casa refere-se ao sonhador. A casa informa-nos do nosso estado e mostra como nos comportamos interior e exteriormente. A actividade imaginativa da alma serve-se da casa, da maneira de a arrumarmos, para nos mostrar o nosso corpo e o que se passa nele.

Há dependências que são consideradas secundárias. Ficam à sombra de tudo o que constitui a personalidade da casa. E, contudo, estas dependências despoletam toda uma gama de sentimentos, de percepções, de recordações particulares, e mesmo certos complexos. As partes da casa que utilizamos de forma óbvia, por exemplo, a sala de jantar ou o escritório, raramente aparecem nos sonhos. Pertencem totalmente à esfera consciente e o seu conteúdo simbólico parece pobre.

Os sonhos têm uma enorme predilecção pelas dependências cujo conteúdo emocional é ambivalente. É o que acontece com a cave. Podemos compará-la psicologicamente ao inconsciente pessoal (que é o lugar onde depositamos as coisas das quais já não nos servimos). Simultaneamente, como a cave mergulha na terra, está próxima das camadas profundas que são apanágio da colectividade. Na cave há reservas; conservamos lá o vinho; abriga-nos quando nos sentimos ameaçados. Como é sombria, temos de a alumiar e as crianças não são as únicas a ter receio de um encontro perigoso.

Como acontece frequentemente na vida de todos os dias, os ladrões e os assaltantes escondem-se, em sonhos, na obscuridade desses lugares para nos assaltarem durante o sono, ou seja, quando estamos inconscientes. Se nos abstrairmos das caves modernas, construídas segundo todas as normas de higiene, o subsolo das casas esconde toda uma vida ilícita. As ratazanas comem os víveres; há sapos, salamandras e toda uma quantidade horrorosa de animais rastejantes nestes sítios húmidos.

Tal como na realidade, a cave dos sonhos encerra uma vida secreta e cheia de perigos. Conserva as reservas da alma e as possibilidades do inconsciente, tudo o que não foi ainda aberto e posto à nossa disposição. Quando sonhamos com a escada que conduz à cave, sonhamos com a descida às profundezas, a fim de irmos aí buscar os alimentos, o vinho, ou encontrarmo-nos com os aspectos obscuros da alma.

É por esta razão que a cave é um lugar de riquezas, mas também um lugar de terror. Esconde o que está por baixo, logo, a parte obscura do nosso corpo. Muitas pessoas não têm, pois, qualquer tipo de empenho em conhecer estes conteúdos do subsolo, em saber o que aí se passa.

É importante reportarmo-nos a recordações da juventude para interpretar os sonhos relacionados com a cave ou com a cozinha. São dois lugares que impressionam profundamente a criança. No entanto, o seu carácter simbólico é comum a todas as pessoas. Não estamos a falar das caves e das cozinhas actuais, saturadas que estão dos últimos avanços da técnica.

A verdadeira cozinha é o centro da casa. Depois de manipulados, os alimentos são aí transformados em algo pronto a ser consumido (o que acontece também no nosso intestino). É esta uma das razões pelas quais os sonhos com a cozinha têm a ver com a nossa digestão psíquica.

A cozinha é também um lugar de dominação feminina. A mulher encontra-se aí no seu elemento. Quando nos aparece em sonhos uma mulher na cozinha, ela simboliza o nosso lado provedor e maternal. Muitos homens projectam os seus desejos sobre o “pessoal da cozinha”, de forma indiferenciada, e interpretam esses desejos de uma forma puramente sexual. Seria útil ver nessa projecção a vontade de participar no alimento vital primitivo.

Nas cozinhas velhas, onde a decoração é irreal e crepuscular, reina uma actividade feminina incompreensível para o homem. E, contudo, de tempos a tempos, o homem é obrigado a ir, qual Fausto, ao lugar onde se encontram os poderes elementares da vida. A cozinha evoca os fantasmas mais bizarros: desde as intuições mais elevadas que se reportam às transmutações alquímicas – as da alma – às representações sexuais mais imediatas (o buraco do forno, a chaminé, o almofariz e o pilão).

Por vezes, a acção onírica desenrola-se no quarto de dormir. Tais sonhos põem em evidência as camadas mais íntimas do sonhador. Os problemas actuais podem também desenrolar-se no quarto outrora ocupado pelos pais, talvez porque o que se passa hoje tenha aí a sua origem. O quarto de dormir representa a esfera íntima de cada um, bem como o inconsciente pessoal, uma vez que é o lugar do sono.

Aí partilhamos a vida com os seres que nos são queridos. Daí que este tipo de sonhos anuncie a felicidade de uma relação onde reina o amor perfeito ou a dor indizível de uma relação votada à mais profunda inimizade. Mas estes sonhos só acontecem quando há algo de errado com essa esfera da vida do sonhador.

O sonho confere à cama uma importância particular. “Cada um se deita na cama que fizer.” Trata-se de uma situação relativa ao inconsciente. Na cama repousamos, nela estamos seguros. Nada é exigido àquele que dorme. Mas o sonho mostra o que o inquieta. É uma inquietação inconsciente que convém explorar. Habitualmente, a cama no sonho está do lado esquerdo, o lado do inconsciente.

