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Símbolos, Sonhos, Arquétipos – resumo

07 Out

A importância dos sonhos

Símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua significados especiais para além do seu significado evidente e convencional. Implica algo de vago, desconhecido ou oculto para nós. É um sinal ou uma imagem, representando um objecto, um ser vivo ou uma situação.

Eis alguns exemplos: um lírio é muitas vezes um símbolo de pureza; uma rosa simbolizará a beleza, a mulher, etc.; a cruz é o símbolo do sofrimento e da ressurreição.

Um símbolo encerra – ou resume, representa – uma ideia ou um conceito muito mais complexo. Determinados símbolos estão fortemente carregado de emoções. Por essa razão é muito mais fácil usar um símbolo em vez de expressar, verbalmente ou por escrito, o seu significado. Acontece-nos muitas vezes sabermos o que um símbolo representa mas não conseguimos expressá-lo por palavras. Dizemos muitas vezes de alguém se vai abaixo emocionalmente, que parece uma flor a murchar, por exemplo.

Por existirem inúmeras coisas fora do alcance da compreensão humana é que utilizamos frequentemente termos simbólicos como representação de conceitos que não podemos definir ou compreender na totalidade. Mas o homem também produz símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de sonhos.

Estas mensagens do inconsciente têm uma importância bem maior do que se pensa. Na nossa vida consciente, estamos expostos a todos os tipos de influência. As pessoas estimulam-nos ou deprimem-nos, ocorrências da nossa vida profissional ou social desviam a nossa atenção. Todas estas influências podem levar-nos para caminhos opostos à nossa individualidade; e quer percebamos quer não o seu efeito, a nossa consciência é perturbada e exposta, quase sem defesas, a estes incidentes. Isto ocorre em especial com pessoas de atitude mental extrovertida, que dão muita importância a objectos exteriores, ou com as que abrigam sentimentos de inferioridade e de dúvida, envolvendo o mais íntimo da sua personalidade.

Quanto mais a consciência foi influenciada por estes preconceitos, erros, fantasias e anseios infantis, mais se dilata a fenda entre o “como vivemos” e o “como a nossa individualidade devia viver”, até se chegar a uma vida mais ou menos artificial, em tudo distanciada dos instintos normais, da natureza e da verdade. A função geral dos sonhos é tentar restabelecer a nossa balança psicológica, produzindo um material onírico (dos sonhos) que reconstitui, de maneira subtil, o equilíbrio psíquico total.

É aquilo a que chamo função complementar (ou compensatória) dos sonhos na nossa constituição psíquica. Explica por que motivo pessoas com ideias pouco realistas, ou que têm um alto conceito de si mesmas, ou ainda que constroem planos grandiosos em desacordo com a sua verdadeira capacidade, sonham que voam ou caem. O sonho compensa as deficiências das suas personalidades e, ao mesmo tempo, previne-as dos perigos dos seus rumos actuais.

É necessário haver alguma coisa eficaz para que mudemos de atitude ou de comportamento. E é isto que a linguagem do sonho faz: o seu simbolismo tem tanta energia psíquica que somos obrigados a prestar-lhe atenção.

Por que motivo os sonhos se desenrolam sob a forma simbólica?

É um facto que um verdadeiro sonho emprega, quase sempre, meios retirados do simbolismo. Uma vez que o sonho é uma expressão da vida psíquica mais profunda, é fácil de compreender que deve utilizar um meio igualmente profundo. O nosso inconsciente constitui a nossa vida mais íntima. Contém todo o nosso atavismo, as hereditariedades, as recordações, os recalcamentos e os complexos… O nosso inconsciente oculta-se nas profundidades mais recônditas do nosso ser. Os símbolos conduzem o nosso espírito para fora do tempo, em direcção a horizontes infinitos de cuja existência a nossa razão nem sequer suspeita.

Um exemplo: pensemos na palavra PÃO.

Que diz a nossa razão? Que o pão é o resultado do trabalho que o padeiro efectua com a farinha. Nada mais.

