O Mártir

2007 às 4:28 pm | Na categoria arquétipos, o Mártir, símbolos, sonhos | Deixe o seu comentário

Carol Pearson
The Hero Within
San Francisco, Harper & Row, 1989
Excertos adaptados

O Mártir

O enredo básico do arquétipo do Mártir está patente nos antigos rituais de sacrifício das religiões de fertilidade. Fala-nos do ciclo da natureza, que vai do nascimento na Primavera ao amadurecimento no Verão, da colheita no Outono à desolação e morte no Inverno. Os antigos ritos dionisíacos, por exemplo, incluíam a mutilação do deus e a dispersão das suas partes até que nada dele restasse. Na base de todas as religiões de fertilidade está o conhecimento de que a morte e o sacrifício são pré-requisitos para o renascimento. Esta é uma lei básica dos mundos natural e espiritual.

O sacrifício e o martírio foram alvo, nos últimos tempos, de uma propaganda muito negativa, tanto na sua versão masculina como na sua versão feminina. No entanto, dificilmente achamos que não fazem sentido. Na sua base está o reconhecimento fundamental de que “Não sou a única pessoa no mundo”. Às vezes decidimos fazer algo não tanto porque queremos, mas porque isso será bom para os outros, ou porque acreditamos que esse é o comportamento correcto. É sempre necessária uma certa dose de sacrifício no relacionamento amoroso com as outras pessoas.

O sacrifício apropriado proporciona aos Mártires o conhecimento mais profundo dos seus valores e compromissos com o trabalho e com as outras pessoas, e torna-os mais, e não menos, eles mesmos. Inversamente, o sacrifício impróprio faz-lhes perder o contacto consigo próprios e com a sua capacidade de amor, de intimidade, ou até mesmo de alegria na relação, o que resulta numa tendência para experiências subjectivas, para trocar a sua própria identidade pela dos outros. Isso resulta sempre numa exigência feita aos outros de que correspondam às nossas expectativas.

Por exemplo, os pais que abandonam as suas vidas pelas necessidades dos filhos quase sempre exigem que eles lhe paguem tributo – que a criança dê a sua própria vida para validar ou justificar o sacrifício do pai/mãe, sendo bem sucedida, atenciosa, obediente. Desta forma, os filhos não podem ser eles mesmos. Mas se a doação dos pais foi apropriada, e reflectir aquilo que os pais também precisavam de fazer por si mesmos, estes não necessitam de tributo, embora, obviamente, apreciem o amor e a gratidão dos filhos.

Os nossos primeiros sacrifícios parecem ter sido arrancados de nós como se estivéssemos a abandonar partes fundamentais de nós mesmos. Depois aprendemos que jamais se deve abandonar o que é essencial. As coisas que sacrificamos adequadamente devem ser sempre aquelas que estamos prontos a abandonar. Para a maioria das pessoas, o sacrifício é doloroso porque elas se sentem na obrigação de controlar ou manipular tudo, para que os frutos do sacrifício retornem a elas, sob a forma de benefícios.

A lição final do Mártir consiste em optar por doar a sua própria vida e saber que a própria vida é a recompensa, sem perder de vista que todas as pequenas mortes, todas as perdas nas nossas vidas trazem sempre consigo uma transformação e uma nova vida, e que as mortes reais não são o fim, mas simplesmente uma passagem mais drástica para o desconhecido.

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