A água
2007 às 7:42 pm | Na categoria água, mar, rio, símbolos | Deixe o seu comentárioJean Chevalier; Alain Gheerbrant
Dicionário dos Símbolos
Lisboa, Ed. Teorema, 1994
Excertos adaptados
A água
As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte de vida, meio de purificação, centro de renascimento. Estes três temas encontram-se nas tradições mais antigas e formam as combinações imaginárias mais díspares, ao mesmo tempo que mais coerentes. As águas, massa indiferenciada, representam a infinidade dos possíveis, contêm todo o virtual, o germe dos germes, todas as promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de reabsorção.
Mergulhar nas águas, para delas emergir sem se dissolver totalmente, salvo por uma morte simbólica, é regressar às fontes, reabastecer-se num imenso reservatório de energia e dele beber uma força nova: fase passageira de regressão e de desintegração, que condiciona uma fase progressiva de reintegração e de renascimento.
Origem e veículo de toda a vida, a água é um símbolo universal de fecundidade e de fertilidade. A água é também um instrumento de purificação ritual. A ablução desempenha um papel essencial em todas as culturas. Pela sua virtude, a água apaga todas as faltas e todas as máculas. A água do baptismo, sozinha, lava os pecados, e só é conferida uma vez porque faz aceder a um outro estado: o do homem novo. A rejeição do homem velho, ou seja, a morte de um momento da história, pode comparar-se a um desaparecimento, a uma destruição: uma época é extinta e outra surge. Por isso a água é, ao mesmo tempo, morte e vida.
As grandes águas anunciam grandes calamidades e provações, e as águas calmas simbolizam a paz e a ordem. O oásis do deserto funciona como um local de encontro de povos diferentes, que devem partilhar da riqueza do deserto, sem olhar a distinções de raça ou credo. Da mesma forma, os lugares de culto estabeleciam-se preferencialmente junto de nascentes e os peregrinos procuravam nesses centros a força para poderem trilhar caminhos novos, interiores e exteriores. A água tinha, e tem, um poder sagrado e sacralizante.
Dos símbolos antigos da água como fonte de fecundação da Terra e dos seus habitantes podemos passar para os símbolos analíticos da água como fonte de fecundação da alma: o rio e o mar representam o curso da existência humana e as flutuações dos desejos e dos sentimentos. A água é o símbolo das energias inconscientes, dos poderes informes da alma, das motivações secretas e desconhecidas.
Uma interpretação simbólica da água não pode deixar de reconhecer a clivagem que existe entre águas vivas, generosas e águas adormecidas ou pérfidas. Quando o nosso imaginário quer promover os valores das primeiras, os sonhos falam-nos de nascente, de rio, ou de mar. Quando quer realçar os valores das segundas, trar-nos-á imagens do lamaçal, do pântano, ou do charco.
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