Mas… o que diz a nossa emoção profunda? Que o pão representa bem mais coisas…

Desde sempre que a palavra pão surge ornada de poesia e de simbolismo. O pão é simultaneamente banal e sagrado; evoca outros símbolos importantes, como a terra, o sulco da charrua, o trigo, a chuva, a fertilização dos campos, etc.

Intervém na oração: “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Fala-se do “pão dos anjos”. Para os cristãos, o corpo de Cristo torna-se numa hóstia de pão; etc. Foi assim que o pão se transformou nesse belo símbolo de riqueza humana, de simplicidade e de fraternidade… Haverá, porventura, acção mais comovente (em profundidade) do que «compartilhar o pão»? E, no entanto, racionalmente, compartilhar do mesmo pão é a mesma coisa que dividir por dois um pau de chocolate.

Se pensarmos em compartilhar um pedaço de chocolate com alguém, tal acto deixa-nos completamente indiferentes, ao passo que a ideia de compartilhar o pão já representa uma emoção de outra ordem. É por esta razão que o pão surge tão frequentemente nos sonhos, simbolizando toda uma riqueza positiva e benéfica, com múltiplos significados.

Ainda um outro exemplo: se vemos com emoção um navio partir, é porque, sem o sabermos, sofremos a acção do seu simbolismo. Racionalmente, é apenas um barco que se afasta, mas, simbolicamente, é a aventura, a separação, a mudança de vida, a procura da felicidade, a viagem rumo a novos horizontes ou a busca de um paraíso perdido…

Se certos sonhos ecoam tão profundamente em nós, é natural que o meio empregue esteja em proporção. Existe nos símbolos uma riqueza emotiva inacreditável. Os grandes símbolos conservam-se intactos através dos milénios e das civilizações. Reviver, em sonhos, um dos grandes símbolos do mundo equivale a mergulhar na nossa mais universal humanidade.

Os sonhos quotidianos

São os sonhos que traduzem a nossa vida pessoal do momento, as nossas preocupações, desejos, impulsos, cóleras, etc.

São interessantes, na medida em que esclarecem uma situação que não se encontra bem definida no estado consciente. Como tocam as cordas inconscientes, alimentam-se de fontes escondidas, que seríamos incapazes de examinar, quando acordados.

Os sonhos utilizam todo o material «esquecido» da nossa vida, conhecem as nossas possibilidades e desejos. Se fazemos, em estado de vigília, observações banais, elas depressa são esquecidas. Mas serão mesmo esquecidas? Não, nada disso. Elas continuam a permanecer nos centros nervosos inconscientes, onde alguns dos nossos sonhos irão descobri-las a fim de nos mostrarem situações a que devemos estar atentos. Os sonhos quotidianos ajudam-nos à nossa própria descoberta. Chamam-nos à atenção. Podem lembrar-nos características nossas às quais não temos dado a devida importância mas que podem prejudicar-nos. Tanto nos mostram as consequências dessa característica, como nos mostram os benefícios de uma mudança. Muitas vezes indicam-nos o percurso que teremos de fazer para nos mudar-nos, as vias que temos de seguir para nos “libertar-nos”.

Os sonhos quotidianos colocam-nos na pista de nós próprios. Muitas vezes, as pessoas julgam-se «alguém», crêem ter uma «forte personalidade», etc., e uma simples análise vem demonstrar que nada disso existe, pois o fundo dessa personalidade é fraco, timorato, recheado de complexos, etc.

Quantos sonhos não têm dado início a novas vidas! Porquê? Porque o sonho perturbou o sonhador e este procurou então descobrir o seu significado. Tendo conseguido decifrá-lo, com a ajuda de um psicólogo especializado, deu-se conta de que «qualquer coisa não estava bem». E abençoou o sonho por tê-lo avisado da necessidade de modificar a sua situação anterior.

É como se a nossa essência, o ‘nós’ que existe no mais fundo de cada um, que guarda o “material esquecido”, que nos conhece verdadeiramente, velasse e zelasse por si mesmo e comunicasse com o nosso lado consciente (que comanda as “manobras”).