Quando uma mulher deslocou a sua cama para a esquerda em sonhos, viu aparecer um fantasma. Os fantasmas só aparecem quando a ordem natural das coisas é alterada. Num outro sonho, uma mulher via a sua cama ocupar cada vez mais o quarto e a coberta adquirir um tom de vermelho vivo. Isso significava que uma paixão inconsciente e histórias de cama tinham tendência a ocupar demasiado espaço na sua vida.

Os sonhos com os sanitários são muito numerosos. Trata-se de um lugar que desempenha na vida das pessoas um papel mais importante do que quereríamos admitir. Com curiosidade e admiração, a criança aprende aí os fenómenos do corpo. Se recebeu uma educação esmerada, considerá-los-á interessantes e inconvenientes, simultaneamente. Nos sanitários, o homem mais dotado intelectualmente está tão próximo dos animais como qualquer outro. Confronta-se com certas substâncias do seu corpo que se tornaram supérfluas e que é necessário eliminar. Está sozinho no momento em que o seu corpo tem de se desfazer da matéria mais vulgar.

E, contudo, este tipo de sonho nada tem de grosseiro. Remete mesmo para a libertação de certas questões psíquicas. Descarregamos o que já foi utilizado, aquilo que sempre foi considerado uma sujidade. É raro que este tipo de sonhos se prenda com o convencionado estado anal infantil ou com o erotismo anal. Convém mencionar que os alquimistas sempre falaram da transformação dos excrementos em ouro. A experiência humana dá conta, aliás, que o mais vil se pode transformar no mais nobre.

Os sonhos que se prendem com o sótão são sempre um pouco suspeitos. Relacionam-se com recordações de juventude, com episódios eróticos precoces, com buscas e pesquisas interditas, tudo isto tendo como pano de fundo um cenário de velharias que despertam sempre a nossa curiosidade.

Para muitas crianças, a mansarda semi-obscura é um lugar de terror, tal como a cave. A criança projecta nela o seu pressentimento da existência de forças vitais obscuras. Nos sonhos com o sótão, encontramos frequentemente conteúdos cómicos, velhos ou proibidos, e tendemos a ver todo o tipo de pormenores e fantasias.

As escadas têm também a sua importância. Devem estar cuidadas e em bom estado, bem como ter os degraus equidistantes. As escadas ligam simbolicamente as diferentes partes da nossa personalidade. Quando há um degrau estragado ou o patamar é frágil, isso significa que há em nós um lado ao qual falta solidez. Pode haver certas escadas complexas ou difíceis de subir.

É o que se passa frequentemente com as que dão acesso à cave ou ao sótão. Não podemos deixar de mencionar a escada em espiral. Significa que só podemos aceder a zonas mais profundas se nos mantivermos ancorados no eixo da nossa vida. Estes sonhos surgem apenas a meio das nossas vidas.

A configuração da casa pode também ser diferente: grande, pequena, espaçosa, cheia de recantos; burguesa, palácio ou cabana, situada no campo ou na cidade. Estas diferenças dão-nos informações sobre o nosso ambiente psíquico. Cada adulto necessita de uma certa persona baseada no aspecto exterior. No decurso dos sonhos, a fachada da casa informa-nos sobre a persona. Algumas pessoas atribuir-lhe-ão um valor exagerado. Outras não lhe prestarão atenção alguma.

Um homem sonha que está a construir uma fábrica. Quando se aproxima dela, vê que por detrás de uma fachada imponente tem lugar uma imensa exploração. O mesmo se passava com a sua vida vazia, destinada apenas a enganar os outros. Um outro vê que a fachada da sua casa, que representa o seu edifício conjugal, está a ser renovada, embora o resto da casa esteja completamente destruído pelas bombas. O seu casamento é, pois, puramente formal: é uma bela fachada de aspecto enganador, mas que, antes de mais, engana o próprio sonhador.

A atitude dos nossos semelhantes traduz-se pela modificação da sua própria casa. Uma fortaleza cinzenta indica que é inútil tentar penetrá-la. Também pode acontecer que um homem impenetrável more numa casa ampla e clara, com as varandas rasgadas: eis-nos perante a sua verdadeira natureza. Sentimos que está pronto a acolher-nos. Por vezes, temos de mudar de casa, para uma casa mais espaçosa e mais clara. A vida parece querer conceder-nos um espaço vital mais amplo. Mas temos de atingir um grau de consciência mais elevado, temos de saber quem somos realmente. Uma mulher que não tinha preenchido estas condições teve o seguinte sonho:

Tinha de me instalar numa casa mais bonita e mais bem arranjada. Quando estava tudo pronto não conseguia encontrar o meu certificado de emprego nem o meu passaporte. Então, proibiram-me de mudar de casa.

Os sonhos que mostrem reconstruções são extremamente favoráveis. Querem dizer que nos renovamos. Podemos observar os progressos da reconstrução. Se a casa está quase terminada mas ainda não a habitamos, isso significa que ainda nos falta percorrer um pedaço de caminho. No entanto, este tipo de sonhos é muito favorável, porque indica que podemos edificar uma nova vida com maior segurança.

 
 
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