O lugar do mito na vida moderna – James Hollis
2008 às 9:28 pm | Na categoria psique, símbolos, sonhos | 1 ComentárioTags: Freud, inconsciente, Inconsciente colectivo, Jung
Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna
Dizem que, em média, gastamos seis anos de nossa vida sonhando. Essa façanha prodigiosa faz parte do intento teleológico da psique. Os sonhos são a rota íntima de saída da alma e constituem o processo gerador de mitos em cada pessoa. A rica tessitura de detalhes, a “transgressão” da lei de tempo e espaço vigente na vigília, o poder de síntese de novas combinações, as abundantes alusões a experiências anteriores, são todos aspectos conhecidos do estudioso de sonhos. Sempre misterioso e ineditamente surpreendente, em geral enigmático, trabalhar com sonhos vincula-nos de modo irremediável com o mistério. Se temos condições de acompanhar os sonhos durante certo período, eles efectivamente indicam movimentos, mostram, sem sombra de dúvida, como a pessoa está a trabalhar com as suas questões pessoais e resolvê-las. A soma desses sonhos constitui um épico heróico no mínimo tão extraordinário quanto os produzidos por Homero ou Dante. A descida ao mundo inferior está aí, os monstros temíveis, o imenso cartel de personagens, as batalhas titânicas – ou seja, o próprio conteúdo dos mitos.
As descobertas de Freud apresentadas na sua obra Interpretação dos sonhos são úteis quando se considera a natureza do trabalho mítico. Nos sonhos, o inconsciente condensa eventos aparentemente aleatórios numa epifania concisa e de sentido íntimo. O inconsciente fala por meio de imagens afectivamente carregadas e não através de conteúdos cognitivos. Essas imagens corporificam o significado nas metáforas e nos símbolos.
Às descrições freudianas do trabalho com os sonhos, Jung acrescentou a ideia do inconsciente colectivo, no qual as imagens são comuns não só à vida de cada um, mas também à do universo. Ele também percebeu que os sonhos não eram só desejos indirectamente satisfeitos, mas, muitas vezes, comentários espontâneos do Si-Mesmo a respeito da vida do sonhador. De acordo com Jung, os sonhos podem ser não só teleológicos, promovendo as metas da consciência e da completude, mas também estão em busca de compensações para as unilateralidades das adaptações conscientes. Dessa maneira, são dotados de propósito e capazes de efectuar correcções, desde que, é óbvio, a pessoa possa assimilar conscientemente a mensagem.
Na mesma medida que a psique é atemporal e abarca todas as coisas humanas, devemos reconhecer e admitir que as vidas que construímos são parciais, contidas pelo tempo e fragmentárias. Se pendemos à direita, privilegiando as escolhas conscientes, a psique arrasta-nos para a esquerda a fim de nos centrar. Os sonhos, por conseguinte, confrontam-nos com nossas vidas não-vividas, não com o que somos, mas com o que poderíamos tornar-nos; não com o que fizemos, mas com o que não conseguimos realizar. Quando discernimos a natureza e o motivo do trabalho onírico, podemos, igualmente, perceber o mesmo processo em funcionamento no trabalho mítico. Já se disse que o sonho é a mitologia da pessoa e que o mito é o sonho de uma tribo. Ambos se originam espontaneamente nas profundezas e confirmam as actividades de auto-regulação do psiquismo. Da mesma forma que os sonhos fazem parte do correctivo teleológico exercido pela psique individual, dando continuidade à misteriosa missão da natureza no íntimo de cada um de nós, também os mitos, procedendo das mesmas camadas abissais, contêm o correctivo teleológico da alma.
James Hollis
Rastreando os Deuses. O lugar do mito na vida moderna
Paulus, São Paulo, 1999
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