Como as mensagens que um sonho envia são complexas e profundas, utiliza símbolos, a forma mais fácil de guardar determinados conceitos.

Na vida normal, a compreensão dos sonhos é até, por vezes, considerada supérflua. De um modo geral, é uma tolice acreditar-se em guias pré-fabricados e sistematizados para a interpretação dos sonhos, como se pudéssemos comprar um livro de consultas para nele encontrarmos a tradução de um determinado símbolo. Nenhum símbolo onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como não existem interpretações definidas e específicas para qualquer sonho.

Os arquétipos

As imagens humanas mais antigas, guardadas no nosso inconsciente colectivo, estão sempre disponíveis para serem utilizadas. Este aspecto do nosso passado aparece nos sonhos e permite-nos estabelecer uma ligação entre o nosso presente e o nosso futuro.

Uma das grandes fontes do sonho são os factos e as imagens do mundo que vivemos e conformam a sua experiência. A outra é o mundo íntimo da nossa alma, o inconsciente colectivo, no qual estão mergulhadas as raízes do nosso eu. É este mundo, simultaneamente pessoal e colectivo, que constitui o outro reservatório ao qual o sonho vai buscar o seu material maravilhoso. Este material toma corpo numa imagem arcaica que apelidamos de arquétipo.

Devemos aceitar estes aspectos do nosso inconsciente, já que a sua forma mutável e o seu conteúdo rico só podem ser apreendidos intuitivamente.

Nestas imagens arcaicas estão contidas todas as experiências feitas pelo psiquismo humano desde as suas origens: o crescimento e o declínio; a felicidade; os perigos; os confrontos com as forças da natureza; os animais e os seres humanos. Todos os marcos (etapas) da vida pelos quais o homem passou desde os primórdios ficaram “gravados” em nós. Desde os primórdios da nossa existência, e independentemente da raça, do sexo, da época, etc, todos passámos e continuaremos a passar pelas mesmas experiências. Nascimentos, mortes, dúvidas existenciais, desesperos, alegrias, calamidades, guerras, medos…

Há muitos exemplos, mas não em número infinito, uma vez que só existe um número limitado de acontecimentos humanos fundamentais. Estes agrupam-se em arquétipos, que são como que a essência de tudo o que existe, de tudo o que se produziu e virá ainda a produzir-se. Dir-se-ia que a repetição incessante destes padrões fez com que as imagens arcaicas se carregassem de uma energia interna, que ajuda a transmiti-las de geração em geração. Se desde os primórdios da existência se faz sempre o mesmo percurso, se esses padrões são repetidos incessantemente e fazem parte da herança do inconsciente das gerações que se seguem, não só ficam “gravadas” as experiências como a melhor forma de ultrapassá-las.

O número de arquétipos é limitado. O eu não dispõe delas como lhe aprouver. São-nos dadas como uma herança ancestral e atamo-nos às suas regras, mesmo sem o sabermos. Tanto o nosso funcionamento corporal como a nossa vida mental estão traçados desde tempos imemoriais e tentar escapar às suas leis só pode ocasionar problemas.

De forma geral, fazemos hoje o que o homem sempre fez em situações de desgosto ou alegria, no trabalho ou nas relações interpessoais e, sobretudo, quando se encontra numa situação que lhe é desconhecida. O fundamento da vida e o comportamento característico do ser humano são e sempre foram idênticos, mesmo quando variam segundo os indivíduos. É isto que nos permite compreender os legados das gerações humanas que nos precederam.

Estes legados ancestrais, arquetípicos, aparecem nos sonhos, quando o sonhador se encontra numa situação que não se prende apenas com questões pessoais. Quando temos de nos confrontar com os nossos assuntos quotidianos, fazemo-lo através do sonho quotidiano. É óbvio que os arquétipos não se pronunciam sobre uma oferta de emprego ou um projecto de férias.

O inconsciente colectivo nada tem a ver com a data do nosso casamento ou com uma mudança de casa. Competirá à consciência lidar com estes assuntos de somenos importância. No entanto, as imagens arcaicas surgirão quando estiverem em causa problemas humanos fundamentais e quando o desenvolvimento da personalidade está em causa.

Surgem quando uma etapa superior deve ser atingida ou quando uma dificuldade acaba de ser ultrapassada com sucesso. Estes acontecimentos internos têm lugar na maior parte dos indivíduos e são acompanhados por essas imagens eternamente jovens.

Todos estes símbolos são originais. Quando chegamos a um lugar perigoso, seja dentro de nós, seja fora de nós, quando a nossa conduta é perturbada por conflitos profundos ou somos assaltados por uma imensa alegria, os sonhos espelham as imagens arcaicas, as rotas seguidas por uma humanidade que sempre encontrou o seu caminho através da escassez e das catástrofes. Comunicamos com o seu saber milenar através de símbolos e não de enunciados racionais e claros.

Aquilo que é universal e originalmente humano em cada indivíduo exprime-se em imagens simbólicas acessíveis ao bom senso.

É corrente em psicologia considerar que a linguagem e o conteúdo dos grandes sonhos são extremamente análogos à linguagem e ao conteúdo dos mitos e lendas. Estes fazem parte da experiência humana formada e transmitida ao longo dos séculos. Era através deles que se transmitia a sabedoria e a experiência. A única diferença reside no facto de o sonho não nos ser tão imediatamente acessível como um mito ou uma lenda. Compreenderemos melhor o que os grandes sonhos querem transmitir-nos se conhecermos a mitologia dos povos, as lendas gregas e germânicas, os contos europeus e asiáticos, ou quando penetramos no mundo mágico dos povos primitivos.

Convém mencionar também a leitura da vida dos santos, pertençam eles ao hemisfério psíquico ocidental ou oriental, bem como das obras dos grandes poetas. Estas representam o destino humano, cuja encarnação individual se faz na figura do herói. A poesia conta o que pode suceder-nos entre a vida e a morte. Daí os dicionários de símbolos serem por vezes exaustivos, explicando o símbolo à luz das mais diversas culturas, na literatura, etc, etc.

Nunca apreciaremos o quanto o mundo dos arquétipos é importante. É um espólio imenso que encerra todas as situações essenciais da nossa existência. Se tentássemos desfazer-nos deste fundo da nossa alma, o nosso eu ficaria reduzido a um conjunto de recordações meramente pessoais. Viveríamos desligados do passado e estaríamos desarmados diante de um futuro hostil.

A voz dos arquétipos é a voz do género humano.

* * *

Na interpretação de um sonho temos, então, os seguintes símbolos:

Símbolos naturais – derivados dos conteúdos inconscientes da psique individual.

Símbolos culturais – símbolos usados para expressar “verdades eternas”. São imagens colectivas aceites pelas sociedades civilizadas.

Símbolos arquetípicos ou Arquétipos – símbolos comuns a todos nós desde os primórdios da humanidade.

Como foi dito acima, o sonho não pode nunca ser separado de quem o sonhou. Só essa pessoa sabe o significado dos símbolos – o que cada símbolo representa para si. Um mesmo símbolo (natural) pode ter significados diferentes para duas pessoas.

Seguem-se os símbolos culturais. É preciso saber, grosso modo, o significado do símbolo. Por exemplo, o pão. Depois, pensar no significado que o pão tem para si. O que é que o significado do símbolo pão pode ter em particular para a pessoa que o sonhou.

Por último, os arquétipos. Insere-se num símbolo arquetípico?

Há determinadas regularidades simbólicas com matizes para cada pessoa.

De forma geral, não se encontra a resposta num livro banal. “Sonhar com X quer dizer Y.” Tem de procurar-se sempre o significado do símbolo ou do arquétipo e reflectir no que isso pode significar para nós. O mesmo sonho sonhado por duas pessoas não tem forçosamente de transmitir a mesma mensagem.

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